18.4.08

O abismo em que me atirei, por elas

Tudo começou com Dom Casmurro. Foi a partir dali que o germe começou a se proliferar, sedento de enegrecer minha alma. O realismo misterioso acabou por me lançar num abismo sem fim, no qual tenho caído até hoje. Um realismo feminino, violado, obscuro, tenebroso, tal qual o abismo que vejo ao redor enquanto caio.

Lá Machado de Assis tratou com genialidade das dúvidas de Bentinho sobre Capitu, e essa dúvida se apossou de mim numa simbiose macabra. Todo homem compreende a dúvida de Bentinho, por mais forte que seja esse homem. Força não é nada quando defrontada com amor. O homem forte é um rato quando ama e sua fraqueza é a incapacidade de proteger o bem amado dos perigos do mundo. Capitu traiu ou não traiu? Não importa. A aura que a circundava era a aura da destruição. Nunca vamos poder negar que Bentinho também era um inseguro, mimado. Mas esses defeitos nada são perante o poder destrutivo que rodeava sua amada. Dom Casmurro foi o passo oscilante que me levou ao desfiladeiro do eterno cair.

Questões como essas são fatalmente esquecidas pela nossa mente. A mente não admite nada de ruim a atormentando. Capitus são esquecidas, apagadas. Sua existência é um perigo para a mente humana. Logo me esqueci dela, das agruras de Bentinho, de sua repentina sanha homicida, de seu futuro desolador e solitário, o futuro casmurro.

Mas não tardou que a questão reaparecesse. Ninguém o diz, mas abismos são ímãs, por mais que você se afaste deles, acaba por sentir necessidade de lá voltar e encarar a escuridão sem fim. Com Réquiem para um Sonho, filme, atirei-me novamente ao buraco, empurrado por força aterradora. Na película, a mulher se prostituía por heroína, impelida pelo vício do namorado. Quantos abismos não teria ela encarado antes que os apresentasse a mim, cumulativamente? Adquiri todos os abismos das piores histórias possíveis, todos os venenos das maiores angústias do mundo, todas as chagas dos mais doentes desse planeta.

Enquanto caía, decidi entreter-me com Ensaio sobre a cegueira e qual não é minha surpresa quando lá, a mulher que ama, a mulher primitiva, a mulher deusa que é mãe e puta ao mesmo tempo, para proteger o marido, cego e indefeso, submete-se à terrível humilhação perante a Força do homem primitivo, do violento. A ordem é clara: Chupa!. E ela chupa, mesmo sabendo que poderia matá-lo. Quantas molezas não a teriam acometido antes que sua mente, talvez fraca demais pela vontade de sobreviver, não tivesse decidido, por meios lógicos que tanto nos satisfazem, que era melhor chupar a matar, a morrer.

Abismo perpétuo, cumulativo. A caída nunca teve nada de reconfortante, por mais que sejamos impelidos a ela. Por que queremos cair? Por que queremos nos prostar aos pés dos mais fortes? Por que desejamos nos atirar à cama quando a obrigação chama à porta? Por que sentamos ao menor sinal de cansaço? Por que somos incapazes de ficar em pé? O homem está fadado a rastejar. Rastejam já as cobras, mas essas têm lá sua dignidade.

Quando pensava que estava perto do final do abismo, pronto para ser esmagado por qualquer coisa mais terrível, vem-me à mão A insustentável leveza do ser. Tereza amava Tomas, Tomas amava Tereza. Tomas era infiel, Tereza não. Tomas dissociava sexo de amor e amava Tereza infinitamente. Tereza não fazia essa diferença e, por isso mesmo, a necessidade de cair lhe foi mais tentadora. As mulheres sempre foram mais propensas a negar o instinto. Reprimidas, não lhes passa pela cabeça que, mais hora menos hora, a necessidade bate à porta, e o mundo se desfaz. Tereza caiu no papo de um engenheiro qualquer. Andou trêmula até sua casa e lá ganhou o que queria. Tereza experimentou o que Tomas sempre tivera. Tomas, ingênuo, burro, mal imaginava o que se passava naquele momento, com Tereza, quando a alma de Tereza dizia Não! e o corpo dela dizia Sim!, não com palavras, não com comunicação verbal ou corporal, mas com uma droga de vagina úmida.

