22.9.07

Morando com baratas e mulheres

Esgueiro-me num canto escuro do quintal da pensão que moro, encurralando uma barata entre duas paredes. Fumaça branca a atinge, fazendo se contorcer em desespero e dor. Ela se vira e fica imóvel, mas não sei se está morta, esses bichos são praticamente imortais.

Mais sensibilizado que o comum, devido ao nojo que este bicho me causa, olho ao redor, procurando por mais baratas. Mas só encontro uma mulher baixinha, 50 anos, me encarando.

- Oi Victor!
- Ah...oi Dê.

Dê é uma mulher estranha, a começar pelo nome, Desdêmona, inspirado em alguma tragédia grega, dessas cheias de preceitos morais. Mas não ligo para as mulheres gregas, bem, talvez só Kassandra, que é a INFP mais mítica que existe.

- Estava matando uma barata. Agora é uma por dia. - digo em tom de crítica.
- Ah...tá na hora de dedetizar então, mas é por causa do calor, elas se reproduzem mais rápido.

Eu realmente não estava contente com as baratas, uma delas, um dia antes, teve a pachorra de fazer cosquinha no meu pé. Imperdoável.

- Victor, me diz, você pretende continuar aqui?

Assustei-me e devo ter expressado isso no meu olhar e na maneira rápida como levantei minha cabeça para encará-la, teria ela ouvido a conversa?

Flashback. Dias atrás
- Oi, mãe! (falava ao telefone), eu e os caras acertamos com o prédio lá no centro! Você precisa ver, ia adorar. É imenso e lindo, mas...melhor não falar nada agora...por causa do...lugar.

Sempre tive a impressão que a Dê possuíse super-audição. Visão de raio-x, ao menos, ela possui, pois sempre sabe quando estou saindo e não perde a oportunidade de soltar aquele odioso: "vai sair, Victor?" com sotaque paulistano carregado e que me dá vontade de gritar e sair correndo.

- Talvez eu tenha que sair da pensão, Dê.

E aqui vou poupá-los de ouvir toda a mentira que criei sobre a minha mãe ter perdido o último cliente dela e não poder mais me bancar e bla bla. Enfim, mas não é de todo mentira. Minha mãe está com um paciente só, tendo que comprar alguns remédios caros, meu pai tem 35783675 de filhos, o que significa muitas pensões alimentícias, e eu poderia mesmo apelar para meu padrinho, mas, sinceramente, eu tenho orgulho demais para isso. Por isso estava atrás de lugar mais barato para morar...de novo.

Podemos tirar alguns exemplos de simbiose da biologia, ou qualquer exemplo de dependência da vida entre seres, mas, tirar R$400 da mão de uma pessoa é motivo o bastante para provocar-lhe uma mudança brusca, como se lhe tirasse algo vital. Coisas assim provocam reações de ordem muito grande, uma forma de proteção. Felizmente a dona da pensão não tirou uma peixeira da cintura e me assassinou. Fez algo pior: começou a falar da vida sofrida dela desde a época das cachorradas do Collor mais ou menos.

Confisco de ativos, inflação, viagem ao Japão, vida amargurada, separação do marido, mulher ciumenta do marido, operação trágica da filha, negação do pai quanto à filha depois da operação, etc. Dê, eu escreveria um livro sobre você, porém, eu ainda estava meio embasbacado sobre a notícia que ela me dera antes:

- Não pude pagar a sercomtel e vão cortar a internet.

Eu disse que reações bruscam adivinham de notícias assim. Então era por isso que ela havia me perguntado se eu iria sair da pensão. Ora, agora eu estava mesmo resoluto. Jamais mexa com meu vício por internet, porra!

Algumas coisas interessantes aconteceram nessa pensão. Não me mudei deliberadamente para ela. Jamais faria isso, apesar de ser uma suíte e ter cozinha própria para os inquilinos. A primeira impressão que tive da Dê, e que veio terrivelmente a se confirmar depois, era a de uma dona de casa chata, intrometida, tagarela e com mania de limpeza. Na época, eu estava de favor na república da Najila - ah que saudades da Najila! - o que também era muito horrível, visto que a Najila nem mais morava lá. Por falta de lugar para morar então, fui empurrado para a pensão.

Uma casa simples, com dois quartos no fundo que são alugados por preços nada módicos. Há a Sharon e a Nathalia, as cadelas, uma rotweiller e uma cocker spaniel, respectivamente. As duas muito bonitinhas, fedorentas e afetuosas, me adoram. Falo sobre a Sharon mais especificamente em outro post.

Há também a filha da Dê, uma adulta que, diz a Dê, recebia propostas para ser modelo. Isso até irremediavelmente cair na armadilha da ditadura da beleza e decidir colocar silicone nas peitolas. Uma reação alérgica quase letal, seqüelas comprometedoras. Ficou quase retardada: não fala direito, não ouve direito, não vê direito, não se movimenta direito. Não sai da casa. Não me viu até hoje, depois de tantos meses. Outro dia perguntou à Dê se eu era japonês...

De fato, esse ocorrido com a filha agrilhoou a dona da pensão a uma vida ingrata, em que tem que se dedicar totalmente à filha. Quem sonha com isso? Quem pensa em viver assim? A Dê é uma mulher sofrida.

Também havia a Giovana, a moradora do outro quarto alugado. Era uma garota de Pato Branco, fazia mestrado, falante, alegre, bonita. Desde o primeiro dia ela conversou comigo como se fôssemos conhecidos a 10 anos. Era como uma irmã para falar a verdade, talvez seja esse o motivo para o fato de eu nunca ter sentido atração por ela. Ela saiu de lá algum tempo atrás, para ir morar com o noivo.

Mas mesmo com lembranças vastas desse lugar que não estou sequer a um semestre, não vejo por que continuar nele. Vou sair decidido, para formar uma república, num ap grande, desses velhos, bem constituídos. Quando mudar coloco aqui minhas impressões.

Até lá, vou dizendo "oi Dê, tudo bem?" aleatoriamente e pedindo um pouco de arroz a essa mulher estranha, cheia de misticismos, que me adverte contra as energias ruins do mundo. Continuo sem ver sua filha e tento ignorar a mulher que entrou no outro quarto, uma balzaquiana que fugiu com um amante, abandonou os filhos e por sua vez foi abandonada pelo amante, jamais estará à altura da Giovana.

E quanto às baratas, que se cuidem...

3 comentários:

Tyler Bazz disse...

Havaianas sempre foram mais eficazes que inseticidas.... hehehehehhe

E não é o WIlson que tem uma rottwahkxyxhller chamada Sharon?!!?


o/

maila disse...

ahhh mulheres de pato *.*
K[POSK[POSKDP[ASD
e uma republica?! nããão, vc vai se desviar na vida!
(tem uma republica a duas quadras daqui, e ateh eu fui desviada)
OKDPOSAKD[POSAKDPO[AS

se cuide victor.. e certamente uma republica, cheia de meninos, desorganizados, e fedorentinhos, vai ter algumas baratas tbm... haha
brincadera
;*

Monike disse...

Hauhuaha pode cre... essa sharon aih eh do Wilson... e que sempre me deu medo o.o
Pô... se esta mulher eh tao "condenada" assim, não é culpa dela... dê um desconto e divirta-se com os mais velhos estranhos xP

Odeio baratas... esses dias fizeram cosquinhas na minha orelha ¬¬"
Extermine-as e boa sorte com a republica o/
;*