3.1.08

Como escrever contos

Marcos não era de fazer rodeios. Foi direto ao ponto:

- Quero escrever contos, professor.

Ricardo, o professor de gramática, espantou-se. Jamais vira um aluno lhe dirigir a palavra após o sinal do intervalo. Há quem diga que vez ou outra maldizia os quinze minutos de prosa e salgados ruins da cantina da escola a que os alunos desfrutavam. Bem, jamais é um exagero. Sempre havia duas ou três taradinhas com hormônios a jorrar pelos poros com tanta intensidade quanto uma erupção do Etna; queriam saber de uma matéria não muito bem ensinada pela Língua Portuguesa: a vida privada de Ricardo, que era trintão boa pinta. Mas isso é pano para outra manga...

- Escrever contos?, repetiu surpreso.
- Isso.
- E por quê?
- Eu gosto. Gosto de escrever, professor, disse o garoto, resignado.

Ricardo estranhou. Que situação nova! Sentiu-se feliz. Talvez, aquela confissão solta por um menino tão sério e quieto como Marcos valesse todos os momentos em que teve de suportar rostos impassíveis, olhares longínquos e cochichos irriantes dos demais alunos. Ah! sem falar nos bocejos! "Custa essas criaturas taparem a boca?!", desabafava para si o irritado professor.

- E eu queria saber, professor...qual a melhor maneira de escrever contos.

Expora seu desejo rapidamente, como que envergonhado do pedido. Ricardo estava exultante:

- Como não, Marquinhos? - disse, zeloso - Estou aqui exatamente para ajudá-lo, embora seja a Márcia que dê Redação para você...
- Não gosto dela, professor.
- Nem eu, meu caro, bem, não depois que ela levou meu carro após o divórcio.

Marcos se sentiu desapontado:

- Professor, os contos...
- Ah, sim. Os contos. Diga-me, Marquinhos, o que a Bíblia, Dom Quixote e O Senhor dos Anéis têm em comum?
- Hum...são histórias de fantasia?, arriscou o menino, temeroso.
- Não! Embora eu seja ateu hehe - e, arrependido da piadinha fora de hora, tossiu disfarçando, reassumindo o ar professoral - são histórias longas. Narrações extremamente extensas e, para os incautos, cansativas. Os contos, nesse aspecto, são rebeldes.
- Rebeldes?
- Sim! "Cansamos dessas centenas, milhares de páginas! Queremos algo novo!", diriam, provavelmente, os criadores de contos.
- Não entendo, professor.
- O que você faz depois que passa um dia inteiro estudando para uma prova, Marquinhos?
- Não sei bem...ou vejo TV ou fico de bobeira no PC ouvindo música.
- Exato! Quando algo insatisfaz alguém, saturando-o, esse alguém procura outro algo em direção diametralmente oposta, Marquinhos.
- Geometria agora não, professor...
- Você entendeu ou não?!
- Entendi, sim. São opostos.
- Isso. Contos são como balas de um revólver: dinâmicas, cortam o ar como um relâmpago, fazem um estardalhaço como um trovão e causam um impacto devastador de um clímax que não exige um capítulo à parte para dar ânimo à história. Contos são surpreendentes, tenebrosos, indagadores. Deixam uma dúvida no ar que causa um certo vazio dentro de nós! Contos são...
- Professor! Minha pergunta foi qual a melhor maneira de escrevê-los! Não como são!

Após olhar perplexo para Marcos, o professor resolveu descer de seu Paraíso, recomendando, com voz apática, direto do Limbo:

- Você enche o leitor de expectativa e depois termina o conto do nada, para ele ficar com cara de bobo, Marquinhos.

E o sinal do fim do intervalo soou estridente, alertando Ricardo de que tinha aula no 1°B e de que Marcos tinha sua odiada aula de Geometria.

7 comentários:

Vanessa disse...

"- Nem eu, meu caro, bem, não depois que ela levou meu carro após o divórcio."

Será a frase do Ano!

aHAuahIAUhaihaUhaUIAHuiahUAUI

Ouça Mika!
Fim!

*=

A_for_Anetta disse...

Por isso gosto de contos. Quanto mais com cara de boba me deixa melhor! UAUAHAUAHUAHU

=*********

Tyler Bazz disse...

AUHUHAuhUHAuahA Muito bom!


Um dia ele aprende...

Blog Desnecessário disse...

Huahuahuha...

Bom mesmo! A piadinha desse prfessor foi muito boa!

thays disse...

Quem conta um conto, aumenta e pronto
(comentário desnecessário)

gostei do professor

Anônimo disse...

que conto horrivelllllllllllllll que ridiculo quem foi o aluno burro que perguntou isso?

9º Ano "A" Marista de Natal 2010 disse...

Genial, foi de grande utilidade!