31.1.08

Hiato

Blog parado até que eu esteja de volta à Londrina, linda cidade onde se encontra meu computador.

Novidades? Nenhuma.
Carnaval? Odeio.
Férias? Salva por poucas coisas.

23.1.08

Novo Deus

Dólar fecha a R$ 1,82, com nervosismo do mercado; Bovespa cai 4,58%

Mercados europeus operam em queda, BCE alerta crescimento

Mercado espera novo corte de juros nos EUA no dia 30


Criamos um novo Deus.

14.1.08

El Pasado

Vendo la pelicula nueva do Hector Babenco, O Passado (El Pasado, 2007), entre cenas de sexo, drama e os desvios de concentração habituais que um namoro exige no cinema, passei a pensar, meio maravilhado, como seria uma vida em que esquecêssemos sistematicamente o passado.

Como tudo que se revela perigoso fascina, não pude deixar de ser favorável à idéia absurda: "que fantástico seria viver sem culpa, sem condicionamento, sem opressão, preconceito ou medo incutidos em mim durante o passar dos anos!".

A idéia de um mundo onde cada dia pudesse REALMENTE ser um novo dia (fugindo do clichê). Isso provavelmente acabaria com o tédio que sinto.

Mas a realidade custa a pesar na hora dos sonhos e das fantasias (talvez porque seja estraga-prazeres) e logo vejo que um mundo assim, ao mesmo tempo em que dissipa como fumaça o lado ruim de nossa formação, também põe abaixo todos os bons ensinamentos que por ora poderíamos ter.

Sendo assim, acho que nada mais me resta senão continuar carregando esse imenso peso chamado Passado que, quando não se configura um fardo a nos guiar sempre por um caminho pré-determinado, pelo menos se mostra excelente fonte de memórias agradáveis, momentos especiais e situações inusitadas. Tudo para fugirmos da estraga-prazeres.

10.1.08

Quebra-cabeça e tudo o mais

Algumas lágrimas trilhavam o rosto de Lilian em fila indiana: vinham quentes e com emoção, coisa que as tornavam muito dignas da dona.

- Como amo você, Matheus!

E dizia isso com aquele brilho nos olhos que comove até banqueiro.

Matheus não dizia muita coisa em troca. Não era lá o tipo de sujeito de se esperar fina ternura, porém, a doce Lilian não dava bola para isso - triste sina das mulheres que amam demais! amam tanto que amam por si e pelos outros. Que seja. Ela estava mais preocupada em enquadrar a sintonia que o corpo de Matheus, o insosso, pudesse lhe fornecer.

Foi assim que ela se encantou com o suor das mãos dele, bem como com sua leve tremedeira. Para completar, essas mãos tremeliqüentas e molhadas estavam na mais mórbida frieza. Sem falar no ligeiro gaguejar das poucas palavras que este rapaz pronunciava! Era o Céu para a encantadora Lilian.

Prometeu a si mesma que iria rezar cinco ave marias quando chegasse em casa em agradecimento a esse sublime momento. Não que estivesse longe de casa. Estava bem ali, prostrada ao portão. Namoro de portão.

"Matheus mostra como está apaixonado por mim. Será que estou respondendo à altura? Vejam só essas mãos" - e voltava seu brilhante olhar de cachorro pidão para as mãos do insosso, enquanto as acariciava como se fosse um diamante de um milhão - "Suam de nervosismo, tremem de excitação, gelam de ansiedade! Ele é um doce...ele é...é o homem da minha vida!"

O amado Matheus, entretanto, não contara à Lilian que sofria de sudorese (o que lhe conferia um extra na cota de suor das mãos), problemas neurológicos (que o presenteara com a tremedeira e a gagueira, além do tique do olho direito, que piscava cento e cinqüenta vezes por minuto, um recorde mundial; mas isso não interessa, já que nossa romanticazinha não tivera tempo de se aperceber de tamanha façanha, visto que despendia tempo enorme amando) e, para finalizar, pressão baixa, o que explicava aquelas mãos geladas.

Foi essa mesma pressão baixa que ocasionou uma tremenda dor de barriga em nosso amigo. Talvez ele não tivesse uma inteligência dessas de arrancar aplausos, como essas em que se descobre que a energia é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz, mas não conheço ninguém que não se torne um exímio gênio na hora de arranjar uma desculpa para correr ao banheiro. Nessa hora, Matheus se revelou um experto e, então, uma arguta justificativa de que tinha que aplicar a injeção do antibiótico na mãe, que estava muito, muito doentinha, tadinha, e ela tinha medo de aplicar sozinha, ah sim, ela tem, mas volto amanhã, com certeza, minha querida...me acompanhar? hum acho melhor você ficar e ajudar sua mãe na cozinha, ok, ok ,pode me acompanhar até lá, mas não quero que você se contamine, então só acompanha até o portão, tá? surgiu. Imagino que, quanto maior a pressão intestinal no sentido de...saída, maior a utilização das sinapses. Enfim, lá se foram caminhando alegremente ou, no caso dele, desajeitadamente, quase correndo.

