5.8.08

Estática de Grupo

A frente do lugar era a fachada de um prédio qualquer. Formato cúbico, devia ter lá uns três andares. Era uma empresa de RH conceituada. Ali ocorreria a temida "dinâmica de grupo".

As pessoas na frente desse prédio tinham rostos como rostos de qualquer pessoa. Mediram-me de cima a baixo quando cheguei. Eu, por meu turno, limitei-me a olhar meus sapatos e, vez por outra, criei coragem para ver quem me desafiava visualmente. Eu e aquelas pessoas, já advirto, não estávamos ali por nada glamuroso. O emprego almejado era o do manjado atendente de call center, portanto, se o que procuras aqui é a vida boa de um escritor filhinho de papai, caia fora, leitor! As crônicas aqui escritas são universitariamente pobres.

Ao sermos chamados, entramos no prédio, não antes de receber uma fita adesiva contendo nosso nome, que devíamos colar no peito. O meu dizia, com letras femininas: "Victor".

Atrás de mim seguia uma menina bem conhecida minha. Aliás, conhecida por demais: era minha namorada. Mas era namorada fora daquele prédio. Dentro, éramos fingidamente desconhecidos, ou simples amigos.

A cautela se devia ao fato do capitalismo não ser adepto das forças da Natureza, como, por exemplo...como calcular a mais-valia levando em conta o fato de que uma diarréia pode afetar o trabalhador? Ou então...admitiriam eles que seus empregados cochilassem, mesmo estando extremamente cansados? Essas coisas não entram na mente do Capitalismo. Imaginem então um relacionamento. A mim basta saber que a menina atrás de mim é, estrategicamente, minha concorrente.

A sala a qual fôramos levados era ampla, bem iluminada, e várias cadeiras haviam sido distribuídas em formato oval, sendo que no centro havia duas cadeiras voltadas uma de costas para a outra, o que me fazia lembrar, com melancolia, daquela brincadeira em que se tinha que rodar em volta das cadeiras enquanto a música tocasse e, quando ela parasse, tinha-se que sentar o mais rápido possível numa cadeira vazia. Fui campeão disso numa gincana da quarta-série, ora.

Eu e minha concorrente havíamos combinado de nos sentarmos mais ou menos afastados um do outro e assim o fizemos. Olhadelas eram inevitáveis e mentes mais aguçadas teriam pensado: "aí tem coisa". É difícil fingir não ter intimidade com sua própria namorada.

A estagiária de psicologia - tipo tão odiado por pessoas que fracassam em dinâmicas de grupo - logo se sentou numa das cadeiras e começou a dar informações, a ditar regras e a prever critérios. Uma ou duas pessoas prontamente se retiraram. Não estavam aptas a seguir no processo.

Cada um dos candidatos começou a se apresentar e eu nervosamente disse quem objetivamente eu era. Ali estavam pessoas de todo tipo: estudantes de ensino superior, de ensino técnico, desempregados, empregados insatisfeitos, mães, solteiros, casados, casadas, enfim, pessoas de tipos vários. As anotações nas pranchetas da psicóloga e da estagiária eram rígidas e pontuais. Algumas pessoas se descreviam como se fossem currículos, outras aparentemente tinham treinado tanto o que iriam dizer que pareciam robôs, havia até quem falasse tão baixo que beirava ao ridículo.

Feito a apresentação, enumeraram as pessoas, alternadamente, com os números 1 e 2. Os 1 deviam sair da sala e receberiam algumas instruções. Eu era um 1. Saí e foi-me dito que deveria interpretar um papel, através de um fato que me passaram. O 1 e o 2, então, sentar-se-iam um em cada cadeira que estava disposta no centro da sala e fariam seus papéis. Os 2 teriam de fazer, obrigatoriamente, o papel de atendentes.

- Victor, você fará uma pessoa que deseja saber mais sobre toques de celular, como baixar, se existem na internet, etc.

Comecei a me concentrar então.

Imaginei-o: um tiozão. 50 anos de idade. José. Burro às coisas atuais. Bastava.

