28.9.07

Duas coisas que me irritam

Hoje a Thais precisava fazer uma entrevista para algum trabalho doido do curso de psicologia dela. Sobrou para mim.

Eu precisava apontar algumas qualidades e alguns defeitos que possuo e depois ir discorrendo sobre um deles.

A lista de defeitos estava bem maior do que a de qualidades (sim, sou autocrítico!), e numa certa hora, marquei "irascível" nela.

- Ira o quê? Que é isso?, perguntou a Thais.
- Irascível, hum...pavil curto.
- Você é ofendidinho, isso sim...!
- É a mesma coisa.

A minha ira é provocada facilmente, embora eu a mascare muitas vezes através do sarcasmo. Duas coisas me irritam demais, entretanto, ultimamente.

A primeira delas é a solução normativa encontrada pela dona da minha pensão nos últimos tempos para resolver alguns conflitos que a desagradam dentro de sua pensão.

Por exemplo, tempo de chuva, ventania, de repente, a porta que dá acesso ao quintal bate com força, fazendo um enorme barulho.

Pah. Pronto. No dia seguinte, um bilhete escrito "feche bem a porta" está pregado na porta que bateu outrora.

A torneira da pia está pingando. Pah. No dia seguinte, um bilhete escrito "feche bem a torneira" está lá fixado, em cima da torneira.

E assim vai com porta de geladeira, utensílios, paredes, mangueira. Tudo. A sanha normativa da tão comentada dona da pensão faz tremer Hans Kelsen, o positivista (virgem). Qualquer dia vou precisar de um código para viver naquele lugar. MAS FELIZMENTE ESTOU ME MUDANDO DE LÁ semana que vem.

A outra coisa que tem me irritado é, TCHARAM, o comportamento feminino.

"De novo, Victor?", muitos diriam. Certamente. Desde que me entendo por gente, as mulheres acham sempre novas maneiras de me deixar louco.

Páro e penso: "não é possível que em pleno século XXI as mulheres ainda funcionem à base de desprezo!".

E ainda assim é. Você vai e despreza um pouquinho a mulher. Lá estará ela, o amando, a seus pés.

A ordem é pisar. Pise e seja amado.

Se fizer de outra maneira, prepare-se, o pisado será você. Experiência mais do que própria.

Irritante, meus caros, irritante.

26.9.07

Nem tão perto assim, estranho

Não sou lá como as mulheres, que reparam nos mais mínimos detalhes daquilo que as cercam, mas acho que posso dizer com tranqüilidade que sou uma pessoa observadora.

Gosto de observar, por exemplo, os funcionários que trabalham na locadora onde costumo alugar filmes.

Não são muitos, e me arrisco a ir construindo o perfil de cada um. Há o cara que tem jeito de ser gerente: uns 40 anos, calvo, baixinho, educado. O mais engraçado dele é que ele vai baixando o tom da voz enquanto fala, o que torna o final das suas frases irreconhecíveis:

- OPA, E AÍ, GOStou do filme?ahsimtotalmentehistóricoetal...

Há também o típico nerd cinéfilo que tinha como ponto alto da vida estar ali, trabalhando entre filmes. Também tem uma morena que costuma me irritar com sua desfaçatez e cara de "foda-se você". E há a ruiva, misto de Uma Thurman com Franka Potente, sempre muito comum comigo. Nesse dia, especificamente, ela veio em minha direção, me atender:

- Oi! Posso ajudar?
- Ah...você tem Closer aí?
- Como?
- Closer.
- Ah, um minutinho, vou ver...FULANO, CLOSER TÁ DISPONÍVEL?!..iih, moço, alugaram.
- Ah, poxa...

Eu devo ter feito muita cara de pena, pois ela ainda não tinha ido embora.

- Você só tava atrás desse? Closer não é tão bom. Eu não gostei! Pera, eu vou te ajudar, posso recomendar outro no lugar?
- Pode...mas eu queria ver justamente por causa disso, as opniões sobre ele são bem divididas.
- Isso é. Deixa eu ver...hum...esse aqui. É mais ou menos o mesmo estilo.
- "Correndo com Tesouras". Nunca ouvi falar.
- È bom!

