29.8.08

Anúncio para um fim

SENHORA VIÚVA
Valoriza vida familiar, deseja conhecer senhor de 60 a 70 anos, que procure uma companheira para ser feliz a dois.


É o que me restou, não digam nada. Não me julguem. Perdi filho, filha, marido, cachorro, papagaio e gato siamês. E o que me sobrou foi um anúncio de jornal. Uma tentativa, admito, mas que rendeu pano para manga, garanto.

Perdoem-me se pareço um pouco rabugenta, os anos não são fáceis, são duros, pesam como chumbo num corpo velho e carcomido como o meu, pressionando-o contra a terra, numa tentativa medonha de mostrar-me o futuro nada distante. A gravidade pode ser o maior indício de que pertencemos ao único lugar de onde saímos. Foi em algum momento dos meus 68 anos que percebi isso.

Mas a verdade é esta e somente esta. Com os anos passando, percebemos que qualquer eufemismo é ilusão e acabamos nos acostumando com a crueldade desse mundo naturalmente cruel. Sou velha, morrerei. Triste, solitária, deprimida. Não! Não! Não pedi que fiquem tristes, estou acostumada, já disse.

Perdi meu filho aos 50 anos. Ele tinha 25, tão novo meu bebê...morreu num acidente de trânsito, em que, lógico, quem estava errado era o motorista bêbado do caminhão a 100 por hora cruzando sinal vermelho. Minha filha morreu cinco anos depois, vítima de um bandidinho qualquer que a assaltou e depois decidiu matá-la (diversão?). Meu marido, bem, esse morreu de velho mesmo, já foi tarde. O cachorro morreu de doença e o papagaio morreu comido pelo gato siamês. O gato siamês eu mandei sacrificar mesmo.

Detesto parecer uma velha insensível. Outro dia me chamaram de "projeto de Dercy Gonçalves", o que, antes de xingar até a 4ª geração da família do desgraçado, reputei como uma tremenda falta de educação. Sou uma pessoa bondosa...apenas não tenho com quem sê-la.

O que de fato ocorre é que sou infeliz. Ou era. Fui. Passei uns bons anos nesse estado de depressão, me tornando casmurra, tal qual o Dom, tentando me tornar uma fantasma que vive para recordar. Fui assim até que decidi perceber que ainda vivia. Enrugada e alguns centímetros menor, mas viva.

Como pessoa viva, precisava viver. Talvez as gerações mais novas não entendam...mas fui criada com uma idéia duradoura de que só se é feliz constituindo família. Realmente necessito de alguém do meu lado. Entendam, perdi todo mundo e estou aqui nesse mundão, abandonada. Gosto de conversar, de cozinhar, de coser. Gosto também das novelas, principalmente das da tarde e das que passam às 6. Nisso tudo, se não tiver para quem fazer, com quem estar, quem ajudar, enfim, que graça tem?

A idéia do anúncio de jornal foi da Nadir. Ela, velha safada e experiente, não tem nada da vovó que todos supõem santa e semi-morta para a vida conjugal. Está mais viva do que muita cocota de 20 anos e eu não posso deixar de sentir - não me julguem ora! também gozo de toda a evolução dos direitos das mulheres! do século passado - uma pontinha de inveja. De qualquer maneira, ela recomendou e eu, depois de refletir muito e muito, decidi fazer uma visitinha ao setor de classificados do jornal local. Estava viva.

Quase tive um treco quando o anúncio saiu. Senti um misto de vergonha e medo, talvez ainda reflexo de todo o tempo que em fui reprimida, ou simplesmente pudor natural, não sei. Ah, mentira, já sei sim, lembrei. Meu anúncio havia saído duas colunas ao lado dos anúncios de ... "massagistas". Meretrizes. Dando uma olhada, juro que não consegui compreender qual a tara atual dos homens por universitárias. Ainda bem que não tive netas. E o que Deus é "boneca"?! Esse mundo está perdido e agora eu figurava ali, ao lado das personificações da Perdição.

Por sorte, o jornal tem um serviço em que recebe as propostas em sua própria recepção e não precisei oferecer endereço nem nada. Deus me livre. As minhas correspondências deveriam conter a sigla "amor08". Lógico que isso foi idéia da atendente.

Fiquei nervosa, não nego, passei uma semana inteira sem nenhum aviso do jornal de que havia algo lá para mim. O tempo passava odiosamente, lentamente, uma lesma cruel e sádica, capaz de me deixar aflita como quando tinha 16 anos e namorava no portão, esperando o Sargento Rodrigo, o partidão.

Ao cabo de uma semana e meia, cansada de olhar para o telefone esperando que ele criasse vida e me desse notícias boas, decidi eu mesma ir à recepção do jornal ver o que diabos acontecia ali. Que disparate nenhum senhor se interessar por mim! Chegando lá, me deparei com uma sonsa de uns 25 anos, meio gorda e horrendamente feia.

"Olá, mocinha, meu nome é D. Flora e talvez você tenha alguma correspondência aí para mim. Anunciei há uma semana e meia atrás e ainda nada!".
"Talvez, senhora".
"Isso, talvez, procure aí, a sigla é amor08".
"Hum...não parece haver nada aqui assim. Opa, espera, o que é essa carta aqui jogada atrás da CPU? Céus, é sua carta, senhora! Mil perdões, D. Flora, aqui está".
"Mas ora!"

