24.9.08

relMIRPT: "contato"

Relato nº2 da Missão de Investigação e Reconhecimento do Planeta Terra (MIRPT)
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Tivemos uma perda terrível hoje, no lapso de tempo conhecido na Terra como "dia", um de nossos exploradores foi brutalmente agredido por um dos terráqueos. Ele prostou-se em um ponto de encontro e debate no meio de uma passarela preta formada pelo composto petróleo (já esquecido por nossa civilização) e bauxita. O local continha sinalizações brancas no chão e um até-que-avançado sistema de permissão para se expressar, formado pelas cores vermelha, amarela e verde visíveis a todos. Carregando um presente de boas-vindas, nosso explorador não teve chance de se aproximar amigavelmente do terráqueo. Este, de aparência metálica, possuía rodas no lugar de patas e uma marca de quatro círculos unidos lado a lado na fronte. Rapidamente passou por cima de nosso colega, não prestando socorro após isso. Não entendemos ainda o motivo de tanta agressividade por parte dessa forma de vida predominante no planeta. Cogita-se a possibilidade de isso ocorrer devido uma espécie de doença parasitária nos mencionados terráqueos, pois foi constatado que todos esses seres possuem um animal símio em seu interior, como que a controlá-los. Estudaremos pormenorizadamente o caso e tentaremos entrar em contato novamente pelo próximo lapso de tempo em que o planeta realizar uma volta em torno de si.

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13.9.08

relMIRPT: "Veja"

Relato nº 6.578 da Missão de Investigação e Reconhecimento do Planeta Terra (MIRPT)
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Há um "país" no hemisfério sul e ocidental do planeta Terra, de 8.514.876,599 km², 190 milhões de habitantes, chamado "Brasil", em que por quase toda essa extensão de terra e em grande parte dessas pessoas, há uma característica intrigante que diz respeito ao fato de esses seres acreditarem em factóides. Elas, aparentemente, lêem uma compilação de folhas feitas de celulose, com símbolos estampados, a que denominam "revista" e, mais especificamente, "revista Veja". Essa revista, não se sabe bem por que, gosta de enunciar mentiras, de assassinar reputações, de difamar e injuriar, e de praticar uma espécie de crítica rasteira e sem fundamento ou base. Ao que pudemos constatar, as pessoas lêem a "revista Veja" e acreditam no que ela diz, passando a compartilhar esse pseudo-conhecimento com outras pessoas que, interessantemente, também passam a acreditar no factóide. Ainda estamos tentando descobrir se por brincadeira ou por falta de evolução necessária.

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Acompanhe o relatório clicando aqui.

9.9.08

Sophia - Prólogo

Prólogo

O discurso sobre o apocalipse sempre teve ares de banalidade na sociedade moderna. Diariamente, cenários futuristas nada animadores são rabiscados em livros, jornais, programas de tv, salas de aula, profecias e conversas de bar no fim da noite: distopias totalitárias, catástrofes ambientais, deformação da evolução humana por efeito da medicina e da falta de predadores naturais, dependência não-saudável da robótica e informática, banalização das relações humanas, estupidificação da inteligência (?), pandemias devastadoras, e por aí vai.

Sem muita opção e fechando os olhos e orelhas a essas ladainhas intermináveis dos profetas do caos, o homem médio não pode fazer mais do que viver e ir vivendo, numa normalidade que, em 99% dos casos, frustra qualquer expectativa maléfica que as projeções aterrorizantes possam antever. Essa normalidade, rotineira e pontual, é expressão máxima do conflito que há entre ficção e realidade. De fato, a ficção investe sobre o cérebro humano numa velocidade deveras maior do que a realidade consegue e sua capacidade de demonstrar o extremo, o inimaginável, nada mais é do que uma espécie de alerta que amolda a realidade e conjuga, inconscientemente, caminhos a serem percorridos pelas vidas humanas sem que se permita a elas despencar no desfiladeiro do lugar ao qual os humanos não conhecem, mas que definitivamente não devem ir. É assim que se evita apocalipses e desgraças, tais quais os descritos acima.

