31.12.08

Já vai tarde, 2008

É com prazer que me despeço de você, 2008. Hoje, dia 31 de dezembro, você ainda tem algumas últimas horas de vida para aprontar das suas comigo. Nesse lapso de tempo em que reinou, em quantas enrascadas não tentou me meter, hein?

É hoje, à meia-noite, que nos separamos. Você, que será lembrado por mim como o pior ano da minha vida, será definitivamente enterrado no passado.

Talvez seja injustiça da minha parte julgá-lo assim, mas de que outra maneira o poderia tomá-lo por? É lógico que jogo em suas costas responsabilidades pertinentes a mim. Por serem minhas mesmo, vou sempre identificá-las sob a égide de seu tempo, quando elas tiveram lugar, quando ousaram acontecer.

Não me esquecerei de que, em seu tempo, quase traí a pessoa que mais amo. Não me esquecerei das leituras que me mergulharam em abismos, figura que passou permanentemente a fazer parte de meu imaginário, e da qual pareço nunca mais sair. Nunca esquecerei a aflição que é saber possuir uma outra família e saber que de fato ela não existe, pois nunca teve vontade de se reunir. Não olvidarei todas as tentativas de conseguir alguma dignidade e independência, todas negadas por empregadores que esperam pessoas com uma qualificação adquirida sabe-se lá aonde, sabe-se lá quando. Todas as recusas, todas as desculpas, toda a indiferença. Destas não esquecerei. E que dizer então da maior das perdas: meu porto-seguro. O lugar em que vivia, subitamente desmanchado pelo egoísmo e mesquinharia de algumas poucas pessoas. Tudo isso é, infelizmente, inesquecível, pelo que insisto em marcá-los a ferro com seu número, 2008, para que de minha memória nunca mais escapem, para que erros iguais eu não venha a cometer.

Não desmereço as coisas boas que me trouxe, embora poucas, tendo que reconhecê-las aqui: adquiri experiência. Como gosto de afirmar, da dor e da luta proporcionadas por você a mim, evoluí. Sou uma pessoa melhor, cada vez mais lúcida, mas ainda sei que falta muito para alcançar os patamares que almejo. Meus laços se fortaleceram e se estreitaram. Minhas amizades se resumiram a poucas pessoas, pelo que pude reconhecer melhor quem é confiável e quem não é, visto que já experimentei muito desgosto por aí.

É por isso mesmo que, em meio às desgraças do segundo milésimo e oitavo ano depois do nascimento de Jesus Cristo, faço questão de ressaltar pessoas como a minha namorada Ana, sempre a me apoiar, e amigos como Fabrício, Wilson e Renan, sempre a me compreender, dentre outras pessoas, sempre a me alegrar. De minha mãe, pai e irmãs então, não tenho nem o que falar, são minha sustentação e aquele empurrão necessário. Obrigado a vocês, que são o acerto de 2008 e de muitos outros anos.

Sobrevivi a 2008 e a meus próprios vícios e defeitos, os quais vou vencendo aos poucos, com firmeza. Que de um ano tão cheio de frustrações eu tire a força necessária para encarar um próximo ano, dessa vez mais cheio de esperança, com chances mais palpáveis.

Aguardo você, 2009, e não lhe darei trégua, enquanto não atingir o que busco. Pode vir com tudo, sem medo!

13.12.08

O porquê do nome do blog

Alguns leitores, por vezes, e com razão, param-me e indagam:

“Por que seu blog se chama Zaratustra tem que Morrer?”

A pergunta, feita com a mais sincera curiosidade, embaraça-me, pois às portas de completar seu segundo aniversário (sim, dia 25 de Janeiro!), não há nenhum post no blog a respeito disso.

Não que as tentativas certas já não tenham sido executadas. Pelos mais diversos motivos, contudo, o resultado não chega aos olhos dos leitores: ora falta-me criatividade e oportunidade para escrever sobre o assunto, ora meu dedo leve esbarra na tecla Power do teclado fazendo eu perder todo o conteúdo do texto, ora a Providência simplesmente me toma por teimoso e me manda um raio à cabeça. Não é por motivos assim, entretanto, que deixarei de tentar explicar algo que merece ser explicado. Afinal de contas, o nome do meu blog é sua principal janela.

É preciso salientar, antes de tudo, que em seus meses mais primitivos, o nome do blog era Zaratustra me Contou, num reflexo do mais pueril daquela fase de adolescentes estranhos que idolatram Nietzsche. No caso em questão, brincava com o título do livro de autoria do filósofo já citado, Assim falava Zaratustra¸ livro que fascinava meu desejo de contestação: ótima leitura para aqueles que almejam enxergar o mundo de uma óptica diferente, isenta de amarras éticas e morais, trajadas sob o manto sagrado das virtudes, capazes de engessar uma sociedade em bases sólidas e retrógradas, identificadas ora sob ferro e sangue, ora sob preces e terços.

É em Assim falava Zaratustra que Nietzsche se fantasia de Zaratustra, profeta e filósofo, e se põe a pregar suas observações sobre a vida, a morte, o pensamento, a sociedade e suas perspectivas, exaltando o que julga ser correto e sensato e atacando aquilo que abomina. Fascinei-me, inicialmente, com a visão dura e fria com que Zaratustra encarava as coisas, desprovida de sentimento, desprovida de qualquer coisa, pois uma visão niilista.

Em Setembro de 2007, entretanto, o nome do blog passou a ser Zaratustra tem que Morrer. De onde partira todo esse antagonismo?

Foi durante todo o primeiro semestre de 2007 que eu tive aulas de Ética, com um ótimo professor chamado Bianco. Nessas lições, fui inserido nos estudos da ética e da moral, ou seja, dos limites do ser humano, no que diz respeito aos seus atos potenciais e quanto ao seu próprio conhecimento; além do estudo das lógicas, a maneira como se ordena esse conhecimento. Durante esses ensinamentos, obtive contato com o estudo da lógica dialética, na qual não me alongarei em explicações, que podem ser conferidas aqui, mas que, resumidamente, posso conceber como “a contradição de idéias que leva a outras idéias”. O entendimento disso pode ser feito a partir de um exemplo contrário e prático, disposto bem a sua frente. Esse monitor com que você me lê, leitor, recheado de softwares, hardwares e etc, nada mais é do que o desenvolvimento da lógica racional, matemática, binária, do 0 e 1. Tal lógica envolve a essência da negação, da exclusão. A não pode ser não-A, eles se excluem, 0 não é 1 e vice-versa. Na lógica dialética, contudo, A e não-A não se excluem no todo, eles podem resultar em algo novo.

A aplicação social desse conceito merece a análise do momento pelo qual eu passava então: mudara-me para Londrina, para cursar a faculdade de Direito, separando-me, para isso, de mãe, pai, família, namorada, amigos e lar. Sem referências para me amparar, só pude contar comigo mesmo, com minhas próprias forças. Não havia quem me consolasse, quem fizesse as coisas por mim. Eu estava sozinho.

E foi nesse cenário que compreendi o sentido da “luta”. Não vá se fazer de ignorante, leitor, e imaginar que falo de combates corporais. Não. Falo de luta no sentido de superação, no sentido de ter leões em seu pescoço, cada um representando um enorme problema, e você ter de tirá-los dali, a qualquer custo, caso não queira tombar. Naquela época, apinhavam-se em meu corpo inúmeros leões, de dentes afiados, garras dilacerantes e tão pesados quanto todas as responsabilidades às costas de Atlas.

Voltando um pouco em nossa explanação, tínhamos Zaratustra, o profeta que vivia no topo de uma montanha, pregava a morte de Deus e contentava-se em proclamar a vinda do Super ou Supra Homem (por favor, não pense em Clark Kent), um ser perfeito que seria a evolução do ser humano como o conhecemos hoje, aquele que transita na rua ao seu lado todo dia.

Passei a negar essa visão de Nietzsche e a não concordar mais com ela. Percebi que a filosofia do alemão baseava-se em uma lógica matemática, racional, mecanicista, em que duas contradições não poderiam sobreviver no mesmo espaço. O Super Homem de Nietzsche significava a exclusão do homem normal, defeituoso.

Passei a conceber a fraqueza como ponto primordial do homem. Sim, a fraqueza. Sem a fraqueza, o homem não teria consciência de seus defeitos, de seus vícios, de suas desvantagens, e jamais poderia evoluir, à base de sangue, suor e luta. É com a vergonha que o homem possui de sua fraqueza que ele pode decidir-se a evoluir e a lutar, dando lugar a um ser superior, sim, porém advindo de uma lógica dialética, da contradição, da superação. Não é simplesmente um conceito excepcional de um ser superior que nega seu passado e toma o homem que fora com desprezo e negação.

O óculos quebrado na imagem do topo da página nada mais é do que isso: a superação. A quebra da fraqueza.

Envolto em problemas e cansado, pude negar Nietzsche e sua visão niilista e estóica. Pude me afirmar em mim mesmo, e acreditar na fraqueza, na luta e na superação. Não há o forte sem o fraco. Pude acreditar na lógica dialética e vencer meus próprios leões, acreditando na minha própria força.

Não é na profecia da vinda de um ser superior que o ser humano precisa acreditar. Tampouco na existência de um Deus que nos substitua na persecução de nossos desejos. O ser humano precisa acreditar em si mesmo e em suas capacidades e potencialidades. E então poderá fazer milagres. Precisa acreditar no poder de seu sangue, suor e lágrimas.

E, acreditando que a figura de Zaratustra representava toda uma destruição e uma descrença e a impossibilidade de existir um mundo onde as pessoas tivessem a ambição de melhorar em alma e garra, que proclamei à blogosfera e a todos que tivessem olhos para me ler e ouvidos para me escutar, não sem alguma tristeza e compaixão antes: ZARATUSTRA TEM QUE MORRER!

E esse tem sido o objetivo do blog desde então.

9.12.08

De elegias e epifanias não vive um rabecão

Dirigia por uma sinuosa estrada à beira de um penhasco. À esquerda, um denso paredão de rocha o espremia de encontro com o nada. Abaixo do nada, um mar revolto se rebelava contra pedras pontiagudas, quebrando-se em violentas ondas. Não era de se surpreender que estivesse nublado e umidamente gelado.

Avistando um acostamento margeado por um guardrail, parou o veículo. Desceu. Vestia terno, gravata, meias e sapatos pretos. Não fosse a camisa branca e a palidez doentia de seu rosto, dir-se-ia que era a própria encarnação das trevas.

Olhou para o carro, enquanto o contornava pela frente. Algumas manchas de terra no parachoque o chatearam, Acabei de limpar, desgraça, pensou. A Belina preta reformada tinha um ar soturno e solene. Sua compleição angular e comprida consistia numa imponente e volúvel lembrança fálica, embora cérebro nenhum captasse claramente isso. Era irônico que fosse um rabecão.

Ao encostar preguiçosamente na porta do passageiro para admirar o mar revolto, bateu três vezes no vidro de trás. Após algum tempo, ouviu outras três batidas vindas de dentro do automóvel.

O porta-malas está fechado, porra, reclamou uma voz rouca.

Ah, é, esqueci. Vou abrir.

A coisa pálida e fria se prostrou ao seu lado, ainda de olhos semicerrados devido à claridade súbita a que fora submetido, mas aos poucos hipnotizado pelo vaivém do raivoso mar. Vestia um belo terno.

Caramba, faz só dois dias e já estou morrendo de saudades de visões como essa.

