29.12.07

Postédio

Sábado à noite. Internet vazia. Ouvindo músicas de um italiano que foram feitas em 1950, provavelmente.

A gente vai vivendo.

27.12.07

Trincheira entre carteiras - parte 2

Fragmentos de um chat

Commander diz
: é isso mesmo. bando de playboys mimados aqueles! vão pagar!


Dust2Dust diz
: Não sei. Às vezes sinto raiva, mas penso que isso é arriscado demais. Extremo.


Commander diz
: deixa de ser bundão...google gun aí e compra logo essa porra. Aproveita que vivemos na terra da liberdade haha teu nome tá limpo, não vai dar rolo...eles querem mesmo é vender, nem que fosse pro próprio Manson. a minha tá aqui prontinha! Freak!


Dust2Dust diz
: não duvido nada...mas me diz, quando vamos nos ver de novo?


Commander diz
: saudades?


Dust2Dust diz
: Aquilo foi...estranho, esquisito!


Commander diz
: gostou?


Dust2Dust diz
: Falo depois. O filho da puta do meu pai quer usar. Falou.

21.12.07

Um pouco

Estou um pouco desanimado com o blog, tanto que nem tenho dado muita atenção a ele. Não que seja falta de criatividade nem nada. Não poderia: nessas férias estou lendo e escrevendo como um maníaco. Lendo Orwell, Rubem Fonseca, John le Carré, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Wilhelm Reich, Miguel Reale, revistas, artigos e o que mais aparecer na minha frente. Na escrita, tenho me dedicado aos contos.

Pode parecer falta de gratidão, mas os que eu considero piores eu posto aqui. Os melhores, bem, esses um dia figurarão num livro. Quanto a isso eu sonho - por mim mesmo; rezo - para Algo; e apelo - ao pistolão, pois ninguém publica nada nesse país sem alguns conhecidos por aí.

As férias têm sido boas. Sem mais.

Logo posto a continuação da Trincheira.

17.12.07

Trincheira entre carteiras - parte 1

Rememoração e apresentação

Ele digitou gun e deu enter. Ah a maravilha do mundo virtual! Ah o capitalismo e a tecnologia! Comunicação e aproximação!

Uma Colt não seria coisa cara para Gabriel. Trabalhara duro durante o verão naquela espelunca - a que insistiam chamar de lanchonete - e juntara uns bons trocados. No início, ele pensara em aplicar essa grana nos estudos, para quando estivesse em Stanford, seu sonho, mas aos poucos foi desistindo.

"Aos poucos" eu disse? Pff. Advirto que eram aos muitos. Aos muitos socos que meu amigo Gabriel levava no meio da fuça. Aos muitos chutes, extorsões e ameaças. Aos muitos.

Socos, chutes, extorsões e ameaças não são nada. Eu, por exemplo, poderia socar cada um de vocês e nada aconteceria comigo, pois vocês são uns vermes apáticos, como esse mundo estagnado de merda. Good mourning, sick world! Socos não são nada. Ele agüentava.

Gabriel era um pobre diabo. Sofria horrores. Essa coisa de bullying e tal, a gente pensa que não existe, mas...poxa, os jovens são brutais, não? Jovens não perdoam fraquezas, diferenças. É um pouco como a lei do mais forte, nessa selva corrupta e corruptora chamada sociedade.

Ele me contou que um dia o torturaram, no banheiro. Tiraram fotos, os bastardos. Rosto na privada, língua no mijo, coisas nojentas, enfim.

Vocês podem falar "mas por que ele não avisou os tiras? os pais? alguém?!". Não sejam ingênuos. Gab jamais iria ser ouvido por aquele bundão chamado pai, ou por aquela prostitua adúltera que por coincidência era sua mãe. Não. Policiais também não fariam nada, vocês sabem. Quando muito, iriam dizer: "isso é problema da escola!" e iriam voltar aos seus donuts. Malditos. Gabriel sabia muito bem disso.