Não que elas sejam "mentiras" (ficções). Para falar bem a verdade, quase nenhuma é, a menos que se deixe elas serem. Esse é o papel básico da ficção: nortear a realidade, ou, quem sabe ainda, talvez jamais saibamos, confundir totalmente aquilo que vemos e o que podemos escolher. O papel primordial da ficção é, portanto, fazer a desgraça perecer ou, quando estiver em vias de acontecer, que não surtem a dramatização esperada. Mas deixem de lado essa teorização absurda. O que quero relatar aqui são episódios acontecidos com Sophia, minha criação de um futuro pós-apocalíptico, ciborgue de um mundo sem traço de passado, sem sinal de esperança. Sophia é a redescoberta de uma inteligência e sensibilidade letárgicos no humano modificado (e ausentes no humano de hoje). É a tentativa de um resgate da própria alma do ser vivo pensante. Sophia é aquela que, como outros estranhos em terras estranhas, diria a qualquer um, com puro coração e sorriso nos lábios artificiais: "Tu és Deus". Sem mais.

3.9.08

Anúncio para um fim (parte 2 - final)

Não se perca: http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com/2008/08/anncio-para-um-fim.html (parte 1)

SENHORA VIÚVA
Valoriza vida familiar, deseja conhecer senhor de 60 a 70 anos, que procure uma companheira para ser feliz a dois.

Homem de palavra. Gostei. Ali estava o dito cujo, sujeito alto, caucasiano, de cabelos orgulhosamente brancos que de maneira alguma deixavam entrever sinal de calvície; a pele, apesar de levemente enrugada, era rija e tinha um quê de avermelhada, vestia uma calça social marrom, uma camisa de linho bege e um pulôver verde sem, no entanto, ser muito chamativo. Os sapatos estavam meticulosamente lustrosos. Parecia a personificação de um outono revigorante. De fato, estava ele ali parado à minha frente, com olhos de admiração e sorriso admirável. Aliás, olhos de uma profundidade incalculável, eternos. Veio em minha direção sem desviar um milímetro sequer o olhar e com o sorriso a estampar permanentemente a boca. Pegou minhas mãos de modo afável. Por sorte, sabia como evitar deixá-las frias e suadas.

"Flora! Que prazer encontrá-la. Você é muito linda, mesmo. Mais ainda do que eu imaginava".
"O senhor é um galanteador, hein...".
"Senhor não. Décio. Sem formalidades, ora. Vamos nos sentar?".

Sentamo-nos um de frente para o outro. O ambiente era acolhedor, embora muito comercial. Cravamos os olhares conjuntamente e, após breve estudo (ou admiração?), interpelei-o:

"Interessante a estrofe de Dante na carta. "No meio do caminho de nossa vida / me perdi em uma selva escura / porque o caminho correto estava perdido" (perdão a tradução tão seca). Mas não entendi seu propósito com aquilo".
"Entenderá, mas não agora".
"Assim você me deixa curiosa, Décio".
"É o meu objetivo! Hehe" (ele está me saindo um velho safado).
"Diga algo então".
"Apenas um minuto. Com licença, moça, você poderia trazer dois chás, por favor? E alguns daqueles biscoitos de nata que eu tanto gosto. Pronto, agora sim. Flora, Flora. É difícil para eu começar. Temos que concordar que nosso encontro não é muito casual. Não nos conhecemos pessoalmente, embora eu tenha a leve impressão de que sempre estive a sua espera..."
"Também sinto isso, é estranho, como se por toda minha vida, estivesse destinada a você" (jamais entendi de onde saíram essas palavras, não era como se EU estivesse falando).
"Sim, exatamente. É por isso que podemos nos sentir à vontade. E, além disso, ... opa, obrigado pelo chá, Maria... voltando, além disso, é essencial que você entenda como me senti magnetizado com aquele anúncio. Peguei o jornal despreocupadamente, numa atitude rotineira, e me dei de cara com algo que, a meu ver, pode mudar a minha e a sua vida. É muito, muito surpreendente mesmo que possa estar olhando para seu rosto agora e concretizando o que sonhei, desde que li seu anúncio".
"Isso é muito bonito, Décio. Confesso que fiquei muito envergonhada de tornar aquilo público, sinto-me feliz que tenha tido tal acolhida. Mas conte-me como você está aqui hoje, digo, um homem como você deveria ter mulher, namorada. Algo".
"Já tive namoradas, casei-me uma vez, mas tudo isso faz muito tempo (muito mesmo) e há anos havia decidido me tornar apenas um homem solitário, que não quer dar problemas para ninguém".
"E o que o fez mudar de idéia? Espera...não me diga que olhava aquela página atrás de...ah meu Deus...!".
"Não, não! de maneira alguma. Entendo o que você quer dizer, haha, é até embaraçoso, mas não, o que explica eu ter lido aquela página é o simples fato de eu começar a ler o jornal de trás para frente. Estranho, não?".
"Ufa, sinto-me aliviada. Passei tanta raiva com o lugar em que colocaram meu anúncio".
"É, de fato, uma indelicadeza com um propósito tão bonito quanto o seu, Flora".
"Esse chá e biscoitos estão uma delícia".
"Ganhei um ponto então".
"Muitos".