Lilian não se preocupou muito com a rápida despedida de Matheus, pelo contrário, achou fantástica a cara de dor que ele fazia, "como sofre na hora da despedida, meu amor!", regozijou-se internamente, "não agüenta a dor do adeus e por isso corre, mas sabe que tem toda a eternidade para me amar, bem, pelo menos depois que nos casarmos!".

E é assim que a Lilian ia amando. Pensava, pensava, idealizava, idealizava. Acordava e logo pensava em Matheus. O café da manhã tinha a cara dele, a escola a fazia pensar nele, o almoço, a louça, a tarefa (doméstica e da escola), as amigas dela, e até ele mesmo tinha a cara dele quando a vinha visitar no final do dia, o jantar, a novela das 9, o travesseiro e assim um círculo vicioso, sem fim.

Foi nesse pensar, pensar...que ela cruzou com o Tião e até achou que ele também lembrava o Matheus, se bem que achou que todos os homens no buteco onde o Tião estava também parecessem com ele, e o dono do bar e a garrafa de cerveja e até mesmo a salsicha em conserva (mas aí era um Matheus meio sujinho).

A verdade verdadeira era que o Tião nada tinha de Matheus. Arrisco-me a dizer que era exatamente o inverso: cabra-macho, homem de decisão, de pegada, o próprio protomacho encarnado, vivo em função do pênis. Para falar a verdade, quem se chamava Tião era o pênis dele, mas isso é detalhe irrelevante.

Importante mesmo era o desejo que a Lilian causava no Tião. Também, quem pudera: branca de um branco rosado, não pálido, daquele tom que não dá pena da brancura, mas vontade de perverter, como Lúcifer deve encarar o branco das penas das asas dos anjos ; pezinhos nem pequenos nem grandes, de dedinhos redondinhos, com aquela leve vermelhidão na sola; pernas firmes, não roliças, mas revelando a sustenção de um belo corpo, como o são as colunas do Pártenon; corpo escultural, envolvido por um vestido branco (uma intromissão à mais do que desejada nudez dela!), a começar nos ombros - não sem antes deixar escapar um decote mínimo, mas atiçador - e terminar pouco antes dos joelhos (esses muito bonitinhos, por sinal). Chega. Sinto-me cansado de descrever a moça, portanto, imaginem apenas que o rosto e o resto eram também de esplendorosa beleza. E não ousem dizer que exagero, pois mulher bonita, no Brasil, é coisa da qual não se pode desconfiar, ao contrário de político honesto e ex-gay.

É lógico que o Tião não havia pensado nisso tudo quando a vira, mas seu tesão respondera no mesmo grau. E no grau, aliás, era ele quem estava, pois já tinha virado sete biritas. Coisa de macho.

Não pensou muito (coisa que era fácil para ele). Saiu andando atrás da branqüela, como leão atrás de antílope:

- Hei guria!
- Bem me quer, mal...ah, sim, Tião?
- Cadê seu namorado, Lili?
- Foi cuidar da minha sogra.
- E te deixou assim sozinha?

Incrível como o Tião agia normalmente nessas ocasiões. O Tião. O outro estava bêbado.

- Estou indo para casa, disse ela, começando a se assustar.

Isso era alguma espécie de ameaça?

Tião já estava muito cansado de diálogo. Não queria desperdiçar sua energia com isso. Não preciso dizer que a rua estava deserta no momento e que havia um beco escuro por perto. Essas coisas, nessas horas, se não existem, constroem-se, pois é muito difícil parar um homem decidido.

Muito menos os "não! pára!" dela obtiveram algum resultado nesse sentido, embora depois de minutos ela tivesse parado de pronunciá-los. A partir daí, foram advérbios de afirmação que tomaram espaço e o mais engraçado, para ela, é que seu primeiro orgasmo foi acompanhado da imagem de Matheus sendo desmontado, como se fosse formado por peças de quebra-cabeça.

Só não acendeu um cigarro depois porque fumar era pecado, para ela.

7.1.08

Feliz Medo Novo

Medo. Muitas pessoas pedem paz, amor, felicidade, pinto, boceta, dinheiro et coetera no Ano Novo. Iniciam os segundos inaugurais de mais uma volta que a Terra vai dar em torno do Sol com aqueles pulinhos ridículos dados sobre uma das pernas pedindo qualquer coisa que seja.

Eu não pedi nada. Um emprego, talvez, no máximo. Eu sei que as coisas só dependem majoritariamente de nós mesmos, sendo que às vezes uma coisinha ou outra escapa de nosso controle (chamam isso de coincidência, milagre, Deus, que seja), mas o essencial é sermos obstinados em nossas metas.

Talvez por eu saber disso tenha sido agraciado (ora, por quem?) com algo do qual nem fiz menção de pedir. Algo que me preencheu com uma sensação que jamais havia sentido: a sensação de que alguém me teme.

