31.12.08

Já vai tarde, 2008

É com prazer que me despeço de você, 2008. Hoje, dia 31 de dezembro, você ainda tem algumas últimas horas de vida para aprontar das suas comigo. Nesse lapso de tempo em que reinou, em quantas enrascadas não tentou me meter, hein?

É hoje, à meia-noite, que nos separamos. Você, que será lembrado por mim como o pior ano da minha vida, será definitivamente enterrado no passado.

Talvez seja injustiça da minha parte julgá-lo assim, mas de que outra maneira o poderia tomá-lo por? É lógico que jogo em suas costas responsabilidades pertinentes a mim. Por serem minhas mesmo, vou sempre identificá-las sob a égide de seu tempo, quando elas tiveram lugar, quando ousaram acontecer.

Não me esquecerei de que, em seu tempo, quase traí a pessoa que mais amo. Não me esquecerei das leituras que me mergulharam em abismos, figura que passou permanentemente a fazer parte de meu imaginário, e da qual pareço nunca mais sair. Nunca esquecerei a aflição que é saber possuir uma outra família e saber que de fato ela não existe, pois nunca teve vontade de se reunir. Não olvidarei todas as tentativas de conseguir alguma dignidade e independência, todas negadas por empregadores que esperam pessoas com uma qualificação adquirida sabe-se lá aonde, sabe-se lá quando. Todas as recusas, todas as desculpas, toda a indiferença. Destas não esquecerei. E que dizer então da maior das perdas: meu porto-seguro. O lugar em que vivia, subitamente desmanchado pelo egoísmo e mesquinharia de algumas poucas pessoas. Tudo isso é, infelizmente, inesquecível, pelo que insisto em marcá-los a ferro com seu número, 2008, para que de minha memória nunca mais escapem, para que erros iguais eu não venha a cometer.

Não desmereço as coisas boas que me trouxe, embora poucas, tendo que reconhecê-las aqui: adquiri experiência. Como gosto de afirmar, da dor e da luta proporcionadas por você a mim, evoluí. Sou uma pessoa melhor, cada vez mais lúcida, mas ainda sei que falta muito para alcançar os patamares que almejo. Meus laços se fortaleceram e se estreitaram. Minhas amizades se resumiram a poucas pessoas, pelo que pude reconhecer melhor quem é confiável e quem não é, visto que já experimentei muito desgosto por aí.

É por isso mesmo que, em meio às desgraças do segundo milésimo e oitavo ano depois do nascimento de Jesus Cristo, faço questão de ressaltar pessoas como a minha namorada Ana, sempre a me apoiar, e amigos como Fabrício, Wilson e Renan, sempre a me compreender, dentre outras pessoas, sempre a me alegrar. De minha mãe, pai e irmãs então, não tenho nem o que falar, são minha sustentação e aquele empurrão necessário. Obrigado a vocês, que são o acerto de 2008 e de muitos outros anos.

Sobrevivi a 2008 e a meus próprios vícios e defeitos, os quais vou vencendo aos poucos, com firmeza. Que de um ano tão cheio de frustrações eu tire a força necessária para encarar um próximo ano, dessa vez mais cheio de esperança, com chances mais palpáveis.

Aguardo você, 2009, e não lhe darei trégua, enquanto não atingir o que busco. Pode vir com tudo, sem medo!

13.12.08

O porquê do nome do blog

Alguns leitores, por vezes, e com razão, param-me e indagam:

“Por que seu blog se chama Zaratustra tem que Morrer?”

A pergunta, feita com a mais sincera curiosidade, embaraça-me, pois às portas de completar seu segundo aniversário (sim, dia 25 de Janeiro!), não há nenhum post no blog a respeito disso.

Não que as tentativas certas já não tenham sido executadas. Pelos mais diversos motivos, contudo, o resultado não chega aos olhos dos leitores: ora falta-me criatividade e oportunidade para escrever sobre o assunto, ora meu dedo leve esbarra na tecla Power do teclado fazendo eu perder todo o conteúdo do texto, ora a Providência simplesmente me toma por teimoso e me manda um raio à cabeça. Não é por motivos assim, entretanto, que deixarei de tentar explicar algo que merece ser explicado. Afinal de contas, o nome do meu blog é sua principal janela.