Achei justo que um navegador tivesse direito de ver mais uma vez seu meio natural, respondeu o motorista. E, além disso, você não está morrendo de saudades, você está morto de saudades.

Você é o quê? A Morte?, questionou o morto, momentaneamente irritado.

Não, eu só dirijo o rabecão.

Eu não imaginava que eu pudesse falar com alguém depois de morto. Para mim, quando eu morresse, eu simplesmente estaria…morto.

Ah, acontecem coisas realmente incríveis depois que você morre.

Tipo o quê?, ansiava em saber o de cujus.

Sei lá, descubra sozinho - e o motorista julgou ver um brilho inexistente se extinguir nos olhos sem vida do frustrado morto. Ele arriscou perguntar, após minutos em silêncio contemplativo:

É muito ruim…? Você sabe, ser enterrado.

Não sei, quem sabe isso é o coveiro, e não converso com ele desde que descobri seus estranhos hábitos sexuais.

Desse jeito você não me anima!, queixou-se a coisa.

Você não tem anima mesmo, hehe!, ironizou e prosseguiu, dessa vez sério: Vamos embora, não quero atrasar a entrega.

Ótimo, morto delivery, é o que me restou.

Peraí, no banco da frente não, presunto, pode voltar lá para a sua caixa.

Saquei, é uma coisa meio Morto in Box então?

Engraçadinho, vamos logo.

Logo voltaram para a estrada sinuosa, achatados entre rocha, mar, asfalto e pesadas nuvens. O defunto havia deixado o caixão aberto, e não demorou até que sentisse vontade de dialogar.

Vai. Me diz qualquer coisa, preciso saber um detalhe. Vai haver algum julgamento? Uma coisa cristã com São Pedro ou então algo mais pagão, à la Dante? Quem sabe até algo budista, uma balança?

Bem, eu sei de pouca coisa. Você não vai ficar muito tempo ocioso. Lógico que terá de se despedir dessa construção carnal, isso é só um recipiente, mas vai ganhar um novo, relaxa. Oroborus, entende? A cobra comendo o próprio rabo.

Oro o quê? que sacanagem é essa?, exclamou sem compreender.

Esquece. Mas veja pelo lado bom, pelo que sei, ninguém vai dar a mínima para sua religião em vida e pelas besteiras que você cometeu. Suponho que sejam muitas.

Algumas… Sabe, eu sonhava com aquela idéia de perpetuação do seu melhor momento, daquele dia mais fantástico em vida. Um verdadeiro paraíso.

Ah, é? E o que seria? O dia em que um marinheiro gay tatuou um navio na sua bunda?

Vai se foder. Seria como quando velejei pelo Atlântico. Portos da África, Brasil, Mediterrâneo, e o Caribe, ah o Caribe! Sol, estrelas, lua, as tempestades. Cada monstrão.

Sei. Legal. Mas não. Você é enterrado, apodrece, depois, ao que parece, tem uma certa burocracia. Filas, formulários, essas coisas.

Chegaram numa cidade portuária. O cemitério situava-se em área nobre, alta, donde se via toda a parte baixa da cidade, além do vasto mar, agora nem tão revolto. Pequenas ondas alegravam corajosos que ousavam aventurar-se no poluído mar, enquanto que do lado oposto ao da praia, navios de médio porte atracavam nas docas.

Escuta, agora entra aí no caixão, tem que seguir o combinado, ok? nada de se mexer, simular respiração, abrir os olhos, bater na bunda da amante, esse tipo de coisa.

Eu não tenho uma amante.

Azar o seu.

Eu aproveitei a vida ao meu modo, senhor sarcasmo. Pena que ficarei enterrado e não poderei admirar essa bela paisagem que há daqui.

Deita logo aí, te vejo em outra vida, amigo.

Adeus!

Estacionou o carro no local indicado pelos administradores do cemitério. Dali poucas horas dar-se-ia seguimento ao funeral, o qual seria finalizado com toda a pompa do enterro. Haveria padre, esposa triste, pais aos prantos, irmãos saudosos, amigos desfalcados, quiçá filhos perdidos, sem saber como reagir a essa coisa nova e estranha chamada morte. Haveria também meia dúzia que nada sentiria pelo morto, estando ali apenas pela convenção social que os coagira a tal atitude: um negócio a ser fechado, um amor a ser conquistado, um papel a ser cumprido. Demonstrar dor na hora certa facilita inúmeras situações em vida. Durante a morte, a nada aproveita. Não se pode esquecer das pessoas que estariam ali por puro interesse, atrás de comida, bebida ou, o que seria mais estranho, atrás de um funeral. Há vícios para tudo e tudo aos vícios parece convergir.

Tendo realizado com sucesso seu trabalho, o motorista do rabecão decidira ir direto para sua casa, um pequeno apartamento no subúrbio da cidade mais ao interior. Lavaria o rabecão novamente, sob pena de sofrer advertências do chefe metódico. Não permaneceria durante o enterro, por mais que tivesse simpatizado com o navegante morto. Aborreciam-lhe os choros, os prantos, a dor, a perda, os interesses e os vícios. Irritava-lhe a sensação de fim de mundo. Pena que não soubessem de nada, pensava.

Estou de saco cheio dos vivos, sentenciou.

E dirigiu seu rabecão preto pela estrada vazia.

6.12.08

Uma geral sobre filmes e vida pessoal

Quase já me arrependo de ter feito o Top 5 Filmes que marcaram 2008 tão antes do fim do ano. O horizonte parecia não trazer nada inovador, mas eis que me aparecem Quantum of Solace e Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto (que, apesar de lançado em 2007, só estreiou no Brasil em 2008). Não sendo suficiente, ainda ouço ótimas críticas de Queime Depois de Ler, Vicky Cristina Barcelona e Gomorra. É por isso que eu digo: top 5 são efêmeros.

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Guardadas as devidas proporções, é interessante aproximar as temáticas de O Sonho de Cassandra e Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto. Ambas tratam da concepção do remorso, da culpa e do castigo resultantes da prática de um crime. Tudo envolvido num drama denso, com aquele ar que se diferencia dos temas estáticos que permeiam os dramas atuais (como filmes de mulheres de meia idade infelizes) e, além de tudo, trazem um interessante debate ético sobre a relação homem-dinheiro/poder. Obviamente, os diretores dos dois filmes (Woody Allen no primeiro e Sidney Lumet no segundo) beberam grande parte de sua fonte na, infelizmente, manjada obra-prima de Dostoiévski, Crime e Castigo. Longe de mim falar mal desse livro, o qual recomendo de pronto, assim como os filmes.

dostoievskiTendo sua obra como modelo para inúmeros artistas, Dostoiévski entrou para o hall da fama, junto de Metallica, Madonna e Lula.

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Gomorra é um filme italiano que retrata a máfia napolitana, Camorra, e foi inspirado no livro homônimo do jornalista Roberto Saviano (um sujeito que, por expressar a realidade, agora perdeu sua liberdade…não liguem para a rima). Ao que parece, tanto o filme, quanto o livro e a própria realidade disputam pau a pau com a visão brasileira de cinema de “quanto mais cru, violento e hiperbolicamente real, melhor”. Não é por sadismo, mas mal posso esperar para assistir.

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Prova de que a TV emburrece: desde que a NET liberou o pacote “Estilo” para minha TV a cabo, minhas leituras declinaram consideravelmente. Não é por menos. Quem é que quer saber de Graciliano Ramos, Rubem Fonseca e José Saramago quando se tem Family Guy, Lost, Dexter, Damages, Discovery Channel, entre outros, para me tirar a concentração?

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id4abreEstou procurando desesperadamente um estágio. Se alguém souber de um escritório de advocacia ou um órgão público atrás de um jovem promissor e bem apessoado, avise.

 

Futuro de V.H.

4.12.08

Um lugar para viver

- Você sabia que Londrina é a sexta cidade do país com o maior número de prédios?, perguntam, orgulhosos, alguns incautos.

O truque surpreende os desavisados. De fato, a cidade constava num determinado ranking como possuidora de tal status, mas apenas porque um dedicado cidadão havia cadastrado todos os edifícios da cidade.

De qualquer maneira, não seria surpreendente se a segunda maior cidade do Paraná gozasse de semelhante privilégio. Londrina tem muitos, muitos prédios mesmo. É uma cidade média de, aproximadamente, 500.000 habitantes, que teve, durante toda a década de 80 e 90, um fantástico processo de verticalização. Duvida?

 londrina anos 50 Londrina, anos 50

 londrina anos 90 Londrina, começo dos anos 90

Isso é só uma parcial do centro, onde eu moro (lembrando que a cidade só tem 74 anos). Multiplique isso por algum número mais ou menos grande que você esteja pensando e corrija com acréscimo para a nossa década e, tcharam, terá Londrina e seu universo de prédios.

É nesse cenário à la Metrópolis que eu tenho de procurar um lugar para viver, já que Deus e o mundo, como alguns sabem, tenho de me mudar até o dia 15/12.

E eu gostaria de partilhar um dado interessante: mesmo com essa cacetada de prédios, acreditam que eu não achei nenhum lugar ainda que valha a pena? Pois é. Não, não sou otário, não.

O mais intrigante é que eu já devo ter visto uns 25.000 45 prédios e cada um tem seu jeitinho intrigante de ser.

Aqui no centro a maioria dos prédios se divide em dois aspectos: tem os prédios aposentados que jogam dominó na praça e os prédios estudantes. Os primeiros são bem antigos e os segundos também. Na verdade, eles se confundem. Porém é fácil perceber um prédio aposentado, pois ele o olha com aquela cara arrogante, sem tolerância alguma. Prédios aposentados geralmente gostam de síndicos chatos e igualmente velhos e não suportam estudantes ateus, agnósticos, promíscuos, pagães, de famílias separadas, não-cristãs e com fiadores distantes, embora nunca saibam diferenciar ninguém: para os prédios aposentados, é tudo farinha do mesmo saco.

Já os prédios estudantes são mais desleixados. Geralmente seu elevador não funciona, por falta de pagamento do condomínio. Porteiro então, nem pensar. Suas paredes são meio sujas e não é incomum ver em suas portas inúmeras adereços coloridinhos e bizarros que acusam peremptoriamente que ali vive um estudante. Barulho é normal. EU DISSE NORMAL, NÃO ESCUTOU?

Mais ao sul, na riquíssima (madames adoram superlativos: magérrima, chiquérrima, mas aposto que não sabem que o superlativo de sério é seriíssimo) Gleba Palhano, temos os pomposos prédios de elite. Esses prédios praticamente brilham de tão novos e bonitos que são. Em seu interior, é bem capaz que o ouro e o diamante brilhem com ainda mais intensidade, embora o interior de seus donos não revele nada mais do que uma podridão opaca e ambiciosa. Não preciso nem dizer que a presença de estudantes não é tolerada nesses estabelecimentos. Velhos são permitidos, desde que possuam um iate. Ou dois.

 gleba palhano A Gleba Palhano. Note a condição precária de vida do local.

Por fim, temos os prédios normais. Eles se dispõem de maneira regular e espalhada pela cidade e, de tão normais que são, servem à classe média. São certinhos e bonitinhos e geralmente foram vendidos com a rubrica do “sonho da casa própria” como não poderia deixar de ser. Estando em um deles, é comum que as pessoas não incomodem mais ninguém, ainda mais o governo, ou a elite.