Eu não sabia, não queria saber e não dava a mínima para o que era CPU, mas a maldita estava escondendo minha carta. Quase tive outro treco ao ver que havia uma carta para mim. Meu pobre coração agüentaria tudo isso? Fiquei imensamente feliz (apesar de não demonstrar enquanto ralhava com a pivetinha), mas também fiquei desapontada. Poxa, só UMA carta? Ok, perdão, sou velha (nunca me deixam esquecer isso), mas minha auto-estima deliberadamente feminina continua do mesmo jeito, intocada. E ai de quem discordar.

Relevando esse fato, corri para a casa, incapaz de conseguir abrir a correspondência a não ser no conforto da minha poltrona e com uma xícara de café do meu lado. Quem dera o Tomas também estivesse no meu colo essa hora, para eu acariciá-lo, mas eu mandei matar o felino desgraçado.

Quando aprumei-me em meu canto, recortei vagarosamente a aresta direita da carta e, com mãos trêmulas (não tenho mal de Parkinson), retirei de dentro do envelope a seguinte mensagem:

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

Só isso. Não havia descrição, foto, mensagem de amor, elogios, sonetos nem nada. Era simplesmente uma estrofe dantesca, dantesca mesmo, pois que a mesma que inaugura A Divina Comédia. Tentei entender se aquilo era uma gozação ou o sinal de que um intelectual se interessara por mim, sem resultado.

Mais ao fim da carta havia apenas um número de telefone. Raivosa, liguei.

"Alô?"
"Boa tarde" (hum...voz grossa, ressonante)
"Quem fala?"
"Meu nome é Décio, quem fala aí?" (Décio...Décio...feio)
"A ... 'Senhora viúva'" (socorro...)
"Oh! Poxa! Perdão! poxa... qual o nome da senhora?"
"Flora" (odeio meu nome)
"Lindo nome. Sabe, Flora, cheguei a pensar que nunca ligaria..." (oum...)
"A CPU estava escondendo minha carta"
"Hein?"
"Nada...bem, eu liguei...e agora, o que fazemos?"
"Bem, podemos fazer muita coisa, mas acho que tudo começaria melhor com um chá, para melhor nos conhecermos, afinal de contas, queremos ser felizes a dois. O que acha de me encontrar na Holandesa?"
"Holandesa, sei. Ótimo, ótimo, adoro chá. Às 17, amanhã?"
"Sua voz é linda"
"Ahn...he...obrigada" (68 e corando, Deus...)
"Para mim está perfeito, Holandesa, às 17"
"Como faço para saber quem é você?"
"Serei o único senhor a olhá-la com olhos de admiração. E sorrirei. Agora preciso desligar, Flora, até amanhã!"
"ah, esp...certo, tudo bem, até!"

Desligamos ao mesmo tempo. Meu coração acelerava e eu jurava que tinha 15 anos. Quando passei na frente do espelho, mandei-o para o inferno e passei o resto do dia sorrindo e lembrando velhos dias dançantes, para lá e para cá, cheios de uma lúcida e nostálgica lembrança de prazer e arrebatamento. Dias em que Décios, Ricardos, Rodrigos, Marcos e Antônios me encaravam e me desejavam. Dias mortos e vivos, ao mesmo tempo. Que homem misterioso esse tal de Décio!

(continua...)

Parte 2

7 comentários:

Mandah :3 disse...

Projeto de Dercy Gonçalves UAHUAHUAHU

adorei, Victor!

(olha que comentário mais útil D:)

[Ice em sua fase Aspone] disse...

huhuhuh
É o tipo de Dercy que frequentaria a igreja, procurando senhores viuvos perdidos entre as catolicas :D

;********

A Menina dos Olhos de Caleidoscópio disse...

As vantagens de ficar pra maracujá de gaveta é que se pode perder a vergonha numa boa, apertar a bunda dos mocinhos na fila do banco e ligar pro chat line

A_for_Anetta disse...

Medo de envelhecer assim... Será q a tia q tava dançando no Terra Celta é uma pobre viúva cuja única diversão é dançar música celta com a mocidade?

Torço pra que o tal Décio (pq esse nome estranho? oO conheço DeLcio, Décio não...) seja um velhinho simpático, alegre, bonitão e sexualmente ativo... Essa senhora está precisando!

Enfim, adorei o texto!

=********

CèS disse...

Rapaz, eu poderia comentar n coisas mas não tô sabendo sintetizar - dona Flora e seu Décio o farão muito bem ;D

(Nota - seu aniversário também foi precedido de um forte momento de bode astral? Pergunta indiscreta de leonina para leonino)

CèS disse...

Na minha tenra infância (ainda não terminada, ok) eu era nintendista convicta. Aliás, sou até hoje, mas menos peremptória então se alguém quiser me dar um PS2 eu aceito XD (ou um megadrive hahaha)

Mães sempre fazem isso. Eu me pergunto o quão trevoso vai ser quando a gente for pai. Mas meus filhos jogarão videogueime.

Ah, tava rolando uma zica forte pré aniversário, depois sabe que passou? Quer dizer, passou, não sei se é o verbo - mas definitivamente anda menos from hell.

CèS disse...

(Nota bocó antes que eu esqueça: o Zaratustra não me irrita tanto. Só a repetição incansável dele como pessoa jogando pérolas aos porcos que dá no saco. (tudo bem, eu só li 2/3 do livro porque não deu tempo de ler tudo E fazer o trabalho de filosofia II haha!) Mas o Sartre, sim, me irrita. Não inventou nada desde Aristóteles e fica miando. Han)

Pô, eu só me senti velha MESMO com aquele gameboy de 2 telas. Aí foi uma overdose. Pokémon com 2 telas é falta do que fazer hahaha

Ah, Murphy! São uma família inteira só pra nos azucrinar.

Feliz aniversário atrasado pra você também (o seu é, inclusive, mais recente ;D)