16.3.08

Abismo

Júri recomenda execução; assassino sorri e famílias choram

Um júri recomendou a pena de morte na quinta-feira para um homem que matou duas pessoas em Abingdon, no Estado americano da Virginia, depois de ter escapado da prisão. William Morva recebeu a sentença sorrindo e aparentemente muito feliz. As informações são da CNN.

Os familiares das vítimas e a mãe do assassino choraram após a leitura do veredicto, mas Morva sorriu e estalou os dedos. Ele ainda acenou com a cabeça para os jurados e deu um tapinha nas costas de seu advogado após saber o seu futuro.


"Ele agiu como se tivesse ganhado na loteria", disse Harold McFarland, cujo filho, Derrick, foi uma das vítimas do assassino.


Morva era um detento que havia sido levado a um hospital de Blacksburg para fazer um tratamento médico quando dominou o representante do xerife que o acompanhava. Em seguida, usou a pistola do policial para atirar no segurança do hospital Derrick McFarland, 32 anos, que estava desarmado.


No dia seguinte, Morva matou Eric Sutphin, um policial de 40 anos que o procurava durante buscas em um local próximo ao campus da Virginia Tech.


A viúva do segurança. Cindy McFarland, disse que as suas lágrimas durante a leitura do veredicto eram de felicidade. "Ele acabou com a vida de duas pessoas que não mereciam morrer. Portanto, ele merece a morte", afirmou. Morva estava preso por roubo.

Fonte: Terra

12.3.08

Desgosto

Semicerrei os olhos por tempo ínfimo, o suficiente para que ninguém notasse meu cansaço. Definitivamente aquele não era um lugar do meu agrado, apesar de todas as comodidades modernas presentes. Penso, às vezes, que o inconforto reestabelece algo repousado no homem, alguma chance de ser selvagem, mas nunca tive prova de tal fato. De qualquer maneira, ali estavam ar-condicionado, cadeiras estofadas, água gelada e um calmo ambiente de tranqüilidade.

Na TV, gorilas eram importunados por alguma importante atriz americana que, provavelmente apenas atrás de visibilidade e dinheiro - ou não quero ou acho difícil imaginar que ela estava gostando de ficar entre eles - mostrava o cotidiano dos grandes símios em extinção. Ao meu redor, olhares masculinos atentos denotavam interesse na tarefa da moça, como que a maximizar a importância de sua coragem.

Alguma criança chorava num canto. Um choro manhoso, de sono, abafado por mãe igualmente manhosa e nervosa. Competindo com ela em sonoridade, uma máquina tratava de contar dinheiro, num som repetitivo, rápido e mecânico. As atendentes, todas lindas mulheres sobriamente vestidas, sorriam cortesmente aos clientes.

No alto da sala, nefasto, repousava o placar de senhas, fixado por outras tantas pessoas, a encará-lo com devoção e esperança. Passei e me sentir mal. Tal lugar me enojava profundamente. Era um banco.

Tentei rememorar algum outro lugar que me causava desgosto e logo lembrei do mais repulsivo deles: as farmácias. As farmácias, com suas prateleiras abarrotadas de saúde mercantilizada, de saúde falsa, pois sem finalidade de cura, mas sim de lucro. Remédios pouco eficientes, paliativos, verdadeiras drogas que brincam com a vida humana, condicionando-a às vontades inescrupulosas das grandes indústrias farmacêuticas.

Lembrando de Patch Adams, com seus visionários sonhos de grandes centros médicos voltados para a real cura das doenças humanas, comecei a sentir que o mundo atual (o das farmácias) é um pouco ridículo, pautado por objetivos pequenos, mesquinhos, pouco comprometidos com nossa necessária evolução e saúde. Um mundo de bancos e farmácias, prisões e delegacias, shoppings e casas de massagem, favelas e prefeituras pouco comprometidas. Um mundo sem fibra, que se conduz aos trancos. Um mundo que pode parar a qualquer segundo. Só não pára por causa da ganância de alguns poucos e por causa das idéias loucas e revolucionárias de mais poucos ainda.

