28.11.07

3, 2, 1...

A faca serrou lentamente a carne macia como se estivesse deslizando pelo gelo. Espetando a parte cortada com o garfo, levei à boca o pedaço de animal morto saboroso. E aprovei seu sacrifício em alimentar-me.

Não muito distante do meu prato, um soco atingiu o rosto de alguém. O barulho abafado indicava que a carne batida não era tão macia quanto a carne agora em minha boca, talvez pelo fato de alguns ossos terem entrado na jogada também. Tirando a atenção do paladar e reforçando a audição e a visão, procurei o motivo da balbúrdia.

Um rapaz de estatura média e corpo atarracado era contido à força por outro rapaz, musculoso, que se encontrava no meio da briga. Separava o agressor (o contido) do agredido (que começava a se levantar, indignado com a agressão que sofrera).

A essa altura, muitos olhos já contemplavam a cena não corriqueira. Meu coração começou a bater aceleradamente e minhas extremidades formigaram. Oh não! Essa sensação de novo não! Como a odeio!!!

A briga arrefecera. O cara no meio dos dois brigões conseguira acalmar o ânimo exacerbado de ambos e agora cada um se encarava nervosamente de suas respectivas mesas. Seguranças velhos, barrigudos e baixinhos chegavam de todas as partes, apenas cercando o local da "briga". Uma nutricionista disponibilizou-se para mediar a paz. Após alguns minutos, só faltava os dois alterados se abraçarem e fazerem juras de amor eterno. Não fiquei sabendo do motivo da briga, embora ao menos tenha me interessado por ele.

Entretanto, minha sensação não passara. Como eu a odeio! E desde muito me acompanha. O que ela é? Jamais saberia explicar corretamente. É como um aviso. Um insistente aviso, que assobia alto em meu ouvido: "cuidado!". E a cada segundo aumenta mais seu volume, como se estivesse a predizer a explosão de uma bomba.

Por vezes, a sensação some e posso pensar que o mundo é um bom lugar para se viver. Porém, inconstantemente, a sensação volta e me diz: "está num barril de pólvora, isso tudo vai explodir a qualquer momento".

E essa tensão paranóica me atormenta, como que a indicar que algo grande e importante vai acontecer, e é bom eu estar precavido.

Sem alento, nada posso fazer para evitar esse choque espesso que me rodeia e altera as batidas do meu coração. Talvez o mundo esteja dentro de um funil, convergindo para uma estreita saída que mal sabemos onde pode dar. Talvez esteja acumulando um tremendo grau de violência, raiva, desprezo e ódio que, sem motivo aparente, perturbam-me as percepções. Ou talvez eu só esteja louco. Grandes probabilidades para todas as possibilidades.

Mas é bom que não ignoremos os sinais. Nada de bom pode acontecer no mundo mórbido que temos criado.

Só espero que essa bomba não exploda em minhas mãos. Ouçam!

25.11.07

Melhore!

Um fazendeiro alimenta melhor seus animais se quer que eles engordem.
Uma cozinheira capricha no tempero se quer que gostem de sua comida.
Um capitalista aumenta o salário de seus empregados se deseja maior produtividade.

Então por que cargas d´água meus professores não me dão uma nota maior se querem que eu estude mais?

23.11.07

Introduzindo Sophia

Sophia acordou esbaforida de seu sono habitual. Por uma qualidade técnica, não estava suando, tampouco suando frio. Não poderia, é lógico, uma vez que seu corpo cyborg não possuía glândulas sudoríparas (“Por que eu iria querer suar?!”, diria ela, como que brava, mas escondendo que seu pacote de implantação não incluía algumas glândulas e funções do corpo humano). Mas ser um cyborg não significa robotizar um humano. Um cyborg é um híbrido entre humanos e máquinas. Era algo essencial àquela época, assim como Ipods no século XXI.

Por ter um lado humano, demasiado humano, Sophia era passível de ter pesadelos. Como poderia se livrar dos sonhos? Seu encéfalo e medula espinhal eram originalmente de seu antigo corpo carnal, era o pressuposto para a existência completa de um cyborg. Assim sendo, seu cérebro estava lá, juntamente com seus inúmeros neurônios, sinapses e axônios. Logo, sonhava. E sonhava bastante até, mais do que gostaria.

