29.10.08

TOP 5 Filmes que marcaram 2008

Admito: é inédita para mim a modinha mania de fazer um TOP 5 sobre qualquer assunto. Febre dos blogs paneleiros (aquele seleto pessoalzinho que se auto-premia em competições duvidosas) e blogs pé-rapados (a exemplo do meu), o recurso do top 5 sempre provoca alguma comoção, uma vez que enumera, taxativamente, gostos, opiniões e pensamentos, gerando uma saudável discussão sobre o assunto em debate.

Na minha estréia, não poderia deixar passar a oportunidade de falar quais filmes mais me atraíram no ano de 2008 (2004 é que não ia ser, né…). Fiquem com eles e, se não os assistiram, corram para a locadora.

Coisas que Perdemos Pelo Caminho (Things we lost in the fire)

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Excelente drama estrelado por Halle Berry (a eleita ‘mulher mais sexy do mundo’) e Benicio Del Toro (dispensa comentários, originalíssimo). Por mais que envolva elementos dos mais pesados e realistas possíveis em seu enredo(vício em drogas, traições, morte de cônjuge, relação familiar, amizade), a história é contada numa leveza que surpreende e emociona ao final do filme, sendo uma dessas histórias descompromissadas que valem mais do que qualquer super-produção.

4º Batman – The Dark Knight (The Dark Knight)

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Sem sombra de dúvida foi o filme mais popular de 2008. Ficou chata a falta de assunto das pessoas, que só faziam discutir sobre Heath Ledger, Coringa, Batman, etc. Porém, o filme mereceu cada crítica positiva, pois foi além de uma adaptação de quadrinhos manjada e que já provara, anteriormente, por quatro vezes (antes de Batman Begins) ser um retumbante fracasso. Christopher Nolan (o diretor) salvou Batman das adaptações carnavalescas de Joel Schumacher e, diferentemente do modo fraco e superficial de adaptar HQs para o cinema, a exemplo do que faz a Marvel (Quarteto Fantástico, X-Men, O Demolidor…), The Dark Knight foi uma experiência bem sucedida da mistura entre gêneros de ação e thriller, com elementos policiais que, felizmente, não deixaram o filme da maneira que nerds espinhentos gostariam que fosse. Destaque mais do que merecido para o falecido Heath Ledger e seu insano e anárquico Coringa.

3º Conduta de Risco (Michael Clayton)

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Alguns seletos atores têm a facilidade de escolherem o personagem que lhes apetecer e grafar neles a marca de interpretação que melhor lhes aprouver. Com George Clooney não é diferente. Escolhe personagens complexos, interpreta-os maravilhosamente e a cada atuação vai adquirindo mais e mais respeito da crítica. Em Conduta de Risco não é diferente: interpretando o advogado Michael Clayton, consegue encarnar bem a crise existencial vivida por um homem de meia idade que se vê num dilema moral e cansado da vida, rodeado de vícios. A história é edificante e revela um suspense inteligentíssimo, do mais contemporâneo possível, com final memorável.

2º Senhores do Crime (Eastern Promises)

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Um legítimo David Cronemberg, o cineasta que elegeu “a mudança, a mutação” como sua marca maior e, ultimamente, utiliza-se cada vez mais de temáticas violentas para expressar suas crônicas. Partindo de premissas simples, não-chamativas, consegue evoluir as tramas para verdadeiros embates éticos, onde a mudança sempre revela algo que estava escondido (uma maneira de desnudar o próprio ser humano e revelar-lhe a essência). Foi assim com Marcas da Violência e agora, numa trama ainda mais envolvente e surpreendente ao final, com Senhores do Crime, onde se sepulta de vez a impressão de que Viggo Mortensen é apenas o Aragorn de O Senhor dos Anéis. Conta ainda com Naomi Watts. Destaque para a bem elaborada cena de luta na sauna.

1º Sangue Negro (There will be blood)

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O filme que mais me fascinou nos últimos anos. O que dizer? A começar pela presença do ator Daniel Day-Lewis, um verdadeiro gênio da atuação. Não é à toa que pega papéis somente de 4 em 4 anos. Ele trabalha sua personagem tão minuciosamente que é impossível não crer na realidade de sua interpretação. Aliado ao seu brilhantismo, o filme ainda conta com enredo sólido, cativante, e bem trabalhado, sem contar a incrível trilha sonora, que deixa qualquer um embasbacado. Uma história bruta, crua e livre de pretensões que, se não consegue agradar todo mundo, tem o êxito de, pelo menos, deixar todos maquinando sua existência. O Oscar para Day-Lewis não foi mais que obrigação.

