12.11.08

Tremores fiscalizados

Eu estava convicto de que escreveria hoje um texto sobre minha recente experiência de ser fiscal de um processo seletivo quando me deparei com a seguinte manchete:

Professores chamam PM para conter briga de alunos em SP

Segundo estudantes, confusão começou com discussão entre 2 meninas.
Jovens começaram a depredar colégio, destruindo carteiras e janelas.

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A intromissão da reportagem caiu-me como uma bomba, pois entra em conflito com tudo o que vivenciei no último domingo, durante as 8 horas em que permaneci no local de prova. O que me força a chocar as duas matérias.

82_jan03_-_child_crying Vestibulando usual antes de fazer a prova, também conhecido como protocalouro

Domingo, 11:05. O terminal urbano já demonstrava sinais de lotação. Linhas de ônibus haviam sido modificadas com o intuito de melhor comportar a demanda que se instalaria naquele dia na cidade. Nesse domingo ocorreria o Vestibular 2009 da UEL, a universidade em que estudo. Quase vinte e quatro mil pessoas concorrendo a uma vaga na instituição.

Dias antes havia me inscrito para ser fiscal do processo, em que logrei sucesso. A apreensão tomou conta de mim, afinal, é alguma responsabilidade cuidar de tantos alunos numa classe e apresentar a lisura necessária no transcorrer do vestibular. No sábado anterior, haviam sido dadas várias instruções, às quais procurei me ater com cuidado, ouvindo atenciosamente as notas da trintona que coordenava minha turma. Para o dia seguinte, o domingo, deveríamos chegar até meio-dia, quando conheceríamos a pessoa que formaria uma dupla conosco e receberíamos os materiais necessários para a aplicação da prova.

Sem almoço e tão aflito quanto como se fosse eu a fazer o vestibular, fui até o terminal e de lá peguei um ônibus para a UEL, posto em que eu seria fiscal. No caminho, pude constatar mais uma vez que eu devo ter cara de guichê de informação, uma vez que todo mundo que me encara vem pedir alguma informação.

P., uma menina que faz Medicina, acabou sendo escolhida para ser fiscal juntamente comigo. Mineira e divertida, acabou me descontraindo, e assim pude ficar mais tranquilo. O problema era que ambos éramos novatos na aplicação de prova, o que não chegou a ser empecilho, pois fizemos um bom trabalho.

Arrumamos carteiras, passamos informações no quadro negro e deixamos tudo burocraticamente em ordem. Logo os alunos começaram a chegar e fomos conferindo os cartões de identificação e os RGs. Gente de Santos, São Bernardo do Campo, São Paulo, São José do Rio Preto, Cascavel, cidadezinhas do Paraná, cidadezinhas do Brasil inteiro. Londrina é uma salada multiétnica e multicultural e até agora eu só não vi gente do Acre aqui – o que é escusável, uma vez que o Acre não existe mesmo.

14:00. Portões fechados, ordens de começar a prova. Passadas as instruções, distribuí os cadernos de prova e as folhas de resposta. As instruções taxativas, atraíam cada olhar inseguro dos vestibulandos e logo pude perceber o temor deles em relação aos fiscais, em relação a mim. Minha simples aproximação causava tremores nos mais inseguros e isso me divertia, não por sadismo, mas por imaginar que, se eles soubessem que sou um cara simples, que estuda ali e que só é fiscal para descolar uma graninha, não ficariam tão aflitos e nervosos. Eu mesmo, que um dia já estive sentado no lugar deles, me sentiria muito mais calmo e tranquilo se soubesse disso.

Agora eu estava do lado oposto e eles nem sonhavam que eu era um rapaz normal, ainda que estivesse usando calça jeans e all star. Encurvados sobre as carteiras para a feitura da prova, pareciam antílopes comendo pasto no seringuete. E ao menor rugido do leão-fiscal, viravam a cabeça para cima, ao mesmo tempo, como fazem os quadrúpedes quando houvem um ruído suspeito se espreitando para caçá-los.

Esse temor todo, no entanto, me causava alguma comoção. Estavam ali alguns pobres coitados, estudantes de ensino médio ou de cursinho que botaram na cabeça que uma vaga na universidade é realmente uma peça fundamental para o sucesso profissional, um passo importante para o futuro, um elemento essencial na construção do ser. Nessa ingenuidade típica de idealistas, mal sabem eles que o papel da universidade é relativo, que uma vaga garantida não traz evolução intelectual, não resolve seus problemas, pelo contrário, aumenta os horizontes das preocupações. É lógico que não posso tripudiar da minha conquista, porém, como muitos outros, ao chegar onde estou, pensei, com certa decepção: “é isso?”.