Se há sonhos, entretanto, há pesadelos. Assim como onde há luz, há sombra, ou qualquer dicotomia complementar. O pesadelo de Sophia era do tipo existencial. Via-se frente ao espelho, impávida, como que a tentar procurar uma resposta para suas dúvidas. Subitamente, seu reflexo saía do espelho, abraçando-a, e esfaqueando seu ventre. Quatro, cinco vezes. Donde não jorrava sangue, mas dinheiro e engrenagens.

Não gostava de ter criatividade em pesadelos. “Coisa imprópria”, pensava. Criatividade gostava de ter quando pintava. E pintava bem, coisa que não nos interessa agora.

Sem sono a mais para desfrutar, mesmo porque só precisava de 3 horas de dele por dia, visto não precisar mais de repouso à carne, decidiu dar um upload no seu firewall. Abrindo a entrada lateral de seu pescoço, puxou dali fio extensível que foi se ligar à entrada plug do criado-mudo, com acesso à internet. Rapidamente, sua mente vasculhou alguns conteúdos de sites, indo achar o patch de upload na versão org do site da U.S. Robotics.

Começou a se indagar sobre o que era. Gostava de ter acesso à internet, cabos USB, uns HDs potentes, aparelho de comunicação conexo à mente, assim como tradutor de linguagem e decodificador de mais de 25 mil tipos de códigos. Mas pensava demais, sem envolver nisso nenhuma função tecnológica sua. Pensava e sentia dor diferente à dor que seus receptores sensíveis sentiam ao levar uma agulhada, por exemplo. Era uma dor dilacerante. Inexplicável.

Frustrada e ansiosa, tomou uma atitude firme e essencial em sua época, capaz de curar dores de diversos tipos dentro das mentes ainda humanas e frágeis: ligou para sua psicóloga.

_____

Nem tudo muda em passado, presente ou futuro. Sophia veio para ficar, como protagonista e homenagem aos clássicos da ficção científica.

19.11.07

Nosso tempo

Nada como distribuir e levar pancadaria de graça num mosh e circle pit dum show de grindcore após ficar uma semana inteira estudando doutrinas que meia dúzia de mal comidos jurídicos escreveram durante um tempo enorme e desnecessário de suas vidas para tentar diferenciar tipos de liberdade, igualdade e propriedade. Esse ecletismo tem nome.

Se chama Idade Contemporânea.

14.11.07

Virarei moralista

O tempo estava nublado lá fora, cinza e desalentador, devidamente bem acompanhado de uma banda de jazz que fazia uma pequena apresentação no restaurante. Sax, baixo, teclado, bateria. Absorviam-me em introversão, enquanto eu saboreava o frango e sua pele tostada além do ponto.

Resolvendo voltar ao mundo de fora, percebi que meus fellows discutiam sobre algo estranho para a hora:

- Eu acho totalmente estranho, é bizarro – concluiu um.
- Acho tão ridículo ... – concordou a outra.
- Também quero saber da fofoca! – disse, tentando me enturmar.
- Estamos falando de fulana.
- Ah, conheço, acho a namorada dela bonita.
- Eu também – anuiu o primeiro.
- Ah, não é pra tanto, gente...

Falavam sobre uma lésbica, ou bissexual, ou algo que o valha. Por mais que estivesse numa Universidade, local, em tese, de ideário progressista e libertário, percebi, no tom jocoso, certo ar de provincianismo por parte dos dois. Afinal, o que importa se a menina gosta de aranhas? O importante é que ela parece feliz. Resolvi me intrometer:

- Minha amiga que faz psico disse que no curso dela homossexualismo é até que normal, e ainda rola umas trocas de casais, e coisas do tipo. No nosso curso, sei lá, é tão...normal, certinho.
- Povo de psicologia é tudo doido e maluco – atreveu-se um deles.