É capaz que alguém comente: “mas e os prédios dos pobres?”. Bem, desde quando pobre mora em prédio? Londrina é uma ótima cidade, mas não é diferente do resto do Brasil. Pobre mora em casa, de preferência com puxadinho no quintal e um pintcher barulhento no jardim.

E nesse caos edificado, estou eu, à procura de um imóvel, sem muitas pretensões, algo que tenha a vida de um prédio estudante, a pontualidade nas obrigações de um prédio aposentado, a beleza, ainda que singela, de um prédio de elite, e a simplicidade e calma de um prédio normal. Mal imaginava eu que fosse tão difícil encontrar.

O dia 15 se aproxima e espero que vocês torçam por mim!

Caso contrário, o blog será escrito no olho da rua.

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Eu não sei a quem creditar as fotos, mas as achei no fórum de discussão Skyscraper City, na seção regional do Sul.

1.12.08

Os jovens não lêem obituários

Acendeu o cigarro com alguma dificuldade: ainda que estivesse sob o guarda-chuva sobriamente preto, o vento e a umidade do ar pareciam lhe oferecer todos os obstáculos do mundo para não acender aquele cigarro. Talvez até fossem agentes à serviço de sua insistente mãe, que rezava para ele encerrar aquele odioso vício o quanto antes.

Entretanto, devido à gravidade da situação, logo forçou-se a parar de gracejos. Bem em frente, abaixada, estava Valentina, em seu hermético traje de luto, sussurando qualquer prece ou despedida para o túmulo de seu avô. Valentina vertia lágrimas para um sólido pedaço de mármore.

Olhou-a longamente, cigarro na boca, reprimindo-se por ficar pensando em bobagens durante um momento delicado em que Valentina sofria.

Súbito, ela se levantou, mãos presas ao regaço e cabeça baixa. De pronto se aninhou no corpo dele. Sem pronunciar som algum, ficou por ali um tempo que pareceu infinitamente superior ao que de fato se registrou. Não oferecendo resistência, ele a deixou ficar presa a si, molhando seu sobretudo com quentes e pesadas lágrimas, aquecendo-lhe as mãos geladas. Fez o que podia fazer: jogou a bituca no chão e pisou-a.

Quando Valentina cansou de chorar, virou o rosto para cima e encarou-o com alguma indulgência. Ensaiou um sorriso medíocre e balbuciou:

- Obrigada pelo artigo, muito digno, obrigada mesmo.

- Ele merecia - respondeu o obituarista. Foi um grande homem.

···

De madrugada, sozinho em sua cama, ainda em trajes sociais, leu, à luz de abajur antigo:

Ulisses Carvalho, 85 anos, nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, e deixou a terra natal há exatos 38 anos atrás. Foi comerciante em terras mineiras e, ao se mudar para …, tornou-se tabelião…

Não prosseguiu na leitura. Não conseguiria, uma vez que jamais relia seus obituários. Sentia uma espécie de ansiedade, que às vezes tomava por nojo. Ao ler as primeiras palavras, subia-lhe à testa um frio e pegajoso suor, os pés batiam depressa, as mãos tremiam, tiritava. Nunca chegava ao final. Escrevia com sua experiência, dignava-se do seu trabalho e de sua capacidade, porém, o texto em si só lhe seria cravado na memória no momento da redação. As correções ficavam a cargo do editor ou de qualquer outro funcionário à disposição no momento. Ninguém, contudo, tinha conhecimento dessa estranha aversão, posto que a disfarçava com sobriedade e brilhantismo, evitando correções futuras.

···

Entrou na casa de Valentina Carvalho sem apertar a campainha. A porta estava aberta e julgava gozar de intimidade o suficiente para tal iniciativa, embora houvesse se detido por exatos dois segundos antes de girar a maçaneta. Não gostava do cheiro daquela casa. Aliás, não gostava de nada naquela casa decrépita e crepuscular.

Valentina passava roupa agitadamente na cozinha. Vestia apenas uma calcinha e sutiã, o que não chegou a criar embaraços. Seu corpo não se ressaltava por curvas volumosas e sua palidez assustava os incautos. Na porta que dava para o quintal, sentada numa cadeira de rodas, estava a vó da garota, olhando fixamente o nada, como uma estátua talhada toscamente. Ele sabia que, toda vez que Valentina olhava para a velha, sentia tristeza. Talvez por suas convalescências, talvez por outras responsabilidades.

- Vamos – convidou-a.

- Não seja bobo, você sabe que não posso sair agora – e fixou seu olhar para a porta do quintal.

- Ela não vai a lugar algum, replicou rudemente.

- Não posso deixá-la…

- Você sabia que em 2020 as pessoas com mais de 60 anos serão 13% da população? E que em 2050 haverá 127,7 idosos para cada 100 crianças entre 0 e 14 anos?

- Não, não sabia e não me importo. Você e seus números…

- Vivemos numa bomba relógio caduca.

- Eu tenho que cuidar dela, vai querer ficar aqui comigo?

- Não.

···

Sentados num banco de praça, observavam placidamente pombos em suas pendulares brigas por comida. Gostava da companhia de seu amigo Torres, sujeito quieto e sabido.

- Ela vive num cemitério, Torres!, exaltava-se o obituarista.

- Veja pelo lado bom: você economiza com moradia ao morrer.

- Não fode. É um pepino muito grande para ela cuidar da vó. Não entendo como pode acontecer tanta desgraça com uma pessoa: perder os pais pequena, perder o avô que cuidava dela e da esposa, ter que se virar e cuidar de si mesma sem noção de nada. Ela não tem ninguém. Só a avó, um peso morto. A velha não se move, não fala, é um vegetal.

- Ela não pode abandoná-la, não seja idiota, isso mostra o quanto ela é fiel.

- Mas a preço de quê! Ela não tem mais vida, trabalha mal, não se diverte. O emprego dela está na corda bamba. Nem transar mais ela tem dado conta..

- É isso que o preocupa, não transar?

- Pff.

Acendeu um cigarro. Lembrou da mãe. Após um tempo, prosseguiu:

- A velha tolhe a juventude da neta. Eu apenas queria que ela vivesse sua vida, não acho justo que ela perca bons momentos apenas para ficar presa a uma mulher que não vive mais. Que a suga.

- Talvez ela esteja aprendendo a viver dessa maneira. A vó não é um peso morto, é um sinal de vida. Ali nas rugas e nas varizes da senhora estão todas as pistas do que é a vida: vivências, avisos, alertas, experiências, sensações, sentimentos. Tudo. Os idosos vêem seus companheiros morrerem, eles sim perdem tudo, nós não perdemos nada, não vi você morrer e é bem provável que meus pais disputem a maratona esse ano. Até meu cachorro da infância ainda está vivo. Valentina já perdeu muitas pessoas, talvez ela sinta uma ligação com a vó, mais do que já há.

- Você é mesmo um filósofo de merda, Torres…, sentenciou pensativo, sob risos.

···

- Eu adoro esse lugar, mas… por que você me chamou aqui? – perguntou Valentina, envolta em dúvidas.

Estavam num parque: acompanhavam-nos uma relva verde, árvores encurvadas, borboletas em perseguições umas às outras e uma bola chutada por crianças. Uma brisa levemente gélida os acolhia. Distanciada dos dois, na cadeira de rodas, estava a avó da garota, a manter seu olhar pétreo em direção do casal.

- Valentina, eu amo você.

A moça pareceu alegrar-se um átimo. Ele não aguardou muito para ir adiante:

- Mas tenho visto você se afundar num poço, do qual talvez não consiga sair por conta própria no futuro. Você não pode se enterrar junto com seus avós.

- Vai começar com isso de novo…?

- Sim, vou. Eu amo você.

- Você já disse isso.

- Digo quantas vezes for preciso.

- Você precisa me entender.

- E você precisa viver.

Ficaram três minutos em silêncio.

- Valentina, descobri um lugar ótimo, fica num bom bairro, eles contam com uma equipe bem treinada, disposta a cuidar de sua avó, eu posso te ajudar a pagar.

- Você quer colocá-la num asilo?!

- É uma casa de repouso.

- Não me venha com eufemismos! Típico seu.

- É um ótimo lugar, eu visitei.

- Por que você odeia os velhos?

- Não odeio os velhos, só estou cansado de trabalhar com eles…

- Eu não sei o que fazer…

- Nem eu…

Apertaram as mãos, convictos de que a indecisão era, por ora, a melhor solução. Em sua sinuosa trilha em busca de paz e de estabilidade, deparavam-se com uma velha senhora, doente, que, por exigir atencioso cuidado, tomava o tempo produtivo da neta, Valentina Carvalho. Valentina sentia que arrebentaria sob tanta pressão e responsabilidade: não estava preparada para uma tarefa de tal magnitude, seu avô costumava manter tudo em ordem. Não ousava enfrentar a fidelidade familiar e abandonar a avó, tinha dúvidas do que o avô pensaria de tudo isso; porém, desejava viver, ir além. Seu companheiro, um obituarista, desejava o mesmo, sob arroubos egoístas, um ar cínico e algum senso de justiça e afeto.

De olhos fixos, sem esboçar reação e vida, a vó os vislumbrava, saudosa de tempos agora transformados em mármore: sentia inveja, pena, tristeza e remorso, tudo ao mesmo tempo, tudo contido dentro de um corpo inerte. Queria morrer.

28.11.08

Pausa para caridade

Para provar que o Zaratustra tem que Morrer não é um blog insensível, egoísta e desantenado dos problemas corriqueiros do cotidiano, resolvi atender a uma solicitação de ajuda que a Fê Guimarães do Quer um Bicho? gentilmente me pediu.

Mr_T_BA Do que você chamou o blog do meu amigo? 

Ela criou o blog com o intuito de estabelecer um canal de adoção para animais abandonados na cidade de Londrina. E vou te contar: só na UEL deve ter uma população de cachorros soltos maior do que a população do Acre.

Então se você for uma pessoa com muito amor para dar e não tiver filhos pentelhos nem namorado(a) carente, contate a Fê e adote um bichinho!

ATgAAAByghTysm2OfPJYLrQZwldCzBuVcdxFs7zJRvlwA9oBPEs0vTmPJXQ3exhFcAo2M2s_6-q22rAODP_KwtDyXiHIAJtU9VBZReW00-yzX5KeNOktxOXRLVIJUA  Cachorro-modelo posando para campanha humanitária. Fotos: JR Durão.

Agora podemos prosseguir com a agenda de difamação, ironia e realismo em doses homeopáticas.

25.11.08

Rua Piauí, 191, Ed. Centro Comercial

Do vigésimo andar do idoso edifício podia contemplar toda a região norte da cidade, bem como partes das regiões leste e oeste, revelando mais prédios, muitas árvores, obras, casas, veículos, etc. De fato, aquela janela no topo de seu mundo abria vistas para um horizonte, um rumo. Admirando a beleza da cidade, concluiu:

londrina 

- Essa cidade é uma princesinha.

Não o dizia pejorativamente, tampouco esboçava trejeitos de velho bêbado cheio de péssimos adjetivos para se referir às mulheres: não conceituava a cidade como chuchuzinho, belezinha, gostosa ou o que valha. Não. A cidade era uma princesinha, e era assim pelos motivos mais simples e didáticos: era única e bela.

Isso era o de menos e logo sua cabeça voltou aos problemas usuais. Recostou-se à parede abaixo da janela e pensativo ficou, coçando a rala barba que se espetava no queixo.