Machiavelli com seu Príncipe já sabia muito bem se era melhor ser amado ou temido. Machiavelli sabia que por trás de tanta soberania, ostentação e bajulação, grassavam perversidades das mais irremediáveis nos nobres. Ele sabia, inclusive, que isso é com todo mundo, seja nobre ou pobre. Machiavelli sabia das coisas.

Eu já sou amado. Só faltava ser temido.

Álcool. Uma droga tolerada socialmente. A usamos. Saímos de carro (não façam isso). Podíamos ter morrido. Sobrevivemos.

Acontece que era 1º de Janeiro de 2008 e a euforia era, digamos, deveras grande. Mexíamos com as pessoas nas ruas, nos carros, nas motos, nos bares. Brincávamos com elas e comemorávamos mais uma volta da Terra ao redor do Sol.

Entretanto, um casal num fusca não entendeu muito bem nossa brincadeira, pois a mulher do cara que dirigia, ao perceber que emparelharia conosco no sinal fechado adiante, desatou a gritar desesperadamente para o marido acelerar. Furaram o sinal. Que coisa feia.

Aquilo me encheu da sensação de que havia falado a vocês. O que ela achara que éramos? Marginais? Bandidos? Estupradores? Seqüestradores? Fiscais da Receita?

Aquela mulher nos temia. E seu marido temia ela, pelo jeito.

O que eu poderia dizer de tudo isso? Foi horrorshow.

3.1.08

Como escrever contos

Marcos não era de fazer rodeios. Foi direto ao ponto:

- Quero escrever contos, professor.

Ricardo, o professor de gramática, espantou-se. Jamais vira um aluno lhe dirigir a palavra após o sinal do intervalo. Há quem diga que vez ou outra maldizia os quinze minutos de prosa e salgados ruins da cantina da escola a que os alunos desfrutavam. Bem, jamais é um exagero. Sempre havia duas ou três taradinhas com hormônios a jorrar pelos poros com tanta intensidade quanto uma erupção do Etna; queriam saber de uma matéria não muito bem ensinada pela Língua Portuguesa: a vida privada de Ricardo, que era trintão boa pinta. Mas isso é pano para outra manga...

- Escrever contos?, repetiu surpreso.
- Isso.
- E por quê?
- Eu gosto. Gosto de escrever, professor, disse o garoto, resignado.

Ricardo estranhou. Que situação nova! Sentiu-se feliz. Talvez, aquela confissão solta por um menino tão sério e quieto como Marcos valesse todos os momentos em que teve de suportar rostos impassíveis, olhares longínquos e cochichos irriantes dos demais alunos. Ah! sem falar nos bocejos! "Custa essas criaturas taparem a boca?!", desabafava para si o irritado professor.

- E eu queria saber, professor...qual a melhor maneira de escrever contos.

Expora seu desejo rapidamente, como que envergonhado do pedido. Ricardo estava exultante:

- Como não, Marquinhos? - disse, zeloso - Estou aqui exatamente para ajudá-lo, embora seja a Márcia que dê Redação para você...
- Não gosto dela, professor.
- Nem eu, meu caro, bem, não depois que ela levou meu carro após o divórcio.

Marcos se sentiu desapontado:

- Professor, os contos...
- Ah, sim. Os contos. Diga-me, Marquinhos, o que a Bíblia, Dom Quixote e O Senhor dos Anéis têm em comum?
- Hum...são histórias de fantasia?, arriscou o menino, temeroso.
- Não! Embora eu seja ateu hehe - e, arrependido da piadinha fora de hora, tossiu disfarçando, reassumindo o ar professoral - são histórias longas. Narrações extremamente extensas e, para os incautos, cansativas. Os contos, nesse aspecto, são rebeldes.
- Rebeldes?
- Sim! "Cansamos dessas centenas, milhares de páginas! Queremos algo novo!", diriam, provavelmente, os criadores de contos.
- Não entendo, professor.
- O que você faz depois que passa um dia inteiro estudando para uma prova, Marquinhos?
- Não sei bem...ou vejo TV ou fico de bobeira no PC ouvindo música.
- Exato! Quando algo insatisfaz alguém, saturando-o, esse alguém procura outro algo em direção diametralmente oposta, Marquinhos.
- Geometria agora não, professor...
- Você entendeu ou não?!
- Entendi, sim. São opostos.
- Isso. Contos são como balas de um revólver: dinâmicas, cortam o ar como um relâmpago, fazem um estardalhaço como um trovão e causam um impacto devastador de um clímax que não exige um capítulo à parte para dar ânimo à história. Contos são surpreendentes, tenebrosos, indagadores. Deixam uma dúvida no ar que causa um certo vazio dentro de nós! Contos são...
- Professor! Minha pergunta foi qual a melhor maneira de escrevê-los! Não como são!

Após olhar perplexo para Marcos, o professor resolveu descer de seu Paraíso, recomendando, com voz apática, direto do Limbo:

- Você enche o leitor de expectativa e depois termina o conto do nada, para ele ficar com cara de bobo, Marquinhos.

E o sinal do fim do intervalo soou estridente, alertando Ricardo de que tinha aula no 1°B e de que Marcos tinha sua odiada aula de Geometria.