Estaquei e abaixei os olhos para o prato à minha frente. Valeria a pena citar que meus pais são psicólogos? Vamos lá, Victor, deixe-os sem graça. Todo preconceito é imbecil, apesar de inerente ao humano. Não...melhor não. Chega de acidez por hoje.

- Meu frango tá frio! – disse, esfriando o assunto tal qual o restaurante deixara meu frango.

Não que se devesse levar muito em conta só o curso de psicologia que, a bem de explicação, não deixa escapar, nos hinos de seus estudantes, o fato de que psicologia rima com orgia. Mas de qualquer maneira, que belo curso straight fui me meter!

Enquanto isso, cursando Direito ou não, noto que preciso de antidepressivos. Já!

13.11.07

Depois que saí do 101

Algumas idéias apresentam-se de modo claro e específico em livros, filmes, pinturas, etc. Daí em diante, ao invés de se fixar na mente das pessoas para alertá-las, vira um modo de adquirir lucro, coisa usual no nosso sistema econômico. Quando Orwell apresentou a idéia do Grande Irmão, não imaginava que os nerds do Google inventariam algo como o Google Analytics, serviço que monitora as visitas de um site, e muito menos pensaria que meu blog:

1. recebeu 179 visitas em 11 dias;
2. recebe visitas da Califórnia;
3. recebe visitas de todas as regiões do Brasil;
4. tem uma média de tempo de visualização de 6 minutos;
5. tem uma taxa de rejeição de 70%;
6. recebe visitantes que usam, majoritariamente, mozilla firefox, com internet DSL;
7. tem mais visitantes vindos de Londrina;
8. é, geralmente, acessado por links postados em outros sites;
9. é achado no google através de palavras como "altruísmo"; "leite materno"; "advogado do diabo" e "onde estou".

Google Analytics is watching you!

9.11.07

A Savana é Logo Ali

Olhava a vítima à espreita, ocultando-se de qualquer ameaça, natural ou não. Por trás de seu esconderijo, perscrutava com seu olhar cada centímetro da vítima, toda sua estrutura física, suas patas, ancas, a pelugem leve, rala, como que provocante e convidativa a um banquete.

Passou mesmo a respirar lentamente, como se tivesse medo de que ouvissem um único suspiro que fosse. Predador que era, sabia calcular exatamente a hora do bote, da caçada, do fatídico momento de fincar seus afiados dentes e garras na caça.

A caça, ingênua, estava ali, a viver sua vida independentemente da presença do grande predador, que se fazia invisível. Bebericava algo, o que a tornava totalmente vulnerável.

Parecia uma caça apetitosa, dava certa água na boca do caçador, pois estava faminto. Seus instintos apontavam todos sinistramente para o que via à sua frente. Eram formas que lhe apeteciam, e iria saboreá-las. Ah, iria. Iria correr, perseguir e, então, num salto fantástico, que todos admirariam, iria agarrar a presa. Estaria vencida e seria dele, cada pedaço de sua suculenta carne.

Não havia vento. O mormaço distorcia o ar assim como o barro turva a água. A presa então abaixou a guarda, ignorante de seu trágico destino, ou então permissiva, à espera do bote, aceitando o destino. Era o momento certo.

Com uma determinação delirante, o caçador impulsionou-se: todos os seus músculos trabalharam vigorosamente para levá-lo até à caça de modo mais rápido e repentino possível. Um, dois, três segundos! Pronto, sucesso, estava a um centímetro da caça, vai mordê-la!

- O que é isso, seu tarado?! Sai fora! Não tá vendo que sou casada?! Se toca!

E um tapa foi tudo o que Carlos Augusto, o conquistador, conseguiu de sua presa tão vulnerável, durante o baile latino.

7.11.07

100 postagens

E chegamos finalmente ao 100º post. Parabéns, Zaratustra!

Olhando um pouco para esse blog, parece já que tem anos de existência, mas só possui 10 meses de vida. Nesse meio tempo, já postei crônicas, narrações, poemas, teorias, lyrics, enfim, muitas coisas, que versavam sobre os mais diversos assuntos: desde amor e frustração até meu cotidiano e situações engraçadas. Começou como um desabafo ao stress do vestibular, passou pela fase da minha adaptação a um novo local para morar, pelo fim do namoro, pela nova vida, por situações inesperadas e por milhares de sentimentos.