Cara, eu nunca vi um guri tão resistente! Onde calavam esses insultos todos? Calavam bem lá no fundo da alma dele, se é que essa porcaria de alma existe. Gabriel era um sujeito pacífico. Achava mesmo que seus problemas não eram de nenhuma relevância para o resto do mundo. De fato, acho que ninguém ligava pra ele mesmo.

Não sei bem o que fez o cara mudar: se o fato daqueles cuzões terem ridicularizado o Gabriel na frente de umas gatinhas ou se pelo fato de terem falado merda demais sobre a irmãzinha dele, Lili, uma guriazinha engraçadinha que ele vive protegendo, ou se tudo isso junto e mais as outras humilhações acumuladas. Não sei. Só sei que mudou.

Pouco depois de ter mudado, me conheceu na web. Permitam-me me apresentar (sempre quis dizer isso): sou Ferguson e minha história não importa, digo, ela é igual a do Gabriel, exceto por algumas diferenças e umas sacanagens que me ferraram legal. Sacanagem mesmo. Fiquei alterado.

Moramos na mesma cidade. Não demorou muito pra gente se cruzar por aí e ir se conhecendo.

6.12.07

Por que a pressa?

E é dada a largada!

São quatro grandes competidores. Todos campeões mundiais. Quatro raias, quatro estrelas!

Vejam como correm! Superam os obstáculos iniciais, vão ganhando o fôlego do primeiro vento no rosto. Ganham ritmo! Mais e mais rápido, são quatro grandes atletas!

Vejam só, foram muito bem treinados por seus técnicos. O 1 parece estar na frente, seguido pelo resto. Seu treinador é um dos melhores, ensinou-lhe tudo, deu tudo do bom e do melhor para ele.

Mas o 2 está na cola, será que alcança o 1? É uma batalha árdua! Vão agora superando as marcas iniciais, estão prontos para entrar na segunda parte da corrida. São mais e mais obstáculos, sem parar. É prova terrrrrrrrível!

Opa! Olhem! O 4 ficou pelo caminho, totalmente sem fôlego, deve ser reflexo daquele caso de 5 anos atrás, quando foi pego pelo doping...história horrível.

E os três competidores seguem adiante. Estão mais amadurecidos para seguir na corrida. Agora é uma prova de resistência! Resistirão a esse trajeto longo e repetitivo?

Cai o 2 no meio da pista! Será algo sério? Os paramédicos rapidamente estão entrando na pista para socorrê-lo, deve ser algo no coração. Não agüentou o ritmo da prova. Não é para todos!

Só restam o 1 e o 3 agora. Vão chegando ao final da corrida. Estão cansadíssimos, dá para notar por seus rostos, o físico está esgotado!!!

Estão empatados. Que competição! Que corrida! Que disputa! Vão chegar juntos?! A faixa está logo ali, a chegada vai se aproximando. Estão empatados. Minha nossa senhora!

Vão passar!!!

_________________________

Que me importa uma vida onde todos se encaram como numa corrida acirrada, onde mais importa ter do que ser? Onde a linha de chegada nada mais é do que a ida para o desconhecido? Onde se gabam por estar na frente, mesmo sendo por apenas um milésimo de segundo?

Parem de correr!

4.12.07

Never Stop the Music

TV é um tipo de loteria. Há dias em que queremos nos matar por estar passando três programas legais em canais diferentes ao mesmo tempo. E há dias em que nada presta na programação. Como eu raramente vejo TV, essa loteria fica tão impossível quanto ganhar na megasena.

Uma terça, na hora do almoço, não era exatamente o dia dos programas legais. Pelo contrário, era tão chato que a coisa mais interessante de se ver era a TV Senado.

Alguns venerandos senadores da Comissão de Educação, presidida pelo candidato-de-uma-nota-só, Cristovam Buarque, colocavam em pauta um projeto de lei que torna obrigatório o ensino da música na educação básica (antigo ensino fundamental).

