9.12.08

De elegias e epifanias não vive um rabecão

Dirigia por uma sinuosa estrada à beira de um penhasco. À esquerda, um denso paredão de rocha o espremia de encontro com o nada. Abaixo do nada, um mar revolto se rebelava contra pedras pontiagudas, quebrando-se em violentas ondas. Não era de se surpreender que estivesse nublado e umidamente gelado.

Avistando um acostamento margeado por um guardrail, parou o veículo. Desceu. Vestia terno, gravata, meias e sapatos pretos. Não fosse a camisa branca e a palidez doentia de seu rosto, dir-se-ia que era a própria encarnação das trevas.

Olhou para o carro, enquanto o contornava pela frente. Algumas manchas de terra no parachoque o chatearam, Acabei de limpar, desgraça, pensou. A Belina preta reformada tinha um ar soturno e solene. Sua compleição angular e comprida consistia numa imponente e volúvel lembrança fálica, embora cérebro nenhum captasse claramente isso. Era irônico que fosse um rabecão.

Ao encostar preguiçosamente na porta do passageiro para admirar o mar revolto, bateu três vezes no vidro de trás. Após algum tempo, ouviu outras três batidas vindas de dentro do automóvel.

O porta-malas está fechado, porra, reclamou uma voz rouca.

Ah, é, esqueci. Vou abrir.

A coisa pálida e fria se prostrou ao seu lado, ainda de olhos semicerrados devido à claridade súbita a que fora submetido, mas aos poucos hipnotizado pelo vaivém do raivoso mar. Vestia um belo terno.

Caramba, faz só dois dias e já estou morrendo de saudades de visões como essa.

Achei justo que um navegador tivesse direito de ver mais uma vez seu meio natural, respondeu o motorista. E, além disso, você não está morrendo de saudades, você está morto de saudades.

Você é o quê? A Morte?, questionou o morto, momentaneamente irritado.

Não, eu só dirijo o rabecão.

Eu não imaginava que eu pudesse falar com alguém depois de morto. Para mim, quando eu morresse, eu simplesmente estaria…morto.

Ah, acontecem coisas realmente incríveis depois que você morre.

Tipo o quê?, ansiava em saber o de cujus.

Sei lá, descubra sozinho - e o motorista julgou ver um brilho inexistente se extinguir nos olhos sem vida do frustrado morto. Ele arriscou perguntar, após minutos em silêncio contemplativo:

É muito ruim…? Você sabe, ser enterrado.

Não sei, quem sabe isso é o coveiro, e não converso com ele desde que descobri seus estranhos hábitos sexuais.

Desse jeito você não me anima!, queixou-se a coisa.

Você não tem anima mesmo, hehe!, ironizou e prosseguiu, dessa vez sério: Vamos embora, não quero atrasar a entrega.

Ótimo, morto delivery, é o que me restou.

Peraí, no banco da frente não, presunto, pode voltar lá para a sua caixa.

Saquei, é uma coisa meio Morto in Box então?

Engraçadinho, vamos logo.

Logo voltaram para a estrada sinuosa, achatados entre rocha, mar, asfalto e pesadas nuvens. O defunto havia deixado o caixão aberto, e não demorou até que sentisse vontade de dialogar.

Vai. Me diz qualquer coisa, preciso saber um detalhe. Vai haver algum julgamento? Uma coisa cristã com São Pedro ou então algo mais pagão, à la Dante? Quem sabe até algo budista, uma balança?

Bem, eu sei de pouca coisa. Você não vai ficar muito tempo ocioso. Lógico que terá de se despedir dessa construção carnal, isso é só um recipiente, mas vai ganhar um novo, relaxa. Oroborus, entende? A cobra comendo o próprio rabo.

Oro o quê? que sacanagem é essa?, exclamou sem compreender.

Esquece. Mas veja pelo lado bom, pelo que sei, ninguém vai dar a mínima para sua religião em vida e pelas besteiras que você cometeu. Suponho que sejam muitas.

Algumas… Sabe, eu sonhava com aquela idéia de perpetuação do seu melhor momento, daquele dia mais fantástico em vida. Um verdadeiro paraíso.

Ah, é? E o que seria? O dia em que um marinheiro gay tatuou um navio na sua bunda?

Vai se foder. Seria como quando velejei pelo Atlântico. Portos da África, Brasil, Mediterrâneo, e o Caribe, ah o Caribe! Sol, estrelas, lua, as tempestades. Cada monstrão.

Sei. Legal. Mas não. Você é enterrado, apodrece, depois, ao que parece, tem uma certa burocracia. Filas, formulários, essas coisas.

Chegaram numa cidade portuária. O cemitério situava-se em área nobre, alta, donde se via toda a parte baixa da cidade, além do vasto mar, agora nem tão revolto. Pequenas ondas alegravam corajosos que ousavam aventurar-se no poluído mar, enquanto que do lado oposto ao da praia, navios de médio porte atracavam nas docas.

Escuta, agora entra aí no caixão, tem que seguir o combinado, ok? nada de se mexer, simular respiração, abrir os olhos, bater na bunda da amante, esse tipo de coisa.

Eu não tenho uma amante.

Azar o seu.