Levei. Era um filme mediano. Não fez meu tipo, mas acho que alegraria qualquer psicólogo e crítico de cinema. Não tem nada a ver com Closer, já advirto.

Passou-se algum tempo até que eu me dispusesse a tentar alugar Closer novamente. Mas aluguei. A ruiva não estava lá esse dia.

Assisti e, após mastigar o filme, decidi fazer coro aos defensores da película. Excelente filme! Não sou lá muito fã da Julia Roberts. Mas Clive Owen, Jude Law e Natalie Portman juntos é algo que me alegra.

O filme é de uma dinamicidade muito marcante, o tempo passa sem nenhum compromisso, e não respeita nem mesmo o amor, sentimento tão bem retratado nesse filme sexy e sufocante. O amor nas suas mais variadas facetas atuais é lá retratado: amor em conflito com condição financeira, amor vazio, amor falso, amor por status, amor sem compromisso, amor advindo de um simples encontro entre estranhos, que decidem se amar, mas ainda se mostram estranhos um com o outro depois de muito tempo.

A câmera foca ameaçadoramente o rosto dos personagens, como numa referência ao nome do filme, isso ia os desnudando, o que me dava a impressão de estar lendo um livro de Machado de Assis.

De uma hora para outra, os personagens mudam, e o amor acompanha o ritmo insano dos nossos tempos: amor dinâmico, quando na verdade todos esperam que seja eterno. Todos se enganam e jogam entre si, e aí se sobressai o caráter do personagem de Clive Owen, ator perfeito para fazer o papel de um cafajeste dos mais filhos-da-puta: o homem simples que sabe a hora de se impor e entende cada nuance da vida, contornando-o de maneira majestosa, ao passo que o personagem de Jude Law fica às voltas com sua vaidade e amor-próprio, incapaz de superar uma insegurança mal-explicada, o que rende boas cenas entre ele e Owen: dois homens disputando entre si e quase não enxergando mais as mulheres, seus pares. Roberts e Portman, postas levemente de lado, poderiam ter tido mais destaque, pois a impressão que fica do filme é que eram apenas duas bitches doidas para dar. Bem, talvez seja só isso mesmo.

Os pontos altos do filme são os dois protagonistas homens fazendo sexo virtual e a briga entre Owen e Julia Roberts.

Agora só me resta voltar à locadora, bater um papo com a stranger (carreguem no sotaque inglês) ruiva e entender o porquê dela não ter gostado do filme.

Bye, strangers.

listening to:
Institute - Seventh Wave

22.9.07

Morando com baratas e mulheres

Esgueiro-me num canto escuro do quintal da pensão que moro, encurralando uma barata entre duas paredes. Fumaça branca a atinge, fazendo se contorcer em desespero e dor. Ela se vira e fica imóvel, mas não sei se está morta, esses bichos são praticamente imortais.

Mais sensibilizado que o comum, devido ao nojo que este bicho me causa, olho ao redor, procurando por mais baratas. Mas só encontro uma mulher baixinha, 50 anos, me encarando.

- Oi Victor!
- Ah...oi Dê.

Dê é uma mulher estranha, a começar pelo nome, Desdêmona, inspirado em alguma tragédia grega, dessas cheias de preceitos morais. Mas não ligo para as mulheres gregas, bem, talvez só Kassandra, que é a INFP mais mítica que existe.

- Estava matando uma barata. Agora é uma por dia. - digo em tom de crítica.
- Ah...tá na hora de dedetizar então, mas é por causa do calor, elas se reproduzem mais rápido.

Eu realmente não estava contente com as baratas, uma delas, um dia antes, teve a pachorra de fazer cosquinha no meu pé. Imperdoável.

- Victor, me diz, você pretende continuar aqui?

Assustei-me e devo ter expressado isso no meu olhar e na maneira rápida como levantei minha cabeça para encará-la, teria ela ouvido a conversa?

Flashback. Dias atrás
- Oi, mãe! (falava ao telefone), eu e os caras acertamos com o prédio lá no centro! Você precisa ver, ia adorar. É imenso e lindo, mas...melhor não falar nada agora...por causa do...lugar.