- Triiim, comecei.
- Empresa, bom dia, como posso ajudá-lo?, disse o 2 que me acompanhava.
- Qual o seu nome, rapaz?
- Fulano.
- Boa tarde, fulano. É o seguinte: ontem eu estava com meu sobrinho na minha fazenda...
- Qual o nome do senhor?, interrompeu-me.
- José, José Augusto.
- O senhor poderia me falar o número do seu celular e o número da identidade, por favor?
- Ah sim... 3333-3333 e 444400555. Mas como eu ia dizendo...eu estava com meu sobrinho na minha fazenda quando o celular dele começou a tocar um tal de Créu. Eu achei aquilo muito legal e ele me disse que era um tal de toque de celular. O que são toques de celular?, inventei eu, com um leve sotaque de fazendeiro gaúcho.
- São sons que o celular toca quando recebem chamadas, senhor.
- Ah entendo, e como que eu arranjo isso?
- O senhor vai no site da Empresa , vai em tal seção e pode baixar a música, disse rapidamente o 2.
- Vou entrar...entrei, é esse tal Mc Créu?
- Isso mesmo, senhor.
- Certo, é só isso então?
- Só. Mais alguma coisa, senhor?
- Só isso.
- Empresa agradece, tenha uma boa tarde.

Eu, garoto quieto, reservado, sempre sisudo. Certas horas percebo o tal cavalo que nunca passa duas vezes galopando em minha direção e prontamente monto no infeliz. Interpretei bem o José, arranquei alguns risos. A psicóloga anotava.

Ao voltar à cadeira, a minha amada concorrente me olhava com olhos de admiração. Imaginei que os outros rapazes me olhavam com nítida estranheza, como se não entendessem por nada nesse mundo como aquela bonita garota me dispensava olhares tão reveladores. Ah, se soubessem!

Ela também interpretou bem o seu papel. Ela era um 2, o que tornava a tarefa dela mais difícil. Saiu-se bem e isso garantiu a ela o ingresso na próxima fase, assim como eu. De aproximadamente 25 pessoas, restava agora umas 8. Eu, ela, e algumas pessoas que tinham algo a oferecer para a empresa. O resto, sob o meu acanhamento e minha vergonha por vivermos numa espécie de crueldade seletiva, foi dispensado.

A fase seguinte consistia em uma prova, uma redação e um teste de digitação. A prova era ridícula. A digitação era ridícula. Na redação, não pude deixar de destilar ironia pelo tema: "quem sou eu". Escrevi bem, afinal, é isso que sei fazer. Quem sou eu? Uma pergunta que o capitalismo simplificou tanto que você pode se identificar com o que você faz, com o que você veste, com o que você ouve, com o que você estuda e trabalha: essas coisas dizem o que você é, ora! Não, é?

Mas, após citar Machado de Assis e Sartre, chamando-os de mentes ilustres e exaltando o fato de que morreram sem saber responder a pergunta-tema do texto, não pude deixar de escrever:

Portanto, peço licença aos camaradas mortos e me descrevo em claras letras: sou um rapaz normal, em busca do primeiro emprego, desejoso de ser útil e poder contar com uma renda com a qual possa comprar livros de outras mentes ilustres para rechear redações como essa com pensamentos que me diferenciem do restante do mundo.

Terminadas minhas tarefas, fiz rápida entrevista com a psicóloga e então pude ir embora.

Pude então segurar a mão de minha namorada, sem mais nenhum temor, sem imaginar que estava no roteiro do filme O que você faria?, filme espanhol que retrata muito bem a situação vivida por mim nesse dia.

O que não se faz por um salário, não é mesmo?

4 comentários:

A_for_Anetta disse...

Meu amado concorrente x)

Pensei que seria horrível se tivesse que competir com quem amo um dia, mas só ontem pude perceber que mesmo como concorrentes pudemos unir nossas forças. Mesmo que a gente não consiga o emprego valeu a experiência!

- Vamos embora? - disse o desconhecido a mim.
- Vamos! - respondi. E fomos embora de mãos dadas.

=****

Thatá disse...

"A estagiária de psicologia - tipo tão odiado"

como alguem pode odiar pessoas taaaao legais!?!?
AuAHuAHuAHAU



=***

A Menina dos Olhos de Caleidoscópio disse...

toque do Mc Créu
hahahaha
personagem bem alegrinho

· dannie · disse...

eu que o diga, aguento diretora de escola mal-comida! mas no 5º dia útil do mês tudo compensa!