Colaboração: Anetta

26.10.08

Raízes, vapores e infiltrações

- O que você me diz de, vejamos, duzentão? – perguntou Alexei.

- Duzentos…hum…espera… – respondeu Vinicius.

De fato, não poderia e não desejaria responder à questão naquele exato momento. Subindo e descendo voluptuosamente de costas em seu colo estava Nayara, vestida em mínimo fio-dental, com o salto 15, os peitos rijos, cabelos negríssimos jogados de lado e aquele batom rouge que era a perdição de qualquer ser masculino, quer estivesse presente na boca do sujeito, quer estivesse no colarinho. Executava com sensualidade sua lap dance, deixando embasbacado o distinto delegado Vinicius, de inegável aptidão moral, bem como deixando lépido seu membro, que não contava lá com toda a moralidade do mundo.

Nayara por fim virou-se abruptamente, com toda a sordidez possível que poderia expressar em seu diabólico rosto. Ligeira, abriu todos os botões da camisa preta de Vinicius e acariciou-lhe o peito com certa bruteza, passando as mãos em todos os cantos possíveis, enquanto mordiscava com gula as orelhas do delegado. Súbito parou e dirigiu-se à frente, onde passou a se divertir com um mastro.

- Incrível, não? Nayara é uma das melhores, senão a melhor – comentou Alexei, que, não obstante, ao mesmo tempo, contava com todas as carícias imagináveis de Bianca para si, que pareceu enciumar-se do comentário e foi bebericar qualquer coisa no bar.

- Realmente! – exclamou o policial, meio esbaforido. Bem, estou surpreso com todo esse atendimento e essa sua oferta me seduz.

- Não poderia ser de outra maneira. Reconheço seu serviço e não seria de graça que o faria desistir de todo o seu esplêndido trabalho, Delegado Vinicius.

- Não era isso que achava seu assessor.

- Pensávamos ser o senhor qualquer zé ruela, se é que me entende. Obviamente não entendemos de pronto sua aptidão para os negócios e propusemos aquela proposta sem bem pensar. Sorte a nossa ser o senhor homem persuasivo. Tanto que estou eu mesmo aqui, presente, para discutir todos os termos. O mínimo que poderia lhe fazer é oferecer os serviços de tais belas mulheres, que conheço bem. Um presente.

Alexei esbanjava simpatia, retórica e firmeza. Em seus 39 anos construíra carreira meteórica, sempre com base no diálogo, na negociação, no conflito, fosse ele resolvido da maneira que tivesse que ser. Não é espantoso presumir-se, pois, que fosse político. Deputado Federal. Também se aduz disso tudo que estivesse usando o terno do mais fino caimento, confeccionado na alfaiataria mais badalada de Brasília, capital da Corte. Ou mesmo que tivesse brilhantes cabelos e o rosto do mais liso, sem rugas. O mesmo não se poderia dizer de Vinicius, que deixara as garantias de um emprego público e certo lhe tirar as ambições em bem aparentar-se, convicto que estava de que não fazia diferença alguma a maneira como se trajava, pois nada perderia com isso. Este mesmo homem, de barba mal-feita, após segundos de reflexão, tomou a palavra:

- Trezentos, pois sei que por mais você me ferra, e por menos zomba de mim.

- Trezentão. Ótimo. Homem esperto. O dinheiro será entregue na cantina, daqui cinco dias, e será levado pelo meu assessor, aquele mesmo bestalhão que fez a patacoada com você, caro delegado.

E apertaram ambos fortemente as mãos um do outro.

- Irei para a sauna agora, Vinicius, acompanha-me? – ofereceu Alexei, estampando no rosto sorriso convincente, irrecusável.

- Certamente. Se mantiver o nível do resto da casa, será fantástico.