Era no início um aliado de Zaratustra, que me contava tudo. Mas me enchi do coitado e comecei a planejar sua morte. Com sucesso, venho expondo como é necessário ao mundo o lado negativo para que se alcance o lado positivo das coisas, o sucesso.

O projeto anda a todo vapor e não tem previsão de acabar. Isso tem um motivo, mas vou deixar que um log fale por mim, um log duma conversa com minha muito admirada amiga Lígia, que me comparava, na ocasião, a Clarice Lispector:

. Lígia . diz (15:49):
olha, essa pode ir pro seu blog

. Lígia . diz (15:49):

"enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever"

. Lígia . diz (15:49):

beeem Victor Hugo A Barbosa i.i
Que cheguemos a mil.

Sink fast.

5.11.07

Elas sempre têm um ex idiota ou um namorado bundão

Eu não deixo meus relacionamentos antigos se intrometerem nas minhas tentativas de achar uma pessoa nova. Alguém avise as mulheres para fazer o mesmo.

3.11.07

Too late for your Halloween

No dia 31 de Outubro as pessoas costumam comemorar o Halloween, também conhecido como Dia das Bruxas, evento de origem celta e comemorada especialmente nos países anglo-saxônicos. No Brasil, país tão influenciado pelos yankes, as comemorações desse dia atípico ao nosso folclore crescem cada vez mais, ano a ano.

Longe de querer entrar no mérito do patriotismo e nacionalismo, gostaria de analisar a maneira como essa festa é celebrada: pessoas fantasiam-se de maneira lúgubre e mórbida, geralmente com algo associado à terror e morte, e vão, de casa em casa, pedir doces.

Dia especial, comemoração especial. A morte nesse dia é encarada sem o peso de sua realidade. Caveiras e jacks (as abóboras (pumpkins) com sorriso macabro que servem de lanterna na decoração do Halloween), são as figuras mais recorrentes desse dia. Até mesmo meu irmãozinho fez um jack em sua escola (ele estuda em uma escola bilíngue).

Felizes são essas pessoas que resguardam o lado negro da vida para o dia 31/10! Supõe-se que basta esse dia para que reparem nas coisas sujas da vida. Meu Halloween não possui data especial, tampouco lugar especial para ocorrer. Está em cada rua, calçada, casa, prédio, elevador, enfim, está no sorriso cínico daquele que engana e manipula, tão mais cruel que a perversão de um serial killer. Meu Halloween está nas notícias de estupro, de seqüestro, de tortura, de pedofilia. Mas aqui não há nenhuma bruxa que deseja apenas engordar as crianças para comê-las, há algo ainda muito pior do que a fantasia exacerbada deste dia anglo-saxão. Algo real.

Meu Halloween está também na mendiga que, maltrapilha e fedorenta, olha-me suplicante da calçada em que está despejada, e não pede "Doces ou Travessuras", mas dinheiro para alimentar seus filhos. Meu Halloween é eterno e ninguém nunca se despe de suas fantasias, pois estão coladas à pele, inseparáveis. Meu Halloween ocorre durante 364 dias do ano, quando ninguém acha graça do tétrico, mas tétricos são, na medida do socialmente aceitável.

O Halloween está bem à nossa volta. E não há nenhuma Inquisição que dê conta de acabar com essas bruxas.

1.11.07

How much?

Visito muitos blogs por dia. Gosto de ver o que as pessoas têm a dizer ao mundo, o que elas pensam, o que sentem. Alguns blogs se destacam, são comandados por verdadeiros blogueiros-mestres, caras que conseguem inventar histórias fantásticas e dar personalidade ao seu site. Num desses blogs, vi um link escrito "How Much Is Your Blog Worth?". Animado, resolvi ver quanto meu blog valia. O blog fodão onde achei o link valia mais de US$23.000. Uau! O meu deve valer uns 10 mil então!



Shit happens.