31.10.07

Ao sabor das mudanças

Descobri, assim, do nada, que gosto muito de cozinhar. Deve ser genético - minha vó, minha tia e uma das minhas irmãs são craques na cozinha - ou só um hobby passageiro. De qualquer maneira, sempre quis fazer gastronomia (num primeiro momento só para conquistar garotas mais facilmente, mas depois como um desejo real, sólido).

As cobaias são os caras que moram comigo, mas por enquanto eles têm elogiado a comida. Um deles disse que eu cozinho melhor que a tia dele (não sei a condição mental e física da coitada, mas suponhamos que ela é alguém capaz de cozinhar coisas razoavelmente comíveis).
Não cozinho muita coisa, mas gradualmente tenho aumentado meu repertório: arroz, strogonoff, gnocchi, macarrão à bolognesa, etc.

Os sonhos vão mudando, de qualquer maneira. É raro encontrar alguém com um sonho fixo, desses que a gente vê em desenhos japoneses, em gibis. Eu já começo a pensar em ganhar dinheiro como advogado para depois abrir um restaurante. Sonhos ao sabor dos ventos? Não sei. Mas desde que seja um vento saboroso, eu não ligo de me entregar à culinária ou a qualquer outra coisa que me traga felicidade e prazer.

28.10.07

Um pouco de Pessoa

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

26.10.07

Café sem Aroma de Mulher

Os relógios alinhados ao horário de Brasília, no devido horário de verão, 3 horas a menos do que a caduca linha do meridiano de Greenwich, batem 6 horas. Bate junto com eles o sino da catedral ao lado de casa. É a hora que as andorinhas e as pombas voam, assustadas.

Na cozinha, fico ouvindo a hora nostálgica. São dezoito longas badaladas. Na garrafa térmica, o café fumega.

Viro o primeiro gole. Amargo, quente, revigorante. Meu café tem um gosto sóbrio, sério, parece café de alguém que há muito tempo faz café, mas sem notar o café.

Reprovo. Nunca gosto do meu café. Gosto mais do café da minha mãe. O café da minha mãe tem gosto de abraço. É amargo, como todo café, mas já na garganta ele parece um veludo, é um senhor café.

Lembro do café da máquina de café do Centro Acadêmico do meu curso. Um café empiriquitado. Café de máquina chique. Tem uma espuminha que mais parece uma pluma de pavão, tem gosto de uma bela mulher provocante.

O café do restaurante universitário é um café simples. Ele tem gosto de juventude. É feito por pessoas que sabem do que os jovens gostam. Mas é um café que não deixa marcas depois de bebido. Insipiente como todo jovem prepotente e pretensioso.

Mas, apesar desses vários cafés dizerem algo a mim, sinto que o meu café não diz nada a ninguém. Vou colocar mais açúcar. Alguém está servido?

24.10.07

Voltaire não sabia o que era ingenuidade

Meio-dia. Uma hora de muitas sensações chatas ao mesmo tempo: cansaço pelo dia de aula, sono pela noite mal-dormida, preguiça pelos trabalhos e tarefas adquiridos, e fome, muita fome. E para ajudar, nesse dia, em especial, um repentino frio que pegou a todos de surpresa.

O aquecimento global atinge Londrina de uma maneira inusitada: faz frio quando deveria fazer calor e vice-versa, na hora do almoço é comum fazer muito calor, mas nesse dia, misteriosamente, a hora do almoço estava mais gelada do que o começo da manhã. E chuviscava.

Andando apressado, cheguei ao RU, o restaurante universitário, onde peguei minha senha e esperei a hora de entrar (sim, temos que esperar...) enquanto uma espécie de Olodum cover fazia as vezes de atração para os estudantes do lado de fora.

Apesar da senha, que deveria agilizar a entrada no RU, a personalidade brasileira prevaleceu: entrei numa fila. Brasileiros nunca vão se livrar das filas, tá no sangue.

Beterraba ralada, não quero, obrigado; frango xadrez, pego, lógico; macarrão fusilli, também; arroz, feijão...sempre peço menos, por que eles acham que como igual a um pedreiro? E, por fim, suco tonalidade laranja (mas eu gosto mesmo é do suco de amarelo claro).