Em meio a baforadas de vapor, envoltos em toalhas brancas, posando ares de senadores romanos, passaram a dialogar, sob a dúvida de Vinicius:

- Não me entenda mal: sou agora flagrantemente corrupto, imoral, canalha e um bosta. Sei disso. Porém preciso do dinheiro. Realmente preciso e muita parte dele sequer será destinado a mim. Entretanto, o senhor, deputado Alexei, homem público, tem de tudo, tem todas as mulheres ao dispor, todas as vantagens políticas, reputação invejável. E o melhor de tudo: é glorificado pela mídia. A TV o trata como príncipe da moral e sua foto estampa os jornalões quinzenalmente, sob a rubrica do símbolo da oposição. Invejo-o. E por causa disso mesmo sou tomado da mais cruel dúvida: POR QUÊ?! Por que realizar aquele esquema? É tão sujo e profundo que eu mesmo me espantei quando descobri os indícios. Lógico que jamais conseguiria ir a fundo sem ser descoberto e foi o que ocorreu, por isso estou aqui hoje. Mas ainda assim me espanto. Você não precisaria de nada disso, mas entrou nessa. Não entendo.

Alexei não pôde deixar de conter uma profana risada de escárnio, que começara a se formar ao som de “príncipe da moral”.

- Você jamais entenderia, delegado tolo. Ou melhor, entenderia sim, uma vez que trilhou o primeiro passo em direção a um abismo sem fim ao aceitar esses trezentos mil.

E, levantando-se e adotando trejeitos megalomaníacos, pôs-se a gestuar com grandiloquência, palestrando para a platéia de vapores:

- O poder de se infiltrar! Criar raízes dementes que penetram no mais recôndito espaço de um universo gigantesco chamado Estado! Penetrar cada vez mais e mais fundo em busca de ouro, em busca de putas, em busca de prazer, em busca de poder, em busca de… Tudo o que esse país deve a mim, delegado, você não faz idéia, a mínima. Todos os acordos que amarrei, todas as negociatas que fechei, todas as políticas que propus. Confundo-me com a própria política, com meu próprio cargo, pois muito fiz! E muito farei! Rio sobremaneira com a ladainha da mídia e da sociedade ao propagar moral, ética. O que sabem sobre política? Desde quando ética e moral têm espaço nesta que é minha paixão? A verdadeira moral é aquela que me serve para perquirir meus objetivos, delegado. Aquela única moral e única ética que me acompanharão em uma única e finita vida, donde não posso jamais engolir esse discursinho de moralismo, do bem portar-se, pois se assim o fizer morro sem ter alcançado nada. Que se danem. Aquele ator foi um coitado realista e olha só tudo o que disseram dele. Disse que política era enfiar a mão na merda. Não podia estar mais certo! Como já adiantei…tudo o que fiz por esse país. As pessoas não têm idéia do que precisamos fazer, eu e os outros políticos, para manter de pé a nação. Todas as vertentes, as idéias, os interesses – sobretudo os interesses! –, os medos, preconceitos, enfim, tudo o que precisamos juntar para manter as engrenagens funcionando, rodando corretamente. Não sabem! Somos um mal necessário e até se darem conta disso, teremos que meter continuamente nossa mão na mais lamaçenta das merdas, para deixar todos os cidadãos perfeitamente felizes e quietinhos.

Vinicius, que inicialmente acompanhara com fidelidade canina o discurso de seu corruptor, passou, gradualmente, a temê-lo e a espantar-se por seu discurso desarrazoado e insano. Por certo passou a encolher-se quando o deputado aproximou-se dele, cuspindo saliva enquanto bradava doidamente. Cansado e incapaz de suportar mais aquela dose de realismo, a qual não se habilitara a aguentar, pôs-se a gritar:

- Chega! Chega! Você é louco! Eu sou um infeliz que é corrompido, mas você é verdadeiramente um demônio! Maluco! Quanta sujeira! … Vou embora…só quero o meu pagamento daqui cinco dias e então não quero nunca mais saber de você, seu filho da puta!

E saiu perturbado, sem se importar de alguma maneira com sua toalha que havia caído.

Observando de pé a ida daquele fraco homem, Alexei ainda teve tempo para sorrir com o esgar máximo que lhe era possível e então subiu para tomar uma banho, num quarto onde Nayara o esperava.

- Aí está você. Disseram que seu acompanhante saiu apressado, assustado, o que você aprontou com ele?

- Dei-lhe umas lições.

- Só você mesmo. E, afinal de contas, por que me pagou para ficar passando a mão nele? Em todos os cantos? Também fiz as mordidas que você pediu nas orelhas.

- E fez um ótimo trabalho, não encontrou nada. Digamos que você fez um serviço de…varredura.