Senti-me fraco, incapaz. Senti-me um manequim, um boneco sem alma, parado, eternamente usável. Fechei o livro, meu coração se acelerara, numa tentativa ridícula de dar conta da minha angústia, que crescia em proporções grotescas e me direcionava a um local já muito bem conhecido por mim: o abismo sem fim, o abismo da incompreensão das atitudes humanas.

Pensei em minha namorada e a sensação de fraqueza quase fez-me chorar. Senti vontade de protegê-la de tudo e de todos a qualquer custo, mas fiquei interiormente sem resposta quando pensei se poderia protegê-la de mim ou, pior, dela mesma. Acabei por adormecer atormentado por diversas dúvidas.

Acordei tranqüilo. A mente já havia feito seu serviço de coleta de lixo, de proteção, minha mente já havia afastado o pior, o risco de segurança que a ela ameaçava. Calmo, pude pensar em como transmitir isso em palavras, desejoso que estava de me livrar de tal fardo.

Escrevendo, senti que se pode, incoerentemente, escrever mesmo estando em queda livra, como estou há tempos. Terminando esse texto, gostaria de demonstrar minha consternação com o que é um texto sem final, assim como o é um abismo onde nunca nos esborrachamos. Chega.

8.4.08

Capitalismo tupiniquim

Já cansei de contar histórias de ônibus. Ônibus são, por excelência, lugares para histórias de pessoas que, a meu modo, não passam de sonhadoras introvertidas. Pessoas que pensam muito e agem pouco e, talvez pelo balançar do grande veículo, tão assemelhado ao ninar da mãe, colocam-se a imaginar milhares de coisas somente pelo vislumbrar da janela ao lado. Janelas são coisas misteriosas assim também, mas não vêm ao caso.

Permiti-me à digressão inicial pois estava eu num ônibus quando imaginei esse post. Não basta estar num ônibus, tenho de estar, também, sozinho. Sozinho, pensativo, às vezes triste. São elementos necessários para eu superar minha habitual preguiça e escrever.

Bem, o ônibus não é o palco fundamental desta história, mas sim o Capitalismo brasileiro.

"Lá vai ele a retratar novamente a política ou a economia!". Sim, de fato, essa é a minha faceta mais chata, mas também a mais necessária, a menos realista, por sinal.

A viagem de Londrina para Rio Preto e vice-versa é feita por apenas uma empresa de ônibus. Minto, na realidade são duas. Porém, uma delas realiza a viagem em 8 horas, passando por mais cidades e a outra em 6 horas, passando por menos cidades. Logo, é como se houvesse apenas uma empresa, pois todos optam pela mais rápida.

De maneira convencional, uma empresa que detém a quase exclusividade da demanda pelo seu serviço prestado nada mais pode demonstrar do que respeito ao consumidor e bom serviço, ainda mais quando o número de estudantes que são de Rio Preto e foram estudar em Londrina é gigantesco. Até ano passado, era assim: ônibus bons, serviço à altura do valor pago, pontualidade. De tempos para cá, entretanto, a empresa declinou, os ônibus pioraram, a qualidade despencou, a pontualidade se perdeu e minha paciência se esgotou. Como pode uma empresa com tantos clientes e tanta falta de senso? A questão de preço e das commoditties, aliás, não pode ser evocada, uma vez que o preço das passagens foi aumentado e o resultado deu nesta piora significativa.

É o capitalismo brasileiro.

