3.9.08

Anúncio para um fim (parte 2 - final)

Não se perca: http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com/2008/08/anncio-para-um-fim.html (parte 1)

SENHORA VIÚVA
Valoriza vida familiar, deseja conhecer senhor de 60 a 70 anos, que procure uma companheira para ser feliz a dois.

Homem de palavra. Gostei. Ali estava o dito cujo, sujeito alto, caucasiano, de cabelos orgulhosamente brancos que de maneira alguma deixavam entrever sinal de calvície; a pele, apesar de levemente enrugada, era rija e tinha um quê de avermelhada, vestia uma calça social marrom, uma camisa de linho bege e um pulôver verde sem, no entanto, ser muito chamativo. Os sapatos estavam meticulosamente lustrosos. Parecia a personificação de um outono revigorante. De fato, estava ele ali parado à minha frente, com olhos de admiração e sorriso admirável. Aliás, olhos de uma profundidade incalculável, eternos. Veio em minha direção sem desviar um milímetro sequer o olhar e com o sorriso a estampar permanentemente a boca. Pegou minhas mãos de modo afável. Por sorte, sabia como evitar deixá-las frias e suadas.

"Flora! Que prazer encontrá-la. Você é muito linda, mesmo. Mais ainda do que eu imaginava".
"O senhor é um galanteador, hein...".
"Senhor não. Décio. Sem formalidades, ora. Vamos nos sentar?".

Sentamo-nos um de frente para o outro. O ambiente era acolhedor, embora muito comercial. Cravamos os olhares conjuntamente e, após breve estudo (ou admiração?), interpelei-o:

"Interessante a estrofe de Dante na carta. "No meio do caminho de nossa vida / me perdi em uma selva escura / porque o caminho correto estava perdido" (perdão a tradução tão seca). Mas não entendi seu propósito com aquilo".
"Entenderá, mas não agora".
"Assim você me deixa curiosa, Décio".
"É o meu objetivo! Hehe" (ele está me saindo um velho safado).
"Diga algo então".
"Apenas um minuto. Com licença, moça, você poderia trazer dois chás, por favor? E alguns daqueles biscoitos de nata que eu tanto gosto. Pronto, agora sim. Flora, Flora. É difícil para eu começar. Temos que concordar que nosso encontro não é muito casual. Não nos conhecemos pessoalmente, embora eu tenha a leve impressão de que sempre estive a sua espera..."
"Também sinto isso, é estranho, como se por toda minha vida, estivesse destinada a você" (jamais entendi de onde saíram essas palavras, não era como se EU estivesse falando).
"Sim, exatamente. É por isso que podemos nos sentir à vontade. E, além disso, ... opa, obrigado pelo chá, Maria... voltando, além disso, é essencial que você entenda como me senti magnetizado com aquele anúncio. Peguei o jornal despreocupadamente, numa atitude rotineira, e me dei de cara com algo que, a meu ver, pode mudar a minha e a sua vida. É muito, muito surpreendente mesmo que possa estar olhando para seu rosto agora e concretizando o que sonhei, desde que li seu anúncio".
"Isso é muito bonito, Décio. Confesso que fiquei muito envergonhada de tornar aquilo público, sinto-me feliz que tenha tido tal acolhida. Mas conte-me como você está aqui hoje, digo, um homem como você deveria ter mulher, namorada. Algo".
"Já tive namoradas, casei-me uma vez, mas tudo isso faz muito tempo (muito mesmo) e há anos havia decidido me tornar apenas um homem solitário, que não quer dar problemas para ninguém".
"E o que o fez mudar de idéia? Espera...não me diga que olhava aquela página atrás de...ah meu Deus...!".
"Não, não! de maneira alguma. Entendo o que você quer dizer, haha, é até embaraçoso, mas não, o que explica eu ter lido aquela página é o simples fato de eu começar a ler o jornal de trás para frente. Estranho, não?".
"Ufa, sinto-me aliviada. Passei tanta raiva com o lugar em que colocaram meu anúncio".
"É, de fato, uma indelicadeza com um propósito tão bonito quanto o seu, Flora".
"Esse chá e biscoitos estão uma delícia".
"Ganhei um ponto então".
"Muitos".