- Doido…

Às 4 a.m., Alexei chegou em casa, onde Lúcia não o esperava, posto que estivesse ferrada no sono. Sua esposa agora só dormia à base de soníferos, embora não precisasse. Beijou-a e depois dirigiu-se ao quarto do filho, de 6 anos, o qual também beijou, olhando-o orgulhoso por certo tempo. Às 6 a.m. a esposa acordou, e passou um café para ela, dando-lhe caloroso bom-dia.

22.10.08

A catarata da sociedade

O ônibus amarelo freia e abre sua porta barulhenta. Entro de cabeça baixa e rapidamente passo o cartão magnético para liberar a catraca. Passo. De repente, sinto a mão do cobrador me deter. Olho-o com alguma surpresa e ouço-o dizer algo, sem, no entanto, entender palavra alguma. Perco-me na profundidade de seu olho direito, com catarata. Há um quê de misterioso e vazio nos olhos com catarata e este, de azul num tom gradual e macabro, contrastando com a pele negra e mal-tratada do senhor de idade que ainda insiste em trabalhar (talvez por terrível necessidade), causou-me tremenda impressão.

- Hein, jovem?

- Desculpa, não entendi.

- Ainda estão fazendo documentos ali?

Encarei-o aturdido. Causa-me dispendioso esforço entender o que as pessoas falam. Ultimamente tenho preguiça de ouvir a voz de qualquer um. Fiz uma última tentativa de recobrar a atenção e entendi o que ele quis dizer.

- Ah, sim. O senhor quer dizer o Universidade Cidadã, bem, eu acho que já acabou, foi só sexta e sábado.

E saí andando antes que ele pudesse perguntar qualquer outra coisa. Algo me atormentava.

O que ele, de fato, queria saber era se continuava ocorrendo um programa de assistência social realizado pela comunidade universitária em que muitos estudantes, de várias áreas da ciência, além da colaboração de órgãos governamentais, auxiliavam a população mais carente, como, por exemplo, instruções jurídicas, realização de casamentos, testes e exames para detectar doenças e propagar prevenções, confecção de documentos, etc. Uma iniciativa para acelerar as metas do milênio, um compromisso assumido pelo Brasil e que jamais será alcançado no prazo estabelecido.

Depois de deixá-lo, ouvi gritar:

- Anunciaram que já não estão mais fazendo, acabou o prazo, mas vocês podem tentar ver se ainda está acontecendo, vão querer descer? é logo ali.

Endereçava suas palavras a três jovens de aparência sofrivelmente pobre. Senti então mais um desses remorsos sociais que nos apressamos em esmagar quando ocorrem, como quando, por exemplo, passamos por humilhado mendigo deitado à beira de calçada suja, a nos olhar com pesado olhar sem vida, exigindo apenas pequena fração do que carregamos no bolso e viramos rapidamente a cabeça e apertamos aceleradamente o passo, como se esse ato fosse apagar a existência incômoda daquele ser maltrapilho, o qual nos lembra, a despeito de tudo se apresentar maravilhosamente bem na sociedade, que há algo de errado com o planeta, que há algo de errado com nós mesmos.

Na ocasião, temi pela ignorância do mundo. Imaginei mesmo, com ingenuidade, as três meninas prontificando-se a ouvir de boca em boca, uma fofoca ou outra, sobre a existência de um evento que realizasse alguns serviços básicos que deveriam estar à disposição integral da população, carente ou não, mas que, por motivos burocráticos e mesquinhos, restringiam-se apenas àqueles com enorme paciência e esperteza para suportar a espera infinita com a qual o Estado nos condiciona para gozar de seus serviços. Sabendo da importância de tal coisa, rara, agilizam-se, vestem roupas mais novas, as quais julgam decentes para apresentarem em “outro mundo” que não seja aquele mundinho informal que as cerca, o mundinho dos shorts e das camisetas mais velhas, do chinelo de dedo, o mundinho que não liga para a etiqueta de caríssimas roupas. O mais magnífico é que o outro mundo é uma “universidade”. Nunca vi tamanha hipocrisia pelo emprego desse nome. Como considerar universal a elitização da imbecilidade acadêmica? Tampouco universal é a reunião do ensino das ciências ali propagadas, pois que a especialização e a mecanicidade atuais me deslocaram completamente do aprendizado de um conhecimento global, amplo. Estou ali aprendendo técnicas úteis a um trabalho, a um ganho. Mas isso pouco importa por ora.

