8.4.08

Capitalismo tupiniquim

Já cansei de contar histórias de ônibus. Ônibus são, por excelência, lugares para histórias de pessoas que, a meu modo, não passam de sonhadoras introvertidas. Pessoas que pensam muito e agem pouco e, talvez pelo balançar do grande veículo, tão assemelhado ao ninar da mãe, colocam-se a imaginar milhares de coisas somente pelo vislumbrar da janela ao lado. Janelas são coisas misteriosas assim também, mas não vêm ao caso.

Permiti-me à digressão inicial pois estava eu num ônibus quando imaginei esse post. Não basta estar num ônibus, tenho de estar, também, sozinho. Sozinho, pensativo, às vezes triste. São elementos necessários para eu superar minha habitual preguiça e escrever.

Bem, o ônibus não é o palco fundamental desta história, mas sim o Capitalismo brasileiro.

"Lá vai ele a retratar novamente a política ou a economia!". Sim, de fato, essa é a minha faceta mais chata, mas também a mais necessária, a menos realista, por sinal.

A viagem de Londrina para Rio Preto e vice-versa é feita por apenas uma empresa de ônibus. Minto, na realidade são duas. Porém, uma delas realiza a viagem em 8 horas, passando por mais cidades e a outra em 6 horas, passando por menos cidades. Logo, é como se houvesse apenas uma empresa, pois todos optam pela mais rápida.

De maneira convencional, uma empresa que detém a quase exclusividade da demanda pelo seu serviço prestado nada mais pode demonstrar do que respeito ao consumidor e bom serviço, ainda mais quando o número de estudantes que são de Rio Preto e foram estudar em Londrina é gigantesco. Até ano passado, era assim: ônibus bons, serviço à altura do valor pago, pontualidade. De tempos para cá, entretanto, a empresa declinou, os ônibus pioraram, a qualidade despencou, a pontualidade se perdeu e minha paciência se esgotou. Como pode uma empresa com tantos clientes e tanta falta de senso? A questão de preço e das commoditties, aliás, não pode ser evocada, uma vez que o preço das passagens foi aumentado e o resultado deu nesta piora significativa.

É o capitalismo brasileiro.

A videolocadora em que minha namorada trabalhava tempos atrás é outro exemplo notório de nossa burguesia mal fundamentada. Sua gerente, preposta que carrega a responsabilidade da empresa nas costas e, por isso, deve ser gente digna do cargo, demonstrou ser mulher mesquinha e descontextualizada da situação global, ou mesmo regional. Pagou mal e errado minha namorada e, solicitada a corrigir o erro, uma vez que minha namorada é estudante e necessita pagar muitas contas (tendo pouco dinheiro para isso, como a maioria), respondeu-a bruscamente e negou-se terminantemente a tal fato, demitindo-a dias depois sem nenhum direito a que tinha ela primazia, apenas uma quantia em dinheiro.

Por esta patacoada minha namorada passou despercebida, dando graças por ter saído de lugar tão ruim. Ocorreu, no entanto, que a gerente ainda exigiu que minha namorada pagasse o valor de alguns produtos que ela havia consumido na loja, algo entre 20 a 30 reais. Tal mesquinharia revoltou minha namorada, que foi atrás de sindicatos para saber o que fazer. Descobriu que tinha direito a muitas coisas. A gerente ficou perplexa com a "ousadia" de tal funcionária e continuou com seu comportamento esdrúxulo. Uma gerente que não sabe respeitar lei trabalhista, que não sabe que emprega estudantes, ou seja, pessoas com necessidades REAIS, que não moram com os pais. Uma gerente grossa e pouco contextualizada das dificuldades que acomete seu quadro de funcionários.

Essa é a marca da burguesia brasileira.

Ia, portanto, no ônibus, aos remelexos e trancos ocasionados por péssimos amortecedores e buracos infindáveis das estradas brasileiras quando o ônibus parou na rodoviária de Marília. Sentindo fome, desci do ônibus e fui a uma lanchonete perto. Pedi um salgado. No caixa, perguntei à mulher se ela aceitava cartão e ela disse que não, apenas dinheiro. Vendo-me assim, com aquela cara de cachorro faminto e desconsolado, a mulher, não sem antes sentir uma enorme dor no coração e esboçar uma pungente cara de desgosto, falou baixo “Pode levar...”. Jamais me surpreendi tanto. Gentileza assim julgava não mais existir e tais atitudes, mesmo que ao contragosto da necessidade de lucrar, muito me alegraram o dia.

Abrandei, com isso, meu pensamento em relação ao Capitalismo Brasileiro, esse sistema econômico tupiniquim às avessas que, ora revela características medievais ora demonstra capacidade de compreensão e esperteza ao investir pois, não digam que gentileza não é um investimento, é sim e muito, uma vez que, assim que retornar àquela lanchonete da rodoviária não só tratarei de comprar o que me apetecer, como também me dignarei em quitar a dívida aberta, pois honra é coisa que muito prezo e, sinceramente, espero que nosso Capitalismo um dia, tirando as boas exceções, venham a prezar também.

6 comentários:

A_for_Anetta disse...

Por causa dessa capitalista estúpida descobri que posso ser cidadã no sentido exato da palavra: com deveres e direitos. Algumas situações ruins fazem com que a gente aprenda a ir atrás do que é nosso direito, sendo assim uma minoria que não engole tudo que lhe é dado às mãos. Descobri a utilidade (não que achasse que não servia pra nada, mas descobri na prática) de um bom advogado que preza além do dinheiro o bem-estar do ser humano

Ufa! Desabafei!

Fabrício disse...

Legal seu texto, cara!

Esse mundo não tem jeito. Na época do Getúlio era muito melhor!
Ê saudade!

A Menina dos Olhos de Caleidoscópio disse...

Há mais gente escrota nesse mundo do que pensamos. Conviver com capitalismo, professor esquerdinha pagando um pau pra Marx, chefes de merda nenhuma, Coca-cola a três reais e "colegas" de ônibus, é uma arte.

Akinogal disse...

See Please Here

karen disse...

"pode levar"? caramba, hein! hahaha nunca mais vai encontrar alguém assim! :P

Lígia disse...

No meu dia de pedágio no trote - nem sei se contei - eu fui ao Mc Donalds almoçar e tinha pouca grana (que contraditório né, mas enfim) até pra um pacotinho de batatinhas..A moça do caixa ficou com dó da minha cara que deve ter ficado parecida com a sua na rodoviária, e cobrou menos.
Essas situações deixam a gente muito feliz, parece quase um milagre encontrar pessoas simplesmente boas hoje nesse mundo.