Aquele jogo me fascinava. Não tivera nada parecido na adolescência, nem quando fora adulta e ainda mais quando velha. Naquele momento eu estava tendo um encontro. Um encontro. Parecia que cada segundo dos meus 68 anos tinha me levado até ali e, caso não tivessem, pelo menos o descaminho valia a pena agora.

Beijamo-nos num banco de parque que havia ali perto. O beijo dele era suave e um pouco molhado demais, mas era uma delícia. Eu havia esquecido essa sensação de beijo, de compartilhar algo. Até os 40 eu tivera ótimos e freqüentes beijos e, a partir daí, comecei a achá-los nojentos. Não sei se por causa do péssimo marido que arrumara (que se revelara um crápula) ou se por desmotivação completa da falta de paixão que a vida adulta nos obriga a engolir. Agora tudo isso era sepultado com uma língua fantástica.

"Sabe, Décio, isso é tudo maravilhoso. Me sinto mais viva do que nunca, numa idade em que nos julgam a alguns passos do cemitério. Você tem mesmo essa pretensão de passar seus dias comigo, de, como eu havia anunciado, ser feliz a dois?".
"Completamente, Flora. Meus propósitos com você são os mais lúcidos".

Eu provava de uma paixão ardente. E a cada pessoa que olhava na rua, que passava por nós dois, de mãos dadas, e expressava asco ou estranheza, eu sentia vontade de gritar: "olhem! sou feliz! tenho alguém! estou viva!". Eu queria demonstrar de qualquer maneira que minha vida, ali, naquele momento, valia a pena. Décio talvez tivesse percebido isso e, me abraçando com força, disse:

"Quem dera todos esses jovens deixassem a prepotência de lado e passassem a admirar mais experiências como a que estamos tendo agora. Quem dera eles parassem de achar que sabem tudo e que são capazes de tudo e resolvessem aprender um pouco conosco, de que a vida pode valer a pena, com a idade que seja".

Naquele momento, a única coisa que eu lamentava era não ter conhecido aquele homem antes.

Não demorou muito eu estava na casa dele. A casa era um tanto quanto soturna, de uma escuridão grudenta, pegajosa. Os móveis eram todos antigos. A casa ocasionava medo e, também, ou por causa disso, respeito.

Aqui, novamente, peço para não me julgarem. Ou julguem, se quiserem, mas naquele momento, nada mais me importava. Aquela era a hora da vida ser vivida, então, se, por um acaso, você que me lê sentir nojo por eu ter feito isso, vá para o inferno.

Após ter tirado minha roupa, Décio, apenas de cueca, pegara algo numa gaveta ao lado da cama e me mostrara, com um sorriso até a orelha de perversão, uma pílula azul.

"Tomei-a há alguns minutos atrás. Já sinto os efeitos. Quero ser feliz, a dois".
"Sejamos".

E fomos. A voracidade de Décio me acabrunhava, mas logo me soltei e passei a esquecer que tinha 68 anos. Não me importava mais por meu corpo não ter a mesma estética de quando eu tinha 20 anos. O prazer com que Décio me mordia e me penetrava não deixava dúvida de que isso não era levado em conta. A fruição com que me possuía revoluciona-me de dentro para fora e é assim que me senti mais bela, por mais que isso soe piegas.

Entretanto, no meio do ato, por crueldade do destino ou por ação de uma consciência medrosa que possuo, mandei-o se afastar. Chorando, lembrei, não com certo desgosto, de meus filhos, de meus animais, de meu falecido marido (ainda que eu o odiasse), da minha vida regressa. Os segundos que outrora mencionei, por mais que tivessem me libertado e me atirado aos braços daquele homem, agora faziam questão de me lembrar da minha condição de escrava. Escrava de toda uma vida passada, em que eu era mãe e mulher. Uma vida que me obrigava, agora, a desistir de todo aquele prazer, de toda aquela emancipação, para assumir meu posto de honra de viúva que merece definhar sozinha, até que a morte me alcance.