É preciso salientar, antes de tudo, que em seus meses mais primitivos, o nome do blog era Zaratustra me Contou, num reflexo do mais pueril daquela fase de adolescentes estranhos que idolatram Nietzsche. No caso em questão, brincava com o título do livro de autoria do filósofo já citado, Assim falava Zaratustra¸ livro que fascinava meu desejo de contestação: ótima leitura para aqueles que almejam enxergar o mundo de uma óptica diferente, isenta de amarras éticas e morais, trajadas sob o manto sagrado das virtudes, capazes de engessar uma sociedade em bases sólidas e retrógradas, identificadas ora sob ferro e sangue, ora sob preces e terços.

É em Assim falava Zaratustra que Nietzsche se fantasia de Zaratustra, profeta e filósofo, e se põe a pregar suas observações sobre a vida, a morte, o pensamento, a sociedade e suas perspectivas, exaltando o que julga ser correto e sensato e atacando aquilo que abomina. Fascinei-me, inicialmente, com a visão dura e fria com que Zaratustra encarava as coisas, desprovida de sentimento, desprovida de qualquer coisa, pois uma visão niilista.

Em Setembro de 2007, entretanto, o nome do blog passou a ser Zaratustra tem que Morrer. De onde partira todo esse antagonismo?

Foi durante todo o primeiro semestre de 2007 que eu tive aulas de Ética, com um ótimo professor chamado Bianco. Nessas lições, fui inserido nos estudos da ética e da moral, ou seja, dos limites do ser humano, no que diz respeito aos seus atos potenciais e quanto ao seu próprio conhecimento; além do estudo das lógicas, a maneira como se ordena esse conhecimento. Durante esses ensinamentos, obtive contato com o estudo da lógica dialética, na qual não me alongarei em explicações, que podem ser conferidas aqui, mas que, resumidamente, posso conceber como “a contradição de idéias que leva a outras idéias”. O entendimento disso pode ser feito a partir de um exemplo contrário e prático, disposto bem a sua frente. Esse monitor com que você me lê, leitor, recheado de softwares, hardwares e etc, nada mais é do que o desenvolvimento da lógica racional, matemática, binária, do 0 e 1. Tal lógica envolve a essência da negação, da exclusão. A não pode ser não-A, eles se excluem, 0 não é 1 e vice-versa. Na lógica dialética, contudo, A e não-A não se excluem no todo, eles podem resultar em algo novo.

A aplicação social desse conceito merece a análise do momento pelo qual eu passava então: mudara-me para Londrina, para cursar a faculdade de Direito, separando-me, para isso, de mãe, pai, família, namorada, amigos e lar. Sem referências para me amparar, só pude contar comigo mesmo, com minhas próprias forças. Não havia quem me consolasse, quem fizesse as coisas por mim. Eu estava sozinho.

E foi nesse cenário que compreendi o sentido da “luta”. Não vá se fazer de ignorante, leitor, e imaginar que falo de combates corporais. Não. Falo de luta no sentido de superação, no sentido de ter leões em seu pescoço, cada um representando um enorme problema, e você ter de tirá-los dali, a qualquer custo, caso não queira tombar. Naquela época, apinhavam-se em meu corpo inúmeros leões, de dentes afiados, garras dilacerantes e tão pesados quanto todas as responsabilidades às costas de Atlas.

Voltando um pouco em nossa explanação, tínhamos Zaratustra, o profeta que vivia no topo de uma montanha, pregava a morte de Deus e contentava-se em proclamar a vinda do Super ou Supra Homem (por favor, não pense em Clark Kent), um ser perfeito que seria a evolução do ser humano como o conhecemos hoje, aquele que transita na rua ao seu lado todo dia.

Passei a negar essa visão de Nietzsche e a não concordar mais com ela. Percebi que a filosofia do alemão baseava-se em uma lógica matemática, racional, mecanicista, em que duas contradições não poderiam sobreviver no mesmo espaço. O Super Homem de Nietzsche significava a exclusão do homem normal, defeituoso.