Olhou em volta e viu a enorme sala: alguns traços de deterioramento, nada grave. O chão de taco riscado, os sofás rasgados, o hack insólito, a mesa de madeira simplória. Faltava algum amor pela coisa coletiva ali. Talvez a falta de uma decoração, um toque daqueles de mãe.

Não ousou percorrer o resto do enorme apartamento, já cansara de descrevê-lo em seus escritos, em seus pensamentos, em seus relatos, em seus sonhos. Observar era cansativo.

Era um daqueles casos em que se deve esquecer o amor.

E a sorte do garoto era que, ao menos, esse amor não envolvia o coração frágil e quebradiço de uma pobre dama, ainda que as mulheres tenham seus corações da carne mais firme e resistente. Não. Tal amor abandonado deveria deixar para trás cimento, cal, madeira, gesso, enfim, tinha prazo para sair daquele apartamento. Improrrogável.

Se ao menos se conquistasse aluguéis com poesias e rosas, pensou. Mas pensou em vão, pois, muito contrariamente, aluguéis (ou alugueres, como ousava insistentemente afirmar o rígido prof. de Direito Civil) são conquistados à base de suor e esgotamento. Fianças, então, exigem sangue e sacrifício, quando muito, um braço ou dois. São as inversões.

Dali poucos dias passaria no depósito de qualquer supermercado, pegaria caixas de papelão das que aparentassem ser mais higienicamente resistentes e, com elas, iniciaria o processo de mudança, pela quinta vez em dois anos.

Iria para uma pequena pérola. Um desses achados, que passam despercebido até mesmo dos astutos corretores de imóveis, gente que o desagradava pelos mais diversos motivos.

Lá, para variar, como sempre, tentaria ser feliz.

24.11.08

Ausente? Eu?

Minha ausência se explica por diversos fatores, tais como: monitor dando problema, assistência técnica preguiçosa, inúmeras provas de final de bimestre, busca por um apto decente e os já usuais problemas de ordem pessoal, como morar com gente escrota que não me quer mais por perto pelos motivos mais esdrúxulos e falta de estágio e, consequentemente, grana.

Relevemos. Logo volto a postar, imprimindo o ritmo de postagens de anteriormente.

Aquele abraço a vocês que, apesar de poucos, me fazem ter orgulho de me expressar pela escrita.

12.11.08

Tremores fiscalizados

Eu estava convicto de que escreveria hoje um texto sobre minha recente experiência de ser fiscal de um processo seletivo quando me deparei com a seguinte manchete:

Professores chamam PM para conter briga de alunos em SP

Segundo estudantes, confusão começou com discussão entre 2 meninas.
Jovens começaram a depredar colégio, destruindo carteiras e janelas.

Continuar lendo…

A intromissão da reportagem caiu-me como uma bomba, pois entra em conflito com tudo o que vivenciei no último domingo, durante as 8 horas em que permaneci no local de prova. O que me força a chocar as duas matérias.

82_jan03_-_child_crying Vestibulando usual antes de fazer a prova, também conhecido como protocalouro

Domingo, 11:05. O terminal urbano já demonstrava sinais de lotação. Linhas de ônibus haviam sido modificadas com o intuito de melhor comportar a demanda que se instalaria naquele dia na cidade. Nesse domingo ocorreria o Vestibular 2009 da UEL, a universidade em que estudo. Quase vinte e quatro mil pessoas concorrendo a uma vaga na instituição.

Dias antes havia me inscrito para ser fiscal do processo, em que logrei sucesso. A apreensão tomou conta de mim, afinal, é alguma responsabilidade cuidar de tantos alunos numa classe e apresentar a lisura necessária no transcorrer do vestibular. No sábado anterior, haviam sido dadas várias instruções, às quais procurei me ater com cuidado, ouvindo atenciosamente as notas da trintona que coordenava minha turma. Para o dia seguinte, o domingo, deveríamos chegar até meio-dia, quando conheceríamos a pessoa que formaria uma dupla conosco e receberíamos os materiais necessários para a aplicação da prova.

Sem almoço e tão aflito quanto como se fosse eu a fazer o vestibular, fui até o terminal e de lá peguei um ônibus para a UEL, posto em que eu seria fiscal. No caminho, pude constatar mais uma vez que eu devo ter cara de guichê de informação, uma vez que todo mundo que me encara vem pedir alguma informação.

P., uma menina que faz Medicina, acabou sendo escolhida para ser fiscal juntamente comigo. Mineira e divertida, acabou me descontraindo, e assim pude ficar mais tranquilo. O problema era que ambos éramos novatos na aplicação de prova, o que não chegou a ser empecilho, pois fizemos um bom trabalho.

Arrumamos carteiras, passamos informações no quadro negro e deixamos tudo burocraticamente em ordem. Logo os alunos começaram a chegar e fomos conferindo os cartões de identificação e os RGs. Gente de Santos, São Bernardo do Campo, São Paulo, São José do Rio Preto, Cascavel, cidadezinhas do Paraná, cidadezinhas do Brasil inteiro. Londrina é uma salada multiétnica e multicultural e até agora eu só não vi gente do Acre aqui – o que é escusável, uma vez que o Acre não existe mesmo.

14:00. Portões fechados, ordens de começar a prova. Passadas as instruções, distribuí os cadernos de prova e as folhas de resposta. As instruções taxativas, atraíam cada olhar inseguro dos vestibulandos e logo pude perceber o temor deles em relação aos fiscais, em relação a mim. Minha simples aproximação causava tremores nos mais inseguros e isso me divertia, não por sadismo, mas por imaginar que, se eles soubessem que sou um cara simples, que estuda ali e que só é fiscal para descolar uma graninha, não ficariam tão aflitos e nervosos. Eu mesmo, que um dia já estive sentado no lugar deles, me sentiria muito mais calmo e tranquilo se soubesse disso.

Agora eu estava do lado oposto e eles nem sonhavam que eu era um rapaz normal, ainda que estivesse usando calça jeans e all star. Encurvados sobre as carteiras para a feitura da prova, pareciam antílopes comendo pasto no seringuete. E ao menor rugido do leão-fiscal, viravam a cabeça para cima, ao mesmo tempo, como fazem os quadrúpedes quando houvem um ruído suspeito se espreitando para caçá-los.

Esse temor todo, no entanto, me causava alguma comoção. Estavam ali alguns pobres coitados, estudantes de ensino médio ou de cursinho que botaram na cabeça que uma vaga na universidade é realmente uma peça fundamental para o sucesso profissional, um passo importante para o futuro, um elemento essencial na construção do ser. Nessa ingenuidade típica de idealistas, mal sabem eles que o papel da universidade é relativo, que uma vaga garantida não traz evolução intelectual, não resolve seus problemas, pelo contrário, aumenta os horizontes das preocupações. É lógico que não posso tripudiar da minha conquista, porém, como muitos outros, ao chegar onde estou, pensei, com certa decepção: “é isso?”.

Se soubessem que toda a diversão do mundo não está na faculdade, que não há tanto sexo e álcool quanto os filmes americanos os fazem acreditar, que a corrida por um estágio é tão cruel que desampara a todos, que a dificuldade financeira é uma realidade presente, que o nível das aulas muitas vezes deixam a desejar até mesmo para o ensino médio, que a falta de engajamento afeta a muitos e que, definitivamente, o mundo não pode ser mudado radicalmente a partir dali. Ah, se eles soubessem…

Entretanto, essa ingenuidade me anima, pois de qualquer maneira eles têm uma esperança. E depositam tanta esperança numa simples prova - que não conseguirá jamais apreciar todos as capacidades que um aluno pode apresentar - que tremem de medo quando passo perto deles ou quando seguro em seus dedos para recolher suas digitais.

É por essa esperança ingênua que a notícia da rebelião dentro da escola me choca. Onde está a esperança de vândalos? De animais bárbaros? Alguém ali, naquela escola que alimenta cotidianos de uma penitenciária, vai depositar esperança numa prova? Numa chance de alcançar o tão sonhado futuro?

Em suas ignorâncias vazias e irracionais, estes pequenos marginais se atêm à mundanices das mais fúteis, brigam por nada e nada sabem sobre civilização. Sua educação vem estragada de berço e acham mesmo que o fato de uma pessoa ser de um bairro diferente os autorizam a agir feito bandidos. Burros demais para entender algo básico: somos todos iguais.

Esses jamais tremerão perto de mim, pois jamais estarão numa sala de vestibular. Eles não têm esperança, logo, não têm futuro, há não ser que se arrependam. Ou alienem seu futuro para o crime, o que de maneira alguma se caracteriza como futuro, mas sim como caminho direto e certo para o caixão, ou para a prisão, ou para o remorso.

Num país em que polícias entram em confronto entre si, em que órgãos de inteligência iniciam guerras fratricidades motivados por politicagem, em que presidente da mais alta Corte apresenta a mais reles baixeza ao lidar com seu cargo e em que um delegado, ao cumprir seu serviço, passa de herói a vilão em questão de meses, bem, lamento vos informar, mas, nesse país, a esperança morreu, e todo tremor será castigado.

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Em tempo: Saí de casa 11:00 e cheguei 20:40. Ganhei R$80,00. É mole?

7.11.08

Tudo aquilo que ignoramos

Quão atentos são seus olhos? Quão perspicaz é seu cérebro? O que capta sua audição? Seu corpo trabalha para que você consiga sentir inúmeros estímulos durante seu dia, mas você presta mesmo atenção em tudo que está ao seu redor?

Quantas vezes no seu dia você pára para olhar o entorno e notar o que o cerca? Em suas apressadas andanças pela cidade, quantos detalhes você consegue apreender?

Quando cansei de correr, pude parar para respirar e perceber a vastidão da vida, seus enraizamentos, suas multidões, as milhares de probabilidades resultantes de cada pequeno gesto que dela advém.

O pobre peruano que, de olhar triste na praça, emprega todas as suas esperanças na possibilidade de que consiga vender algum CD com suas tradicionais e ruins músicas tocadas na flauta-de-pã; o idoso que, sentado ao banco, observa a agitação do vai-e-vem e se perde em memórias inúteis, relembrando algo que já está gasto; a pomba sem uma das patas vermelhas e sujas continua sua laboriosa luta para conseguir comida, num pendular e cansativo movimento de cabeça; a senhora de bengala, numa inimaginável conversão de valores, acaba por ter de ceder o lugar ao retardado no ônibus, enquanto jovens saudáveis permanecem devidamente sentados e acomodados em seus bancos e prepotências; o cheiro doce de chocolate e mel que a loira do 18 exala impregna o elevador durante horas, e seus encantos vão sempre parar, assim que desce do elevador e sai do prédio, num bonito e caro Audi, onde ela adentra com seus volumosos peitos em decote, sabe-se lá para fazer o quê. Esses são exemplos que comprovam que em cada canto há um acontecimento que seus olhos deixaram de registrar, talvez por cansaço, talvez por desatenção, talvez por ignorância.

Não tenho lá grandes dons e conhecimentos acumulados em vida. Tenho, porém, a paciente capacidade de observar e, com isso, entender pouco a pouco esse quebra-cabeça complexo de peças faltando que é o mundo, que é a vida.

Se quer um conselho, pare por um momento e observe à sua volta. Observar é aprender e aprender é evoluir, é saber como lidar com o mundo. Uma pessoa que se fecha em si nada observa. Conseqüentemente, a visão dela é limitada, sinuosa, estreita e ela se aprisiona em egocentrismo e incompreensão, incapaz de entender qualquer coisa que não seja as aspirações de seu próprio umbigo…

- Estação central, anunciou a melíflua voz.