Pior: todo o esforço das jovens é jogado no lixo pelo fato do evento não estar mais ocorrendo. Gastaram passe de ônibus à toa.

A ignorância do mundo me assusta. O lugar comum dos dizeres, dos pensamentos, as frases gramaticalmente em conformidade com o que diz a TV e a dita “grande mídia”, tudo isso me assusta, me faz temer se estou entre ventríloquos ou entre burros de carga. O preconceito e a crítica é manipulada. Unidos, descambam em ações cegas, ignorantes, não-refletidas. Ouço dizer “aquela pobraiada do PT nunca andou de avião e agora que chegou ao poder só viaja” e me desanimo de responder algo. Talvez eu devesse responder que o presidente do Brasil é chefe de Governo e chefe de Estado e que, pela segunda função, tem o DEVER de representar o país no exterior, promulgar sua imagem e fazer tudo aquilo que beneficiar à sua nação, não passando, porém, sobre o direito dos outros povos? Onde existe um homem trabalhando em prol do país, fechando acordos com outros países para melhorar comércio, tecnologia e relações diplomáticas vêem um pobretão indo à forra pela oportunidade de viajar de avião. Entristeço-me.

Mas sinais de mudança pairam no ar. Quando se cai outro muro, agora o do capitalismo neoliberal, selvagem, o de Wall St; quando um negro tem grandes chances de se eleger presidente do Império; quando um torneiro mecânico governa o Brasil; quando um índio preside a Bolívia e um ex-bispo vence a eleição do Paraguai, há de se falar que as coisas estão mudando, que o mundo talvez esteja se humanizando, que talvez economistas sabichões e categóricos entendam de vez o papel de Keynes para a história. Que talvez, bem talvez, possamos andar nas calçadas e não apertar o passo, e não desviar o olhar, e não ignorar nosso papel nesse mundo: o de amar o próximo, esteja ele estatelado na calçada, ou entronado numa sala de executivo com ar-condicionado.

15.10.08

Caipiras Brutos

Peço licença aos colunistas da revista Rolling Stones para transcrever um artigo escrito em Janeiro de 2007 por Mateus Polumati intitulado “Londrina: onde o governo abraça a causa independente”.

Em 1979, Gal Costa fez um show em Londrina (região norte do Paraná). Reza a lenda que, após a apresentação, um jornalista quis saber o que a cantora achou da cidade. Ela teria dito, com sua languidez de menina baiana, que Londrina era uma "fazenda iluminada". A declaração melindrou alguns dos locais. Ainda que a cantora qualificasse como "iluminada", estava limitando à condição de "fazenda" uma cidade que arriscava, com o brio acanhado do interior, os primeiros passos de seu projeto cosmopolita. Para uma cidade que começava a se achar grande, uma declaração como essa foi um choque indesejado de autoconsciência.

Quase 30 anos depois, muita água rolou. Londrina é hoje a terceira maior cidade do sul do país (quase 800 mil habitantes na região metropolitana), tem taxas de desenvolvimento elevadas (analfabetismo a 6,42%, IDH a 0,824 etc.) e festivais de primeira linha nas áreas de teatro, música, dança, cinema e circo. Conta com uma população jovem, imensa e renovada anualmente por gente de todo o Brasil, que chega para estudar em uma de suas 11 universidades. Só a UEL, a maior delas, responde por 18 mil desses estudantes. Com a natureza a favor, as entranhas da terra vermelha pariram uma nova geração de "iluminados".

A nova safra de produtores e roqueiros londrinenses não só não dá a mínima para referências pejorativas à sua condição interiorana, como aprendeu a usá-la em seu favor. Chamando a si próprios de "caipiras brutos", estão transformando a cidade em um dos focos do novo cenário independente brasileiro. Não que a idéia de encarar a caipirice como projeto estético seja nova. Antes da famosa declaração de Gal Costa, um coletivo de artistas - incluindo Domingos Pellegrini, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção - já explorava idéias parecidas. O auge dessa geração foi o espetáculo Na Boca do Bode, em 1973. Com concepção avançada, o show deixou claro que existia uma produção relevante na cidade. Anos depois, porém, o núcleo duro do movimento se dispersou.