Passei a conceber a fraqueza como ponto primordial do homem. Sim, a fraqueza. Sem a fraqueza, o homem não teria consciência de seus defeitos, de seus vícios, de suas desvantagens, e jamais poderia evoluir, à base de sangue, suor e luta. É com a vergonha que o homem possui de sua fraqueza que ele pode decidir-se a evoluir e a lutar, dando lugar a um ser superior, sim, porém advindo de uma lógica dialética, da contradição, da superação. Não é simplesmente um conceito excepcional de um ser superior que nega seu passado e toma o homem que fora com desprezo e negação.

O óculos quebrado na imagem do topo da página nada mais é do que isso: a superação. A quebra da fraqueza.

Envolto em problemas e cansado, pude negar Nietzsche e sua visão niilista e estóica. Pude me afirmar em mim mesmo, e acreditar na fraqueza, na luta e na superação. Não há o forte sem o fraco. Pude acreditar na lógica dialética e vencer meus próprios leões, acreditando na minha própria força.

Não é na profecia da vinda de um ser superior que o ser humano precisa acreditar. Tampouco na existência de um Deus que nos substitua na persecução de nossos desejos. O ser humano precisa acreditar em si mesmo e em suas capacidades e potencialidades. E então poderá fazer milagres. Precisa acreditar no poder de seu sangue, suor e lágrimas.

E, acreditando que a figura de Zaratustra representava toda uma destruição e uma descrença e a impossibilidade de existir um mundo onde as pessoas tivessem a ambição de melhorar em alma e garra, que proclamei à blogosfera e a todos que tivessem olhos para me ler e ouvidos para me escutar, não sem alguma tristeza e compaixão antes: ZARATUSTRA TEM QUE MORRER!

E esse tem sido o objetivo do blog desde então.

9.12.08

De elegias e epifanias não vive um rabecão

Dirigia por uma sinuosa estrada à beira de um penhasco. À esquerda, um denso paredão de rocha o espremia de encontro com o nada. Abaixo do nada, um mar revolto se rebelava contra pedras pontiagudas, quebrando-se em violentas ondas. Não era de se surpreender que estivesse nublado e umidamente gelado.

Avistando um acostamento margeado por um guardrail, parou o veículo. Desceu. Vestia terno, gravata, meias e sapatos pretos. Não fosse a camisa branca e a palidez doentia de seu rosto, dir-se-ia que era a própria encarnação das trevas.

Olhou para o carro, enquanto o contornava pela frente. Algumas manchas de terra no parachoque o chatearam, Acabei de limpar, desgraça, pensou. A Belina preta reformada tinha um ar soturno e solene. Sua compleição angular e comprida consistia numa imponente e volúvel lembrança fálica, embora cérebro nenhum captasse claramente isso. Era irônico que fosse um rabecão.

Ao encostar preguiçosamente na porta do passageiro para admirar o mar revolto, bateu três vezes no vidro de trás. Após algum tempo, ouviu outras três batidas vindas de dentro do automóvel.

O porta-malas está fechado, porra, reclamou uma voz rouca.

Ah, é, esqueci. Vou abrir.

A coisa pálida e fria se prostrou ao seu lado, ainda de olhos semicerrados devido à claridade súbita a que fora submetido, mas aos poucos hipnotizado pelo vaivém do raivoso mar. Vestia um belo terno.

Caramba, faz só dois dias e já estou morrendo de saudades de visões como essa.

Achei justo que um navegador tivesse direito de ver mais uma vez seu meio natural, respondeu o motorista. E, além disso, você não está morrendo de saudades, você está morto de saudades.

Você é o quê? A Morte?, questionou o morto, momentaneamente irritado.

Não, eu só dirijo o rabecão.

Eu não imaginava que eu pudesse falar com alguém depois de morto. Para mim, quando eu morresse, eu simplesmente estaria…morto.

Ah, acontecem coisas realmente incríveis depois que você morre.

Tipo o quê?, ansiava em saber o de cujus.