Aquele jogo me fascinava. Não tivera nada parecido na adolescência, nem quando fora adulta e ainda mais quando velha. Naquele momento eu estava tendo um encontro. Um encontro. Parecia que cada segundo dos meus 68 anos tinha me levado até ali e, caso não tivessem, pelo menos o descaminho valia a pena agora.

Beijamo-nos num banco de parque que havia ali perto. O beijo dele era suave e um pouco molhado demais, mas era uma delícia. Eu havia esquecido essa sensação de beijo, de compartilhar algo. Até os 40 eu tivera ótimos e freqüentes beijos e, a partir daí, comecei a achá-los nojentos. Não sei se por causa do péssimo marido que arrumara (que se revelara um crápula) ou se por desmotivação completa da falta de paixão que a vida adulta nos obriga a engolir. Agora tudo isso era sepultado com uma língua fantástica.

"Sabe, Décio, isso é tudo maravilhoso. Me sinto mais viva do que nunca, numa idade em que nos julgam a alguns passos do cemitério. Você tem mesmo essa pretensão de passar seus dias comigo, de, como eu havia anunciado, ser feliz a dois?".
"Completamente, Flora. Meus propósitos com você são os mais lúcidos".

Eu provava de uma paixão ardente. E a cada pessoa que olhava na rua, que passava por nós dois, de mãos dadas, e expressava asco ou estranheza, eu sentia vontade de gritar: "olhem! sou feliz! tenho alguém! estou viva!". Eu queria demonstrar de qualquer maneira que minha vida, ali, naquele momento, valia a pena. Décio talvez tivesse percebido isso e, me abraçando com força, disse:

"Quem dera todos esses jovens deixassem a prepotência de lado e passassem a admirar mais experiências como a que estamos tendo agora. Quem dera eles parassem de achar que sabem tudo e que são capazes de tudo e resolvessem aprender um pouco conosco, de que a vida pode valer a pena, com a idade que seja".

Naquele momento, a única coisa que eu lamentava era não ter conhecido aquele homem antes.

Não demorou muito eu estava na casa dele. A casa era um tanto quanto soturna, de uma escuridão grudenta, pegajosa. Os móveis eram todos antigos. A casa ocasionava medo e, também, ou por causa disso, respeito.

Aqui, novamente, peço para não me julgarem. Ou julguem, se quiserem, mas naquele momento, nada mais me importava. Aquela era a hora da vida ser vivida, então, se, por um acaso, você que me lê sentir nojo por eu ter feito isso, vá para o inferno.

Após ter tirado minha roupa, Décio, apenas de cueca, pegara algo numa gaveta ao lado da cama e me mostrara, com um sorriso até a orelha de perversão, uma pílula azul.

"Tomei-a há alguns minutos atrás. Já sinto os efeitos. Quero ser feliz, a dois".
"Sejamos".

E fomos. A voracidade de Décio me acabrunhava, mas logo me soltei e passei a esquecer que tinha 68 anos. Não me importava mais por meu corpo não ter a mesma estética de quando eu tinha 20 anos. O prazer com que Décio me mordia e me penetrava não deixava dúvida de que isso não era levado em conta. A fruição com que me possuía revoluciona-me de dentro para fora e é assim que me senti mais bela, por mais que isso soe piegas.

