8.9.07

Tiozões alegram noites tristes

Tiozões estão por toda parte.

Vou descendo a rua que me leva ao ponto de ônibus. Na minha mão direita, uma mala pesada, que me faz envergar levemente o corpo para esquerda, como que para equilibrar o peso. Vou pegar o ônibus para ir à rodoviária e de lá pegar outro ônibus, rumo a Rio Preto. Preciso dizer que estou atrasado?

A 100m de distância do ponto, quem eu vejo? O ônibus. Saio correndo, ou tentando fazer isso pelo menos, porque a mala não deixa. Quando alcanço o ônibus, o sinal abre. Nessa hora o cérebro do motorista prevê duas alternativas: a) atrapalha o trânsito e abre a porta para mim e; b) vai embora sem atormentar o trânsito e me deixa na mão.

Dez segundos depois estou no ponto de ônibus esperando outro ônibus passar...

Até o outro ônibus chegar, foram uns 15 minutos de maledicências dirigidas aos motoristas de ônibus e à minha vida que, creio eu, é a única propensa a situações assim, embora eu saiba que isso é mentira.

O 305 pára e abre a porta. Entro. No volante, está um homem gordo muito semelhante àquele ator que faz o papel de Fred Flintstone no cinema. Custo a crer que ele está dirigindo a palavra a mim, ele olha para minha mala:

- Vai ver a mamãe hein?
- Opa!
- Chega de comer miojo, né?
- HAHAHA! Não agüento mais mesmo!

Fico feliz. Não consigo me conter perante pessoas simpáticas. A menina - normal - sentada no banco para deficientes, idosos e gestantes também ri. Quando olho para ela, provavelmente assustado, ela vira a cabeça, envergonhada. Passo a catraca e me ajeito, em pé, num canto qualquer, com os braços trêmulos devido ao esforço de carregar a mala pesada. Ainda bem que nem todos os motoristas de ônibus são chatos.

Mas há mais tiozões no mundo.

Festa de aniversário da minha tia, na casa do meu vô em Rio Preto. Um casal sentado numa dessas mesas de plástico conversa com minha mãe, que me chama, imperiosa:

- Filho! Vem cá, olha só, a amiga da tia Cris é advogada, e o marido dela faz Direito.

Meu cérebro pressente um diálogo chato.

- Aaaaah...é mesmo? Legal! Que ano você está?
- Quinto. E você?
- Huuum. Primeiro! hehe. E você, é advogada mesmo ou concursada?
- Advogada, área cível há 15 anos, não aguento mais!
- Nossa... (imagino a minha tentativa de parecer surpreso essa hora).

De algum modo, a conversa recai sobre o promotor Thales, o que matou um rapaz no litoral de São Paulo. Vendo que todos o abominavam indubitavelmente, tento me divertir, e inicio uma defesa em prol do réu. Sem chance. Todos continuaram o odiando.

- E ele continua recebendo o salário. 10 pau.

Hum, vamos lá, diga algo Victor!

- Em São Paulo o salário é de 10ão? No Paraná em 6 anos subiu de 10 para 22 mil, o Requião inclusive mexeu na previdência para impedir isso, por causa do rombo...
- É, né...São Paulo é uma merda.

Pronto. Arranquei uma confissão agradável da advogada. Papo encerrado. Não, espera...nessa hora eles começaram a falar para minha mãe ficar esperta e investir em mim, pois eu retornaria muito dinheiro a ela. Bastardos! Era só o que me faltava, tornaram capitalista até mesmo a relação mãe-filho.

Mudemos de tiozão.

Pub Vila Dionísio, ainda em Rio Preto. Observo impávido um jogo de bilhar, morno, enquanto divago sobre qualquer coisa respirando a fumaça densa e seca de cigarro que emana daquele bar apertado e mal ventilado. Algumas meninas empiriquitadas passam por mim, entre algumas delas meu olhar cruza com o olhar de um homem robusto, atarracado, com uma pança rígida, cabelo preto comprido e encaracolado. Ele vem na minha direção, alegre:

- E aí, cara!

Cumprimento-o, assustado. Repasso o rosto dele pela minha memória para ver se conhecia-o de algum lugar. Mas o papo que ele puxa comigo logo mostra que nunca o havia visto.

- Caramba, como tem menina bonita nessa cidade!