Interrompeu de pronto sua leitura, aproveitando para dar uma última e ensaiada ajeitada em seu paletó enquanto desembarcava do trem sem esbarrar os olhos em nada nem ninguém. A caminhada até o prédio da reunião importantíssima levaria alnda bons minutos e queria ter com o que se distrair até lá, razão pela qual aumentou com esmero o volume de seu player. Estava agora irremediavelmente confortável, em seu particular momento musical, com Every little thing, Beatles.

4.11.08

relMIRPT: “eleições americanas”

Relato nº 89.255.789 da Missão de Investigação e Reconhecimento do Planeta Terra (MIRPT)

Ter>hum>soc>pol:

É com grande alvoroço que os terráqueos vêm observando a escolha de seu novo líder tribal chamado de Presidente dos Estados Unidos da América. Este terráqueo, que possui o poder de determinar os rumos da sociedade humana, é escolhido por meio do que os terráqueos chamam de “voto”. Dizem os terráqueos que o “voto é uma arma” e constatamos que estão inteiramente certos, pois com o tal do voto eles conseguem destruir grande parte de sua natureza, cidades, cultura, entre outros. Analisamos os dados da última caçada, digo, da última eleição, do “país” chamado Estados Unidos da América (aquele que sempre nos derrota e humilha em seus “filmes”) e percebemos que os “eleitores” (aqueles que fazem uso da arma “voto”) “americanos” (os únicos capacitados a decidir o futuro do planeta) elegeram o símio George Walker Bush, um chefe guerreiro de uma dinastia belicista que incitou inúmeras guerras e revoltas ao redor do globo, não aderiu ao plano de resgate à vida e à natureza chamado “Protocolo de Kyoto” elaborado pelos outros “países”, inventou mentiras com o pretexto de proteger sua sociedade contra terráqueos de barbas longas, que se vestem em longos trajes, usam tecidos em volta da cabeça e rezam para uma divindade chamada “Alá” e, além de tudo e mais um pouco, colaborou com a desordem de um sistema imperfeito, cruel e injusto a que os terráqueos denominam capitalismo e ao qual defendem com ferocidade.

Disputam o novo posto de líder tribal os símios chamado Barack Obama e John McCain. O primeiro, pelo que aponta nossas pesquisas, causa mais alvoroço entre os “eleitores” do que o segundo, que segue a dinastia do chefe guerreiro Bush. Obama lembra muito um de nossos antepassados que visavam a uma sociedade mais justa e igualitária sem, no entanto, ter a mínima idéia de como fazer isso.

Ressalvamos que não há qualquer suspeita de que o novo líder tribal descubra nossa identidade e que estamos presente em seu planeta, portanto, rechaçamos qualquer exigência de reforços e de ações deletérias de memórias humanas. Vamos prosseguir com nossa missão, de olho nos movimentos do novo líder tribal a ser escolhido.

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Acompanhe o relatório clicando aqui.

2.11.08

Da série: "sabe como eu sei?" (neo-nazi)

- Sabe como eu sei que você é neo-nazista?

- Como?

- Você tem uma fé cega na sua ideologia...

Cacilds!

Clique na imagem para ler mais lixo "humor"!

29.10.08

TOP 5 Filmes que marcaram 2008

Admito: é inédita para mim a modinha mania de fazer um TOP 5 sobre qualquer assunto. Febre dos blogs paneleiros (aquele seleto pessoalzinho que se auto-premia em competições duvidosas) e blogs pé-rapados (a exemplo do meu), o recurso do top 5 sempre provoca alguma comoção, uma vez que enumera, taxativamente, gostos, opiniões e pensamentos, gerando uma saudável discussão sobre o assunto em debate.

Na minha estréia, não poderia deixar passar a oportunidade de falar quais filmes mais me atraíram no ano de 2008 (2004 é que não ia ser, né…). Fiquem com eles e, se não os assistiram, corram para a locadora.

Coisas que Perdemos Pelo Caminho (Things we lost in the fire)

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Excelente drama estrelado por Halle Berry (a eleita ‘mulher mais sexy do mundo’) e Benicio Del Toro (dispensa comentários, originalíssimo). Por mais que envolva elementos dos mais pesados e realistas possíveis em seu enredo(vício em drogas, traições, morte de cônjuge, relação familiar, amizade), a história é contada numa leveza que surpreende e emociona ao final do filme, sendo uma dessas histórias descompromissadas que valem mais do que qualquer super-produção.

4º Batman – The Dark Knight (The Dark Knight)

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Sem sombra de dúvida foi o filme mais popular de 2008. Ficou chata a falta de assunto das pessoas, que só faziam discutir sobre Heath Ledger, Coringa, Batman, etc. Porém, o filme mereceu cada crítica positiva, pois foi além de uma adaptação de quadrinhos manjada e que já provara, anteriormente, por quatro vezes (antes de Batman Begins) ser um retumbante fracasso. Christopher Nolan (o diretor) salvou Batman das adaptações carnavalescas de Joel Schumacher e, diferentemente do modo fraco e superficial de adaptar HQs para o cinema, a exemplo do que faz a Marvel (Quarteto Fantástico, X-Men, O Demolidor…), The Dark Knight foi uma experiência bem sucedida da mistura entre gêneros de ação e thriller, com elementos policiais que, felizmente, não deixaram o filme da maneira que nerds espinhentos gostariam que fosse. Destaque mais do que merecido para o falecido Heath Ledger e seu insano e anárquico Coringa.

3º Conduta de Risco (Michael Clayton)

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Alguns seletos atores têm a facilidade de escolherem o personagem que lhes apetecer e grafar neles a marca de interpretação que melhor lhes aprouver. Com George Clooney não é diferente. Escolhe personagens complexos, interpreta-os maravilhosamente e a cada atuação vai adquirindo mais e mais respeito da crítica. Em Conduta de Risco não é diferente: interpretando o advogado Michael Clayton, consegue encarnar bem a crise existencial vivida por um homem de meia idade que se vê num dilema moral e cansado da vida, rodeado de vícios. A história é edificante e revela um suspense inteligentíssimo, do mais contemporâneo possível, com final memorável.

2º Senhores do Crime (Eastern Promises)

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Um legítimo David Cronemberg, o cineasta que elegeu “a mudança, a mutação” como sua marca maior e, ultimamente, utiliza-se cada vez mais de temáticas violentas para expressar suas crônicas. Partindo de premissas simples, não-chamativas, consegue evoluir as tramas para verdadeiros embates éticos, onde a mudança sempre revela algo que estava escondido (uma maneira de desnudar o próprio ser humano e revelar-lhe a essência). Foi assim com Marcas da Violência e agora, numa trama ainda mais envolvente e surpreendente ao final, com Senhores do Crime, onde se sepulta de vez a impressão de que Viggo Mortensen é apenas o Aragorn de O Senhor dos Anéis. Conta ainda com Naomi Watts. Destaque para a bem elaborada cena de luta na sauna.

1º Sangue Negro (There will be blood)

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O filme que mais me fascinou nos últimos anos. O que dizer? A começar pela presença do ator Daniel Day-Lewis, um verdadeiro gênio da atuação. Não é à toa que pega papéis somente de 4 em 4 anos. Ele trabalha sua personagem tão minuciosamente que é impossível não crer na realidade de sua interpretação. Aliado ao seu brilhantismo, o filme ainda conta com enredo sólido, cativante, e bem trabalhado, sem contar a incrível trilha sonora, que deixa qualquer um embasbacado. Uma história bruta, crua e livre de pretensões que, se não consegue agradar todo mundo, tem o êxito de, pelo menos, deixar todos maquinando sua existência. O Oscar para Day-Lewis não foi mais que obrigação.

Colaboração: Anetta

26.10.08

Raízes, vapores e infiltrações

- O que você me diz de, vejamos, duzentão? – perguntou Alexei.

- Duzentos…hum…espera… – respondeu Vinicius.

De fato, não poderia e não desejaria responder à questão naquele exato momento. Subindo e descendo voluptuosamente de costas em seu colo estava Nayara, vestida em mínimo fio-dental, com o salto 15, os peitos rijos, cabelos negríssimos jogados de lado e aquele batom rouge que era a perdição de qualquer ser masculino, quer estivesse presente na boca do sujeito, quer estivesse no colarinho. Executava com sensualidade sua lap dance, deixando embasbacado o distinto delegado Vinicius, de inegável aptidão moral, bem como deixando lépido seu membro, que não contava lá com toda a moralidade do mundo.

Nayara por fim virou-se abruptamente, com toda a sordidez possível que poderia expressar em seu diabólico rosto. Ligeira, abriu todos os botões da camisa preta de Vinicius e acariciou-lhe o peito com certa bruteza, passando as mãos em todos os cantos possíveis, enquanto mordiscava com gula as orelhas do delegado. Súbito parou e dirigiu-se à frente, onde passou a se divertir com um mastro.

- Incrível, não? Nayara é uma das melhores, senão a melhor – comentou Alexei, que, não obstante, ao mesmo tempo, contava com todas as carícias imagináveis de Bianca para si, que pareceu enciumar-se do comentário e foi bebericar qualquer coisa no bar.

- Realmente! – exclamou o policial, meio esbaforido. Bem, estou surpreso com todo esse atendimento e essa sua oferta me seduz.

- Não poderia ser de outra maneira. Reconheço seu serviço e não seria de graça que o faria desistir de todo o seu esplêndido trabalho, Delegado Vinicius.

- Não era isso que achava seu assessor.

- Pensávamos ser o senhor qualquer zé ruela, se é que me entende. Obviamente não entendemos de pronto sua aptidão para os negócios e propusemos aquela proposta sem bem pensar. Sorte a nossa ser o senhor homem persuasivo. Tanto que estou eu mesmo aqui, presente, para discutir todos os termos. O mínimo que poderia lhe fazer é oferecer os serviços de tais belas mulheres, que conheço bem. Um presente.

Alexei esbanjava simpatia, retórica e firmeza. Em seus 39 anos construíra carreira meteórica, sempre com base no diálogo, na negociação, no conflito, fosse ele resolvido da maneira que tivesse que ser. Não é espantoso presumir-se, pois, que fosse político. Deputado Federal. Também se aduz disso tudo que estivesse usando o terno do mais fino caimento, confeccionado na alfaiataria mais badalada de Brasília, capital da Corte. Ou mesmo que tivesse brilhantes cabelos e o rosto do mais liso, sem rugas. O mesmo não se poderia dizer de Vinicius, que deixara as garantias de um emprego público e certo lhe tirar as ambições em bem aparentar-se, convicto que estava de que não fazia diferença alguma a maneira como se trajava, pois nada perderia com isso. Este mesmo homem, de barba mal-feita, após segundos de reflexão, tomou a palavra:

- Trezentos, pois sei que por mais você me ferra, e por menos zomba de mim.

- Trezentão. Ótimo. Homem esperto. O dinheiro será entregue na cantina, daqui cinco dias, e será levado pelo meu assessor, aquele mesmo bestalhão que fez a patacoada com você, caro delegado.

E apertaram ambos fortemente as mãos um do outro.

- Irei para a sauna agora, Vinicius, acompanha-me? – ofereceu Alexei, estampando no rosto sorriso convincente, irrecusável.

- Certamente. Se mantiver o nível do resto da casa, será fantástico.