Sei lá, descubra sozinho - e o motorista julgou ver um brilho inexistente se extinguir nos olhos sem vida do frustrado morto. Ele arriscou perguntar, após minutos em silêncio contemplativo:

É muito ruim…? Você sabe, ser enterrado.

Não sei, quem sabe isso é o coveiro, e não converso com ele desde que descobri seus estranhos hábitos sexuais.

Desse jeito você não me anima!, queixou-se a coisa.

Você não tem anima mesmo, hehe!, ironizou e prosseguiu, dessa vez sério: Vamos embora, não quero atrasar a entrega.

Ótimo, morto delivery, é o que me restou.

Peraí, no banco da frente não, presunto, pode voltar lá para a sua caixa.

Saquei, é uma coisa meio Morto in Box então?

Engraçadinho, vamos logo.

Logo voltaram para a estrada sinuosa, achatados entre rocha, mar, asfalto e pesadas nuvens. O defunto havia deixado o caixão aberto, e não demorou até que sentisse vontade de dialogar.

Vai. Me diz qualquer coisa, preciso saber um detalhe. Vai haver algum julgamento? Uma coisa cristã com São Pedro ou então algo mais pagão, à la Dante? Quem sabe até algo budista, uma balança?

Bem, eu sei de pouca coisa. Você não vai ficar muito tempo ocioso. Lógico que terá de se despedir dessa construção carnal, isso é só um recipiente, mas vai ganhar um novo, relaxa. Oroborus, entende? A cobra comendo o próprio rabo.

Oro o quê? que sacanagem é essa?, exclamou sem compreender.

Esquece. Mas veja pelo lado bom, pelo que sei, ninguém vai dar a mínima para sua religião em vida e pelas besteiras que você cometeu. Suponho que sejam muitas.

Algumas… Sabe, eu sonhava com aquela idéia de perpetuação do seu melhor momento, daquele dia mais fantástico em vida. Um verdadeiro paraíso.

Ah, é? E o que seria? O dia em que um marinheiro gay tatuou um navio na sua bunda?

Vai se foder. Seria como quando velejei pelo Atlântico. Portos da África, Brasil, Mediterrâneo, e o Caribe, ah o Caribe! Sol, estrelas, lua, as tempestades. Cada monstrão.

Sei. Legal. Mas não. Você é enterrado, apodrece, depois, ao que parece, tem uma certa burocracia. Filas, formulários, essas coisas.

Chegaram numa cidade portuária. O cemitério situava-se em área nobre, alta, donde se via toda a parte baixa da cidade, além do vasto mar, agora nem tão revolto. Pequenas ondas alegravam corajosos que ousavam aventurar-se no poluído mar, enquanto que do lado oposto ao da praia, navios de médio porte atracavam nas docas.

Escuta, agora entra aí no caixão, tem que seguir o combinado, ok? nada de se mexer, simular respiração, abrir os olhos, bater na bunda da amante, esse tipo de coisa.

Eu não tenho uma amante.

Azar o seu.

Eu aproveitei a vida ao meu modo, senhor sarcasmo. Pena que ficarei enterrado e não poderei admirar essa bela paisagem que há daqui.

Deita logo aí, te vejo em outra vida, amigo.

Adeus!

Estacionou o carro no local indicado pelos administradores do cemitério. Dali poucas horas dar-se-ia seguimento ao funeral, o qual seria finalizado com toda a pompa do enterro. Haveria padre, esposa triste, pais aos prantos, irmãos saudosos, amigos desfalcados, quiçá filhos perdidos, sem saber como reagir a essa coisa nova e estranha chamada morte. Haveria também meia dúzia que nada sentiria pelo morto, estando ali apenas pela convenção social que os coagira a tal atitude: um negócio a ser fechado, um amor a ser conquistado, um papel a ser cumprido. Demonstrar dor na hora certa facilita inúmeras situações em vida. Durante a morte, a nada aproveita. Não se pode esquecer das pessoas que estariam ali por puro interesse, atrás de comida, bebida ou, o que seria mais estranho, atrás de um funeral. Há vícios para tudo e tudo aos vícios parece convergir.