Sempre tive a impressão que a Dê possuíse super-audição. Visão de raio-x, ao menos, ela possui, pois sempre sabe quando estou saindo e não perde a oportunidade de soltar aquele odioso: "vai sair, Victor?" com sotaque paulistano carregado e que me dá vontade de gritar e sair correndo.

- Talvez eu tenha que sair da pensão, Dê.

E aqui vou poupá-los de ouvir toda a mentira que criei sobre a minha mãe ter perdido o último cliente dela e não poder mais me bancar e bla bla. Enfim, mas não é de todo mentira. Minha mãe está com um paciente só, tendo que comprar alguns remédios caros, meu pai tem 35783675 de filhos, o que significa muitas pensões alimentícias, e eu poderia mesmo apelar para meu padrinho, mas, sinceramente, eu tenho orgulho demais para isso. Por isso estava atrás de lugar mais barato para morar...de novo.

Podemos tirar alguns exemplos de simbiose da biologia, ou qualquer exemplo de dependência da vida entre seres, mas, tirar R$400 da mão de uma pessoa é motivo o bastante para provocar-lhe uma mudança brusca, como se lhe tirasse algo vital. Coisas assim provocam reações de ordem muito grande, uma forma de proteção. Felizmente a dona da pensão não tirou uma peixeira da cintura e me assassinou. Fez algo pior: começou a falar da vida sofrida dela desde a época das cachorradas do Collor mais ou menos.

Confisco de ativos, inflação, viagem ao Japão, vida amargurada, separação do marido, mulher ciumenta do marido, operação trágica da filha, negação do pai quanto à filha depois da operação, etc. Dê, eu escreveria um livro sobre você, porém, eu ainda estava meio embasbacado sobre a notícia que ela me dera antes:

- Não pude pagar a sercomtel e vão cortar a internet.

Eu disse que reações bruscam adivinham de notícias assim. Então era por isso que ela havia me perguntado se eu iria sair da pensão. Ora, agora eu estava mesmo resoluto. Jamais mexa com meu vício por internet, porra!

Algumas coisas interessantes aconteceram nessa pensão. Não me mudei deliberadamente para ela. Jamais faria isso, apesar de ser uma suíte e ter cozinha própria para os inquilinos. A primeira impressão que tive da Dê, e que veio terrivelmente a se confirmar depois, era a de uma dona de casa chata, intrometida, tagarela e com mania de limpeza. Na época, eu estava de favor na república da Najila - ah que saudades da Najila! - o que também era muito horrível, visto que a Najila nem mais morava lá. Por falta de lugar para morar então, fui empurrado para a pensão.

Uma casa simples, com dois quartos no fundo que são alugados por preços nada módicos. Há a Sharon e a Nathalia, as cadelas, uma rotweiller e uma cocker spaniel, respectivamente. As duas muito bonitinhas, fedorentas e afetuosas, me adoram. Falo sobre a Sharon mais especificamente em outro post.

Há também a filha da Dê, uma adulta que, diz a Dê, recebia propostas para ser modelo. Isso até irremediavelmente cair na armadilha da ditadura da beleza e decidir colocar silicone nas peitolas. Uma reação alérgica quase letal, seqüelas comprometedoras. Ficou quase retardada: não fala direito, não ouve direito, não vê direito, não se movimenta direito. Não sai da casa. Não me viu até hoje, depois de tantos meses. Outro dia perguntou à Dê se eu era japonês...

De fato, esse ocorrido com a filha agrilhoou a dona da pensão a uma vida ingrata, em que tem que se dedicar totalmente à filha. Quem sonha com isso? Quem pensa em viver assim? A Dê é uma mulher sofrida.

Também havia a Giovana, a moradora do outro quarto alugado. Era uma garota de Pato Branco, fazia mestrado, falante, alegre, bonita. Desde o primeiro dia ela conversou comigo como se fôssemos conhecidos a 10 anos. Era como uma irmã para falar a verdade, talvez seja esse o motivo para o fato de eu nunca ter sentido atração por ela. Ela saiu de lá algum tempo atrás, para ir morar com o noivo.