A hora de achar um lugar para sentar é meio incômoda. Mas sempre surge um lugar. Estava acompanhado de um amigo, então dois lugares bastavam.

Estava sentindo que o frango tinha um gosto doce e que graças ao bom Deus o macarrão não estava duro quando ouvi uma menina falar mais alto que o normal atrás de mim. Ela falava sobre Deus, o cara que amoleceu meu macarrão:

- ELE É TUDO, MEU! É DEMAIS! NOSSA...

Apesar do tom elevado, e de várias pessoas estarem virando a cabeça para ela, eu ainda não me ligara naquela maluca, estava tristemente pensando que meu frango tinha gosto de banana. Fiquei divagando até que não deu mais para ignorar, virei a cabeça e vi que ela discutia com dois caras que faziam o estilo skatistas hardcore.

- Seus pais são missionários também? - perguntou um deles a ela.

Eu realmente não estava interessado em saber sobre a vida da pregadora mirim, então ignorei o diálogo subseqüente, mas a reconheci depois de algum tempo. Eu a havia visto no dia anterior, no ponto de ônibus: ela vestia uma camiseta escrito Missões 2007 ou algo que o valha e ficou me encarando durante algum tempo, ao que me indagou:

- Quer?
- Ahn?! Quero o quê?
- Bombom - e abriu uma caixa que segurava nas mãos, revelando vários bombons de cara boa.
- Ah...não, obrigado.

"'Quer'? Que menina mais avoada! Será que ela ia cobrar? Quem diz 'quer?' não quer dizer 'quer comprar?', ah que fome!"

Mas voltando ao RU: a menina agora falava sobre como Deus era bom e que todos alguma hora morriam e que Deus dava a vida. Penso que os skatistas estavam zombando dela e ela, bem solícita, pôs-se a defender sua fé, mesmo que para isso tivesse de gritar durante meu almoço.

Ri, sarcástico, para meu amigo. Mas não quis criar polêmica com ele. Passei a pensar comigo mesmo: religião é um desses assuntos que emputecem as pessoas, deixam o pavil curto. Mas não acredito em Deus. Não no Deus que os cristãos crêem. Meu Deus é uma entidade mais transcendental, potencial, metafísica, unificadora. Crer no Deus cristão é uma grande furada. É assumir que Deus falhou, é concordar que Nietzsche, nas palavras de Zaratustra, estava certo, "Deus está morto", e isso é inadmissível, pois Zaratustra tem que morrer, meus caros. Acreditar no Deus católico é ignorar fome, guerra, dor, miséria e vida sub-humana. Se existem essas tragédias, então Deus é permissivo, tapou os olhos a nós? Eles MERECEM isso? Por pecarem? Ou por que são pobres e isso é fruto do homem?

O homem tem um grande poder de ação na Terra. E isso, mais do que tudo, demonstra como Deus, mesmo que exista, está bem quieto em seu canto. Convenhamos, não é tarefa dele ligar para 6 bilhões de vermes. No máximo, ele manda alguns subordinados fazerem o serviço. Deus é potência, simplificando as idéias de Aristóteles, tal qual um motor que gera vida, harmonia entre as coisas, num nível não percebido por nós, ou esquecido por nós. A idéia é essa: Deus pode gerar, mas não intervir. Quem mexe os pauzinhos é o homem. E o tempo/espaço só vem a dar dimensões maiores ou menores sobre isso.

Meu Deus é muito mais plausível, Herr Papa.

Os caras com os quais a missionária estava discutindo haviam se levantado e ido embora. Ela então olhou em volta e, voltando-se para meu amigo, pediu para ele, um desconhecido para ela, olhar e cuidar da caixa de BOMBONS dela, enquanto ela ia não-sei-onde.

Fiquei com pena. Em que realidade esta garota vive?

malditas maldições

As maldições chegam até mesmo ao blog...

Quem me passou a praga foi a Karen.

1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2. Abra-o na página 161;
3. Procurar a 5ª frase, completa;
4. Postar essa frase em seu blog;
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6. Repassar para outros 5 blogs.