Tendo realizado com sucesso seu trabalho, o motorista do rabecão decidira ir direto para sua casa, um pequeno apartamento no subúrbio da cidade mais ao interior. Lavaria o rabecão novamente, sob pena de sofrer advertências do chefe metódico. Não permaneceria durante o enterro, por mais que tivesse simpatizado com o navegante morto. Aborreciam-lhe os choros, os prantos, a dor, a perda, os interesses e os vícios. Irritava-lhe a sensação de fim de mundo. Pena que não soubessem de nada, pensava.

Estou de saco cheio dos vivos, sentenciou.

E dirigiu seu rabecão preto pela estrada vazia.

6.12.08

Uma geral sobre filmes e vida pessoal

Quase já me arrependo de ter feito o Top 5 Filmes que marcaram 2008 tão antes do fim do ano. O horizonte parecia não trazer nada inovador, mas eis que me aparecem Quantum of Solace e Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto (que, apesar de lançado em 2007, só estreiou no Brasil em 2008). Não sendo suficiente, ainda ouço ótimas críticas de Queime Depois de Ler, Vicky Cristina Barcelona e Gomorra. É por isso que eu digo: top 5 são efêmeros.

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Guardadas as devidas proporções, é interessante aproximar as temáticas de O Sonho de Cassandra e Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto. Ambas tratam da concepção do remorso, da culpa e do castigo resultantes da prática de um crime. Tudo envolvido num drama denso, com aquele ar que se diferencia dos temas estáticos que permeiam os dramas atuais (como filmes de mulheres de meia idade infelizes) e, além de tudo, trazem um interessante debate ético sobre a relação homem-dinheiro/poder. Obviamente, os diretores dos dois filmes (Woody Allen no primeiro e Sidney Lumet no segundo) beberam grande parte de sua fonte na, infelizmente, manjada obra-prima de Dostoiévski, Crime e Castigo. Longe de mim falar mal desse livro, o qual recomendo de pronto, assim como os filmes.

dostoievskiTendo sua obra como modelo para inúmeros artistas, Dostoiévski entrou para o hall da fama, junto de Metallica, Madonna e Lula.

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Gomorra é um filme italiano que retrata a máfia napolitana, Camorra, e foi inspirado no livro homônimo do jornalista Roberto Saviano (um sujeito que, por expressar a realidade, agora perdeu sua liberdade…não liguem para a rima). Ao que parece, tanto o filme, quanto o livro e a própria realidade disputam pau a pau com a visão brasileira de cinema de “quanto mais cru, violento e hiperbolicamente real, melhor”. Não é por sadismo, mas mal posso esperar para assistir.

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Prova de que a TV emburrece: desde que a NET liberou o pacote “Estilo” para minha TV a cabo, minhas leituras declinaram consideravelmente. Não é por menos. Quem é que quer saber de Graciliano Ramos, Rubem Fonseca e José Saramago quando se tem Family Guy, Lost, Dexter, Damages, Discovery Channel, entre outros, para me tirar a concentração?

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id4abreEstou procurando desesperadamente um estágio. Se alguém souber de um escritório de advocacia ou um órgão público atrás de um jovem promissor e bem apessoado, avise.

 

Futuro de V.H.

4.12.08

Um lugar para viver

- Você sabia que Londrina é a sexta cidade do país com o maior número de prédios?, perguntam, orgulhosos, alguns incautos.

O truque surpreende os desavisados. De fato, a cidade constava num determinado ranking como possuidora de tal status, mas apenas porque um dedicado cidadão havia cadastrado todos os edifícios da cidade.

De qualquer maneira, não seria surpreendente se a segunda maior cidade do Paraná gozasse de semelhante privilégio. Londrina tem muitos, muitos prédios mesmo. É uma cidade média de, aproximadamente, 500.000 habitantes, que teve, durante toda a década de 80 e 90, um fantástico processo de verticalização. Duvida?

 londrina anos 50 Londrina, anos 50

 londrina anos 90 Londrina, começo dos anos 90

Isso é só uma parcial do centro, onde eu moro (lembrando que a cidade só tem 74 anos). Multiplique isso por algum número mais ou menos grande que você esteja pensando e corrija com acréscimo para a nossa década e, tcharam, terá Londrina e seu universo de prédios.