Mas mesmo com lembranças vastas desse lugar que não estou sequer a um semestre, não vejo por que continuar nele. Vou sair decidido, para formar uma república, num ap grande, desses velhos, bem constituídos. Quando mudar coloco aqui minhas impressões.

Até lá, vou dizendo "oi Dê, tudo bem?" aleatoriamente e pedindo um pouco de arroz a essa mulher estranha, cheia de misticismos, que me adverte contra as energias ruins do mundo. Continuo sem ver sua filha e tento ignorar a mulher que entrou no outro quarto, uma balzaquiana que fugiu com um amante, abandonou os filhos e por sua vez foi abandonada pelo amante, jamais estará à altura da Giovana.

E quanto às baratas, que se cuidem...

13.9.07

Muscle Museum

A música começa pacata, lasciva, quase tradicional.

Algumas casas aparecem. Estilo americano, classe média, praticamente não apresentando diferença entre si. Pessoas entram em cena, mostradas em afazeres domésticos, triviais, sem significação nenhuma.

Então surge um decadente palco, num cenário maior, de decoração colorida. Um baile de formatura como os filmes norte-americanos retratam. Porém vazio. Só três pessoas no palco fazem a performance. Matt aparece com um visual latino, de mau gosto. A música prossegue calma.

A sequência cubista mostrando pessoas continua. Um garoto de cueca escovando os dentes, um menino prestes a andar de skate, um sujeito lavando seu carro, uma mulher tomando sol, outra dirigindo, um atleta comendo corn flakes. Diversos quotidianos.

De repente, a guitarra de Matt ressoa mais pesadamente, e uma transformação se passa com as pessoas que antes nada mais faziam do que o habitual: começam a chorar. Alguns por dor física, outros por dor espiritual, outros sem motivo aparente. Primeiramente escorrem algumas lágrimas, mas no decorrer das cenas torna-se um verdadeiro pranto.

Água, lágrimas, baba, pasta de dente, bronzeador, leite, sabão. A profusão de líquidos na história é imensa, jocosa, grotesca. Jorram como consequência de algo inevitável.

E por fim o clipe termina. Mostrando uma rua vazia, de casas praticamente iguais. Num subúrbio de classe média qualquer, ao estilo americano.

É essa tristeza proveniente do cotidiano, do tédio, que sufoca a mais rotineira e alegre das vidas, vinda sabe-se lá de onde, como um grito, não importando condição financeira, social, ou o que quer que seja, é que faz Muscle Museum, música do trio britânico Muse, um dos clipes mais admiráveis, ao meu ver.



Fim de baile.

11.9.07

nova url

Mudança de conduta. E toda aquela velha história de mudança, já tenho uns 20 posts assim por aqui.

Mudei o nome da url do blog porque fiquei do saco cheio do Zaratustra. Ele falava, falava, mas na prática. Bem, só tentando para saber.

Nietzsche e toda a lógica destrutiva dele vão pro além. De agora em diante, Zaratustra Tem que Morrer, assim como Romeu.

Deus morreu? Rá. Quem morreu foi o Super Homem, meus caros, já que ninguém deu ouvidos ao velhote mesmo.

10.9.07

Não saia andando!

Café, café, muito café.

É preciso café para agüentar uma madrugada inteira de viagem. E gemada também.

Cheguei às 5. Fui tentar dormir às 5:30. Desisti às 6. Fiz o café da manhã às 6:30. E agora falta uma hora para começar a aula.

Bom dia com aula de sociologia! Ê maravilha...

Porventura, ocorre-me contar algo engraçado. Não que seja um lugar agradável, mas o pub do post anterior é um lugar de histórias bizarras.

Após quase ser barrado na entrada (aquele gorila que chamam segurança não sabe perceber a bruta semelhança que tem o Victor de 19 anos com o de 10 anos), noto a presença de uma menina voluptuosa a alguma distância de mim. Um rosto familiar. Alguém que eu já vi em Londrina.