Em meio a baforadas de vapor, envoltos em toalhas brancas, posando ares de senadores romanos, passaram a dialogar, sob a dúvida de Vinicius:

- Não me entenda mal: sou agora flagrantemente corrupto, imoral, canalha e um bosta. Sei disso. Porém preciso do dinheiro. Realmente preciso e muita parte dele sequer será destinado a mim. Entretanto, o senhor, deputado Alexei, homem público, tem de tudo, tem todas as mulheres ao dispor, todas as vantagens políticas, reputação invejável. E o melhor de tudo: é glorificado pela mídia. A TV o trata como príncipe da moral e sua foto estampa os jornalões quinzenalmente, sob a rubrica do símbolo da oposição. Invejo-o. E por causa disso mesmo sou tomado da mais cruel dúvida: POR QUÊ?! Por que realizar aquele esquema? É tão sujo e profundo que eu mesmo me espantei quando descobri os indícios. Lógico que jamais conseguiria ir a fundo sem ser descoberto e foi o que ocorreu, por isso estou aqui hoje. Mas ainda assim me espanto. Você não precisaria de nada disso, mas entrou nessa. Não entendo.

Alexei não pôde deixar de conter uma profana risada de escárnio, que começara a se formar ao som de “príncipe da moral”.

- Você jamais entenderia, delegado tolo. Ou melhor, entenderia sim, uma vez que trilhou o primeiro passo em direção a um abismo sem fim ao aceitar esses trezentos mil.

E, levantando-se e adotando trejeitos megalomaníacos, pôs-se a gestuar com grandiloquência, palestrando para a platéia de vapores:

- O poder de se infiltrar! Criar raízes dementes que penetram no mais recôndito espaço de um universo gigantesco chamado Estado! Penetrar cada vez mais e mais fundo em busca de ouro, em busca de putas, em busca de prazer, em busca de poder, em busca de… Tudo o que esse país deve a mim, delegado, você não faz idéia, a mínima. Todos os acordos que amarrei, todas as negociatas que fechei, todas as políticas que propus. Confundo-me com a própria política, com meu próprio cargo, pois muito fiz! E muito farei! Rio sobremaneira com a ladainha da mídia e da sociedade ao propagar moral, ética. O que sabem sobre política? Desde quando ética e moral têm espaço nesta que é minha paixão? A verdadeira moral é aquela que me serve para perquirir meus objetivos, delegado. Aquela única moral e única ética que me acompanharão em uma única e finita vida, donde não posso jamais engolir esse discursinho de moralismo, do bem portar-se, pois se assim o fizer morro sem ter alcançado nada. Que se danem. Aquele ator foi um coitado realista e olha só tudo o que disseram dele. Disse que política era enfiar a mão na merda. Não podia estar mais certo! Como já adiantei…tudo o que fiz por esse país. As pessoas não têm idéia do que precisamos fazer, eu e os outros políticos, para manter de pé a nação. Todas as vertentes, as idéias, os interesses – sobretudo os interesses! –, os medos, preconceitos, enfim, tudo o que precisamos juntar para manter as engrenagens funcionando, rodando corretamente. Não sabem! Somos um mal necessário e até se darem conta disso, teremos que meter continuamente nossa mão na mais lamaçenta das merdas, para deixar todos os cidadãos perfeitamente felizes e quietinhos.

Vinicius, que inicialmente acompanhara com fidelidade canina o discurso de seu corruptor, passou, gradualmente, a temê-lo e a espantar-se por seu discurso desarrazoado e insano. Por certo passou a encolher-se quando o deputado aproximou-se dele, cuspindo saliva enquanto bradava doidamente. Cansado e incapaz de suportar mais aquela dose de realismo, a qual não se habilitara a aguentar, pôs-se a gritar:

- Chega! Chega! Você é louco! Eu sou um infeliz que é corrompido, mas você é verdadeiramente um demônio! Maluco! Quanta sujeira! … Vou embora…só quero o meu pagamento daqui cinco dias e então não quero nunca mais saber de você, seu filho da puta!

E saiu perturbado, sem se importar de alguma maneira com sua toalha que havia caído.

Observando de pé a ida daquele fraco homem, Alexei ainda teve tempo para sorrir com o esgar máximo que lhe era possível e então subiu para tomar uma banho, num quarto onde Nayara o esperava.

- Aí está você. Disseram que seu acompanhante saiu apressado, assustado, o que você aprontou com ele?

- Dei-lhe umas lições.

- Só você mesmo. E, afinal de contas, por que me pagou para ficar passando a mão nele? Em todos os cantos? Também fiz as mordidas que você pediu nas orelhas.

- E fez um ótimo trabalho, não encontrou nada. Digamos que você fez um serviço de…varredura.

- Doido…

Às 4 a.m., Alexei chegou em casa, onde Lúcia não o esperava, posto que estivesse ferrada no sono. Sua esposa agora só dormia à base de soníferos, embora não precisasse. Beijou-a e depois dirigiu-se ao quarto do filho, de 6 anos, o qual também beijou, olhando-o orgulhoso por certo tempo. Às 6 a.m. a esposa acordou, e passou um café para ela, dando-lhe caloroso bom-dia.

22.10.08

A catarata da sociedade

O ônibus amarelo freia e abre sua porta barulhenta. Entro de cabeça baixa e rapidamente passo o cartão magnético para liberar a catraca. Passo. De repente, sinto a mão do cobrador me deter. Olho-o com alguma surpresa e ouço-o dizer algo, sem, no entanto, entender palavra alguma. Perco-me na profundidade de seu olho direito, com catarata. Há um quê de misterioso e vazio nos olhos com catarata e este, de azul num tom gradual e macabro, contrastando com a pele negra e mal-tratada do senhor de idade que ainda insiste em trabalhar (talvez por terrível necessidade), causou-me tremenda impressão.

- Hein, jovem?

- Desculpa, não entendi.

- Ainda estão fazendo documentos ali?

Encarei-o aturdido. Causa-me dispendioso esforço entender o que as pessoas falam. Ultimamente tenho preguiça de ouvir a voz de qualquer um. Fiz uma última tentativa de recobrar a atenção e entendi o que ele quis dizer.

- Ah, sim. O senhor quer dizer o Universidade Cidadã, bem, eu acho que já acabou, foi só sexta e sábado.

E saí andando antes que ele pudesse perguntar qualquer outra coisa. Algo me atormentava.

O que ele, de fato, queria saber era se continuava ocorrendo um programa de assistência social realizado pela comunidade universitária em que muitos estudantes, de várias áreas da ciência, além da colaboração de órgãos governamentais, auxiliavam a população mais carente, como, por exemplo, instruções jurídicas, realização de casamentos, testes e exames para detectar doenças e propagar prevenções, confecção de documentos, etc. Uma iniciativa para acelerar as metas do milênio, um compromisso assumido pelo Brasil e que jamais será alcançado no prazo estabelecido.

Depois de deixá-lo, ouvi gritar:

- Anunciaram que já não estão mais fazendo, acabou o prazo, mas vocês podem tentar ver se ainda está acontecendo, vão querer descer? é logo ali.

Endereçava suas palavras a três jovens de aparência sofrivelmente pobre. Senti então mais um desses remorsos sociais que nos apressamos em esmagar quando ocorrem, como quando, por exemplo, passamos por humilhado mendigo deitado à beira de calçada suja, a nos olhar com pesado olhar sem vida, exigindo apenas pequena fração do que carregamos no bolso e viramos rapidamente a cabeça e apertamos aceleradamente o passo, como se esse ato fosse apagar a existência incômoda daquele ser maltrapilho, o qual nos lembra, a despeito de tudo se apresentar maravilhosamente bem na sociedade, que há algo de errado com o planeta, que há algo de errado com nós mesmos.

Na ocasião, temi pela ignorância do mundo. Imaginei mesmo, com ingenuidade, as três meninas prontificando-se a ouvir de boca em boca, uma fofoca ou outra, sobre a existência de um evento que realizasse alguns serviços básicos que deveriam estar à disposição integral da população, carente ou não, mas que, por motivos burocráticos e mesquinhos, restringiam-se apenas àqueles com enorme paciência e esperteza para suportar a espera infinita com a qual o Estado nos condiciona para gozar de seus serviços. Sabendo da importância de tal coisa, rara, agilizam-se, vestem roupas mais novas, as quais julgam decentes para apresentarem em “outro mundo” que não seja aquele mundinho informal que as cerca, o mundinho dos shorts e das camisetas mais velhas, do chinelo de dedo, o mundinho que não liga para a etiqueta de caríssimas roupas. O mais magnífico é que o outro mundo é uma “universidade”. Nunca vi tamanha hipocrisia pelo emprego desse nome. Como considerar universal a elitização da imbecilidade acadêmica? Tampouco universal é a reunião do ensino das ciências ali propagadas, pois que a especialização e a mecanicidade atuais me deslocaram completamente do aprendizado de um conhecimento global, amplo. Estou ali aprendendo técnicas úteis a um trabalho, a um ganho. Mas isso pouco importa por ora.

Pior: todo o esforço das jovens é jogado no lixo pelo fato do evento não estar mais ocorrendo. Gastaram passe de ônibus à toa.

A ignorância do mundo me assusta. O lugar comum dos dizeres, dos pensamentos, as frases gramaticalmente em conformidade com o que diz a TV e a dita “grande mídia”, tudo isso me assusta, me faz temer se estou entre ventríloquos ou entre burros de carga. O preconceito e a crítica é manipulada. Unidos, descambam em ações cegas, ignorantes, não-refletidas. Ouço dizer “aquela pobraiada do PT nunca andou de avião e agora que chegou ao poder só viaja” e me desanimo de responder algo. Talvez eu devesse responder que o presidente do Brasil é chefe de Governo e chefe de Estado e que, pela segunda função, tem o DEVER de representar o país no exterior, promulgar sua imagem e fazer tudo aquilo que beneficiar à sua nação, não passando, porém, sobre o direito dos outros povos? Onde existe um homem trabalhando em prol do país, fechando acordos com outros países para melhorar comércio, tecnologia e relações diplomáticas vêem um pobretão indo à forra pela oportunidade de viajar de avião. Entristeço-me.

Mas sinais de mudança pairam no ar. Quando se cai outro muro, agora o do capitalismo neoliberal, selvagem, o de Wall St; quando um negro tem grandes chances de se eleger presidente do Império; quando um torneiro mecânico governa o Brasil; quando um índio preside a Bolívia e um ex-bispo vence a eleição do Paraguai, há de se falar que as coisas estão mudando, que o mundo talvez esteja se humanizando, que talvez economistas sabichões e categóricos entendam de vez o papel de Keynes para a história. Que talvez, bem talvez, possamos andar nas calçadas e não apertar o passo, e não desviar o olhar, e não ignorar nosso papel nesse mundo: o de amar o próximo, esteja ele estatelado na calçada, ou entronado numa sala de executivo com ar-condicionado.

15.10.08

Caipiras Brutos

Peço licença aos colunistas da revista Rolling Stones para transcrever um artigo escrito em Janeiro de 2007 por Mateus Polumati intitulado “Londrina: onde o governo abraça a causa independente”.

Em 1979, Gal Costa fez um show em Londrina (região norte do Paraná). Reza a lenda que, após a apresentação, um jornalista quis saber o que a cantora achou da cidade. Ela teria dito, com sua languidez de menina baiana, que Londrina era uma "fazenda iluminada". A declaração melindrou alguns dos locais. Ainda que a cantora qualificasse como "iluminada", estava limitando à condição de "fazenda" uma cidade que arriscava, com o brio acanhado do interior, os primeiros passos de seu projeto cosmopolita. Para uma cidade que começava a se achar grande, uma declaração como essa foi um choque indesejado de autoconsciência.