"Você me preocupa, Josef! Serei franco. Estou realmente preocupado com você. Porque uma beldade russa desconhecida conversou com você, quer tratar de um maluco que não quer ser tratado por uma doença que nega ter. E agora me diz que deseja fazê-lo grátis. Diga-me - disse Max, apontando o dedo para Breuer -, quem é mais maluco: você ou ele?" (Quando Nietzsche chorou", Irvin D. Yalom).

Não quero amaldiçoar ninguém, thanks.

23.10.07

Tchaikovsky´s headbanging

Nunca fui um cara muito preso aos gostos. Vou do rock à música clássica em dois cliques no Winamp, ou de Chico Buarque a Napalm Death em uma questão de segundos. Ficar preso num certo estilo me enjoa facilmente. Com isso, até dá para ser chamado de eclético.

Enfim, as bandas que conseguem juntar muitos estilos num estilo próprio e original, por esse motivo, sempre me fascinaram. Recomendo aos que me lêem (eu juro que não vou me acostumar a tirar esse acento daí com as novas regras ortográficas) que ouçam Mod Flanders Conspiracy. Eles conseguem misturar heavy metal, hardcore, jazz, rap, música latina, pop, entre outras coisas, com uma harmonia e uma facilidade que dão até gosto. Pena que a banda acabou, mas não desanimem, a internet deixa tudo imortal.

Fica a dica.

20.10.07

Não pense!

Aproximadamente 200 anos a.C.:
Pessoas juntavam-se na ágora e gozavam do ócio, enquanto faziam filosofia.

Aproximadamente 800 anos atrás:
Sábios filosofavam em mosteiros e santuários.

Há 200 anos atrás:
Grandes mestres desfilavam seu conhecimento filosófico nas Universidades.

Há dois minutos:
Filosofo enquanto lavo louça.

17.10.07

Saúde!


O sorrateiro e súbito vento carregado de poeira passa pelas minhas narinas, causando um sonoro e úmido:

- ATCHIM!

Estava num ponto de ônibus, onde a enxurrada, devidamente contida pela educação das minhas mãos (não quero contaminar ninguém), foi seguida de um robótico e aleatório:

- Saúde!
- Obrigado, respondi tão mecanicamente quanto.

Não falo amém pois não sou católico. Mas o "saúde!"...engraçada regra de etiqueta que rege a sociedade. Não é algo que se ensina na escola, e tampouco é um mantra de mães zelosas e rígidas nas casas. Muito menos a Globo veicula matérias em sua programação a respeito disso, mas todos, todos sabem que um espirro deve ser seguido de um educado "saúde!".

A própria idéia de que falar isso é um sinal de boa educação porta-se como fato excepcional. É difícil notar sinais de que as pessoas deliberadamente executam boas ações hoje em dia. Dar o lugar para os idosos sentarem no ônibus, ajudar alguém a carregar sacolas de compra, abrir a porta para alguém passar...muito pelo contrário, as pessoas na verdade deliberam contra isso: "Velho uma ova! Não tenho que dar lugar a ele!"; "Estou com pressa, ele que se vire para pegar outro elevador!", etc...

Apesar dessa má-educação consentida e praticada em larga escala pela civilizada sociedade brasileira, não há ninguém que resista a um espontâneo "SAÚDE!" após um espirro, barulhento ou não, tímido ou não, molhado ou não. Espirro é espirro. A pessoa franze o cenho, abre as narinas, a boca, puxa o ar e solta todos os microorganismos que tem direito. Espirro é espirro e saúde é saúde. Todos sabem disso, ninguém sabe direito como aprendeu a falar, mas todos dizem, quando necessário.

Essa atitude tão arraigada, entretanto, ninguém faz idéia de que era o próprio sinal da cruz surgido contra a pandemia mais violenta que assolou a humanidade no século XX.

Era a própria resignação perante a Gripe Espanhola (ou Assassina), a mãe da SARS, da Gripe Aviária, as potenciais grandes doenças do nosso contemporâneo mundo...

