26.9.07

Nem tão perto assim, estranho

Não sou lá como as mulheres, que reparam nos mais mínimos detalhes daquilo que as cercam, mas acho que posso dizer com tranqüilidade que sou uma pessoa observadora.

Gosto de observar, por exemplo, os funcionários que trabalham na locadora onde costumo alugar filmes.

Não são muitos, e me arrisco a ir construindo o perfil de cada um. Há o cara que tem jeito de ser gerente: uns 40 anos, calvo, baixinho, educado. O mais engraçado dele é que ele vai baixando o tom da voz enquanto fala, o que torna o final das suas frases irreconhecíveis:

- OPA, E AÍ, GOStou do filme?ahsimtotalmentehistóricoetal...

Há também o típico nerd cinéfilo que tinha como ponto alto da vida estar ali, trabalhando entre filmes. Também tem uma morena que costuma me irritar com sua desfaçatez e cara de "foda-se você". E há a ruiva, misto de Uma Thurman com Franka Potente, sempre muito comum comigo. Nesse dia, especificamente, ela veio em minha direção, me atender:

- Oi! Posso ajudar?
- Ah...você tem Closer aí?
- Como?
- Closer.
- Ah, um minutinho, vou ver...FULANO, CLOSER TÁ DISPONÍVEL?!..iih, moço, alugaram.
- Ah, poxa...

Eu devo ter feito muita cara de pena, pois ela ainda não tinha ido embora.

- Você só tava atrás desse? Closer não é tão bom. Eu não gostei! Pera, eu vou te ajudar, posso recomendar outro no lugar?
- Pode...mas eu queria ver justamente por causa disso, as opniões sobre ele são bem divididas.
- Isso é. Deixa eu ver...hum...esse aqui. É mais ou menos o mesmo estilo.
- "Correndo com Tesouras". Nunca ouvi falar.
- È bom!

Levei. Era um filme mediano. Não fez meu tipo, mas acho que alegraria qualquer psicólogo e crítico de cinema. Não tem nada a ver com Closer, já advirto.

Passou-se algum tempo até que eu me dispusesse a tentar alugar Closer novamente. Mas aluguei. A ruiva não estava lá esse dia.

Assisti e, após mastigar o filme, decidi fazer coro aos defensores da película. Excelente filme! Não sou lá muito fã da Julia Roberts. Mas Clive Owen, Jude Law e Natalie Portman juntos é algo que me alegra.

O filme é de uma dinamicidade muito marcante, o tempo passa sem nenhum compromisso, e não respeita nem mesmo o amor, sentimento tão bem retratado nesse filme sexy e sufocante. O amor nas suas mais variadas facetas atuais é lá retratado: amor em conflito com condição financeira, amor vazio, amor falso, amor por status, amor sem compromisso, amor advindo de um simples encontro entre estranhos, que decidem se amar, mas ainda se mostram estranhos um com o outro depois de muito tempo.

A câmera foca ameaçadoramente o rosto dos personagens, como numa referência ao nome do filme, isso ia os desnudando, o que me dava a impressão de estar lendo um livro de Machado de Assis.

De uma hora para outra, os personagens mudam, e o amor acompanha o ritmo insano dos nossos tempos: amor dinâmico, quando na verdade todos esperam que seja eterno. Todos se enganam e jogam entre si, e aí se sobressai o caráter do personagem de Clive Owen, ator perfeito para fazer o papel de um cafajeste dos mais filhos-da-puta: o homem simples que sabe a hora de se impor e entende cada nuance da vida, contornando-o de maneira majestosa, ao passo que o personagem de Jude Law fica às voltas com sua vaidade e amor-próprio, incapaz de superar uma insegurança mal-explicada, o que rende boas cenas entre ele e Owen: dois homens disputando entre si e quase não enxergando mais as mulheres, seus pares. Roberts e Portman, postas levemente de lado, poderiam ter tido mais destaque, pois a impressão que fica do filme é que eram apenas duas bitches doidas para dar. Bem, talvez seja só isso mesmo.

Os pontos altos do filme são os dois protagonistas homens fazendo sexo virtual e a briga entre Owen e Julia Roberts.

Agora só me resta voltar à locadora, bater um papo com a stranger (carreguem no sotaque inglês) ruiva e entender o porquê dela não ter gostado do filme.

Bye, strangers.

listening to:
Institute - Seventh Wave

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