26.10.08

Raízes, vapores e infiltrações

- O que você me diz de, vejamos, duzentão? – perguntou Alexei.

- Duzentos…hum…espera… – respondeu Vinicius.

De fato, não poderia e não desejaria responder à questão naquele exato momento. Subindo e descendo voluptuosamente de costas em seu colo estava Nayara, vestida em mínimo fio-dental, com o salto 15, os peitos rijos, cabelos negríssimos jogados de lado e aquele batom rouge que era a perdição de qualquer ser masculino, quer estivesse presente na boca do sujeito, quer estivesse no colarinho. Executava com sensualidade sua lap dance, deixando embasbacado o distinto delegado Vinicius, de inegável aptidão moral, bem como deixando lépido seu membro, que não contava lá com toda a moralidade do mundo.

Nayara por fim virou-se abruptamente, com toda a sordidez possível que poderia expressar em seu diabólico rosto. Ligeira, abriu todos os botões da camisa preta de Vinicius e acariciou-lhe o peito com certa bruteza, passando as mãos em todos os cantos possíveis, enquanto mordiscava com gula as orelhas do delegado. Súbito parou e dirigiu-se à frente, onde passou a se divertir com um mastro.

- Incrível, não? Nayara é uma das melhores, senão a melhor – comentou Alexei, que, não obstante, ao mesmo tempo, contava com todas as carícias imagináveis de Bianca para si, que pareceu enciumar-se do comentário e foi bebericar qualquer coisa no bar.

- Realmente! – exclamou o policial, meio esbaforido. Bem, estou surpreso com todo esse atendimento e essa sua oferta me seduz.

- Não poderia ser de outra maneira. Reconheço seu serviço e não seria de graça que o faria desistir de todo o seu esplêndido trabalho, Delegado Vinicius.

- Não era isso que achava seu assessor.

- Pensávamos ser o senhor qualquer zé ruela, se é que me entende. Obviamente não entendemos de pronto sua aptidão para os negócios e propusemos aquela proposta sem bem pensar. Sorte a nossa ser o senhor homem persuasivo. Tanto que estou eu mesmo aqui, presente, para discutir todos os termos. O mínimo que poderia lhe fazer é oferecer os serviços de tais belas mulheres, que conheço bem. Um presente.

Alexei esbanjava simpatia, retórica e firmeza. Em seus 39 anos construíra carreira meteórica, sempre com base no diálogo, na negociação, no conflito, fosse ele resolvido da maneira que tivesse que ser. Não é espantoso presumir-se, pois, que fosse político. Deputado Federal. Também se aduz disso tudo que estivesse usando o terno do mais fino caimento, confeccionado na alfaiataria mais badalada de Brasília, capital da Corte. Ou mesmo que tivesse brilhantes cabelos e o rosto do mais liso, sem rugas. O mesmo não se poderia dizer de Vinicius, que deixara as garantias de um emprego público e certo lhe tirar as ambições em bem aparentar-se, convicto que estava de que não fazia diferença alguma a maneira como se trajava, pois nada perderia com isso. Este mesmo homem, de barba mal-feita, após segundos de reflexão, tomou a palavra:

- Trezentos, pois sei que por mais você me ferra, e por menos zomba de mim.

- Trezentão. Ótimo. Homem esperto. O dinheiro será entregue na cantina, daqui cinco dias, e será levado pelo meu assessor, aquele mesmo bestalhão que fez a patacoada com você, caro delegado.

E apertaram ambos fortemente as mãos um do outro.

- Irei para a sauna agora, Vinicius, acompanha-me? – ofereceu Alexei, estampando no rosto sorriso convincente, irrecusável.

- Certamente. Se mantiver o nível do resto da casa, será fantástico.

Em meio a baforadas de vapor, envoltos em toalhas brancas, posando ares de senadores romanos, passaram a dialogar, sob a dúvida de Vinicius:

- Não me entenda mal: sou agora flagrantemente corrupto, imoral, canalha e um bosta. Sei disso. Porém preciso do dinheiro. Realmente preciso e muita parte dele sequer será destinado a mim. Entretanto, o senhor, deputado Alexei, homem público, tem de tudo, tem todas as mulheres ao dispor, todas as vantagens políticas, reputação invejável. E o melhor de tudo: é glorificado pela mídia. A TV o trata como príncipe da moral e sua foto estampa os jornalões quinzenalmente, sob a rubrica do símbolo da oposição. Invejo-o. E por causa disso mesmo sou tomado da mais cruel dúvida: POR QUÊ?! Por que realizar aquele esquema? É tão sujo e profundo que eu mesmo me espantei quando descobri os indícios. Lógico que jamais conseguiria ir a fundo sem ser descoberto e foi o que ocorreu, por isso estou aqui hoje. Mas ainda assim me espanto. Você não precisaria de nada disso, mas entrou nessa. Não entendo.

Alexei não pôde deixar de conter uma profana risada de escárnio, que começara a se formar ao som de “príncipe da moral”.

- Você jamais entenderia, delegado tolo. Ou melhor, entenderia sim, uma vez que trilhou o primeiro passo em direção a um abismo sem fim ao aceitar esses trezentos mil.

