9.9.08

Sophia - Prólogo

Prólogo

O discurso sobre o apocalipse sempre teve ares de banalidade na sociedade moderna. Diariamente, cenários futuristas nada animadores são rabiscados em livros, jornais, programas de tv, salas de aula, profecias e conversas de bar no fim da noite: distopias totalitárias, catástrofes ambientais, deformação da evolução humana por efeito da medicina e da falta de predadores naturais, dependência não-saudável da robótica e informática, banalização das relações humanas, estupidificação da inteligência (?), pandemias devastadoras, e por aí vai.

Sem muita opção e fechando os olhos e orelhas a essas ladainhas intermináveis dos profetas do caos, o homem médio não pode fazer mais do que viver e ir vivendo, numa normalidade que, em 99% dos casos, frustra qualquer expectativa maléfica que as projeções aterrorizantes possam antever. Essa normalidade, rotineira e pontual, é expressão máxima do conflito que há entre ficção e realidade. De fato, a ficção investe sobre o cérebro humano numa velocidade deveras maior do que a realidade consegue e sua capacidade de demonstrar o extremo, o inimaginável, nada mais é do que uma espécie de alerta que amolda a realidade e conjuga, inconscientemente, caminhos a serem percorridos pelas vidas humanas sem que se permita a elas despencar no desfiladeiro do lugar ao qual os humanos não conhecem, mas que definitivamente não devem ir. É assim que se evita apocalipses e desgraças, tais quais os descritos acima.

Não que elas sejam "mentiras" (ficções). Para falar bem a verdade, quase nenhuma é, a menos que se deixe elas serem. Esse é o papel básico da ficção: nortear a realidade, ou, quem sabe ainda, talvez jamais saibamos, confundir totalmente aquilo que vemos e o que podemos escolher. O papel primordial da ficção é, portanto, fazer a desgraça perecer ou, quando estiver em vias de acontecer, que não surtem a dramatização esperada. Mas deixem de lado essa teorização absurda. O que quero relatar aqui são episódios acontecidos com Sophia, minha criação de um futuro pós-apocalíptico, ciborgue de um mundo sem traço de passado, sem sinal de esperança. Sophia é a redescoberta de uma inteligência e sensibilidade letárgicos no humano modificado (e ausentes no humano de hoje). É a tentativa de um resgate da própria alma do ser vivo pensante. Sophia é aquela que, como outros estranhos em terras estranhas, diria a qualquer um, com puro coração e sorriso nos lábios artificiais: "Tu és Deus". Sem mais.

Um comentário:

A_for_Anetta disse...

Quero "conhecê-la" melhor. Quero mais sobre a Sophia.

Um ótimo começo para o que será um ótimo texto.

=***