11.5.08

Um estranho no ninho: fraternidade e casamento

- No momento, o número chamado encontra-se desligado...

Olhei novamente o relógio do saguão do aeroporto e constatei, amargurado, o significado da uma hora de espera a que fora sujeito: ninguém viria me buscar.

Isso não me abalou. Que importava que eu me encontrasse em uma metrópole fria e cinzenta, lugar gigantesco e totalmente desconhecido a mim? Encontrava-me em Curitiba. O que se tornou facilmente perceptível quando adentrei a estação-tubo e esperei temeroso o eficiente ônibus da capital paranaense.

Eu e minha mala preta rapidamente nos tornamos personagens esquisitos de uma crônica curitibana que envolvia um frio de 5 a 10 graus, um céu cinzento, pessoas quietas que não se dispunham a me ajudar com informações e meu dinheiro que se esvaiu rapidamente com cartões de telefone, passe de ônibus e táxis.

Ninguém havia me esperado no aeroporto. Nem pai nem irmãos, muito menos alguém solícito que porventura viesse a estar com uma placa escrito "Victor Hugo" atrás da porta do desembarque. Como eu disse, o fato não me abalou e me aventurei nos ônibus com vigor e inocência. Infelizmente, informações desencontradas e a falta de um toque de companheirismo totalmente esquecido pelos habitantes das grandes cidades me fizeram ficar de lá para cá no transporte público durante umas boas três horas. Quando cansei, resolvi abrir a carteira e paguei um táxi para me levar até a casa do meu irmão.

Chegando lá, nova surpresa: ele não estava. Comecei a me sentir desolado e o frio ajudava muito nisso. Depois de torturantes quarenta minutos um milagre: o porteiro "lembrou-se" de que meu irmão deixara a chave para mim. Finalmente um lugar quente para ficar!

O apartamento não era aconchegante. Um profundo cheiro de cigarro (e outras coisas mais...) e uma aparente desordem revelavam claramente ser o apartamento de dois professores de filosofia. Com muita fome, logo me dirigi à geladeira: nada além de cerveja e manteiga. Uma bandeira da Palestina estampava orgulhosa a porta do quarto do meu irmão, dentro, um pôster do Lula 13 decorava a parede, juntamente de um anúncio da Kaiser com muita voluptuosidade.

Liguei a TV. Desliguei-a logo depois. Resolvi sair e comer. Ao voltar, o telefone toca: é meu irmão e diz estar chegando em pouco tempo.

Ao chegar, vem acompanhado do amigo que divide o ap com ele e também de meu irmão meio-japonês (meu pai tem seis filhos com cinco mulheres diferentes). Cumprimento-os feliz, não os via há anos, o dono da casa a sete.

Agitados, logo combinam de sair e sou levado a um boteco bem decorado, República. A cena de entrada me parece muito familiar, já vista em algum filme anglo-saxônico: pessoas com casacos, gorros e cachecóis entrando num corredor estreito, se despindo das roupas de frio e sentando numa mesa apertada. Eu realmente adoro os momentos em que minha vida se assemelha a um filme, parece fazer valer a pena.

Depois disso volto para a casa de meu irmão e fico feliz ao ver uma maleta prateada, ela significa poker. Começo péssimo, com medo de arriscar e perdendo fichas à toa. Melhoro, começo a me destacar, de sete restam três na mesa e sou um deles. São 5 a.m. e a fumaça do cigarro e a tonteira da bebida começam a me fazer mal. Em dois all-ins suicidas retiro-me sem glórias do jogo.

O colchão posto no chão não tem nada de sofisticado ou confortável: é uma espuma condensada em formato retangular. A coberta segue o mesmo caminho: é uma cortina velha. Durmo profundamente, com frio.

Acordo sentindo que arremessaram o Everest em cima da minha cabeça: o telefone tocava. Fingi que não acordei. Alguém atendeu, voltei a dormir.

Acordei necessitando de muita água. Almocei pão com mortadela e esperei uma longa tarde para que chegasse o momento do motivo pelo qual havia ido para Curitiba: o casamento de um dos meus irmãos. Por fim, arrumamo-nos e olhei-me vaidoso no espelho. Fico bem de terno.

O padre arrastava sua voz enfadonha contando piadas sem graça e rezando palavras que para mim soavam inúteis. A cerimônia foi simples, formal e bonita. Casaram da forma mais tradicional possível.

A festa teve pompa. Mas não saberia bem dizer isso. Tive de ir embora, pois a minha passagem era para as 00:15 do domingo, ou seja, dali a pouco. Senti-me triste por abandonar meus irmãos e meu pai, mas senti que devia ir.

Senti isso pois é difícil ter em mente que tantas pessoas que você mal conversa e dificilmente vê tem metade do seu sangue, são seus irmãos. Senti-me aleatório, estranho. Ali estavam pessoas que dividem algo comigo, mas de uma forma não-natural, minto, é a forma logicamente natural, mas não socialmente contundente. Conseguia sentir carinho, mas não algo que fosse mais longe. São meus irmãos, mas quanto falta para que possa chamá-los assim de boca cheia! Ao mesmo tempo, culpei-me por ser tão dissociado do contato humano. Sou eternamente diferente, arisco, dependente de muita força de vontade e de afinidade para sentir-me à vontade com alguém. Esforço-me, mas fica evidente que sou um estranho no ninho.

Peguei um táxi e fui embora, de terno.