Entretanto, no meio do ato, por crueldade do destino ou por ação de uma consciência medrosa que possuo, mandei-o se afastar. Chorando, lembrei, não com certo desgosto, de meus filhos, de meus animais, de meu falecido marido (ainda que eu o odiasse), da minha vida regressa. Os segundos que outrora mencionei, por mais que tivessem me libertado e me atirado aos braços daquele homem, agora faziam questão de me lembrar da minha condição de escrava. Escrava de toda uma vida passada, em que eu era mãe e mulher. Uma vida que me obrigava, agora, a desistir de todo aquele prazer, de toda aquela emancipação, para assumir meu posto de honra de viúva que merece definhar sozinha, até que a morte me alcance.

"Flora", disse Décio, ainda com o membro ereto, me consolando em seus braços, "esqueça tudo o que você viveu, sua vida é aqui e agora. Você não pode ser tão medíocre a ponto de deixar que todas essas correntes que te prendem continuem te amarrando a uma âncora que vai lançá-la ao fundo do oceano. Viva!"

Disse isso sem eu ter me queixado de nada, como se adivinhasse meus pensamentos. Meu carinho por aquele homem era enorme e o tom duro e sábio com que pronunciou suas palavras me fez estremecer e me curvar à verdade. Não. Não me curvei à verdade. Isso seria somente deixar de lado as algemas de uma vida que me tornou escrava, para substituí-la por outra que me faria refém de uma sentença. Eu teria que aceitar e querer aquela verdade. E assim o fiz. Pedi licença a Décio e fui ao banheiro. Olhei-me no espelho e não soube identificar que idade tinha. Podia ser 20, 68 ou 10 milhões. Olhei-me profundamente mesmo assim e resolvi abdicar de tudo.

"MORRAM!", gritei. E sepultei minha família. Estavam mortos. Deram felicidades e tristezas, sem dúvida, mas agora estavam mortos, não fazia diferença. Tinha carinho por eles, mas uma lembrança não pode obstruir uma vida. Acabei me cansando do meu próprio drama e, se ele possuíse uma forma física, cuspiria nele agora.

Voltei ao quarto.

Com carinho, voltamos a transar, ainda sentindo, e agora parecia ser em dobro, toda a esfuziante sensação de poder compartilhar algo, algo que havíamos esquecido, algo que achávamos extinto. Sentindo o corpo quente de Décio sobre o meu, pude gozar de uma sensação de segurança e esperança jamais sentida e, com um grito primal, expressei meu mais digno orgasmo.

Epílogo

Não sei bem se poderia escrever isso. Dizem para nós não revelarmos nada depois que acontece e que viemos para cá. É algum tipo de cláusula. A verdade é que estou me fodendo para isso. Vi tudo o que aconteceu, não sei como, mas vi. O gozo, ainda que isso seja um pensamento empírico, clarifica a mente. Quando parei de gritar e abri os olhos, o que estava na minha frente não era o senhor alto, de cabelos orgulhosamente brancos, pele levemente avermelhada e etc. Não era.

O que estava na minha frente tinha a altura incontestável de uma majestade, talvez mesmo de um anjo, algo celestial. Cobria-se com o mais negro dos mantos, tão negro que parecia distorcer e engolir tudo à sua volta, como se fosse um buraco negro a sugar o que não fosse ele mesmo, o Essencial. O próprio universo estava à minha frente e segurava uma foice. Uma foice tremendamente prateada que, por mais que fosse um objeto de destruição, visando ao caos, estava ali para seguir a ordem das coisas. Aquele era o chamamento. O corte rápido e certeiro era o chamamento. O gozo e o grito eram a maneira de morrer dignamente, de deixar esse mundo elucidada, de compreender tudo. Tudo estava ali e passei a viver realmente quando estava prestes a morrer. O anúncio, o chá, a paixão, o beijo, a raiva, a cama, a pílula. O anúncio, ah o anúncio. Como eu, na minha infinita ignorância, poderia prever que cada ato meu, e ainda mais aquele diretamente, nada mais eram do que a terrível vontade de gritar pela Morte, de implorar-lhe que me levasse. Fui levada.

A despeito de ficar estupidificada com todo o negror com que estava vestido e com a precisão com que sua arma letal me chamou, eu ainda tive tempo de olhar bem nos olhos de Décio, embora eu não saiba se o nome do mensageiro da morte seja mesmo Décio. Olhei bem fundo e ali estavam aqueles olhos profundos, eternos, iguais aos do ser que mais amei na vida.

Aqui, da onde escrevo agora, conformada e não tão velha quanto toda a sapiência do Universo, posso garantir a vocês: sou feliz.