É nesse cenário à la Metrópolis que eu tenho de procurar um lugar para viver, já que Deus e o mundo, como alguns sabem, tenho de me mudar até o dia 15/12.

E eu gostaria de partilhar um dado interessante: mesmo com essa cacetada de prédios, acreditam que eu não achei nenhum lugar ainda que valha a pena? Pois é. Não, não sou otário, não.

O mais intrigante é que eu já devo ter visto uns 25.000 45 prédios e cada um tem seu jeitinho intrigante de ser.

Aqui no centro a maioria dos prédios se divide em dois aspectos: tem os prédios aposentados que jogam dominó na praça e os prédios estudantes. Os primeiros são bem antigos e os segundos também. Na verdade, eles se confundem. Porém é fácil perceber um prédio aposentado, pois ele o olha com aquela cara arrogante, sem tolerância alguma. Prédios aposentados geralmente gostam de síndicos chatos e igualmente velhos e não suportam estudantes ateus, agnósticos, promíscuos, pagães, de famílias separadas, não-cristãs e com fiadores distantes, embora nunca saibam diferenciar ninguém: para os prédios aposentados, é tudo farinha do mesmo saco.

Já os prédios estudantes são mais desleixados. Geralmente seu elevador não funciona, por falta de pagamento do condomínio. Porteiro então, nem pensar. Suas paredes são meio sujas e não é incomum ver em suas portas inúmeras adereços coloridinhos e bizarros que acusam peremptoriamente que ali vive um estudante. Barulho é normal. EU DISSE NORMAL, NÃO ESCUTOU?

Mais ao sul, na riquíssima (madames adoram superlativos: magérrima, chiquérrima, mas aposto que não sabem que o superlativo de sério é seriíssimo) Gleba Palhano, temos os pomposos prédios de elite. Esses prédios praticamente brilham de tão novos e bonitos que são. Em seu interior, é bem capaz que o ouro e o diamante brilhem com ainda mais intensidade, embora o interior de seus donos não revele nada mais do que uma podridão opaca e ambiciosa. Não preciso nem dizer que a presença de estudantes não é tolerada nesses estabelecimentos. Velhos são permitidos, desde que possuam um iate. Ou dois.

 gleba palhano A Gleba Palhano. Note a condição precária de vida do local.

Por fim, temos os prédios normais. Eles se dispõem de maneira regular e espalhada pela cidade e, de tão normais que são, servem à classe média. São certinhos e bonitinhos e geralmente foram vendidos com a rubrica do “sonho da casa própria” como não poderia deixar de ser. Estando em um deles, é comum que as pessoas não incomodem mais ninguém, ainda mais o governo, ou a elite.

É capaz que alguém comente: “mas e os prédios dos pobres?”. Bem, desde quando pobre mora em prédio? Londrina é uma ótima cidade, mas não é diferente do resto do Brasil. Pobre mora em casa, de preferência com puxadinho no quintal e um pintcher barulhento no jardim.

E nesse caos edificado, estou eu, à procura de um imóvel, sem muitas pretensões, algo que tenha a vida de um prédio estudante, a pontualidade nas obrigações de um prédio aposentado, a beleza, ainda que singela, de um prédio de elite, e a simplicidade e calma de um prédio normal. Mal imaginava eu que fosse tão difícil encontrar.

O dia 15 se aproxima e espero que vocês torçam por mim!

Caso contrário, o blog será escrito no olho da rua.

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Eu não sei a quem creditar as fotos, mas as achei no fórum de discussão Skyscraper City, na seção regional do Sul.

1.12.08

Os jovens não lêem obituários

Acendeu o cigarro com alguma dificuldade: ainda que estivesse sob o guarda-chuva sobriamente preto, o vento e a umidade do ar pareciam lhe oferecer todos os obstáculos do mundo para não acender aquele cigarro. Talvez até fossem agentes à serviço de sua insistente mãe, que rezava para ele encerrar aquele odioso vício o quanto antes.