Quase 30 anos depois, muita água rolou. Londrina é hoje a terceira maior cidade do sul do país (quase 800 mil habitantes na região metropolitana), tem taxas de desenvolvimento elevadas (analfabetismo a 6,42%, IDH a 0,824 etc.) e festivais de primeira linha nas áreas de teatro, música, dança, cinema e circo. Conta com uma população jovem, imensa e renovada anualmente por gente de todo o Brasil, que chega para estudar em uma de suas 11 universidades. Só a UEL, a maior delas, responde por 18 mil desses estudantes. Com a natureza a favor, as entranhas da terra vermelha pariram uma nova geração de "iluminados".

A nova safra de produtores e roqueiros londrinenses não só não dá a mínima para referências pejorativas à sua condição interiorana, como aprendeu a usá-la em seu favor. Chamando a si próprios de "caipiras brutos", estão transformando a cidade em um dos focos do novo cenário independente brasileiro. Não que a idéia de encarar a caipirice como projeto estético seja nova. Antes da famosa declaração de Gal Costa, um coletivo de artistas - incluindo Domingos Pellegrini, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção - já explorava idéias parecidas. O auge dessa geração foi o espetáculo Na Boca do Bode, em 1973. Com concepção avançada, o show deixou claro que existia uma produção relevante na cidade. Anos depois, porém, o núcleo duro do movimento se dispersou.

O caminho recente da escalada caipira-bruta vem sendo trilhado desde 1997. A partir daquele ano, o trabalho da extinta produtora Madame X inseriu a cidade em um circuito restrito de shows internacionais, que incluiu Buzzcocks, Fugazi e Superchunk. Os shows formaram público, além de abrir algum espaço a bandas locais, que aumentou a partir de 2001, com a criação da Braço Direito Produções e do Festival DemoSul, o qual em seis anos saltou de uma estrutura confusa para a condição de maior evento do rock independente no interior do país (feito fora de uma capital). Na última edição, em novembro, se apresentaram 25 bandas de todo o país (mais uma da Argentina), lista que incluiu nomes como Superguidis, Macaco Bong, Grenade, Ambervisions, Bidê ou Balde, Junkie Bozo, Rogério Skylab e Forgotten Boys.

Mas a enxada caipira-bruta não abriria tantas picadas no perobal sem um fator. O investimento público na área de cultura em Londrina aumentou sensivelmente com a atual administração, a partir de 2001 - não por coincidência, ano em que o DemoSul surgiu. "Antes de 2001, a cidade só tinha o FILO (Festival Internacional de Teatro de Londrina), o Festival de Música e a Escola de Dança. Com o aumento dos recursos, várias expressões culturais se consolidaram", diz Waldir Grandini, coordenador da Incubadora de Projetos da Secretaria de Cultura. Em 2006, o Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) destinou R$ 1 milhão para o financiamento de produtores independentes. Dessa quantia, R$ 60 mil foram destinados ao festival. Quantias irrisórias se comparadas a editais federais ou ao orçamento de qualquer festival grande no país, mas que fazem a diferença em uma cidade onde se virar sem dinheiro é um estilo de vida.

No caso do DemoSul, há ainda outro fator: o núcleo de produção do festival é todo da Vila Nova, área rica em fãs do Ramones mas modesta em termos de renda. São pessoas que dificilmente produziriam cultura sem financiamento externo. O fenômeno DemoSul não deixa de ser um exemplo de mobilidade social, como atesta o produtor do evento, Marcelo Domingues: "Sem o apoio do Promic, o festival não aconteceria como acontece hoje".

Além do dinheiro, o que faz diferença é o acompanhamento aos projetos. "As autoridades da cidade estão começando a entender que o DemoSul não é apenas um 'show de rock', mas um pólo de criação, de intercâmbio e até de movimentação financeira", explica Waldir Grandini. O reconhecimento do sucesso do festival se traduziu em números, também: o orçamento do projeto quintuplicou em seis anos. "O papel do DemoSul é fundamental para a criação de uma 'economia solidária da música', que está aos poucos construindo um mercado paralelo, com outra lógica."
Apesar da realidade quase febril, em que o rock foi adotado pelo governo, ainda há problemas a serem superados. A legislação do Promic tem falhas que deixam os produtores de cabelos em pé. Sem contar o desgaste inerente à política, toda vez em que ela se incorpora ao "jogo". Do ponto de vista da conexão, o rock caipira-bruto ainda precisa dialogar com o Brasil.

O principal passo, os londrinenses já deram: manter um número razoável de bandas, ter bons estúdios e um festival que garante uma articulação com o resto do país. Como dizia Arrigo Barnabé, já basta para superar a condição de "engrenagens tão sombrias, esquecidas pelos deuses".

Fonte: http://www.rollingstone.com.br/edicoes/4/textos/204/

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Meu comentário:

A matéria veiculada é de 2007. As fotos acima são de Outubro de 2008, quando aconteceu a oitava edição do Festival Demo Sul. Foi um belo festival, sediado no Grêmio Recreativo Londrinense, e contou com mais de 20 atrações, dentre elas: Mudhoney, Nação Zumbi, Kid Vinil, Trilöbit, Palangueto, Terra Celta, Pata de Elefante, New Ones, Madame Saatan, entre outras. A organização foi excelente e a idéia de utilizar dois palcos eliminou completamente aquela maldita espera pela passagem de som das bandas. Também merece aplausos a iniciativa de realizar o festival um dia de graça, que ocorreu na Concha Acústica (foto do canto superior esquerdo). O único defeito encontrado em meio a esse bom exemplo de conciliação entre política, iniciativa privada, cultura e cena independente foi o pouco tempo dado a cada banda para tocar e a não disponibilização de meios de transporte para chegar ao local, que era longe. A meia hora que cada uma dispunha deixou todo mundo com gosto de “quero mais”. Que venha o Demosul 2009!

24.9.08

relMIRPT: "contato"

Relato nº2 da Missão de Investigação e Reconhecimento do Planeta Terra (MIRPT)
ter>soc

Tivemos uma perda terrível hoje, no lapso de tempo conhecido na Terra como "dia", um de nossos exploradores foi brutalmente agredido por um dos terráqueos. Ele prostou-se em um ponto de encontro e debate no meio de uma passarela preta formada pelo composto petróleo (já esquecido por nossa civilização) e bauxita. O local continha sinalizações brancas no chão e um até-que-avançado sistema de permissão para se expressar, formado pelas cores vermelha, amarela e verde visíveis a todos. Carregando um presente de boas-vindas, nosso explorador não teve chance de se aproximar amigavelmente do terráqueo. Este, de aparência metálica, possuía rodas no lugar de patas e uma marca de quatro círculos unidos lado a lado na fronte. Rapidamente passou por cima de nosso colega, não prestando socorro após isso. Não entendemos ainda o motivo de tanta agressividade por parte dessa forma de vida predominante no planeta. Cogita-se a possibilidade de isso ocorrer devido uma espécie de doença parasitária nos mencionados terráqueos, pois foi constatado que todos esses seres possuem um animal símio em seu interior, como que a controlá-los. Estudaremos pormenorizadamente o caso e tentaremos entrar em contato novamente pelo próximo lapso de tempo em que o planeta realizar uma volta em torno de si.

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Acompanhe o relatório clicando aqui.

13.9.08

relMIRPT: "Veja"

Relato nº 6.578 da Missão de Investigação e Reconhecimento do Planeta Terra (MIRPT)
Ter>hum>soc>obj:

Há um "país" no hemisfério sul e ocidental do planeta Terra, de 8.514.876,599 km², 190 milhões de habitantes, chamado "Brasil", em que por quase toda essa extensão de terra e em grande parte dessas pessoas, há uma característica intrigante que diz respeito ao fato de esses seres acreditarem em factóides. Elas, aparentemente, lêem uma compilação de folhas feitas de celulose, com símbolos estampados, a que denominam "revista" e, mais especificamente, "revista Veja". Essa revista, não se sabe bem por que, gosta de enunciar mentiras, de assassinar reputações, de difamar e injuriar, e de praticar uma espécie de crítica rasteira e sem fundamento ou base. Ao que pudemos constatar, as pessoas lêem a "revista Veja" e acreditam no que ela diz, passando a compartilhar esse pseudo-conhecimento com outras pessoas que, interessantemente, também passam a acreditar no factóide. Ainda estamos tentando descobrir se por brincadeira ou por falta de evolução necessária.

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Acompanhe o relatório clicando aqui.

9.9.08

Sophia - Prólogo

Prólogo

O discurso sobre o apocalipse sempre teve ares de banalidade na sociedade moderna. Diariamente, cenários futuristas nada animadores são rabiscados em livros, jornais, programas de tv, salas de aula, profecias e conversas de bar no fim da noite: distopias totalitárias, catástrofes ambientais, deformação da evolução humana por efeito da medicina e da falta de predadores naturais, dependência não-saudável da robótica e informática, banalização das relações humanas, estupidificação da inteligência (?), pandemias devastadoras, e por aí vai.

Sem muita opção e fechando os olhos e orelhas a essas ladainhas intermináveis dos profetas do caos, o homem médio não pode fazer mais do que viver e ir vivendo, numa normalidade que, em 99% dos casos, frustra qualquer expectativa maléfica que as projeções aterrorizantes possam antever. Essa normalidade, rotineira e pontual, é expressão máxima do conflito que há entre ficção e realidade. De fato, a ficção investe sobre o cérebro humano numa velocidade deveras maior do que a realidade consegue e sua capacidade de demonstrar o extremo, o inimaginável, nada mais é do que uma espécie de alerta que amolda a realidade e conjuga, inconscientemente, caminhos a serem percorridos pelas vidas humanas sem que se permita a elas despencar no desfiladeiro do lugar ao qual os humanos não conhecem, mas que definitivamente não devem ir. É assim que se evita apocalipses e desgraças, tais quais os descritos acima.

Não que elas sejam "mentiras" (ficções). Para falar bem a verdade, quase nenhuma é, a menos que se deixe elas serem. Esse é o papel básico da ficção: nortear a realidade, ou, quem sabe ainda, talvez jamais saibamos, confundir totalmente aquilo que vemos e o que podemos escolher. O papel primordial da ficção é, portanto, fazer a desgraça perecer ou, quando estiver em vias de acontecer, que não surtem a dramatização esperada. Mas deixem de lado essa teorização absurda. O que quero relatar aqui são episódios acontecidos com Sophia, minha criação de um futuro pós-apocalíptico, ciborgue de um mundo sem traço de passado, sem sinal de esperança. Sophia é a redescoberta de uma inteligência e sensibilidade letárgicos no humano modificado (e ausentes no humano de hoje). É a tentativa de um resgate da própria alma do ser vivo pensante. Sophia é aquela que, como outros estranhos em terras estranhas, diria a qualquer um, com puro coração e sorriso nos lábios artificiais: "Tu és Deus". Sem mais.

3.9.08

Anúncio para um fim (parte 2 - final)

Não se perca: http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com/2008/08/anncio-para-um-fim.html (parte 1)

SENHORA VIÚVA
Valoriza vida familiar, deseja conhecer senhor de 60 a 70 anos, que procure uma companheira para ser feliz a dois.

