24.10.07

Voltaire não sabia o que era ingenuidade

Meio-dia. Uma hora de muitas sensações chatas ao mesmo tempo: cansaço pelo dia de aula, sono pela noite mal-dormida, preguiça pelos trabalhos e tarefas adquiridos, e fome, muita fome. E para ajudar, nesse dia, em especial, um repentino frio que pegou a todos de surpresa.

O aquecimento global atinge Londrina de uma maneira inusitada: faz frio quando deveria fazer calor e vice-versa, na hora do almoço é comum fazer muito calor, mas nesse dia, misteriosamente, a hora do almoço estava mais gelada do que o começo da manhã. E chuviscava.

Andando apressado, cheguei ao RU, o restaurante universitário, onde peguei minha senha e esperei a hora de entrar (sim, temos que esperar...) enquanto uma espécie de Olodum cover fazia as vezes de atração para os estudantes do lado de fora.

Apesar da senha, que deveria agilizar a entrada no RU, a personalidade brasileira prevaleceu: entrei numa fila. Brasileiros nunca vão se livrar das filas, tá no sangue.

Beterraba ralada, não quero, obrigado; frango xadrez, pego, lógico; macarrão fusilli, também; arroz, feijão...sempre peço menos, por que eles acham que como igual a um pedreiro? E, por fim, suco tonalidade laranja (mas eu gosto mesmo é do suco de amarelo claro).

A hora de achar um lugar para sentar é meio incômoda. Mas sempre surge um lugar. Estava acompanhado de um amigo, então dois lugares bastavam.

Estava sentindo que o frango tinha um gosto doce e que graças ao bom Deus o macarrão não estava duro quando ouvi uma menina falar mais alto que o normal atrás de mim. Ela falava sobre Deus, o cara que amoleceu meu macarrão:

- ELE É TUDO, MEU! É DEMAIS! NOSSA...

Apesar do tom elevado, e de várias pessoas estarem virando a cabeça para ela, eu ainda não me ligara naquela maluca, estava tristemente pensando que meu frango tinha gosto de banana. Fiquei divagando até que não deu mais para ignorar, virei a cabeça e vi que ela discutia com dois caras que faziam o estilo skatistas hardcore.

- Seus pais são missionários também? - perguntou um deles a ela.

Eu realmente não estava interessado em saber sobre a vida da pregadora mirim, então ignorei o diálogo subseqüente, mas a reconheci depois de algum tempo. Eu a havia visto no dia anterior, no ponto de ônibus: ela vestia uma camiseta escrito Missões 2007 ou algo que o valha e ficou me encarando durante algum tempo, ao que me indagou:

- Quer?
- Ahn?! Quero o quê?
- Bombom - e abriu uma caixa que segurava nas mãos, revelando vários bombons de cara boa.
- Ah...não, obrigado.

"'Quer'? Que menina mais avoada! Será que ela ia cobrar? Quem diz 'quer?' não quer dizer 'quer comprar?', ah que fome!"

Mas voltando ao RU: a menina agora falava sobre como Deus era bom e que todos alguma hora morriam e que Deus dava a vida. Penso que os skatistas estavam zombando dela e ela, bem solícita, pôs-se a defender sua fé, mesmo que para isso tivesse de gritar durante meu almoço.

Ri, sarcástico, para meu amigo. Mas não quis criar polêmica com ele. Passei a pensar comigo mesmo: religião é um desses assuntos que emputecem as pessoas, deixam o pavil curto. Mas não acredito em Deus. Não no Deus que os cristãos crêem. Meu Deus é uma entidade mais transcendental, potencial, metafísica, unificadora. Crer no Deus cristão é uma grande furada. É assumir que Deus falhou, é concordar que Nietzsche, nas palavras de Zaratustra, estava certo, "Deus está morto", e isso é inadmissível, pois Zaratustra tem que morrer, meus caros. Acreditar no Deus católico é ignorar fome, guerra, dor, miséria e vida sub-humana. Se existem essas tragédias, então Deus é permissivo, tapou os olhos a nós? Eles MERECEM isso? Por pecarem? Ou por que são pobres e isso é fruto do homem?

O homem tem um grande poder de ação na Terra. E isso, mais do que tudo, demonstra como Deus, mesmo que exista, está bem quieto em seu canto. Convenhamos, não é tarefa dele ligar para 6 bilhões de vermes. No máximo, ele manda alguns subordinados fazerem o serviço. Deus é potência, simplificando as idéias de Aristóteles, tal qual um motor que gera vida, harmonia entre as coisas, num nível não percebido por nós, ou esquecido por nós. A idéia é essa: Deus pode gerar, mas não intervir. Quem mexe os pauzinhos é o homem. E o tempo/espaço só vem a dar dimensões maiores ou menores sobre isso.

Meu Deus é muito mais plausível, Herr Papa.

Os caras com os quais a missionária estava discutindo haviam se levantado e ido embora. Ela então olhou em volta e, voltando-se para meu amigo, pediu para ele, um desconhecido para ela, olhar e cuidar da caixa de BOMBONS dela, enquanto ela ia não-sei-onde.

Fiquei com pena. Em que realidade esta garota vive?

3 comentários:

Fadinha... disse...

acho q ja discutimos o suficiente sobre isso!
e acho q vc sabe minha opiniao ja!
haha

n vou fazer que nem aquela menina...

nao se preocupe... pesso ser uma "pregadora" (=P)mas nao vou tentar converter ngm!!!
hehehe

mas religiao eh um assunto que deixa as pessoas com paviu curto sim! (e pelo jeito vc ja percebeu e adora se divertir comigo! heheh)



sera q a caixa de bombons dela ficaria a salvo comigo!??!?!


bjooo
;***

Tyler Bazz disse...

No RU daqui os sucos também têm cores em vez de sabores..

Se uma menina olha pra mim no ônibus e diz "quer?", o mínimo que eu faço é responder "quero. mas você engole e dá a bunda?" :X


deus te abençoe, banger...

Lígia disse...

Éééé..eu já conheço esse seu ponto de vista sobre Deus, e acho bem plausível, indeed..e bonita.

Agora, sobre a menina..parece meio avoada mesmo, mas num bom sentido, até que eu fui com a dela ahueuhae..Aliás será que ela É avoada? Talvez ela saiba de algo que não sabemos, pra oferecer tanta confiança nesse mundo de pessoas que tem um olho no gato e o outro no peixe..pessoas assim são definitivamente cada vez mais raras.

Beijos, Victório (hohoho troque o V pelo M! ahuehuhae eu sou mto retardada msm..)