Se soubessem que toda a diversão do mundo não está na faculdade, que não há tanto sexo e álcool quanto os filmes americanos os fazem acreditar, que a corrida por um estágio é tão cruel que desampara a todos, que a dificuldade financeira é uma realidade presente, que o nível das aulas muitas vezes deixam a desejar até mesmo para o ensino médio, que a falta de engajamento afeta a muitos e que, definitivamente, o mundo não pode ser mudado radicalmente a partir dali. Ah, se eles soubessem…

Entretanto, essa ingenuidade me anima, pois de qualquer maneira eles têm uma esperança. E depositam tanta esperança numa simples prova - que não conseguirá jamais apreciar todos as capacidades que um aluno pode apresentar - que tremem de medo quando passo perto deles ou quando seguro em seus dedos para recolher suas digitais.

É por essa esperança ingênua que a notícia da rebelião dentro da escola me choca. Onde está a esperança de vândalos? De animais bárbaros? Alguém ali, naquela escola que alimenta cotidianos de uma penitenciária, vai depositar esperança numa prova? Numa chance de alcançar o tão sonhado futuro?

Em suas ignorâncias vazias e irracionais, estes pequenos marginais se atêm à mundanices das mais fúteis, brigam por nada e nada sabem sobre civilização. Sua educação vem estragada de berço e acham mesmo que o fato de uma pessoa ser de um bairro diferente os autorizam a agir feito bandidos. Burros demais para entender algo básico: somos todos iguais.

Esses jamais tremerão perto de mim, pois jamais estarão numa sala de vestibular. Eles não têm esperança, logo, não têm futuro, há não ser que se arrependam. Ou alienem seu futuro para o crime, o que de maneira alguma se caracteriza como futuro, mas sim como caminho direto e certo para o caixão, ou para a prisão, ou para o remorso.

Num país em que polícias entram em confronto entre si, em que órgãos de inteligência iniciam guerras fratricidades motivados por politicagem, em que presidente da mais alta Corte apresenta a mais reles baixeza ao lidar com seu cargo e em que um delegado, ao cumprir seu serviço, passa de herói a vilão em questão de meses, bem, lamento vos informar, mas, nesse país, a esperança morreu, e todo tremor será castigado.

_____

Em tempo: Saí de casa 11:00 e cheguei 20:40. Ganhei R$80,00. É mole?

8 comentários:

Lígia disse...

tá, ganhou pouco, mas pelo menos vai poder contar pros netos que foi fiscal de prova do vestibular uel 2009, experiência única! e divertida pelo menos..

Marina disse...

Achei interessante a sua comparação. Existem momentos em que alguém pode ver em nós uma ameaça... Entendo bem isso. Eu sou dentista. Hehehehe!

Aqui as provas são sempre pela manhã; era um martírio... Por isso, nunca fui fiscal. Acordar às 4h da manhã num domingo não era nada saudável para o meu sono eterno.

Abraço!

Lucas disse...

é! bom, ; ) isso me lembra o livro q to terminando de ler, "vinhas da ira". abraçO! vou ler q agora deu vontade.. rs...

A_for_Anetta disse...

Não ganhou pouco não... eu trabalho das 17:40 às 0:00 e só ganho míseros 15 contos por dia... é mole????

Queria eu ter sido fiscal =~

Não me lembro de nenhum fiscal que tenha feito parte dos meus 3 anos de vestibular, os fiscais pra mim eram o menor dos problemas. Ficava com medo mesmo é quando terminava a prova... Velhos tempos em que eu achava que poderia só estudar, linda e formosa, morar sozinha e ter uma vida de cocota... Velhos tempos...

=***

Jr. disse...

Eles agem como bandidos pq na "bandidagem" é que eles são aceitos como são, o todos iguais não existe e é triste saber que nenhum de meus alunos vai ter a oportunidade que eu tive fz essa prova, a qual passei muito frio e tomei chuva rs, e não tremia quando qdo o fiscal passava, aliás ele me olhava incessantemente oO

karen disse...

o fiscal da prova de ontem tinha uma cara de bobão... acho que o povo nem tremeu quando ele chegava perto. :P

Ricardo Patrese disse...

Cara, já vivi esta experiência aqui na Bahia também quando fui aluno da UNEB, inclusive também recebi R$80,00, por cada um dos dois dias de prova... Hehehe!

E quanto ao seu texto, volto a dizer: Você é profissional. Bravíssimo! Só não acredite que a esperança morreu em nosso país. Na verdade as pessoas é quem tem deixado seus sonhos de lado, algumas ainda conseguem sonhar, e poucas entendem que esperança significa luta, garra,e determinação.

Abração!

Ricardo Patrese
http://trufasebulhufas.blogspot.com/

Laila disse...

Nossa, isso foi incrível.
É tão estranho imaginar um fiscal tão... humano.
Sem dúvida um ponto de vista inovador para mim, e vai ajudar bastante na hora da prova saber que estou sendo vigiada por humanos, e não andróides bem programados fingindo ser gente do Acre (porque eu também acho que o Acre não existe mesmo).