Rio, achando graça. Mais um tiozão. Se tem algo que a vida me ensinou é que não dá para perder uma oportunidade de diálogo bizarra como essa.

- Você é de onde?
- São Paulo, e lá nunca é assim...
- Já foi ao Paraná alguma vez?
- Maringá só...
- Hehe, pois bem, eu também achava que Rio Preto era muita coisa até me mudar para lá.
- Ah, será? Olha só isso! Oh coisa boa!

Ele olhava para uma menina encorpada, para não dizer gorda, que provavelmente era o ideal de mulher gostosa dele.

- Aproveita!
- Ah não...minha namorada não veio. Mas as amigas dela vieram..
- Haha, entendo isso, então se comporta. Você é da banda que vai tocar, né?
- Sim, hehe, o vocalista.
- Legal. Bem, boa sorte aí então, preciso mijar. Até!
- Até, amigo.

Ao contar depois a história para um amigo meu, ele não se conteve:

- É por isso que a banda dele chama Baranga!

Mas essa não foi lá a melhor noite do mundo. Vendo o show da Tomada, também de sampa, rock´n´roll com uma pitada de Jimi Hendrix, olho para o lado e vejo um cara que eu costumava chamar de ótimo amigo agarrando a minha ex. Prontamente os pensadores saem em meu socorro, revirando-se em seus túmulos.

Sade: "Experimenta usar esta estaca com ela...Mas não, espera! Quero ela como discípula! Quanto sadismo!"
Eu: "Cai fora, depravado!"
Machado de Assis: "Ela sempre te enganou. Como você nunca percebeu? Foram os olhos de ressaca!"
Eu: "Não enche, Machado, ressaca é o que vou ter quando acordar amanhã."
Dostoiévski: "Assassine-a e depois peça perdão a Deus"
Eu: "Socorro!"
Voltaire: "Fala sério. Será que ele iria gostar se você agarrasse a ex dele?"
Eu: "Hum...boa, Voltaire, para falar a verdade, eu sempre tive vontade de fazer isso."
Madre Teresa: "Mas você sabe que ela e você jamais se colocariam nessa posição. Seja por ter princípios, seja por lealdade a alguém que você considerava amigo, seja porque você não é sádico"
Eu: "Isso é bem verdade, minha senhora, talvez mais por parte da ex dele, é uma menina bem centrada e jamais faria algo ridículo assim. Sorte a dele ter tido ela um dia".

Então a Tomada acabou. E entrou a Baranga. Não tinham a mesma pegada da banda anterior. Rock muito cru. A noite amargou (por outros motivos que contribuíram para piorar a noite). Não senti mais vontade de permanecer ali. Resolvi ir mijar e ir embora. Ambos são efeitos do álcool.

Chegando perto do banheiro, esbarro numa amiga minha, velha amiga, sem me dar conta de que o havia feito. Maldita miopia.

- Victor? Tá tudo bem?
- Oi...hum? Ah claro, e você? Vem cá, me leva pra casa?
- Sim, sem problemas...

No carro, talvez por forma de consolo, ela me contou uma história triste, dela. E então suspiramos, trocando alguns silêncios até eu chegar em casa, onde ver Sobrenatural foi a única coisa que me sobrou.

Noite triste. E é só isso que eu sinto falta, um amigo que olhe para mim demoradamente e diga: "poxa, você está uma merda!", e então me abrace, num consolo à la little miss sunshine, sempre infalível. Mas não há ninguém assim.

Tomara que eu não vire um tiozão.

2 comentários:

maila disse...

vc precisa vir pro sudoeste do pr entao
.baba
JDSODKSAPODKSAOP[DK[SAPOKDP[SA
ahhh se eu fosse lesbica ¬¬
JOISAJDÓSIAJDÓSAIJDOSÁ
aiai, nao fica assim não, imaginou eu lendo o final com um 'ti amo - nando reis' ao fundo, tahtah, a musica era chata e eu tava concentrada, soh reparei qndo tava no '''poxa, vc está uma merda!'''
hahaha
beijos victor. sempre gosto dos teus textos ;)
:*

Tyler Bazz disse...

Ai ai.. nem falo nada viu...
O cara do Baranga nao é tiozao.. 0_o

E geeeente... nunca vi um ciume desses... ainda se não tivesse sido você a terminar com ela... o_0

Vai entender. u.u