28.8.07

A História de Dois Homens Distintos

Levantando o garoto pelo colarinho da camisa já empapada de sangue e suor, o homem de porte alto, vistoso, elegante e aristocrático arremeteu-lhe um último soco. Motivo de três dentes a voar pelo ar e um deles ingerido. Além do sangue espirrado de praxe.

Revelando uma entonação de voz fria e um desprezo descomunal, o homem aristocrático se dirigiu ao menino, mediante um olhar de fúria, ainda que de esguelha:

- Seu merdinha...como pode achar que poderia me ignorar? Ignaro! Trancar-me naquele quarto não foi nada sábio da sua parte. Apenas um verme como você imaginaria que poderia me trancafiar e suprimir minha influência!

E a frase terminou numa exclamação tão gritante e enraivecida que um chute no estômago foi sua exemplificação mais perfeita. E agora o garoto se retorcia, entre tosse, sangue e suor, esforçando-se para respirar. Não creio que ele fosse reclamar, seria bem difícil para ele falar qualquer coisa naquele estado. O homem que batia então resolveu dar-lhe voz, ao se abaixar perante o corpo dolorido do garoto, aproximando dele seu olhar desvairado de assassino:

- Ah! Vejo que você quer se rebelar! O quê? Quer me mandar tomar no cu? Quer xingar a minha mãe? Quer maldizer minha existência? Ora, não me faça rir, seu bosta - mais um chute - há! Você geme de um modo engraçado. Mas não creio que você é de todo essa massa disforme e fraca na qual estou te transformando agora, meu caro, ah não. Você teve audácia o bastante para ir contra mim. De fato, conseguiu me reduzir a nada durante um tempo. Mas cá estou eu! E agora, toma!

E lá se vai um nariz...agora esfacelado.

- Huhu...Veja só. Ignaro! Meus sapatos estão sujos, maldito. Sabe o que mais me perturba em você? Esse papo de amor, de apoio, de compreensão. Até quando vai acreditar na humanidade, little crap? Quantas vezes mais vão ter que pisar em você para que entenda que EU estou certo! Sim...é uma questão de se pôr acima dessas fraquezas. Eis o segredo de minha rigidez. Agora você...bem, você suja meus sapatos com seu amor de merda.

O homem ainda ficou ali, por mais alguns minutos, a sujar seus sapatos entre pisões e chutes, esmagamentos e fraturas, do garoto, lógico. Pisava a cabeça do garoto agora, com gosto, a recordar Orwell e seu terrível ano de 84.

O garoto então agarra a perna do homem, debilmente, extremamente trêmulo, mas resoluto. O asco crispa a boca do aristocrata, que de prontidão se afasta daquelas mãos arranhadas, com um dos dedos tortos de maneira nada natural.

Mas o garoto agarra-o novamente, agora com as duas mãos, firme, se levantando pouco a pouco. Um medo descomunal se apossa do homem, que ridiculamente e, para sua inteira vergonha, fica paralisado.

Aos poucos, o garoto, ou o que sobrou dele, vai se levantando. De estatura muito menor que a do homem, acaba conseguindo alcançar somente até o tórax, onde, com a candura e a audácia de um revolucionário, abraça aquele que o havia ferido. Sangue, suor, tosse e lágrimas.

Um comentário:

Ariadne Celinne disse...

Gostei... ótima narrativa.
"Aos poucos, o garoto, ou o que sobrou dele, vai se levantando. De estatura muito menor que a do homem, acaba conseguindo alcançar somente até o tórax, onde, com a candura e a audácia de um revolucionário, abraça aquele que o havia ferido. Sangue, suor, tosse e lágrimas."
final perfeito... :)
sem palavras
bjs