12.3.08

Desgosto

Semicerrei os olhos por tempo ínfimo, o suficiente para que ninguém notasse meu cansaço. Definitivamente aquele não era um lugar do meu agrado, apesar de todas as comodidades modernas presentes. Penso, às vezes, que o inconforto reestabelece algo repousado no homem, alguma chance de ser selvagem, mas nunca tive prova de tal fato. De qualquer maneira, ali estavam ar-condicionado, cadeiras estofadas, água gelada e um calmo ambiente de tranqüilidade.

Na TV, gorilas eram importunados por alguma importante atriz americana que, provavelmente apenas atrás de visibilidade e dinheiro - ou não quero ou acho difícil imaginar que ela estava gostando de ficar entre eles - mostrava o cotidiano dos grandes símios em extinção. Ao meu redor, olhares masculinos atentos denotavam interesse na tarefa da moça, como que a maximizar a importância de sua coragem.

Alguma criança chorava num canto. Um choro manhoso, de sono, abafado por mãe igualmente manhosa e nervosa. Competindo com ela em sonoridade, uma máquina tratava de contar dinheiro, num som repetitivo, rápido e mecânico. As atendentes, todas lindas mulheres sobriamente vestidas, sorriam cortesmente aos clientes.

No alto da sala, nefasto, repousava o placar de senhas, fixado por outras tantas pessoas, a encará-lo com devoção e esperança. Passei e me sentir mal. Tal lugar me enojava profundamente. Era um banco.

Tentei rememorar algum outro lugar que me causava desgosto e logo lembrei do mais repulsivo deles: as farmácias. As farmácias, com suas prateleiras abarrotadas de saúde mercantilizada, de saúde falsa, pois sem finalidade de cura, mas sim de lucro. Remédios pouco eficientes, paliativos, verdadeiras drogas que brincam com a vida humana, condicionando-a às vontades inescrupulosas das grandes indústrias farmacêuticas.

Lembrando de Patch Adams, com seus visionários sonhos de grandes centros médicos voltados para a real cura das doenças humanas, comecei a sentir que o mundo atual (o das farmácias) é um pouco ridículo, pautado por objetivos pequenos, mesquinhos, pouco comprometidos com nossa necessária evolução e saúde. Um mundo de bancos e farmácias, prisões e delegacias, shoppings e casas de massagem, favelas e prefeituras pouco comprometidas. Um mundo sem fibra, que se conduz aos trancos. Um mundo que pode parar a qualquer segundo. Só não pára por causa da ganância de alguns poucos e por causa das idéias loucas e revolucionárias de mais poucos ainda.

2 comentários:

Líbia disse...

eu senti uma ponta de autoreferência na última frase..ahuehuae
Esse mundo está mesmo chato e tedioso. Vida longa aos loucos revolucionários!

A Menina dos Olhos de Caleidoscópio disse...

Bancos, choro de criança, farmácia...Pára tudo que eu quero descer!
Eu gosto do Patch, principalmente depois de ele esclarecer o filme em sua entrevista no Roda Viva. Até isso me faz querer descer, o cinema é puramente comercial e me fez tem uma primeira impressão um pouco bege sobre o cara.