Eu aproveitei a vida ao meu modo, senhor sarcasmo. Pena que ficarei enterrado e não poderei admirar essa bela paisagem que há daqui.

Deita logo aí, te vejo em outra vida, amigo.

Adeus!

Estacionou o carro no local indicado pelos administradores do cemitério. Dali poucas horas dar-se-ia seguimento ao funeral, o qual seria finalizado com toda a pompa do enterro. Haveria padre, esposa triste, pais aos prantos, irmãos saudosos, amigos desfalcados, quiçá filhos perdidos, sem saber como reagir a essa coisa nova e estranha chamada morte. Haveria também meia dúzia que nada sentiria pelo morto, estando ali apenas pela convenção social que os coagira a tal atitude: um negócio a ser fechado, um amor a ser conquistado, um papel a ser cumprido. Demonstrar dor na hora certa facilita inúmeras situações em vida. Durante a morte, a nada aproveita. Não se pode esquecer das pessoas que estariam ali por puro interesse, atrás de comida, bebida ou, o que seria mais estranho, atrás de um funeral. Há vícios para tudo e tudo aos vícios parece convergir.

Tendo realizado com sucesso seu trabalho, o motorista do rabecão decidira ir direto para sua casa, um pequeno apartamento no subúrbio da cidade mais ao interior. Lavaria o rabecão novamente, sob pena de sofrer advertências do chefe metódico. Não permaneceria durante o enterro, por mais que tivesse simpatizado com o navegante morto. Aborreciam-lhe os choros, os prantos, a dor, a perda, os interesses e os vícios. Irritava-lhe a sensação de fim de mundo. Pena que não soubessem de nada, pensava.

Estou de saco cheio dos vivos, sentenciou.

E dirigiu seu rabecão preto pela estrada vazia.

15 comentários:

Amanda disse...

Quem me dera escrever assim! Muito fóda!

karen disse...

haha, ficou ótimo!

Bruna Mitrano disse...

Ironia machadiana aqui no nosso século XXI?! Adorei!
Destruindo clichês acadêmicos: o Oroboro, por exemplo.
Jura que você só tem 20 anos? Não, nenhum pre-conceito. O bacana é que você consegue escrever coisas bastante diferentes umas das outras, todas muito boas.
Abraço!

michelle_ambrozi disse...

Estou de saco cheio dos vivos [2]

Cadinho RoCo disse...

Esta relação com os mortos é sempre muito intrigante.
Cadinho RoCo

Bruna Mitrano disse...

Voltaire?! Com essas influências e esse talento, desculpe a sinceridade, por que fazer Direito?!rs

karen disse...

foi por isso que eu disse pra você que me arrependi um pouco! aquele outro layout era BEM MAIS a minha cara. inclusive, ia colocar aquela mesma imagem de novo, mas redirecionei e ficou torta. :/ vou ver se acho a original depois.

Marina disse...

Putz, muito massa! Adorei o modo como foi escrito, sem pressa, sem se prolongar demais. Mas o melhor são as piadas inesperadas "hábitos sexuais estranhos", "pegar na bunda da amante"... Morri de rir. Adorei o texto de verdade. Muito bom!

Interessante a pergunta da Bruna acima... "Com essas influências e esse talento, por que fazer Direito?" Fico feliz apenas que você não faz "só" direito, mas divide aqui com a gente as suas idéias.

Abraço, V.H.

Bruna Mitrano disse...

Tenho muitos amigos psicólogos; não gosto da forma como eles ficam caçando respostas p'ra tudo. Bom, faço Port./Literaturas e até agora (nono período já) não percebi se isso ajuda ou atrapalha.
Seu desejo é muito justo!rs

A_for_Anetta disse...

Só faltou uma musiquinha com coreografia de esqueletos para montar uma animação a la Tim Burton. (adoro a forma mórbida que ele retrata os vivos!)

Estou de saco cheio da vida.

=***

Bruna Mitrano disse...

A questão talvez desvende mais do que a própria resposta. E não necessariamente a segunda é conseqüência da primeira, a gente sabe.
Sim, adoro a facul, mas quero muito mais do que isso, sabe? O mundinho acadêmico limita um pouco.

Marina disse...

Está anotado. hehe
Vou fazer isso logo. E vou começar a seguir também.

Beijos!

Bruna Mitrano disse...

Consegue? Invejo-te.

Já estou beirando os 24, tá? Quase uma idosa!rs

Jr. disse...

nossa, ótimo.

aproveite a fase mórbida e leia/assista Ensina-me a Viver

MVSS disse...

Demorei, mas apareci para comentar esse seu conto. Comecei a ler e pensei: "Isso tá bom, não vou continuar na tela", tive que imprimir - como faço com tudo que leio. (não se preocupe, depois que li rasguei e joguei fora, afinal não é meu, rs) Enfim, dois pontos: É MUITO BOM! Fina ironia, humor, um que de fantástico... Cara, larga o direito e corre 'prá Letras, já!!! (aliás, esquece isso, não infere muito...) Ainda não tive tempo de vasculhar os seus arquivos, mas o que já li, deu p/ ver que você escreve bem e tem status de publicação, cara! Não pára!!! Deixo até a dica: www.ediotramultifoco.com.br
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