"Flora", disse Décio, ainda com o membro ereto, me consolando em seus braços, "esqueça tudo o que você viveu, sua vida é aqui e agora. Você não pode ser tão medíocre a ponto de deixar que todas essas correntes que te prendem continuem te amarrando a uma âncora que vai lançá-la ao fundo do oceano. Viva!"

Disse isso sem eu ter me queixado de nada, como se adivinhasse meus pensamentos. Meu carinho por aquele homem era enorme e o tom duro e sábio com que pronunciou suas palavras me fez estremecer e me curvar à verdade. Não. Não me curvei à verdade. Isso seria somente deixar de lado as algemas de uma vida que me tornou escrava, para substituí-la por outra que me faria refém de uma sentença. Eu teria que aceitar e querer aquela verdade. E assim o fiz. Pedi licença a Décio e fui ao banheiro. Olhei-me no espelho e não soube identificar que idade tinha. Podia ser 20, 68 ou 10 milhões. Olhei-me profundamente mesmo assim e resolvi abdicar de tudo.

"MORRAM!", gritei. E sepultei minha família. Estavam mortos. Deram felicidades e tristezas, sem dúvida, mas agora estavam mortos, não fazia diferença. Tinha carinho por eles, mas uma lembrança não pode obstruir uma vida. Acabei me cansando do meu próprio drama e, se ele possuíse uma forma física, cuspiria nele agora.

Voltei ao quarto.

Com carinho, voltamos a transar, ainda sentindo, e agora parecia ser em dobro, toda a esfuziante sensação de poder compartilhar algo, algo que havíamos esquecido, algo que achávamos extinto. Sentindo o corpo quente de Décio sobre o meu, pude gozar de uma sensação de segurança e esperança jamais sentida e, com um grito primal, expressei meu mais digno orgasmo.

Epílogo

Não sei bem se poderia escrever isso. Dizem para nós não revelarmos nada depois que acontece e que viemos para cá. É algum tipo de cláusula. A verdade é que estou me fodendo para isso. Vi tudo o que aconteceu, não sei como, mas vi. O gozo, ainda que isso seja um pensamento empírico, clarifica a mente. Quando parei de gritar e abri os olhos, o que estava na minha frente não era o senhor alto, de cabelos orgulhosamente brancos, pele levemente avermelhada e etc. Não era.

O que estava na minha frente tinha a altura incontestável de uma majestade, talvez mesmo de um anjo, algo celestial. Cobria-se com o mais negro dos mantos, tão negro que parecia distorcer e engolir tudo à sua volta, como se fosse um buraco negro a sugar o que não fosse ele mesmo, o Essencial. O próprio universo estava à minha frente e segurava uma foice. Uma foice tremendamente prateada que, por mais que fosse um objeto de destruição, visando ao caos, estava ali para seguir a ordem das coisas. Aquele era o chamamento. O corte rápido e certeiro era o chamamento. O gozo e o grito eram a maneira de morrer dignamente, de deixar esse mundo elucidada, de compreender tudo. Tudo estava ali e passei a viver realmente quando estava prestes a morrer. O anúncio, o chá, a paixão, o beijo, a raiva, a cama, a pílula. O anúncio, ah o anúncio. Como eu, na minha infinita ignorância, poderia prever que cada ato meu, e ainda mais aquele diretamente, nada mais eram do que a terrível vontade de gritar pela Morte, de implorar-lhe que me levasse. Fui levada.

A despeito de ficar estupidificada com todo o negror com que estava vestido e com a precisão com que sua arma letal me chamou, eu ainda tive tempo de olhar bem nos olhos de Décio, embora eu não saiba se o nome do mensageiro da morte seja mesmo Décio. Olhei bem fundo e ali estavam aqueles olhos profundos, eternos, iguais aos do ser que mais amei na vida.

Aqui, da onde escrevo agora, conformada e não tão velha quanto toda a sapiência do Universo, posso garantir a vocês: sou feliz.

