10.10.07

Nelson, o Desprezível

- Estava molhadinha, disse-me Nelson.

Caramba. Nelson era um cara doentio. Olhava-me com olhar desvairado, o cabelo desarrumado, ensebado, devido ao uso do chapéu panamá milimetricamente feito sob medida para o uso do distinto senhor. Rodava-o na mão direita, enquanto que, com a perna cruzada ao estilo intelectual, remexia o pé ao som de bossa nova.

- Molhadinha, prosseguiu ele. Na fila do parque!

Cheguei nesse estranho clube há alguns instantes, onde fui diretamente conduzido à presença do Sr. Nelson, que me aguardava. Devo salientar que eu estava no século XXI, 2007, usando meu computador quando, de repente, fui tragado para o que parece a década de 50. "Alguém deve ter me dopado com lsd, só pode!", penso.

Calça jeans apertada, camiseta amassada, cabelo e barba por fazer. Eu comparava-me ao restante dos homens no estabelecimento, todos com seus ternos de linho devidamente arrumados, além dos bigodinhos bem ajeitados por algum barbeiro experiente, quando o Sr Nelson começou a falar da molhadinha, após nos apresentarmos pelo primeiro nome.

- Que molhadinha, senhor?
- A burguesa, Victor. No parque.

Seria possível? Um cara todo chique, da década de 20 (de 20!) falando de molhadinha? Ele é tarado? Não consigo associar uma época tão distante com pessoas taradas. No século XXI tudo bem, as molhadinhas estão a um clique de você, mas...numa época em que meus avós estavam na juventude ainda...impossível!

Não, pensando bem, essas coisas são as mesmas em qualquer lugar. Em Teerã agora deve haver algum aiatolá falando de molhadinhas também. E a rainha Vitória também provavelmente tinha seus momentos lá no UK do século XIX...

- Não estou entendendo, senhor, pode, por favor, me explicar como vim parar aqui? Sou do fut...
- Vou contar-lhe meu caro, e isso vai me render muitos aplausos, ah!, já os ouço!
- Bem, vá em frente...
- Duas lindas garotas, amigas, criadas nas mais pacatas casas, daquelas que transbordam sutileza e eufemismo. Uma cultura toda voltada para algo cristão, me entende? Duas...santinhas, por que não dizer?
- Sei bem.
- Resolvem ir ao parque que chegou à cidade. Você sabe, esses itinerantes...
- Prossiga.
- Chegando lá, deparam-se com um choque!
- Qual?, respondi, ficando mais interessado.
- As pessoas que estão lá não correspondem ao seu mundo. São pessoas diferentes. Criadas de modo diferente. Não-santas. Sem o zelo de pais cuidadosos e, cá entre nós, hipócritas. Pessoas que nos convencemos a chamar "reais". Uns belos de uns depravados. Consegue me entender? Imagine o que diabos fariam se vissem dois anjos caírem no Inferno sem suas asas...
- Atrocidades..., concluí, fazendo uma careta ao imaginar a cena.
- Sim, logo ficaram de olho nelas. O parque é num lugar distante, periférico. Na periferia impera outra moral, apesar das mesmas leis. Outro mundo....
- Então, ele continuou, elas, com um sentimento novo, de medo ao desconhecido, dirigem-se à fila da montanha-russa, doidas que estavam para sentir o frio na barriga. Vão sentir de fato!
- Sem suspense, senhor!
- Ah não, o suspense é o melhor. É a boca do leão ao redor do pescoço da presa! Mas, enfim, continuando. Estão elas na fila, olhando, temerosas, ao redor. Vendo que a fila começa a engrossar, pessoas começam a cercá-las. Sorrisos doentios, alguns dentes podres, parecem hienas em cima da carcaça. Há um certo cheiro selvagem no ar e, logo, as coisas começam a sair do controle.
- Não há quem as proteja? Um guarda? Seguranças? Pessoas de bem?
- Transformaram-se, ou não ligam, como é o caso do guarda que está ali a namorar a Mariazinha. O resto deixa a máscara de lado e começa a dar vazão ao animal dentro de si. Conhece Sade?
- O Marquês? Ah sim, conheço. Mas...pare...é desesperador!
- É natural, digamos.
- Ora...
- Eles prosseguem. Os mais descarados já as agarram, esfregam suas partes nelas, outros as tocam, levantam suas inocentes saias. Elas estão acuadas, paralisadas, como a vítima do veneno do escorpião.
- Pare de ver Discovery Channel, Senhor Nelson!
- Como?
- Ah, nada, desculpe-me. Isso é algo real?
- É algo que ouvi e aumentei ali, editei acolá...
- Ah, então há o dedo do senhor por trás disso...
- Algo mais que o dedo, meu caro...
- Você é tarado...
- Hehe, e Nelson escancara um sorriso de escárnio, a mostrar dentes brilhantes.
- Mas deixe-me terminar a história. Uma das meninas, evocando toda a santidade do seu lar, e as palavras do padre que ela guardou como pérolas para si, chuta o saco de um dos safados e consegue fugir, saindo correndo em disparada, sem nem ao menos olhar para trás. Correndo...pela vida.
- E a amiga?
- Essa estranhamente amoleceu os músculos e os tendões. Cinco grandes rapazes a seguram, seu olhar está meio longe e o que mais se nota é que está molhadinha. E curiosa por um mundo novo que a virilidade dos nossos varões estão para demonstrar a ela.
- Oh meu Deus...não creio.
- Pois creia, se há as que gostam de apanhar, por que não as que desejam isso?
- Isso não é meio...machista?
- Não se deixe intimidar por elas, meu caro.
- Então termine de uma vez a maldita história, digo aborrecido.
- Não há mais muito o que falar. Roupa rasgada, animais, olhares reprovadores mas coniventes dos transeuntes. Eles não foram uns cavalos, tanto que ela teve um orgasmo. Dois, digo. E logo na primeira vez!
- Ah sim, difícil de acreditar.
- Foi assim que aconteceu. E Nelson acendeu um cigarro, tragando-o e dando após alguns instantes uma baforada em meu rosto.
- A mocinha santa que se revela. É, já ouvi algo a respeito. Mas não tenho nenhum interesse em saber o futuro de distinta dama.
- Ele existirá de algum modo, rapaz. E, se não quiser se atrasar, o seu bonde vai partir ali atrás daquela porta em 3 minutos. Foi um prazer conversar com você, até!
- Adeus, Nelson.

E saí andando. Sem querer olhar para trás. Que sujeito bizarro! Que mente insana. Mas, há um eco de verdade...enfim, já estava quase chegando na porta e colocando a mão na maçaneta quando um garçom me alcançou.

- Senhor Victor, mandaram isto para você. E me estendeu um bilhete.

Ao desdobrá-lo, li:

Nunca as deixe intimidá-lo. Nunca.
Ass.: Nelson Rodrigues

Bati com a mão na testa. Deveria ter percebido. Abri a porta e voltei misteriosamente à minha cadeira em frente ao computador. Escrevi um pouco e, então, dei enter.

3 comentários:

Fadinha disse...

axo q o sr esta convivendo demais com a dona vanessa!!!
=P


e eu tb! de tanto ela me encher o saco andei lendo uns livros dele!!!

gostei bastante!!!
=P



bjoooo

Tyler Bazz disse...

Boa!!!

Danusa disse...

é machista, mas (já que) vc nunca vai ser intimidado...