3.3.08

Do alto se vê melhor?

Eu enxagüei o copo na água corrente calmamente. Vendo que estava livre de qualquer resíduo de detergente, enxi-o quase até à boca e bebi a água da pia. Um gosto estranho de cano velho me veio à boca, mas sem grandes preocupações ou frescuras de minha parte. É só água.

Depois me dirigi ao banheiro e lá me barbeei, usando o creme de barbear emprestado do meu amigo (maldição ir ao supermercado e esquecer as coisas), uma gilete velha e um pequeno frasco desses de shampoo de hotel para servir de...de...bem, desse negócio que tampa o buraco da pia e retém a água (como se chama mesmo aquela doença que faz esquecer as palavras?).

Súbito, dei-me conta de onde estava: estava em casa. Não o havia reparado até então. Grande parte da minha vida faço vagar perdido por aí, sem ligar muito para o que acontece exteriormente ao meu íntimo. Porém, o exterior às vezes me convoca com seus cochichos inaudíveis, atuando sempre como um radar que me alarde dos perigos ou alegrias que a vida traz em seus caminhos desconhecidos. Talvez resquício de algum instinto não-totalmente morto.

Um banheiro. Um belo banheiro, infelizmente de beleza conspurcada por pêlos masculinos que insistem em sujar o chão, por mais que eu ou os outros meninos o limpem, sendo que, de qualquer maneira, eles vêm de nós mesmos. Era um banheiro digno, enfim, do apartamento ao qual faz parte. Apartamento velho.

Tentei cogitar sobre antigos moradores. Quantos anos teriam essas paredes? Por que mãos haviam sido erigidas? O que teria presenciado? Quem havia passado por aqui e, talvez, feito a barba da mesma maneira que eu? Minha curiosidade nunca teve limite, exceto um: a preguiça. Que me adianta imaginar o que pode ter acontecido aqui? O que não posso negar é que o apartamento é velho e espaçoso, coisas que me agradam. Dessa maneira, deve ter boas histórias para me contar. Mas jamais as saberei. Paredes não falam.

Chateei-me. Sempre imaginei que as moradias sugam um pouco da energia de seus moradores, percebi isso quando sentia-me desolado e fraco em casa, na ausência de minha mãe, provavelmente em viagem. Que estaria esse apartamento a fazer comigo? Não pode ser algo ruim. Amo esse lugar, essas paredes históricas, que de certo já abrigaram risos, brigas, sexo, tristezas, alegrias, sujeiras, emoções várias.

Não obstante o peso do passado histórico nos torne diminutos em relação ao mundo, cheguei junto às janelas da sala e notei, com amargo senso de realidade, que estava no vigésimo andar, a encarar topos de prédios, nuvens, urubus e pequenas formigas que, quem sabe, devem ser humanos, lá embaixo.

Eu amo esse lugar.

2 comentários:

Thatá disse...

meus pais compraram meu ap qndo tava construindo....
ai antes da gente morar aki meu tio morou por um tempinho...

depois só nós...

nem tem muitas historias=P



escreva mais!!!HAUAHUAhau

bjooo

A_for_Anetta disse...

Engraçado ler isso e imaginar que quando fui embora da casa que meus pais construiram em Santa Bárbara eu deixei pequenos rastros propositais (como escritos do lado de dentro do guarda-roupa, uma marca de esmalte do vidro que quebrou na escada - não tão proposital -, marcas de pés na parede - também não tão proposital)para quem sabe um futuro morador atento questionasse sobre quem teria sido eu, a dona do quarto...
Ainda não tenho intimidade suficiente com meu quarto para questionar sobre seu passado, preocupo mais em deixá-lo com um pouco da minha personalidade.

=******