Naquela época, um espirro era provavelmente uma predestinação de morte. Tal qual hoje, mas com o ardor e a pena de alguém com dó de um provável defunto, ao contrário da mecanicidade dos cumprimentos formais aprendidos desde cedo por nós hoje em dia, dizia-se, educadamente, e por comoção: "SAÚDE!".

15.10.07

Whatever People Say I Am, That´s What I´m Not

Em ordem alfabética:

Alienado, ajeitado, amoral, aplicado, arbitrário, arrogante, banana, bastardo, beiçudo, bicha, bravo, brigão, bucetudo, cafajeste, canalha, cínico, complexo, complicado, covarde, cuzão, danado, dedo-duro, delicioso, divertido, doido, errado, fanático, fanfarrão, ferrado, filho-da-mãe, filho-da-puta, foda, fodido, fulo, garanhão, Gargamel, gay, homossexual, ideal, idiota, imbecil, imoral, incompetente, inconseqüente, infame, intelectual, jumento, lamentável, lindo, macaco, mané, maníaco, metido, mimado, motherfucker, noiado, ordinário, otário, paga-pau, puto, rabugento, ranheta, ridículo, sádico, selvagem, sodomita, tarado, tímido, tonto, tuia, vacilão, velhaco, vítima, vulgar, etc...etc...

Eu não acredito em passado.

10.10.07

Nelson, o Desprezível

- Estava molhadinha, disse-me Nelson.

Caramba. Nelson era um cara doentio. Olhava-me com olhar desvairado, o cabelo desarrumado, ensebado, devido ao uso do chapéu panamá milimetricamente feito sob medida para o uso do distinto senhor. Rodava-o na mão direita, enquanto que, com a perna cruzada ao estilo intelectual, remexia o pé ao som de bossa nova.

- Molhadinha, prosseguiu ele. Na fila do parque!

Cheguei nesse estranho clube há alguns instantes, onde fui diretamente conduzido à presença do Sr. Nelson, que me aguardava. Devo salientar que eu estava no século XXI, 2007, usando meu computador quando, de repente, fui tragado para o que parece a década de 50. "Alguém deve ter me dopado com lsd, só pode!", penso.

Calça jeans apertada, camiseta amassada, cabelo e barba por fazer. Eu comparava-me ao restante dos homens no estabelecimento, todos com seus ternos de linho devidamente arrumados, além dos bigodinhos bem ajeitados por algum barbeiro experiente, quando o Sr Nelson começou a falar da molhadinha, após nos apresentarmos pelo primeiro nome.

- Que molhadinha, senhor?
- A burguesa, Victor. No parque.

Seria possível? Um cara todo chique, da década de 20 (de 20!) falando de molhadinha? Ele é tarado? Não consigo associar uma época tão distante com pessoas taradas. No século XXI tudo bem, as molhadinhas estão a um clique de você, mas...numa época em que meus avós estavam na juventude ainda...impossível!

Não, pensando bem, essas coisas são as mesmas em qualquer lugar. Em Teerã agora deve haver algum aiatolá falando de molhadinhas também. E a rainha Vitória também provavelmente tinha seus momentos lá no UK do século XIX...