Entretanto, devido à gravidade da situação, logo forçou-se a parar de gracejos. Bem em frente, abaixada, estava Valentina, em seu hermético traje de luto, sussurando qualquer prece ou despedida para o túmulo de seu avô. Valentina vertia lágrimas para um sólido pedaço de mármore.

Olhou-a longamente, cigarro na boca, reprimindo-se por ficar pensando em bobagens durante um momento delicado em que Valentina sofria.

Súbito, ela se levantou, mãos presas ao regaço e cabeça baixa. De pronto se aninhou no corpo dele. Sem pronunciar som algum, ficou por ali um tempo que pareceu infinitamente superior ao que de fato se registrou. Não oferecendo resistência, ele a deixou ficar presa a si, molhando seu sobretudo com quentes e pesadas lágrimas, aquecendo-lhe as mãos geladas. Fez o que podia fazer: jogou a bituca no chão e pisou-a.

Quando Valentina cansou de chorar, virou o rosto para cima e encarou-o com alguma indulgência. Ensaiou um sorriso medíocre e balbuciou:

- Obrigada pelo artigo, muito digno, obrigada mesmo.

- Ele merecia - respondeu o obituarista. Foi um grande homem.

···

De madrugada, sozinho em sua cama, ainda em trajes sociais, leu, à luz de abajur antigo:

Ulisses Carvalho, 85 anos, nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, e deixou a terra natal há exatos 38 anos atrás. Foi comerciante em terras mineiras e, ao se mudar para …, tornou-se tabelião…

Não prosseguiu na leitura. Não conseguiria, uma vez que jamais relia seus obituários. Sentia uma espécie de ansiedade, que às vezes tomava por nojo. Ao ler as primeiras palavras, subia-lhe à testa um frio e pegajoso suor, os pés batiam depressa, as mãos tremiam, tiritava. Nunca chegava ao final. Escrevia com sua experiência, dignava-se do seu trabalho e de sua capacidade, porém, o texto em si só lhe seria cravado na memória no momento da redação. As correções ficavam a cargo do editor ou de qualquer outro funcionário à disposição no momento. Ninguém, contudo, tinha conhecimento dessa estranha aversão, posto que a disfarçava com sobriedade e brilhantismo, evitando correções futuras.

···

Entrou na casa de Valentina Carvalho sem apertar a campainha. A porta estava aberta e julgava gozar de intimidade o suficiente para tal iniciativa, embora houvesse se detido por exatos dois segundos antes de girar a maçaneta. Não gostava do cheiro daquela casa. Aliás, não gostava de nada naquela casa decrépita e crepuscular.

Valentina passava roupa agitadamente na cozinha. Vestia apenas uma calcinha e sutiã, o que não chegou a criar embaraços. Seu corpo não se ressaltava por curvas volumosas e sua palidez assustava os incautos. Na porta que dava para o quintal, sentada numa cadeira de rodas, estava a vó da garota, olhando fixamente o nada, como uma estátua talhada toscamente. Ele sabia que, toda vez que Valentina olhava para a velha, sentia tristeza. Talvez por suas convalescências, talvez por outras responsabilidades.

- Vamos – convidou-a.

- Não seja bobo, você sabe que não posso sair agora – e fixou seu olhar para a porta do quintal.

- Ela não vai a lugar algum, replicou rudemente.

- Não posso deixá-la…

- Você sabia que em 2020 as pessoas com mais de 60 anos serão 13% da população? E que em 2050 haverá 127,7 idosos para cada 100 crianças entre 0 e 14 anos?

- Não, não sabia e não me importo. Você e seus números…

- Vivemos numa bomba relógio caduca.

- Eu tenho que cuidar dela, vai querer ficar aqui comigo?

- Não.

···

Sentados num banco de praça, observavam placidamente pombos em suas pendulares brigas por comida. Gostava da companhia de seu amigo Torres, sujeito quieto e sabido.

- Ela vive num cemitério, Torres!, exaltava-se o obituarista.

- Veja pelo lado bom: você economiza com moradia ao morrer.