E, levantando-se e adotando trejeitos megalomaníacos, pôs-se a gestuar com grandiloquência, palestrando para a platéia de vapores:

- O poder de se infiltrar! Criar raízes dementes que penetram no mais recôndito espaço de um universo gigantesco chamado Estado! Penetrar cada vez mais e mais fundo em busca de ouro, em busca de putas, em busca de prazer, em busca de poder, em busca de… Tudo o que esse país deve a mim, delegado, você não faz idéia, a mínima. Todos os acordos que amarrei, todas as negociatas que fechei, todas as políticas que propus. Confundo-me com a própria política, com meu próprio cargo, pois muito fiz! E muito farei! Rio sobremaneira com a ladainha da mídia e da sociedade ao propagar moral, ética. O que sabem sobre política? Desde quando ética e moral têm espaço nesta que é minha paixão? A verdadeira moral é aquela que me serve para perquirir meus objetivos, delegado. Aquela única moral e única ética que me acompanharão em uma única e finita vida, donde não posso jamais engolir esse discursinho de moralismo, do bem portar-se, pois se assim o fizer morro sem ter alcançado nada. Que se danem. Aquele ator foi um coitado realista e olha só tudo o que disseram dele. Disse que política era enfiar a mão na merda. Não podia estar mais certo! Como já adiantei…tudo o que fiz por esse país. As pessoas não têm idéia do que precisamos fazer, eu e os outros políticos, para manter de pé a nação. Todas as vertentes, as idéias, os interesses – sobretudo os interesses! –, os medos, preconceitos, enfim, tudo o que precisamos juntar para manter as engrenagens funcionando, rodando corretamente. Não sabem! Somos um mal necessário e até se darem conta disso, teremos que meter continuamente nossa mão na mais lamaçenta das merdas, para deixar todos os cidadãos perfeitamente felizes e quietinhos.

Vinicius, que inicialmente acompanhara com fidelidade canina o discurso de seu corruptor, passou, gradualmente, a temê-lo e a espantar-se por seu discurso desarrazoado e insano. Por certo passou a encolher-se quando o deputado aproximou-se dele, cuspindo saliva enquanto bradava doidamente. Cansado e incapaz de suportar mais aquela dose de realismo, a qual não se habilitara a aguentar, pôs-se a gritar:

- Chega! Chega! Você é louco! Eu sou um infeliz que é corrompido, mas você é verdadeiramente um demônio! Maluco! Quanta sujeira! … Vou embora…só quero o meu pagamento daqui cinco dias e então não quero nunca mais saber de você, seu filho da puta!

E saiu perturbado, sem se importar de alguma maneira com sua toalha que havia caído.

Observando de pé a ida daquele fraco homem, Alexei ainda teve tempo para sorrir com o esgar máximo que lhe era possível e então subiu para tomar uma banho, num quarto onde Nayara o esperava.

- Aí está você. Disseram que seu acompanhante saiu apressado, assustado, o que você aprontou com ele?

- Dei-lhe umas lições.

- Só você mesmo. E, afinal de contas, por que me pagou para ficar passando a mão nele? Em todos os cantos? Também fiz as mordidas que você pediu nas orelhas.

- E fez um ótimo trabalho, não encontrou nada. Digamos que você fez um serviço de…varredura.

- Doido…

Às 4 a.m., Alexei chegou em casa, onde Lúcia não o esperava, posto que estivesse ferrada no sono. Sua esposa agora só dormia à base de soníferos, embora não precisasse. Beijou-a e depois dirigiu-se ao quarto do filho, de 6 anos, o qual também beijou, olhando-o orgulhoso por certo tempo. Às 6 a.m. a esposa acordou, e passou um café para ela, dando-lhe caloroso bom-dia.

5 comentários:

Lucas disse...

muito bom, isso me lembrou um documentário inglês chamado "Manda Bala" (send bullet), já ouviu falar? eu só ouví falar, mas parece q mostra como a política, violência e tráfico de drogas são "assim ó" aqui no brasil. abraço! é, Cólera bota pra quebrar, tinham q vir pra londrina. ; )

CèS disse...

Sabe que eu não sei? :~

(Consideração meio torta sobre o seu texto e sobre política)

A_for_Anetta disse...

Você nunca me contou dessa sua visita à Brasília... Espero que permaneça no caminho das letras porque a política você sabe com detalhes como é, acredito mais em bons textos (mesmo que sejam ficção) que em políticos. Seus textos tem me surpreendido positivamente. Parabéns por eles!

=***

Ricardo Patrese disse...

"O poder de se infiltrar! Criar raízes dementes que penetram no mais recôndito espaço de um universo gigantesco chamado Estado! Penetrar cada vez mais e mais fundo em busca de ouro, em busca de putas, em busca de prazer, em busca de poder, em busca de…" Muito massa!

Cara, obrigado por passar no meu Blog e me fazer este convite de vir aqui. QUanta coisa boa você tem aqui! Parabéns!!!

Volte mais vezes no Trufas&Bulhufas, será sempre um prazer, abração!!!

Lígia disse...

Agora..o meu papel no mundo é amar o próximo se ele for o Alexei?