- Não estou entendendo, senhor, pode, por favor, me explicar como vim parar aqui? Sou do fut...
- Vou contar-lhe meu caro, e isso vai me render muitos aplausos, ah!, já os ouço!
- Bem, vá em frente...
- Duas lindas garotas, amigas, criadas nas mais pacatas casas, daquelas que transbordam sutileza e eufemismo. Uma cultura toda voltada para algo cristão, me entende? Duas...santinhas, por que não dizer?
- Sei bem.
- Resolvem ir ao parque que chegou à cidade. Você sabe, esses itinerantes...
- Prossiga.
- Chegando lá, deparam-se com um choque!
- Qual?, respondi, ficando mais interessado.
- As pessoas que estão lá não correspondem ao seu mundo. São pessoas diferentes. Criadas de modo diferente. Não-santas. Sem o zelo de pais cuidadosos e, cá entre nós, hipócritas. Pessoas que nos convencemos a chamar "reais". Uns belos de uns depravados. Consegue me entender? Imagine o que diabos fariam se vissem dois anjos caírem no Inferno sem suas asas...
- Atrocidades..., concluí, fazendo uma careta ao imaginar a cena.
- Sim, logo ficaram de olho nelas. O parque é num lugar distante, periférico. Na periferia impera outra moral, apesar das mesmas leis. Outro mundo....
- Então, ele continuou, elas, com um sentimento novo, de medo ao desconhecido, dirigem-se à fila da montanha-russa, doidas que estavam para sentir o frio na barriga. Vão sentir de fato!
- Sem suspense, senhor!
- Ah não, o suspense é o melhor. É a boca do leão ao redor do pescoço da presa! Mas, enfim, continuando. Estão elas na fila, olhando, temerosas, ao redor. Vendo que a fila começa a engrossar, pessoas começam a cercá-las. Sorrisos doentios, alguns dentes podres, parecem hienas em cima da carcaça. Há um certo cheiro selvagem no ar e, logo, as coisas começam a sair do controle.
- Não há quem as proteja? Um guarda? Seguranças? Pessoas de bem?
- Transformaram-se, ou não ligam, como é o caso do guarda que está ali a namorar a Mariazinha. O resto deixa a máscara de lado e começa a dar vazão ao animal dentro de si. Conhece Sade?
- O Marquês? Ah sim, conheço. Mas...pare...é desesperador!
- É natural, digamos.
- Ora...
- Eles prosseguem. Os mais descarados já as agarram, esfregam suas partes nelas, outros as tocam, levantam suas inocentes saias. Elas estão acuadas, paralisadas, como a vítima do veneno do escorpião.
- Pare de ver Discovery Channel, Senhor Nelson!
- Como?
- Ah, nada, desculpe-me. Isso é algo real?
- É algo que ouvi e aumentei ali, editei acolá...
- Ah, então há o dedo do senhor por trás disso...
- Algo mais que o dedo, meu caro...
- Você é tarado...
- Hehe, e Nelson escancara um sorriso de escárnio, a mostrar dentes brilhantes.
- Mas deixe-me terminar a história. Uma das meninas, evocando toda a santidade do seu lar, e as palavras do padre que ela guardou como pérolas para si, chuta o saco de um dos safados e consegue fugir, saindo correndo em disparada, sem nem ao menos olhar para trás. Correndo...pela vida.
- E a amiga?
- Essa estranhamente amoleceu os músculos e os tendões. Cinco grandes rapazes a seguram, seu olhar está meio longe e o que mais se nota é que está molhadinha. E curiosa por um mundo novo que a virilidade dos nossos varões estão para demonstrar a ela.
- Oh meu Deus...não creio.
- Pois creia, se há as que gostam de apanhar, por que não as que desejam isso?
- Isso não é meio...machista?
- Não se deixe intimidar por elas, meu caro.
- Então termine de uma vez a maldita história, digo aborrecido.
- Não há mais muito o que falar. Roupa rasgada, animais, olhares reprovadores mas coniventes dos transeuntes. Eles não foram uns cavalos, tanto que ela teve um orgasmo. Dois, digo. E logo na primeira vez!
- Ah sim, difícil de acreditar.
- Foi assim que aconteceu. E Nelson acendeu um cigarro, tragando-o e dando após alguns instantes uma baforada em meu rosto.
- A mocinha santa que se revela. É, já ouvi algo a respeito. Mas não tenho nenhum interesse em saber o futuro de distinta dama.
- Ele existirá de algum modo, rapaz. E, se não quiser se atrasar, o seu bonde vai partir ali atrás daquela porta em 3 minutos. Foi um prazer conversar com você, até!
- Adeus, Nelson.

E saí andando. Sem querer olhar para trás. Que sujeito bizarro! Que mente insana. Mas, há um eco de verdade...enfim, já estava quase chegando na porta e colocando a mão na maçaneta quando um garçom me alcançou.

- Senhor Victor, mandaram isto para você. E me estendeu um bilhete.

Ao desdobrá-lo, li:

Nunca as deixe intimidá-lo. Nunca.
Ass.: Nelson Rodrigues

Bati com a mão na testa. Deveria ter percebido. Abri a porta e voltei misteriosamente à minha cadeira em frente ao computador. Escrevi um pouco e, então, dei enter.