É normal ver gente de Rio Preto em Londrina e vice-versa. Arrisco dizer que 1/3 da UEL é formada por rio-pretenses que deram uma banana pra Unesp e Usp e foram tentar a sorte no Paraná.

Sem lembrar exatamente onde já a havia visto, procuro uma mesa qualquer para sentar. Notando a presença chata da garçonete loira ao meu lado, acabo por pedir uma Serra Malte, cerveja bem apreciada no estado de SP.

- Um copo ou dois, senhor?
- Hum...dois, por favor.

Esperava um amigo meu, que teve a gentileza de atrasar muito. Melhor. Mais Serra Malte para mim.

Após muitos tempos, meu amigo e mais algumas pessoas chegam, e então nos dirigimos para perto da mesa de sinuca, único lugar sem 10 pessoas por metro quadrado no pub apertado e fedorento..

Dois agroboys dos mais toscos jogam bilhar de forma a parecerem os fodões, embora a camisa de um deles me lembrasse insistantemente um crente recém-saído do culto. A menina que eu havia reconhecido de Londrina aparece por ali e conversa com o agroboy mais arrumadinho. Quando eles terminam a partida, ela se aproxima da minha turma e convida alguém para fazer dupla com ela e jogar contra os agroboys. O Tyler aceita o convite e vai lá jogar.

Assisto o jogo meio por fora, sentado, sem dar muita atenção, ainda tentando descobrir onde havia visto a guria. Decido fazer uma gentileza para ver se descubro e faço um sinal para o Tyler chamá-la, quando ela se vira para mim, faço sinal para vir até minha direção.

- Oi - e sorrio, esse é o passo importante - quer deixar a bolsa aqui na mesa? - ela ficava entregando a bolsa toda hora para alguém para poder jogar.
- Opa! Demorou.
- Você é de Londrina, não? Juro que já te vi em algum lugar - atalho rapidamente.
- Balada. Você deve ter me visto em alguma balada. Mas não sou de lá. - e então ela falou algo sobre amigos e parentes que eu não prestei muita atenção. O que você faz lá?
- Direito - respondi tão rápido que parecia que havia decorado isso.
- Sério? - vi os olhos dela brilharem - eu vou ser sua bixete ano que vem então, presto esse ano pra lá.
- Mesmo? Legal! Mas vai aprendendo, lá não é bixete, é caloura.
- Tanto faz - e me encantei com a cara de "to nem aí" que ela fez. Eu costumo sair com o povo de cênicas lá.
- Ah...você é amiga da Leona? - perguntei com certo ar de desdém.

Porra, Victor, você estava falando de um gay para uma menina!

- Quem? Ah, espera, preciso jogar.

E então ela não voltou a falar comigo. Nem depois do jogo e tampouco nas duas vezes que esbarrei com ela durante a noite. Imagino a cara de tacho que fiquei. Não entendi nada. Enfim, não conhecia essa modalidade de fora. E olha que eu nem tentei nada, sem falar que ela estava sozinha, nem com amigas estava. Imagino como seria se isso virasse moda. O menino e a menina trocam olhares atrevidos, sorrisinhos colgates e chegam mesmo a dançar, então ele solta qualquer cantada:

- Você vem sempre aqui, gata? - um exemplo esdrúxulo, eu sei.

E ela vai embora, sem mais nem menos. A História precisaria ser reescrita depois disso!

Imagina se a Courtney Love fizesse isso com o Kurt Cobain, ou a Cláudia Raia com o Edson Celulari, ou qualquer casal estúpido acabasse simplesmente por que deu na telha da menina sair andando sem maiores explicações.

Essas coisas tiram os homens do sério. Mas calma, ela não corre perigo no trote do ano que vem. Eu acho.

Ah, esqueci de contar que ao acordar na quinta-feira, dia em que fui para Rio Preto, eu tive a estranha sensação de que conheceria uma menina de Londrina por lá. Medo.

E eu saio andando! Para a aula...

8.9.07

Tiozões alegram noites tristes

Tiozões estão por toda parte.

