30.7.08

Vamos virar gente grande

Diálogos de balcão numa estratégia capitalista

Fase 1 - Xerox
- Boa tarde, me vê 20 cópias desse [curriculum].
- Ok.
...
- Aqui está. São x reais.
- Obrigado!

Fase 2 - Escritórios
- Boa tarde, você poderia me dizer quem é o responsável pela contratação de estagiários?
- É o fulano.
- Ele está disponível?
- Tá numa reunião...mas pode deixar o currículo aqui mesmo.
- Ah, pode? Ok então, aqui está. Obrigado, boa tarde.
- Boa tarde, tchau!

Fase 3 - Telefonema
Eterna espera...

26.7.08

Sinfonia da Carência

Como que tomado pelo apego mais carinhoso do pianista por seu instrumento de trabalho e arte, o garoto desfilava os dedos magros e finos pelas costas da garota numa delicadeza sem precedentes, e ia saboreando toda a textura da pele da pequena com a ponta dos dedos, envolto na sua sinfonia, sendo aquele ato o seu meio de atingir todo o ápice do carinho que poderia oferecer.

Ia num ritmo delicado, porém firme. Por vezes parava e exalava aquele sentido de êxtase extraído de cada nota ou gemido da pequena. Cada tremor era para ele uma vitória de seus dedos.

O caminho mais preferivelmente percorrido era o já traçado por Deus: o lustroso vão que indicava o comprimento da coluna. De lá, partia para rápidas voltas nas nádegas, e então gozava do prazer de vê-la se contorcer com cócegas quando perambulava com seus dedos pelas laterais do corpo. Por vezes passava pelos braços, mas não esquecia nunca, nunca mesmo, de visitar a nuca, onde parecia atingir o cume da sinfonia.

Súbito parou. Abraçando-a dolorosamente, sentiu o coração apertar, como que vítima de uma substituição sinistra: sentia que pelo seu coração corria um veneno negro e depressor, o que o fazia se contrair numa dor infinita, traduzida pela mais pesada das angústias, que o arrastou trevas abaixo e ocasionou seu nefasto arco-reflexo em busca de salvação no corpo da garota.

Sentia ali o peso dos erros. Erros cometidos em desvantagem da garota. Erros os quais ela, por amor, perdoara.

Mas não convém contar os erros do garoto. Garotos erram. Garotas erram. Somos seres destinados a errar, por toda a eternidade. E é por uma somatória de erros grotescos que a sociedade se emaranha numa imbecilidade letárgica, que nos enfadonha com a esperança de um mundo sem erros, de um parceiro sem erros, de uma família sem erros, de um emprego sem erros. Essa é a única diferença entre os sobreviventes do mundo errático em que vivemos: aqueles que vão agir sabendo da sua condição de errôneos, ou seja, vão aprender a mudar as coisas conforme sua vontade e conforme a solicitude da vida e aqueles que se afogam nos próprios erros, incapazes de se livrar das amarras com que se enforcaram, de nadar contra as águas com as quais se afogaram.

O mundo é erro enquanto pecado de Eva, enquanto remorso de Caim, enquanto obediência de Abraão, enquanto culpa de Sophia pelo Conhecimento ter se prostrado defronte o Mal e ter originado o Demiurgo, enquanto a criação mirabolante do cientista que se torna arma letal. O erro se espalha por onde quer que se olhe e o mais correto dos acertos, com espantosa surpresa dos que criam nele, transforma-se em erro.

Por isso mesmo, após parar subitamente sua sinfonia, o garoto não viu saída. Viu isso não tristemente, como os fadados à morte, mas com resignação, como os mártires que aceitam seu destino de símbolos: viu com um sorriso no rosto, sorriso tímido, e um olhar perscrutador: continuou sua sinfonia da carência, com seu carinho de pianista.