6.3.08

Quando pensei em Augusto dos Anjos

Do trajeto simbiótico

Confabulados em meu silencioso íntimo
Consagram-se, sobretudo, não um, mas dois
Sentimentos carnívoros que de nada ínfimo
têm, ordinária natureza humana sendo pois.

Antropófagos, saciam-se vorazmente do meu ser
Alterando-me na visão pedante do mundo,

ora fazem-me o vindouro profeta do saber

ora relegam-me a um arrogante e pesaroso imundo

Nada mais é do que maldita ambivalência,
Dualismo doentio, louco e sem socorro
Em eterna guerra de ociosa complacência

Quando dois for, por fim, morro.
Renasço num dos lados da minha viciosa simbiose
Para continuar o trajeto desta infinita metamorfose.

(V.H. de Araujo Barbosa)

4.3.08

Dica

Adicionado o blog de Luís Nassif - http://www.projetobr.com.br/web/blog/5 -, economista e jornalista bem respeitado. Vale a pena ver como ele encara as sujeiras da Veja e revela como o jornalismo da mesma tem o rabo preso com empresários nada éticos.

3.3.08

Do alto se vê melhor?

Eu enxagüei o copo na água corrente calmamente. Vendo que estava livre de qualquer resíduo de detergente, enxi-o quase até à boca e bebi a água da pia. Um gosto estranho de cano velho me veio à boca, mas sem grandes preocupações ou frescuras de minha parte. É só água.

Depois me dirigi ao banheiro e lá me barbeei, usando o creme de barbear emprestado do meu amigo (maldição ir ao supermercado e esquecer as coisas), uma gilete velha e um pequeno frasco desses de shampoo de hotel para servir de...de...bem, desse negócio que tampa o buraco da pia e retém a água (como se chama mesmo aquela doença que faz esquecer as palavras?).

Súbito, dei-me conta de onde estava: estava em casa. Não o havia reparado até então. Grande parte da minha vida faço vagar perdido por aí, sem ligar muito para o que acontece exteriormente ao meu íntimo. Porém, o exterior às vezes me convoca com seus cochichos inaudíveis, atuando sempre como um radar que me alarde dos perigos ou alegrias que a vida traz em seus caminhos desconhecidos. Talvez resquício de algum instinto não-totalmente morto.

Um banheiro. Um belo banheiro, infelizmente de beleza conspurcada por pêlos masculinos que insistem em sujar o chão, por mais que eu ou os outros meninos o limpem, sendo que, de qualquer maneira, eles vêm de nós mesmos. Era um banheiro digno, enfim, do apartamento ao qual faz parte. Apartamento velho.

Tentei cogitar sobre antigos moradores. Quantos anos teriam essas paredes? Por que mãos haviam sido erigidas? O que teria presenciado? Quem havia passado por aqui e, talvez, feito a barba da mesma maneira que eu? Minha curiosidade nunca teve limite, exceto um: a preguiça. Que me adianta imaginar o que pode ter acontecido aqui? O que não posso negar é que o apartamento é velho e espaçoso, coisas que me agradam. Dessa maneira, deve ter boas histórias para me contar. Mas jamais as saberei. Paredes não falam.

Chateei-me. Sempre imaginei que as moradias sugam um pouco da energia de seus moradores, percebi isso quando sentia-me desolado e fraco em casa, na ausência de minha mãe, provavelmente em viagem. Que estaria esse apartamento a fazer comigo? Não pode ser algo ruim. Amo esse lugar, essas paredes históricas, que de certo já abrigaram risos, brigas, sexo, tristezas, alegrias, sujeiras, emoções várias.

Não obstante o peso do passado histórico nos torne diminutos em relação ao mundo, cheguei junto às janelas da sala e notei, com amargo senso de realidade, que estava no vigésimo andar, a encarar topos de prédios, nuvens, urubus e pequenas formigas que, quem sabe, devem ser humanos, lá embaixo.

Eu amo esse lugar.