9.10.07

Onde estou?

7:10am

O relógio toca, trazendo-me de volta de um mundo distante qualquer. Claridade. Droga, não adianta colocar uma colcha na janela, não é a mesma coisa que uma cortina com blackout. Que dia é hoje mesmo? Vamos ver, feriado é dia 12, então a última sexta foi dia 5, hoje é, sábado, domingo, segunda, segunda dia 8. Aaaaaah, que saco, não quero ver a cara velha do professor. Preciso de um abraço.

Ok, chega de manha, não posso mais faltar, vou rodar na matéria desse jeito, vai, levanta Victor.

Abro os olhos, fixando-os no teto e dobro os joelhos, levantando-os para cima. Se eles ficarem assim não volto a dormir. Por fim me levanto, como se carregasse uma tonelada de peso nas costas no caminho da cama ao banheiro.

O rosto amassado e sonolento não é a melhor das visões para uma manhã tão bela.

Arrumo-me. Tomo um leite. Duas colheres e meia de nescau e uma e meia de açúcar, sempre, desde criança. Sem pão, sem manteiga, sem torradas, sem suco, sem nada, para desespero da irmã nutricionista e da mãe zelosa. "O café da manhã é a refeição mais importante!". Mas esse enjôo matutino... Se colocar qualquer coisa no estômago temo devolvê-lo violentamente pela mesma via de entrada.

O elevador demora. Não é lá muito fácil para o Atlas Schindler chegar ao vigésimo andar, o último, do condomínio residencial Centro Comercial Souza Naves. Mas ele chega, sempre chega. O melhor dele é sem dúvida o espelho. Ele me diz se eu derrubei pasta de dente na camiseta, se meu cabelo está despenteado atrás, se ainda há remela no olho, enfim, é um bom companheiro observador.

À rua, um bosque, uma praça, uma concha acústica, banca de jornal. Vários elementos ao redor me fazem pensar que estou no centro de São Paulo, ao invés da cidade interiorana do Paraná. Essa logo aparece, pois, por mais que prédios altos me cerquem, ônibus poluidores cruzem meu caminho, letreiros luminosos ofusquem minha visão, aviões barulhentos trespassem o céu e toda a estrutura de uma grande cidade se perfaça ao meu redor, ao cruzar a praça próximo ao terminal urbano, galinhas e galos cacarejam aleatórios a todo aquele movimento, como se ainda vivessem num sítio qualquer, a viver alegremente procurando por minhocas suculentas, tão alegremente quanto os velinhos sentados ali no banco, observadores mais do que atentos da vida alheia, sempre calmos, provavelmente mais do que prontos para uma partida de gamão e dominó.

Com esse contraste, fico perdido. Em que mundo estou mesmo?

7.10.07

Estréia temida

Não é o primeiro nem o último, mas, no blog, figura como estréia. Com vocês, um poema:


Teatro Red Fox

Olhando mais atentamente
Nada é o que parece ser,
Aquele que finge mente?
Ou finge por que tem de fazer?

Como numa encenação da demência,
Assistamos ao teatro da essência:

Por trás do íntegro e correto
Há um imoral e vil desafeto,
Por trás do feliz e alegre
Há um deprimido ardendo em febre,
Por trás do querido e idolatrado
Há um inseguro e descontrolado,
E por trás de muita religiosa
Há uma puta toda pomposa.

Apenas atrás do Triste nada sobra,
Assiste o mundo numa platéia
De uma pessoa só. E aplaude surpreso.
Platéia-mundo às vezes o reverencia,
Mas riem.
“Monólogos são um horror!”, desdenham confessos,
Isso, no entanto, o Triste não sabe se quem disse foram frentes ou versos.

3.10.07

Suposições

Ficar sem acesso à internet é uma coisa difícil, ainda mais para um cara viciado como eu. A gente fica sem o que fazer e daí tem que...viver.

Mudei-me ontem para o ap novo. Logo trago fotos aqui, falo mais acertadamente sobre ele.

