17.12.07

Trincheira entre carteiras - parte 1

Rememoração e apresentação

Ele digitou gun e deu enter. Ah a maravilha do mundo virtual! Ah o capitalismo e a tecnologia! Comunicação e aproximação!

Uma Colt não seria coisa cara para Gabriel. Trabalhara duro durante o verão naquela espelunca - a que insistiam chamar de lanchonete - e juntara uns bons trocados. No início, ele pensara em aplicar essa grana nos estudos, para quando estivesse em Stanford, seu sonho, mas aos poucos foi desistindo.

"Aos poucos" eu disse? Pff. Advirto que eram aos muitos. Aos muitos socos que meu amigo Gabriel levava no meio da fuça. Aos muitos chutes, extorsões e ameaças. Aos muitos.

Socos, chutes, extorsões e ameaças não são nada. Eu, por exemplo, poderia socar cada um de vocês e nada aconteceria comigo, pois vocês são uns vermes apáticos, como esse mundo estagnado de merda. Good mourning, sick world! Socos não são nada. Ele agüentava.

Gabriel era um pobre diabo. Sofria horrores. Essa coisa de bullying e tal, a gente pensa que não existe, mas...poxa, os jovens são brutais, não? Jovens não perdoam fraquezas, diferenças. É um pouco como a lei do mais forte, nessa selva corrupta e corruptora chamada sociedade.

Ele me contou que um dia o torturaram, no banheiro. Tiraram fotos, os bastardos. Rosto na privada, língua no mijo, coisas nojentas, enfim.

Vocês podem falar "mas por que ele não avisou os tiras? os pais? alguém?!". Não sejam ingênuos. Gab jamais iria ser ouvido por aquele bundão chamado pai, ou por aquela prostitua adúltera que por coincidência era sua mãe. Não. Policiais também não fariam nada, vocês sabem. Quando muito, iriam dizer: "isso é problema da escola!" e iriam voltar aos seus donuts. Malditos. Gabriel sabia muito bem disso.

Cara, eu nunca vi um guri tão resistente! Onde calavam esses insultos todos? Calavam bem lá no fundo da alma dele, se é que essa porcaria de alma existe. Gabriel era um sujeito pacífico. Achava mesmo que seus problemas não eram de nenhuma relevância para o resto do mundo. De fato, acho que ninguém ligava pra ele mesmo.

Não sei bem o que fez o cara mudar: se o fato daqueles cuzões terem ridicularizado o Gabriel na frente de umas gatinhas ou se pelo fato de terem falado merda demais sobre a irmãzinha dele, Lili, uma guriazinha engraçadinha que ele vive protegendo, ou se tudo isso junto e mais as outras humilhações acumuladas. Não sei. Só sei que mudou.

Pouco depois de ter mudado, me conheceu na web. Permitam-me me apresentar (sempre quis dizer isso): sou Ferguson e minha história não importa, digo, ela é igual a do Gabriel, exceto por algumas diferenças e umas sacanagens que me ferraram legal. Sacanagem mesmo. Fiquei alterado.

Moramos na mesma cidade. Não demorou muito pra gente se cruzar por aí e ir se conhecendo.

2 comentários:

A_for_Anetta disse...

Já vi histórias assim com finais sangretos transformados em videoclipes.

Quero um final sangrento UABHAUHAUAHUAHAUAHUAHUAHAU

=*******

Ludmila disse...

Uau....um Holden brasileiro...
Admirável...
Singelo!

=D