1.12.07

Sophia - Episódio 1

A Drummond

Sophia não perdera tempo raciocinando. Suas pupilas rapidamente fecharam-se num clic e a imagem captada por elas foi armazenada em sua memória virtual. Pensaria nela depois.

Desde que seu pai morrera Sophia não mais parara para admirar cenas como aquela. O pai era um grande admirador de momentos singulares, a ponto de parar qualquer coisa que estivesse fazendo para dar alento aos olhos, sedentos de uma bela imagem. Sophia aprendera com ele a ignorar a correria da vida.

Estacou e olhou em volta. Aço, silício, cabos. O que era mais cinza? A Pólis ou a vida?

Parou de pensar logo. Não era conveniente em sua época ficar indagando o Progresso. Fluir era necessário. O fluir do sistema.

Sentiu-se reprimida. Sentir não é pensar. Quando se abandona o âmbito da razão e a liberdade que temos para divagar sobre tudo, ou melhor, quando se pisa nessa capacidade - com novíssimas botas de couro aprimoradas com nanotecnologia - e o livre-pensar se eclipsa, grita mais alto a emoção. Os nervos ficam à flor da pele e os sentimentos tomam conta do que poderia ter sido da razão humana, a dialética, não a cartesiana. Não era fácil, porém, desviar da normalidade um cyborg.

Alguns lampejos de claridade começaram a assaltar a mente de Sophia. Iluminavam algo que ela estava escurecendo, bloqueando, obliterando. Não mais poderia acobertar aquilo que estava escondendo. Sophia tinha plena noção disso, jamais poderia iludir a si mesma. Sentiu vergonha.

Sophia estava mudando, queria mudar.

E não mais agüentando a espera pela rememoração, acessou o arquivo da foto que havia guardado no mesmo dia mais cedo: uma flor nascida entre obscuros vãos de aço. Ainda desbotada, que iludiu a polícia, sem cor a se perceber, sem pétalas a se abrir, sem nome e feia. Mas uma flor, sem dúvida.

8 comentários:

Lígia disse...

Gostei do quarto parágrafo..

=***

Blog Desnecessário disse...

Bacana, bacana!!!
Mas...

Porque mais especificamente a Drummond?

michelle_ambrozi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ma belle disse...

naum tenho um bom histórico com flores...

A_for_Anetta disse...

Quando vi "A Drummond" já imaginei o final... Flores sempre me surpreendem com relação à capacidade de nascer em terrenos hostis.

=********

thays disse...

Nunca é tarde para se começar a fazer cinema, grande Sophia juntando-se a nós.

Lígia disse...

CAIIIIIIIIIIUUUUUUU

Tyler Bazz disse...

Foto de florzinha? Acho que essa Sophia é meio bicha hein...


o/