O caminho recente da escalada caipira-bruta vem sendo trilhado desde 1997. A partir daquele ano, o trabalho da extinta produtora Madame X inseriu a cidade em um circuito restrito de shows internacionais, que incluiu Buzzcocks, Fugazi e Superchunk. Os shows formaram público, além de abrir algum espaço a bandas locais, que aumentou a partir de 2001, com a criação da Braço Direito Produções e do Festival DemoSul, o qual em seis anos saltou de uma estrutura confusa para a condição de maior evento do rock independente no interior do país (feito fora de uma capital). Na última edição, em novembro, se apresentaram 25 bandas de todo o país (mais uma da Argentina), lista que incluiu nomes como Superguidis, Macaco Bong, Grenade, Ambervisions, Bidê ou Balde, Junkie Bozo, Rogério Skylab e Forgotten Boys.

Mas a enxada caipira-bruta não abriria tantas picadas no perobal sem um fator. O investimento público na área de cultura em Londrina aumentou sensivelmente com a atual administração, a partir de 2001 - não por coincidência, ano em que o DemoSul surgiu. "Antes de 2001, a cidade só tinha o FILO (Festival Internacional de Teatro de Londrina), o Festival de Música e a Escola de Dança. Com o aumento dos recursos, várias expressões culturais se consolidaram", diz Waldir Grandini, coordenador da Incubadora de Projetos da Secretaria de Cultura. Em 2006, o Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) destinou R$ 1 milhão para o financiamento de produtores independentes. Dessa quantia, R$ 60 mil foram destinados ao festival. Quantias irrisórias se comparadas a editais federais ou ao orçamento de qualquer festival grande no país, mas que fazem a diferença em uma cidade onde se virar sem dinheiro é um estilo de vida.

No caso do DemoSul, há ainda outro fator: o núcleo de produção do festival é todo da Vila Nova, área rica em fãs do Ramones mas modesta em termos de renda. São pessoas que dificilmente produziriam cultura sem financiamento externo. O fenômeno DemoSul não deixa de ser um exemplo de mobilidade social, como atesta o produtor do evento, Marcelo Domingues: "Sem o apoio do Promic, o festival não aconteceria como acontece hoje".

Além do dinheiro, o que faz diferença é o acompanhamento aos projetos. "As autoridades da cidade estão começando a entender que o DemoSul não é apenas um 'show de rock', mas um pólo de criação, de intercâmbio e até de movimentação financeira", explica Waldir Grandini. O reconhecimento do sucesso do festival se traduziu em números, também: o orçamento do projeto quintuplicou em seis anos. "O papel do DemoSul é fundamental para a criação de uma 'economia solidária da música', que está aos poucos construindo um mercado paralelo, com outra lógica."
Apesar da realidade quase febril, em que o rock foi adotado pelo governo, ainda há problemas a serem superados. A legislação do Promic tem falhas que deixam os produtores de cabelos em pé. Sem contar o desgaste inerente à política, toda vez em que ela se incorpora ao "jogo". Do ponto de vista da conexão, o rock caipira-bruto ainda precisa dialogar com o Brasil.

O principal passo, os londrinenses já deram: manter um número razoável de bandas, ter bons estúdios e um festival que garante uma articulação com o resto do país. Como dizia Arrigo Barnabé, já basta para superar a condição de "engrenagens tão sombrias, esquecidas pelos deuses".

Fonte: http://www.rollingstone.com.br/edicoes/4/textos/204/

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Meu comentário:

A matéria veiculada é de 2007. As fotos acima são de Outubro de 2008, quando aconteceu a oitava edição do Festival Demo Sul. Foi um belo festival, sediado no Grêmio Recreativo Londrinense, e contou com mais de 20 atrações, dentre elas: Mudhoney, Nação Zumbi, Kid Vinil, Trilöbit, Palangueto, Terra Celta, Pata de Elefante, New Ones, Madame Saatan, entre outras. A organização foi excelente e a idéia de utilizar dois palcos eliminou completamente aquela maldita espera pela passagem de som das bandas. Também merece aplausos a iniciativa de realizar o festival um dia de graça, que ocorreu na Concha Acústica (foto do canto superior esquerdo). O único defeito encontrado em meio a esse bom exemplo de conciliação entre política, iniciativa privada, cultura e cena independente foi o pouco tempo dado a cada banda para tocar e a não disponibilização de meios de transporte para chegar ao local, que era longe. A meia hora que cada uma dispunha deixou todo mundo com gosto de “quero mais”. Que venha o Demosul 2009!