9 comentários:

A_for_Anetta disse...

Em algum ponto dessa história lembrei-me de um encontro ocasionado por um anuncio em uma comunidade.

Uma pena que ela não possa ter aproveitado por mais tempo, mas quem disse que quantidade é melhor que qualidade? Um encontro que valeu pela vida toda.

Muito bonito, mesmo!

=****

CèS disse...

Poxa vida, gente.

A) Dona Flora não precisava de Décio para descobrir que não estava morta
B) Uma vez que Décio apareceu, podia ter deixado eles se curtirem
C) Felicidade não é só pós-mortem, poxa vida!
D) Quem dera achar um Décio pra mim. Espero não ter de esperar até os 68 anos nem de ficar esperando seja quanto tempo for. Tão água-com-açúcar, isso. :P Se não vier, não veio!

Sobre sorvete (a coisa mesmo), tenho zica da época que tirei os cisos. Só tomo casquinha e olhe lá haha!

Filósofos passam tempo demais com achismos, podiam, né, usar esse tempo com outra coisa. (Veja minha ojeriza à contemplação apenas ;D)

Poxa, meu blog é digno? Acho ele absolutamente arbitrário, ou no máximo, se ele for um bom reflexo de quem escreve, um mosaico com peças faltando ;D

CèS disse...

ok, acho que errei o link de comentário, haha!

sobre o (meu) post: não tem o que não entender, foi uma constatação da capacidade de mães de azucrinarem as nossas vidas ad aeternum.

mas escrever sempre é bom. Uma das minhas ambições da vida é ser escritora (mas acho que para isso deveria ser mais determinada haha!).

escrevamos então o/

ana disse...

Agora eu imaginei dois velhinhos numa casa fedendo a mofo, dançando Beatles na sala.
Ficou muito bom!

ana disse...

Veagá, essa ana aí em cima sou eu, a Thays, mas não sei porque diabos saiu ana
O.o

CèS disse...

Cara, o texto não é um poema, e tampouco meu. :D É uma música do nosso querido amado idolatrado salve-salve Tim Maia! Que não cantou só Descobridor dos sete mares mas também (e principalmente) lançou os vinis Racional vols. 1 e 2.

É totalmente surreal. O cara doido de pedra, um belo dia enfiou uma roupa toda branca, surtou e cantou O Universo em Desencanto (tava em voga um tempo atrás. NÃO FAZ SENTIDO. É sensacional de ler, as frases mudam de sujeito no meio).

A brincadeirinha com Weber foi só porque ele também prega o desencantamento do mundo :P

Sim, eu ando misturando tudo. Coisa de cientista social piadista (e falida haha!)

CèS disse...

Agora quero saber das suas interpretações!

(Nota - eu sei que os posts andam no mínimo, euh, excêntricos, mas ando com preguiça de ser / parecer coerente ou de explicar minuciosamente porque as histórias envolvidas são sempre longas e densas (não conheço mesmo histórias curtas - no máximo, diluídas ou fracionadas))

CèS disse...

Tá começando a entender? Que bom! Te admiro, porque eu me considero um quebra-cabeças com peças faltantes.

Eu gosto de textos grandes, até, mas ia ficar tudo MUITO grande. Apesar de que isso é bem de fase. Quando eu era mais nova ("na minha época") escrevia bastantinho no WI, até - te diverte lá lendo os arquivos. Eles são bem legais, haha! Até eu me divirto lendo (ok, de 2 em 2 anos ou por aí).

Olha, eu nunca quis fazer Direito (adoro a ambiguidade), mas tem gente na minha sala que fez ou que prestou loucamente, então vamos nos juntar e odiar o REUNI hahaha!

CèS disse...

Tá, isso foi super politicamente correto. Eca.

Baixa já o Racional (2 volumes)!

Chico é clichê de cientista social (mas eu gosto). Chico, sandália rasteira, maconha, PSOL, All Star hahaha!

Ia fazer uma surpresa e mandar esses comentários (bem grandes, até) por orkut, mas cadê que achei link? Então fica por aqui mesmo.