22.10.08

A catarata da sociedade

O ônibus amarelo freia e abre sua porta barulhenta. Entro de cabeça baixa e rapidamente passo o cartão magnético para liberar a catraca. Passo. De repente, sinto a mão do cobrador me deter. Olho-o com alguma surpresa e ouço-o dizer algo, sem, no entanto, entender palavra alguma. Perco-me na profundidade de seu olho direito, com catarata. Há um quê de misterioso e vazio nos olhos com catarata e este, de azul num tom gradual e macabro, contrastando com a pele negra e mal-tratada do senhor de idade que ainda insiste em trabalhar (talvez por terrível necessidade), causou-me tremenda impressão.

- Hein, jovem?

- Desculpa, não entendi.

- Ainda estão fazendo documentos ali?

Encarei-o aturdido. Causa-me dispendioso esforço entender o que as pessoas falam. Ultimamente tenho preguiça de ouvir a voz de qualquer um. Fiz uma última tentativa de recobrar a atenção e entendi o que ele quis dizer.

- Ah, sim. O senhor quer dizer o Universidade Cidadã, bem, eu acho que já acabou, foi só sexta e sábado.

E saí andando antes que ele pudesse perguntar qualquer outra coisa. Algo me atormentava.

O que ele, de fato, queria saber era se continuava ocorrendo um programa de assistência social realizado pela comunidade universitária em que muitos estudantes, de várias áreas da ciência, além da colaboração de órgãos governamentais, auxiliavam a população mais carente, como, por exemplo, instruções jurídicas, realização de casamentos, testes e exames para detectar doenças e propagar prevenções, confecção de documentos, etc. Uma iniciativa para acelerar as metas do milênio, um compromisso assumido pelo Brasil e que jamais será alcançado no prazo estabelecido.

Depois de deixá-lo, ouvi gritar:

- Anunciaram que já não estão mais fazendo, acabou o prazo, mas vocês podem tentar ver se ainda está acontecendo, vão querer descer? é logo ali.

Endereçava suas palavras a três jovens de aparência sofrivelmente pobre. Senti então mais um desses remorsos sociais que nos apressamos em esmagar quando ocorrem, como quando, por exemplo, passamos por humilhado mendigo deitado à beira de calçada suja, a nos olhar com pesado olhar sem vida, exigindo apenas pequena fração do que carregamos no bolso e viramos rapidamente a cabeça e apertamos aceleradamente o passo, como se esse ato fosse apagar a existência incômoda daquele ser maltrapilho, o qual nos lembra, a despeito de tudo se apresentar maravilhosamente bem na sociedade, que há algo de errado com o planeta, que há algo de errado com nós mesmos.

Na ocasião, temi pela ignorância do mundo. Imaginei mesmo, com ingenuidade, as três meninas prontificando-se a ouvir de boca em boca, uma fofoca ou outra, sobre a existência de um evento que realizasse alguns serviços básicos que deveriam estar à disposição integral da população, carente ou não, mas que, por motivos burocráticos e mesquinhos, restringiam-se apenas àqueles com enorme paciência e esperteza para suportar a espera infinita com a qual o Estado nos condiciona para gozar de seus serviços. Sabendo da importância de tal coisa, rara, agilizam-se, vestem roupas mais novas, as quais julgam decentes para apresentarem em “outro mundo” que não seja aquele mundinho informal que as cerca, o mundinho dos shorts e das camisetas mais velhas, do chinelo de dedo, o mundinho que não liga para a etiqueta de caríssimas roupas. O mais magnífico é que o outro mundo é uma “universidade”. Nunca vi tamanha hipocrisia pelo emprego desse nome. Como considerar universal a elitização da imbecilidade acadêmica? Tampouco universal é a reunião do ensino das ciências ali propagadas, pois que a especialização e a mecanicidade atuais me deslocaram completamente do aprendizado de um conhecimento global, amplo. Estou ali aprendendo técnicas úteis a um trabalho, a um ganho. Mas isso pouco importa por ora.

Pior: todo o esforço das jovens é jogado no lixo pelo fato do evento não estar mais ocorrendo. Gastaram passe de ônibus à toa.