Infelizmente, a Copel, empresa que cuida da luz e energia de Londrina, não ligou a luz a tempo da minha mudança. Fiquei num apartamento grande, frio e escuro. Estava sozinho, os outros meninos só devem mudar mais para frente.

À luz de velas, estava retirando roupas das malas, quando a fome bateu.

Na portaria:

- Com licença, você conhece alguma lanchonete boa aqui perto, uma barraquinha de lanches, sei lá?
- Bem, aberto agora só deve ter essa aqui da galeria, falou o porteiro com cara do cantor Latino, que me olhava com certo desdém.

Embaixo do meu apartamento, e ao lado, há uma galeria de lojas, entre elas uma lanchonete, daquelas antigas, onde você pode sentar em frente ao balcão para comer.

Chegando lá, sento ao lado de um cara de uns 40...50 anos, que bebia uma Skol, sozinho. Viro a cabeça em direção a ele, para olhar os preços dos lanches que estavam numa daquelas telas pretas com letrinhas amarelas que estava atrás dele. Ele deve ter pensando que olhava para ele, pois me encarou assustado.

À garçonete:

- Boa noite, um cheeseburger e uma coca de garrafinha, por favor. (existe algo melhor que coca de garrafinha?)

Comecei a olhar para a TV, começava o Jornal Nacional. Um olho meu via a chamada das notícias feitas pela cara-de-bosta da Fátima Bernardes e pelo topetudo do marido dela. O outro olho, de esguelha, ainda reparava que o homem de 50 anos continuava a olhar pra mim.

"Porra, que cara gay! Pára de me olhar!", pensei.

E foi nesse olha-não-olha que comi o lanche, me limpei com o guardanapo barato, bebi minha coca e ouvi do cara:

- Cara, olha que idiota, não tem lógica, qual a diferença de um americano e um misto quente?
- Sei lá, não é a mesma coisa?
- Um ovo! No americano vai um ovo. E olha o preço. Americano 2,80 e misto quente 3,00. O cara não sabe cobrar.

Jamais dei uma risada tão forçada. Ele continuou:

- Já no X-Egg e no X-burger, a diferença é maior. O x-egg é mais caro, tem lógica? Um ovo!
- É, o cara cobra aleatoriamente.
- O cheeseburger é 1,30 mais caro que o burger simples. 1,30 por uma fatia de queijo?

Estava quase implorando para ele parar com aquilo. "Esse cara é viado ou não? Não amola!".

Voltei minha cabeça para a televisão, fiquei quieto, a Fátima começava a falar da ONU. O cara pelo jeito resolveu me levar a sério:

- Muito legal a apresentação de vocês ontem no simpósio. Vocês falam bem.

Olhei para ele surpreso.

- Você estava lá?
- Tava.
- Estuda lá?
- Aham, vocês são da UEL, né? Terceiro ano?
- Primeiro, e você?
- Terceiro mesmo.

Ele se referia a um simpósio duma faculdade particular de Londrina no qual eu e mais dois amigos apresentamos um trabalho sobre Direito Ambiental.

Não era gay coisa nenhuma, era alguém que me reconhecera por eu ter falado em público.

Bonner falava sobre Mianmar.

- Quando não há interesse, os EUA não vão lá tacar bomba, né?, atalhei.
- Haha, magina.

E depois disso nos colocamos a discutir sobre a intromissão do humanismo no Direito Penal. E não querendo perguntar o nome do colega, fui embora, alegando que tinha que terminar de arrumar a mudança.

- Mudou aí pro lado? Bacana. Qualquer coisa que precisar passa lá na Unifil. Falou.

Suposições. Criamo-nas para nos proteger? Por preconceito? Medo? A maioria das pessoas evita uma conversa com um estranho custe o que custar. Algumas evitam até mesmo com seus conhecidos. Ninguém mais presta atenção naquilo que o cerca. O mundo está ficando quadrado e o medo faz todo mundo viver morto. Onde estão as iniciativas? A vergonha acanha todo mundo, e vivemos sempre comedidos e cautelosos. Não quero um mundo assim.

Se não estivesse doente, pedia uma Skol e ficava lá, a falar mal do sistema prisional brasileiro com o cara.