Vou descendo a rua que me leva ao ponto de ônibus. Na minha mão direita, uma mala pesada, que me faz envergar levemente o corpo para esquerda, como que para equilibrar o peso. Vou pegar o ônibus para ir à rodoviária e de lá pegar outro ônibus, rumo a Rio Preto. Preciso dizer que estou atrasado?

A 100m de distância do ponto, quem eu vejo? O ônibus. Saio correndo, ou tentando fazer isso pelo menos, porque a mala não deixa. Quando alcanço o ônibus, o sinal abre. Nessa hora o cérebro do motorista prevê duas alternativas: a) atrapalha o trânsito e abre a porta para mim e; b) vai embora sem atormentar o trânsito e me deixa na mão.

Dez segundos depois estou no ponto de ônibus esperando outro ônibus passar...

Até o outro ônibus chegar, foram uns 15 minutos de maledicências dirigidas aos motoristas de ônibus e à minha vida que, creio eu, é a única propensa a situações assim, embora eu saiba que isso é mentira.

O 305 pára e abre a porta. Entro. No volante, está um homem gordo muito semelhante àquele ator que faz o papel de Fred Flintstone no cinema. Custo a crer que ele está dirigindo a palavra a mim, ele olha para minha mala:

- Vai ver a mamãe hein?
- Opa!
- Chega de comer miojo, né?
- HAHAHA! Não agüento mais mesmo!

Fico feliz. Não consigo me conter perante pessoas simpáticas. A menina - normal - sentada no banco para deficientes, idosos e gestantes também ri. Quando olho para ela, provavelmente assustado, ela vira a cabeça, envergonhada. Passo a catraca e me ajeito, em pé, num canto qualquer, com os braços trêmulos devido ao esforço de carregar a mala pesada. Ainda bem que nem todos os motoristas de ônibus são chatos.

Mas há mais tiozões no mundo.

Festa de aniversário da minha tia, na casa do meu vô em Rio Preto. Um casal sentado numa dessas mesas de plástico conversa com minha mãe, que me chama, imperiosa:

- Filho! Vem cá, olha só, a amiga da tia Cris é advogada, e o marido dela faz Direito.

Meu cérebro pressente um diálogo chato.

- Aaaaah...é mesmo? Legal! Que ano você está?
- Quinto. E você?
- Huuum. Primeiro! hehe. E você, é advogada mesmo ou concursada?
- Advogada, área cível há 15 anos, não aguento mais!
- Nossa... (imagino a minha tentativa de parecer surpreso essa hora).

De algum modo, a conversa recai sobre o promotor Thales, o que matou um rapaz no litoral de São Paulo. Vendo que todos o abominavam indubitavelmente, tento me divertir, e inicio uma defesa em prol do réu. Sem chance. Todos continuaram o odiando.

- E ele continua recebendo o salário. 10 pau.

Hum, vamos lá, diga algo Victor!

- Em São Paulo o salário é de 10ão? No Paraná em 6 anos subiu de 10 para 22 mil, o Requião inclusive mexeu na previdência para impedir isso, por causa do rombo...
- É, né...São Paulo é uma merda.

Pronto. Arranquei uma confissão agradável da advogada. Papo encerrado. Não, espera...nessa hora eles começaram a falar para minha mãe ficar esperta e investir em mim, pois eu retornaria muito dinheiro a ela. Bastardos! Era só o que me faltava, tornaram capitalista até mesmo a relação mãe-filho.

Mudemos de tiozão.

Pub Vila Dionísio, ainda em Rio Preto. Observo impávido um jogo de bilhar, morno, enquanto divago sobre qualquer coisa respirando a fumaça densa e seca de cigarro que emana daquele bar apertado e mal ventilado. Algumas meninas empiriquitadas passam por mim, entre algumas delas meu olhar cruza com o olhar de um homem robusto, atarracado, com uma pança rígida, cabelo preto comprido e encaracolado. Ele vem na minha direção, alegre:

- E aí, cara!

Cumprimento-o, assustado. Repasso o rosto dele pela minha memória para ver se conhecia-o de algum lugar. Mas o papo que ele puxa comigo logo mostra que nunca o havia visto.

- Caramba, como tem menina bonita nessa cidade!