Homem de palavra. Gostei. Ali estava o dito cujo, sujeito alto, caucasiano, de cabelos orgulhosamente brancos que de maneira alguma deixavam entrever sinal de calvície; a pele, apesar de levemente enrugada, era rija e tinha um quê de avermelhada, vestia uma calça social marrom, uma camisa de linho bege e um pulôver verde sem, no entanto, ser muito chamativo. Os sapatos estavam meticulosamente lustrosos. Parecia a personificação de um outono revigorante. De fato, estava ele ali parado à minha frente, com olhos de admiração e sorriso admirável. Aliás, olhos de uma profundidade incalculável, eternos. Veio em minha direção sem desviar um milímetro sequer o olhar e com o sorriso a estampar permanentemente a boca. Pegou minhas mãos de modo afável. Por sorte, sabia como evitar deixá-las frias e suadas.

"Flora! Que prazer encontrá-la. Você é muito linda, mesmo. Mais ainda do que eu imaginava".
"O senhor é um galanteador, hein...".
"Senhor não. Décio. Sem formalidades, ora. Vamos nos sentar?".

Sentamo-nos um de frente para o outro. O ambiente era acolhedor, embora muito comercial. Cravamos os olhares conjuntamente e, após breve estudo (ou admiração?), interpelei-o:

"Interessante a estrofe de Dante na carta. "No meio do caminho de nossa vida / me perdi em uma selva escura / porque o caminho correto estava perdido" (perdão a tradução tão seca). Mas não entendi seu propósito com aquilo".
"Entenderá, mas não agora".
"Assim você me deixa curiosa, Décio".
"É o meu objetivo! Hehe" (ele está me saindo um velho safado).
"Diga algo então".
"Apenas um minuto. Com licença, moça, você poderia trazer dois chás, por favor? E alguns daqueles biscoitos de nata que eu tanto gosto. Pronto, agora sim. Flora, Flora. É difícil para eu começar. Temos que concordar que nosso encontro não é muito casual. Não nos conhecemos pessoalmente, embora eu tenha a leve impressão de que sempre estive a sua espera..."
"Também sinto isso, é estranho, como se por toda minha vida, estivesse destinada a você" (jamais entendi de onde saíram essas palavras, não era como se EU estivesse falando).
"Sim, exatamente. É por isso que podemos nos sentir à vontade. E, além disso, ... opa, obrigado pelo chá, Maria... voltando, além disso, é essencial que você entenda como me senti magnetizado com aquele anúncio. Peguei o jornal despreocupadamente, numa atitude rotineira, e me dei de cara com algo que, a meu ver, pode mudar a minha e a sua vida. É muito, muito surpreendente mesmo que possa estar olhando para seu rosto agora e concretizando o que sonhei, desde que li seu anúncio".
"Isso é muito bonito, Décio. Confesso que fiquei muito envergonhada de tornar aquilo público, sinto-me feliz que tenha tido tal acolhida. Mas conte-me como você está aqui hoje, digo, um homem como você deveria ter mulher, namorada. Algo".
"Já tive namoradas, casei-me uma vez, mas tudo isso faz muito tempo (muito mesmo) e há anos havia decidido me tornar apenas um homem solitário, que não quer dar problemas para ninguém".
"E o que o fez mudar de idéia? Espera...não me diga que olhava aquela página atrás de...ah meu Deus...!".
"Não, não! de maneira alguma. Entendo o que você quer dizer, haha, é até embaraçoso, mas não, o que explica eu ter lido aquela página é o simples fato de eu começar a ler o jornal de trás para frente. Estranho, não?".
"Ufa, sinto-me aliviada. Passei tanta raiva com o lugar em que colocaram meu anúncio".
"É, de fato, uma indelicadeza com um propósito tão bonito quanto o seu, Flora".
"Esse chá e biscoitos estão uma delícia".
"Ganhei um ponto então".
"Muitos".

Aquele jogo me fascinava. Não tivera nada parecido na adolescência, nem quando fora adulta e ainda mais quando velha. Naquele momento eu estava tendo um encontro. Um encontro. Parecia que cada segundo dos meus 68 anos tinha me levado até ali e, caso não tivessem, pelo menos o descaminho valia a pena agora.

Beijamo-nos num banco de parque que havia ali perto. O beijo dele era suave e um pouco molhado demais, mas era uma delícia. Eu havia esquecido essa sensação de beijo, de compartilhar algo. Até os 40 eu tivera ótimos e freqüentes beijos e, a partir daí, comecei a achá-los nojentos. Não sei se por causa do péssimo marido que arrumara (que se revelara um crápula) ou se por desmotivação completa da falta de paixão que a vida adulta nos obriga a engolir. Agora tudo isso era sepultado com uma língua fantástica.

"Sabe, Décio, isso é tudo maravilhoso. Me sinto mais viva do que nunca, numa idade em que nos julgam a alguns passos do cemitério. Você tem mesmo essa pretensão de passar seus dias comigo, de, como eu havia anunciado, ser feliz a dois?".
"Completamente, Flora. Meus propósitos com você são os mais lúcidos".

Eu provava de uma paixão ardente. E a cada pessoa que olhava na rua, que passava por nós dois, de mãos dadas, e expressava asco ou estranheza, eu sentia vontade de gritar: "olhem! sou feliz! tenho alguém! estou viva!". Eu queria demonstrar de qualquer maneira que minha vida, ali, naquele momento, valia a pena. Décio talvez tivesse percebido isso e, me abraçando com força, disse:

"Quem dera todos esses jovens deixassem a prepotência de lado e passassem a admirar mais experiências como a que estamos tendo agora. Quem dera eles parassem de achar que sabem tudo e que são capazes de tudo e resolvessem aprender um pouco conosco, de que a vida pode valer a pena, com a idade que seja".

Naquele momento, a única coisa que eu lamentava era não ter conhecido aquele homem antes.

Não demorou muito eu estava na casa dele. A casa era um tanto quanto soturna, de uma escuridão grudenta, pegajosa. Os móveis eram todos antigos. A casa ocasionava medo e, também, ou por causa disso, respeito.

Aqui, novamente, peço para não me julgarem. Ou julguem, se quiserem, mas naquele momento, nada mais me importava. Aquela era a hora da vida ser vivida, então, se, por um acaso, você que me lê sentir nojo por eu ter feito isso, vá para o inferno.

Após ter tirado minha roupa, Décio, apenas de cueca, pegara algo numa gaveta ao lado da cama e me mostrara, com um sorriso até a orelha de perversão, uma pílula azul.

"Tomei-a há alguns minutos atrás. Já sinto os efeitos. Quero ser feliz, a dois".
"Sejamos".

E fomos. A voracidade de Décio me acabrunhava, mas logo me soltei e passei a esquecer que tinha 68 anos. Não me importava mais por meu corpo não ter a mesma estética de quando eu tinha 20 anos. O prazer com que Décio me mordia e me penetrava não deixava dúvida de que isso não era levado em conta. A fruição com que me possuía revoluciona-me de dentro para fora e é assim que me senti mais bela, por mais que isso soe piegas.

Entretanto, no meio do ato, por crueldade do destino ou por ação de uma consciência medrosa que possuo, mandei-o se afastar. Chorando, lembrei, não com certo desgosto, de meus filhos, de meus animais, de meu falecido marido (ainda que eu o odiasse), da minha vida regressa. Os segundos que outrora mencionei, por mais que tivessem me libertado e me atirado aos braços daquele homem, agora faziam questão de me lembrar da minha condição de escrava. Escrava de toda uma vida passada, em que eu era mãe e mulher. Uma vida que me obrigava, agora, a desistir de todo aquele prazer, de toda aquela emancipação, para assumir meu posto de honra de viúva que merece definhar sozinha, até que a morte me alcance.

"Flora", disse Décio, ainda com o membro ereto, me consolando em seus braços, "esqueça tudo o que você viveu, sua vida é aqui e agora. Você não pode ser tão medíocre a ponto de deixar que todas essas correntes que te prendem continuem te amarrando a uma âncora que vai lançá-la ao fundo do oceano. Viva!"

Disse isso sem eu ter me queixado de nada, como se adivinhasse meus pensamentos. Meu carinho por aquele homem era enorme e o tom duro e sábio com que pronunciou suas palavras me fez estremecer e me curvar à verdade. Não. Não me curvei à verdade. Isso seria somente deixar de lado as algemas de uma vida que me tornou escrava, para substituí-la por outra que me faria refém de uma sentença. Eu teria que aceitar e querer aquela verdade. E assim o fiz. Pedi licença a Décio e fui ao banheiro. Olhei-me no espelho e não soube identificar que idade tinha. Podia ser 20, 68 ou 10 milhões. Olhei-me profundamente mesmo assim e resolvi abdicar de tudo.

"MORRAM!", gritei. E sepultei minha família. Estavam mortos. Deram felicidades e tristezas, sem dúvida, mas agora estavam mortos, não fazia diferença. Tinha carinho por eles, mas uma lembrança não pode obstruir uma vida. Acabei me cansando do meu próprio drama e, se ele possuíse uma forma física, cuspiria nele agora.

Voltei ao quarto.

Com carinho, voltamos a transar, ainda sentindo, e agora parecia ser em dobro, toda a esfuziante sensação de poder compartilhar algo, algo que havíamos esquecido, algo que achávamos extinto. Sentindo o corpo quente de Décio sobre o meu, pude gozar de uma sensação de segurança e esperança jamais sentida e, com um grito primal, expressei meu mais digno orgasmo.

Epílogo

Não sei bem se poderia escrever isso. Dizem para nós não revelarmos nada depois que acontece e que viemos para cá. É algum tipo de cláusula. A verdade é que estou me fodendo para isso. Vi tudo o que aconteceu, não sei como, mas vi. O gozo, ainda que isso seja um pensamento empírico, clarifica a mente. Quando parei de gritar e abri os olhos, o que estava na minha frente não era o senhor alto, de cabelos orgulhosamente brancos, pele levemente avermelhada e etc. Não era.

O que estava na minha frente tinha a altura incontestável de uma majestade, talvez mesmo de um anjo, algo celestial. Cobria-se com o mais negro dos mantos, tão negro que parecia distorcer e engolir tudo à sua volta, como se fosse um buraco negro a sugar o que não fosse ele mesmo, o Essencial. O próprio universo estava à minha frente e segurava uma foice. Uma foice tremendamente prateada que, por mais que fosse um objeto de destruição, visando ao caos, estava ali para seguir a ordem das coisas. Aquele era o chamamento. O corte rápido e certeiro era o chamamento. O gozo e o grito eram a maneira de morrer dignamente, de deixar esse mundo elucidada, de compreender tudo. Tudo estava ali e passei a viver realmente quando estava prestes a morrer. O anúncio, o chá, a paixão, o beijo, a raiva, a cama, a pílula. O anúncio, ah o anúncio. Como eu, na minha infinita ignorância, poderia prever que cada ato meu, e ainda mais aquele diretamente, nada mais eram do que a terrível vontade de gritar pela Morte, de implorar-lhe que me levasse. Fui levada.

A despeito de ficar estupidificada com todo o negror com que estava vestido e com a precisão com que sua arma letal me chamou, eu ainda tive tempo de olhar bem nos olhos de Décio, embora eu não saiba se o nome do mensageiro da morte seja mesmo Décio. Olhei bem fundo e ali estavam aqueles olhos profundos, eternos, iguais aos do ser que mais amei na vida.

Aqui, da onde escrevo agora, conformada e não tão velha quanto toda a sapiência do Universo, posso garantir a vocês: sou feliz.