- Não fode. É um pepino muito grande para ela cuidar da vó. Não entendo como pode acontecer tanta desgraça com uma pessoa: perder os pais pequena, perder o avô que cuidava dela e da esposa, ter que se virar e cuidar de si mesma sem noção de nada. Ela não tem ninguém. Só a avó, um peso morto. A velha não se move, não fala, é um vegetal.

- Ela não pode abandoná-la, não seja idiota, isso mostra o quanto ela é fiel.

- Mas a preço de quê! Ela não tem mais vida, trabalha mal, não se diverte. O emprego dela está na corda bamba. Nem transar mais ela tem dado conta..

- É isso que o preocupa, não transar?

- Pff.

Acendeu um cigarro. Lembrou da mãe. Após um tempo, prosseguiu:

- A velha tolhe a juventude da neta. Eu apenas queria que ela vivesse sua vida, não acho justo que ela perca bons momentos apenas para ficar presa a uma mulher que não vive mais. Que a suga.

- Talvez ela esteja aprendendo a viver dessa maneira. A vó não é um peso morto, é um sinal de vida. Ali nas rugas e nas varizes da senhora estão todas as pistas do que é a vida: vivências, avisos, alertas, experiências, sensações, sentimentos. Tudo. Os idosos vêem seus companheiros morrerem, eles sim perdem tudo, nós não perdemos nada, não vi você morrer e é bem provável que meus pais disputem a maratona esse ano. Até meu cachorro da infância ainda está vivo. Valentina já perdeu muitas pessoas, talvez ela sinta uma ligação com a vó, mais do que já há.

- Você é mesmo um filósofo de merda, Torres…, sentenciou pensativo, sob risos.

···

- Eu adoro esse lugar, mas… por que você me chamou aqui? – perguntou Valentina, envolta em dúvidas.

Estavam num parque: acompanhavam-nos uma relva verde, árvores encurvadas, borboletas em perseguições umas às outras e uma bola chutada por crianças. Uma brisa levemente gélida os acolhia. Distanciada dos dois, na cadeira de rodas, estava a avó da garota, a manter seu olhar pétreo em direção do casal.

- Valentina, eu amo você.

A moça pareceu alegrar-se um átimo. Ele não aguardou muito para ir adiante:

- Mas tenho visto você se afundar num poço, do qual talvez não consiga sair por conta própria no futuro. Você não pode se enterrar junto com seus avós.

- Vai começar com isso de novo…?

- Sim, vou. Eu amo você.

- Você já disse isso.

- Digo quantas vezes for preciso.

- Você precisa me entender.

- E você precisa viver.

Ficaram três minutos em silêncio.

- Valentina, descobri um lugar ótimo, fica num bom bairro, eles contam com uma equipe bem treinada, disposta a cuidar de sua avó, eu posso te ajudar a pagar.

- Você quer colocá-la num asilo?!

- É uma casa de repouso.

- Não me venha com eufemismos! Típico seu.

- É um ótimo lugar, eu visitei.

- Por que você odeia os velhos?

- Não odeio os velhos, só estou cansado de trabalhar com eles…

- Eu não sei o que fazer…

- Nem eu…

Apertaram as mãos, convictos de que a indecisão era, por ora, a melhor solução. Em sua sinuosa trilha em busca de paz e de estabilidade, deparavam-se com uma velha senhora, doente, que, por exigir atencioso cuidado, tomava o tempo produtivo da neta, Valentina Carvalho. Valentina sentia que arrebentaria sob tanta pressão e responsabilidade: não estava preparada para uma tarefa de tal magnitude, seu avô costumava manter tudo em ordem. Não ousava enfrentar a fidelidade familiar e abandonar a avó, tinha dúvidas do que o avô pensaria de tudo isso; porém, desejava viver, ir além. Seu companheiro, um obituarista, desejava o mesmo, sob arroubos egoístas, um ar cínico e algum senso de justiça e afeto.

De olhos fixos, sem esboçar reação e vida, a vó os vislumbrava, saudosa de tempos agora transformados em mármore: sentia inveja, pena, tristeza e remorso, tudo ao mesmo tempo, tudo contido dentro de um corpo inerte. Queria morrer.