"Ótimo!", pensei. Está aí uma iniciativa legal. Dessas que raramente os políticos propõem, pois não angariam nenhum voto para a próxima eleição com isso. Paradoxo estranho esse. O que é proveitoso e bom para a população não garante voto mais adiante, ao passo que uma ou duas pontes e umas praças restauradas são mais do que expostos na hora de lembrar o eleitor em quem ele deve votar.

Enfim, música sempre foi apontada por pedagogos, psicólogos e outros pesquisadores como uma boa forma de desenvolver a capacidade mental das crianças. Eu mesmo adoraria ter tido essa matéria na escola. Além de ser algo agradável, muitos anos depois poderia servir para conquistar garotas. Não conheço nenhuma menina que não ache demais um cara tocar algum instrumento.

Mas mesmo que eu não saiba tocar nada, não posso negar que a música tenha um papel fundamental na minha vida. É tão intenso quanto um vício, pois onde vou a desejo. Se estou num lugar bom, há grandes probabilidades de que esteja tocando música nesse lugar, ou então de que eu esteja pensando em alguma boa música. Se estou num lugar chato, torço para chegar logo em casa e desfrutar das minhas mp3. Música está em todo lugar. Toda hora.

Sincronizada com a exibição da TV Senado, uma apresentação de chorinho começou na Concha Acústica, lugar onde rolam alguns eventos musicais, que fica na praça em frente ao meu prédio. A tranquilidade da música me acalmou, levando-me para algum lugar longínquo, onde a aproveitei ao máximo. Essa mesma Concha já me despertou do sono com jazz, blues, corais. Já chamou minha atenção com bandas de rock e mpb, nas suas apresentações vespertinas de toda sexta-feira. E até mesmo me surpreendeu com um jam entre uma banda de prog rock e um grupo de hip hop londrinenses.

Onde quer que eu esteja: em casa, na universidade, no ônibus, em festas. Tanto faz. A música está lá, companheira inseparável, que ora me anima ora me deprime, dependendo de sua melodia e letra.

Sabiamente, os portentosos senadores votaram pela promulgação do projeto de lei. Que as crianças aprendam com gosto a cultivar essa companheira de todas as horas!

1.12.07

Sophia - Episódio 1

A Drummond

Sophia não perdera tempo raciocinando. Suas pupilas rapidamente fecharam-se num clic e a imagem captada por elas foi armazenada em sua memória virtual. Pensaria nela depois.

Desde que seu pai morrera Sophia não mais parara para admirar cenas como aquela. O pai era um grande admirador de momentos singulares, a ponto de parar qualquer coisa que estivesse fazendo para dar alento aos olhos, sedentos de uma bela imagem. Sophia aprendera com ele a ignorar a correria da vida.

Estacou e olhou em volta. Aço, silício, cabos. O que era mais cinza? A Pólis ou a vida?

Parou de pensar logo. Não era conveniente em sua época ficar indagando o Progresso. Fluir era necessário. O fluir do sistema.

Sentiu-se reprimida. Sentir não é pensar. Quando se abandona o âmbito da razão e a liberdade que temos para divagar sobre tudo, ou melhor, quando se pisa nessa capacidade - com novíssimas botas de couro aprimoradas com nanotecnologia - e o livre-pensar se eclipsa, grita mais alto a emoção. Os nervos ficam à flor da pele e os sentimentos tomam conta do que poderia ter sido da razão humana, a dialética, não a cartesiana. Não era fácil, porém, desviar da normalidade um cyborg.

Alguns lampejos de claridade começaram a assaltar a mente de Sophia. Iluminavam algo que ela estava escurecendo, bloqueando, obliterando. Não mais poderia acobertar aquilo que estava escondendo. Sophia tinha plena noção disso, jamais poderia iludir a si mesma. Sentiu vergonha.

Sophia estava mudando, queria mudar.

E não mais agüentando a espera pela rememoração, acessou o arquivo da foto que havia guardado no mesmo dia mais cedo: uma flor nascida entre obscuros vãos de aço. Ainda desbotada, que iludiu a polícia, sem cor a se perceber, sem pétalas a se abrir, sem nome e feia. Mas uma flor, sem dúvida.