A ignorância do mundo me assusta. O lugar comum dos dizeres, dos pensamentos, as frases gramaticalmente em conformidade com o que diz a TV e a dita “grande mídia”, tudo isso me assusta, me faz temer se estou entre ventríloquos ou entre burros de carga. O preconceito e a crítica é manipulada. Unidos, descambam em ações cegas, ignorantes, não-refletidas. Ouço dizer “aquela pobraiada do PT nunca andou de avião e agora que chegou ao poder só viaja” e me desanimo de responder algo. Talvez eu devesse responder que o presidente do Brasil é chefe de Governo e chefe de Estado e que, pela segunda função, tem o DEVER de representar o país no exterior, promulgar sua imagem e fazer tudo aquilo que beneficiar à sua nação, não passando, porém, sobre o direito dos outros povos? Onde existe um homem trabalhando em prol do país, fechando acordos com outros países para melhorar comércio, tecnologia e relações diplomáticas vêem um pobretão indo à forra pela oportunidade de viajar de avião. Entristeço-me.

Mas sinais de mudança pairam no ar. Quando se cai outro muro, agora o do capitalismo neoliberal, selvagem, o de Wall St; quando um negro tem grandes chances de se eleger presidente do Império; quando um torneiro mecânico governa o Brasil; quando um índio preside a Bolívia e um ex-bispo vence a eleição do Paraguai, há de se falar que as coisas estão mudando, que o mundo talvez esteja se humanizando, que talvez economistas sabichões e categóricos entendam de vez o papel de Keynes para a história. Que talvez, bem talvez, possamos andar nas calçadas e não apertar o passo, e não desviar o olhar, e não ignorar nosso papel nesse mundo: o de amar o próximo, esteja ele estatelado na calçada, ou entronado numa sala de executivo com ar-condicionado.

4 comentários:

Thatá disse...

"O mais magnífico é que o outro mundo é uma “universidade”"


acho q o outro mundo chama cesa!=p

por isso tinha uma faixa la hj?=p (se tava la antes só passei por la hj..)


ahhhh
adoreeeeeeeeei o texto.. muito mesmo!

bjooo

Lucas disse...

oba! seja muito bem vindo! fico feliz em conhecer + blogueiros de londrina. viva a nossa blogosfera! ;D rs.. Sem segredo. Já foi melhor, agora estamos em 2 pessoas, tentamos respitar a liberdade alheia, somos solidários, optamos pelo diálogo q sempre resolve os impasses, trabalhamos e assim bancamos nossas contas, dividimos as tarefas de modo não-hierárquico. Assim q funciona.. rs.. ah é? é burguesão mesmo? proprietário convicto? heheh.. mas.. muito bom o texto (tirando os 2 últimos parágragos claro rs.. ;p ) abraço!

CèS disse...

(nota prefacial: o blogger tá me zoando com essas shoutbox que tem que preencher pra garantir que você é gente e não robô. Tive que digitar "bidisti" e depois "berenii" (porque o navegador aqui é torto e a página carrega duas vezes sem razão). Zuado, gente)

Adorei seu recadim, garoto! Cara, esse foi um mês absolutamente reviravóltico e, pra variar, eu não tava sabendo lidar com nada pra conseguir postar, que dirá ir em blog alheio comentar. Não tenho de fato entrado na internet. De fato = entrado, lido coisas, absorvido. A internet (como as xerox) acaba cumprindo função de penseira e fico fazendo catarse por testimonial hahaha

Gostei do tom do seu texto. E concordo com o desgosto que dá, sobretudo, a manutenção da, como você chama, ignorância no mundo. Terminologia à parte: topa mudar isso? =D é nessa que eu tô. Tá bom: é nessa que eu quero tar! Simbora?

CèS disse...

(Agora tive que digitar "elyampro")

Ah, e afinal, sobre o seu clamor para ser linkado: eu obviamente vou te linkar, criatura.
É que eu queria mudar o layout pra fazer tudo limpo e bonito. Mas mudar o layout implica fazer um novo.

Quem sabe agorinha? Em todo caso: não temai, rapaz. Sua conexão está assegurada, ha!