Rio, achando graça. Mais um tiozão. Se tem algo que a vida me ensinou é que não dá para perder uma oportunidade de diálogo bizarra como essa.

- Você é de onde?
- São Paulo, e lá nunca é assim...
- Já foi ao Paraná alguma vez?
- Maringá só...
- Hehe, pois bem, eu também achava que Rio Preto era muita coisa até me mudar para lá.
- Ah, será? Olha só isso! Oh coisa boa!

Ele olhava para uma menina encorpada, para não dizer gorda, que provavelmente era o ideal de mulher gostosa dele.

- Aproveita!
- Ah não...minha namorada não veio. Mas as amigas dela vieram..
- Haha, entendo isso, então se comporta. Você é da banda que vai tocar, né?
- Sim, hehe, o vocalista.
- Legal. Bem, boa sorte aí então, preciso mijar. Até!
- Até, amigo.

Ao contar depois a história para um amigo meu, ele não se conteve:

- É por isso que a banda dele chama Baranga!

Mas essa não foi lá a melhor noite do mundo. Vendo o show da Tomada, também de sampa, rock´n´roll com uma pitada de Jimi Hendrix, olho para o lado e vejo um cara que eu costumava chamar de ótimo amigo agarrando a minha ex. Prontamente os pensadores saem em meu socorro, revirando-se em seus túmulos.

Sade: "Experimenta usar esta estaca com ela...Mas não, espera! Quero ela como discípula! Quanto sadismo!"
Eu: "Cai fora, depravado!"
Machado de Assis: "Ela sempre te enganou. Como você nunca percebeu? Foram os olhos de ressaca!"
Eu: "Não enche, Machado, ressaca é o que vou ter quando acordar amanhã."
Dostoiévski: "Assassine-a e depois peça perdão a Deus"
Eu: "Socorro!"
Voltaire: "Fala sério. Será que ele iria gostar se você agarrasse a ex dele?"
Eu: "Hum...boa, Voltaire, para falar a verdade, eu sempre tive vontade de fazer isso."
Madre Teresa: "Mas você sabe que ela e você jamais se colocariam nessa posição. Seja por ter princípios, seja por lealdade a alguém que você considerava amigo, seja porque você não é sádico"
Eu: "Isso é bem verdade, minha senhora, talvez mais por parte da ex dele, é uma menina bem centrada e jamais faria algo ridículo assim. Sorte a dele ter tido ela um dia".

Então a Tomada acabou. E entrou a Baranga. Não tinham a mesma pegada da banda anterior. Rock muito cru. A noite amargou (por outros motivos que contribuíram para piorar a noite). Não senti mais vontade de permanecer ali. Resolvi ir mijar e ir embora. Ambos são efeitos do álcool.

Chegando perto do banheiro, esbarro numa amiga minha, velha amiga, sem me dar conta de que o havia feito. Maldita miopia.

- Victor? Tá tudo bem?
- Oi...hum? Ah claro, e você? Vem cá, me leva pra casa?
- Sim, sem problemas...

No carro, talvez por forma de consolo, ela me contou uma história triste, dela. E então suspiramos, trocando alguns silêncios até eu chegar em casa, onde ver Sobrenatural foi a única coisa que me sobrou.

Noite triste. E é só isso que eu sinto falta, um amigo que olhe para mim demoradamente e diga: "poxa, você está uma merda!", e então me abrace, num consolo à la little miss sunshine, sempre infalível. Mas não há ninguém assim.

Tomara que eu não vire um tiozão.

3.9.07

Nada de novo no front 2.0

E vamos deixando para trás o longo mês de Agosto.

O mês de 5 semanas úteis, sem feriados. O mês do meu aniversário. O mês que ferrou minhas economias no banco. Um mês em que eu vi que é Direito mesmo que eu vou fazer e ponto final.

E então começamos Setembro, um mês que eu odeio! E que parece não trazer nenhuma novidade atônita em si.

Bem, para falar a verdade, eu só odeio meia dúzia de virginianos. Mas só porque eles nunca me levam a sério.

The Melvins - Rat Faced
"WHAT?! nothing new!"