A videolocadora em que minha namorada trabalhava tempos atrás é outro exemplo notório de nossa burguesia mal fundamentada. Sua gerente, preposta que carrega a responsabilidade da empresa nas costas e, por isso, deve ser gente digna do cargo, demonstrou ser mulher mesquinha e descontextualizada da situação global, ou mesmo regional. Pagou mal e errado minha namorada e, solicitada a corrigir o erro, uma vez que minha namorada é estudante e necessita pagar muitas contas (tendo pouco dinheiro para isso, como a maioria), respondeu-a bruscamente e negou-se terminantemente a tal fato, demitindo-a dias depois sem nenhum direito a que tinha ela primazia, apenas uma quantia em dinheiro.

Por esta patacoada minha namorada passou despercebida, dando graças por ter saído de lugar tão ruim. Ocorreu, no entanto, que a gerente ainda exigiu que minha namorada pagasse o valor de alguns produtos que ela havia consumido na loja, algo entre 20 a 30 reais. Tal mesquinharia revoltou minha namorada, que foi atrás de sindicatos para saber o que fazer. Descobriu que tinha direito a muitas coisas. A gerente ficou perplexa com a "ousadia" de tal funcionária e continuou com seu comportamento esdrúxulo. Uma gerente que não sabe respeitar lei trabalhista, que não sabe que emprega estudantes, ou seja, pessoas com necessidades REAIS, que não moram com os pais. Uma gerente grossa e pouco contextualizada das dificuldades que acomete seu quadro de funcionários.

Essa é a marca da burguesia brasileira.

Ia, portanto, no ônibus, aos remelexos e trancos ocasionados por péssimos amortecedores e buracos infindáveis das estradas brasileiras quando o ônibus parou na rodoviária de Marília. Sentindo fome, desci do ônibus e fui a uma lanchonete perto. Pedi um salgado. No caixa, perguntei à mulher se ela aceitava cartão e ela disse que não, apenas dinheiro. Vendo-me assim, com aquela cara de cachorro faminto e desconsolado, a mulher, não sem antes sentir uma enorme dor no coração e esboçar uma pungente cara de desgosto, falou baixo “Pode levar...”. Jamais me surpreendi tanto. Gentileza assim julgava não mais existir e tais atitudes, mesmo que ao contragosto da necessidade de lucrar, muito me alegraram o dia.

Abrandei, com isso, meu pensamento em relação ao Capitalismo Brasileiro, esse sistema econômico tupiniquim às avessas que, ora revela características medievais ora demonstra capacidade de compreensão e esperteza ao investir pois, não digam que gentileza não é um investimento, é sim e muito, uma vez que, assim que retornar àquela lanchonete da rodoviária não só tratarei de comprar o que me apetecer, como também me dignarei em quitar a dívida aberta, pois honra é coisa que muito prezo e, sinceramente, espero que nosso Capitalismo um dia, tirando as boas exceções, venham a prezar também.

1.4.08

Abismo

Oxford: gênio adolescente de Matemática vira prostituta

Uma estudante considerada "um gênio da matemática", que conquistou um lugar na Universidade de Oxford aos 13 anos, foi descoberta se prostituindo, dez anos depois. Sufiah Yusof, 23 anos, oferece seus serviços em um site de prostituição de Londres, segundo informa o jornal Daily.

De acordo com a publicação, Sufiah cobra 130 libras (aproximadamente R$ 452) por hora de trabalho e está disponível para os clientes entre as 11h e as 20h. Ela também deixa claro no cadastro que dá preferência aos "cavalheiros mais velhos".

Em 1997 a jovem começou a estudar em Oxford depois de ter sido considerada a menina "mais brilhante da Grã-Bretanha", mas, depois de três anos, abandonou os estudos se dizendo muito pressionada pelos pais a obter sucesso.

Ela fugiu do casal, que havia abandonado o trabalho para educar os filhos em casa, se dizendo "forçada" pela família e afirmando que não desejava voltar a vê-los.

A prostituição de Sufiah tornou-se pública poucos dias depois de seu pai ter sido preso por abuso sexual de duas adolescentes, para as quais dava aulas de matemática em casa, segundo o Daily Mail.

Redação Terra