7.11.08

Tudo aquilo que ignoramos

Quão atentos são seus olhos? Quão perspicaz é seu cérebro? O que capta sua audição? Seu corpo trabalha para que você consiga sentir inúmeros estímulos durante seu dia, mas você presta mesmo atenção em tudo que está ao seu redor?

Quantas vezes no seu dia você pára para olhar o entorno e notar o que o cerca? Em suas apressadas andanças pela cidade, quantos detalhes você consegue apreender?

Quando cansei de correr, pude parar para respirar e perceber a vastidão da vida, seus enraizamentos, suas multidões, as milhares de probabilidades resultantes de cada pequeno gesto que dela advém.

O pobre peruano que, de olhar triste na praça, emprega todas as suas esperanças na possibilidade de que consiga vender algum CD com suas tradicionais e ruins músicas tocadas na flauta-de-pã; o idoso que, sentado ao banco, observa a agitação do vai-e-vem e se perde em memórias inúteis, relembrando algo que já está gasto; a pomba sem uma das patas vermelhas e sujas continua sua laboriosa luta para conseguir comida, num pendular e cansativo movimento de cabeça; a senhora de bengala, numa inimaginável conversão de valores, acaba por ter de ceder o lugar ao retardado no ônibus, enquanto jovens saudáveis permanecem devidamente sentados e acomodados em seus bancos e prepotências; o cheiro doce de chocolate e mel que a loira do 18 exala impregna o elevador durante horas, e seus encantos vão sempre parar, assim que desce do elevador e sai do prédio, num bonito e caro Audi, onde ela adentra com seus volumosos peitos em decote, sabe-se lá para fazer o quê. Esses são exemplos que comprovam que em cada canto há um acontecimento que seus olhos deixaram de registrar, talvez por cansaço, talvez por desatenção, talvez por ignorância.

Não tenho lá grandes dons e conhecimentos acumulados em vida. Tenho, porém, a paciente capacidade de observar e, com isso, entender pouco a pouco esse quebra-cabeça complexo de peças faltando que é o mundo, que é a vida.

Se quer um conselho, pare por um momento e observe à sua volta. Observar é aprender e aprender é evoluir, é saber como lidar com o mundo. Uma pessoa que se fecha em si nada observa. Conseqüentemente, a visão dela é limitada, sinuosa, estreita e ela se aprisiona em egocentrismo e incompreensão, incapaz de entender qualquer coisa que não seja as aspirações de seu próprio umbigo…

- Estação central, anunciou a melíflua voz.

Interrompeu de pronto sua leitura, aproveitando para dar uma última e ensaiada ajeitada em seu paletó enquanto desembarcava do trem sem esbarrar os olhos em nada nem ninguém. A caminhada até o prédio da reunião importantíssima levaria alnda bons minutos e queria ter com o que se distrair até lá, razão pela qual aumentou com esmero o volume de seu player. Estava agora irremediavelmente confortável, em seu particular momento musical, com Every little thing, Beatles.

4 comentários:

G. disse...

Vagando no espaço, ao som dos Beatles. Menos mal...
Pra quem sabe ver, às vezes, o silêncio também é bem sonoro

Lucas disse...

"Se pode olhar, vê. Se pode ver, repara." ; )
sobre o rio, é.é.. uma pena. Talvez precisamos de + ações. -convenções. []´s.

A_for_Anetta disse...

A loira não cheira chocolate e mel, cheira perfume barato mesmo =x

Adoro os dias em que andamos por ai observando a vida das outras pessoas. Ás vezes até parece q estou em outro mundo, às vezes estou mesmo.

Ótimo texto, pra variar... =****

Marina disse...

Beatles... É só o que eu ouço, nos últimos dias. Não enjoa. Preciso tirar um dia para ver a vida passar. Só não sei se vou sobreviver até lá.

Agora eu duvido que um homem deixasse passar sem notar a tal loira do cheiro de mel e chocolate.

Abraço, ET V.H.!