28.8.07

A História de Dois Homens Distintos

Levantando o garoto pelo colarinho da camisa já empapada de sangue e suor, o homem de porte alto, vistoso, elegante e aristocrático arremeteu-lhe um último soco. Motivo de três dentes a voar pelo ar e um deles ingerido. Além do sangue espirrado de praxe.

Revelando uma entonação de voz fria e um desprezo descomunal, o homem aristocrático se dirigiu ao menino, mediante um olhar de fúria, ainda que de esguelha:

- Seu merdinha...como pode achar que poderia me ignorar? Ignaro! Trancar-me naquele quarto não foi nada sábio da sua parte. Apenas um verme como você imaginaria que poderia me trancafiar e suprimir minha influência!

E a frase terminou numa exclamação tão gritante e enraivecida que um chute no estômago foi sua exemplificação mais perfeita. E agora o garoto se retorcia, entre tosse, sangue e suor, esforçando-se para respirar. Não creio que ele fosse reclamar, seria bem difícil para ele falar qualquer coisa naquele estado. O homem que batia então resolveu dar-lhe voz, ao se abaixar perante o corpo dolorido do garoto, aproximando dele seu olhar desvairado de assassino:

- Ah! Vejo que você quer se rebelar! O quê? Quer me mandar tomar no cu? Quer xingar a minha mãe? Quer maldizer minha existência? Ora, não me faça rir, seu bosta - mais um chute - há! Você geme de um modo engraçado. Mas não creio que você é de todo essa massa disforme e fraca na qual estou te transformando agora, meu caro, ah não. Você teve audácia o bastante para ir contra mim. De fato, conseguiu me reduzir a nada durante um tempo. Mas cá estou eu! E agora, toma!

E lá se vai um nariz...agora esfacelado.

- Huhu...Veja só. Ignaro! Meus sapatos estão sujos, maldito. Sabe o que mais me perturba em você? Esse papo de amor, de apoio, de compreensão. Até quando vai acreditar na humanidade, little crap? Quantas vezes mais vão ter que pisar em você para que entenda que EU estou certo! Sim...é uma questão de se pôr acima dessas fraquezas. Eis o segredo de minha rigidez. Agora você...bem, você suja meus sapatos com seu amor de merda.

O homem ainda ficou ali, por mais alguns minutos, a sujar seus sapatos entre pisões e chutes, esmagamentos e fraturas, do garoto, lógico. Pisava a cabeça do garoto agora, com gosto, a recordar Orwell e seu terrível ano de 84.

O garoto então agarra a perna do homem, debilmente, extremamente trêmulo, mas resoluto. O asco crispa a boca do aristocrata, que de prontidão se afasta daquelas mãos arranhadas, com um dos dedos tortos de maneira nada natural.

Mas o garoto agarra-o novamente, agora com as duas mãos, firme, se levantando pouco a pouco. Um medo descomunal se apossa do homem, que ridiculamente e, para sua inteira vergonha, fica paralisado.

Aos poucos, o garoto, ou o que sobrou dele, vai se levantando. De estatura muito menor que a do homem, acaba conseguindo alcançar somente até o tórax, onde, com a candura e a audácia de um revolucionário, abraça aquele que o havia ferido. Sangue, suor, tosse e lágrimas.

25.8.07

O Altruísmo Falido

- Olha moço, o cartão tá dando inválido...
- Putz...qual o problema com meu cartão? É só aqui que ele dá erro! Em todo lugar funciona, menos aqui!
- Quer passar ele ali na frente? Às vezes dá certo...

Sem escolha, dirijo-me a um caixa adiante. Nova tentativa, nova atendente.

- Desculpa, moço, parece que tá sem saldo.
- Caraaaaamba, vai o cartão de débito mesmo então, mas eu não compro mais nesse supermercado! Toda vez isso. É brincadeira?!

Quem lê o diálogo acima poderia pensar que eu estava esbravejando e soltando fumaça pelas orelhas. Mas eu falava tudo isso com um tentativa forçada de parecer bravo e indignado, meio sem sucesso, visto a cara de "foda-se!" das caixas. Por mim tanto faz qual cartão usem, eu só não queria dar uma de idiota.

Bem, de qualquer jeito, não volto lá. É mais caro que o outro supermercado.

Indo para casa me sentindo ridículo por carregar duas sacolas em cada mão - "preciso de um carro!" - passo em frente a uma Igreja e vejo uma cena inusitada: no estacionamento improvisado onde deveria ser uma calçada, do outro lado da rua, um carro estava parado com as duas portas dianteiras abertas. Do lado do motorista, demorei a reconhecer que aquele volume compacto ao chão era um homem robusto ajoelhado. Estava escuro.

Passei desapercebido por aquilo. Sem que meu cérebro percebesse que realmente havia um homem ajoelhado e de cabeça baixa ao lado do carro. Mas então vieram gritos e meu cérebro despertou dos devaneios em que se encontrava:

- AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

Estanquei, surpreso, olhando a cena. O homem estava definitivamente tentando fazer algo impossível e nada saudável: tossir, chorar, engasgar, respirar e tentar vomitar tudo ao mesmo tempo. Os gritos eram realmente desesperadores.

À frente dele, uma mulher, impassível, assistia ao ocorrido como se estivesse vendo um cachorro cagar na grama. Carregava um celular na mão. Talvez ligasse para uma ambulância. Talvez para a melhor amiga para contar que estava vendo um gordo passando mal. Jamais saberei.

O homem abruptamente se levantou, cambaleou rapidamente e foi prostar-se para mais perto da Igreja, agarrando-se à grade que separava a morada de Deus do estacionamento improvisado. Gritava mais alto agora e sofria como se estivesse sendo queimado vivo. Do outro lado da rua, eu olhava tudo com os olhos arregalados, parado e ainda segurando as sacolas ridículas, sem mais me importar com a falta de discrição. Era aparentemente o único. Não havia mais ninguém andando pelas calçadas e os carros passavam velozmente pela avenida, sem perceber o que acontecia.

Subitamente, ocorreu-me que deveria tomar uma decisão: atravessar a avenida e perguntar se eles precisavam de ajuda (o moribundo e a mulher que continuava absorta com o celular) ou virar-me para frente e continuar andando, fingindo que nada acontecera. Ser altruísta ou ser egoísta?

Não sou paulistano nem curitibano, então a vontade de ajudar foi maior, porém...

"Pare já aí! Já não basta os mil problemas que você está envolvido, moradia, estágio, tédio, sua mãe deprimida, não vá arranjar mais um, deixa de ser herói!".

Parei. Engoli um seco. Desviei o olhar da cena e olhei dos dois lados da avenida, ainda ninguém aparecera. Mas pelo menos agora a mulher fora acudir o homem robusto, que sumira da minha vista, oculto pelo carro.

Resignado e impotente, virei-me e fui para casa, mastigando um post para blog. Olhando às vezes para trás, ainda surpreso.

19.8.07

Nine Inch Nails - The Great Destroyer

Say your name
Try to speak as clearly as you can
You know everything gets written down
Nod your head
Just in case they could be watching
With their shiny satellites

I hope they cannot see.
The limitless potential
Living inside of me
To murder everything
I hope they cannot see
I am the great destroyer

Turn it up
Listen to the shit they pump into your head
Filling you with apathy
Hold your breath
Wait until you know the time is right on time
The end is near

I hope they cannot see
The limitless potential
Living inside of me
To murder everything
I hope they cannot see
I am the great destroyer

Agora eu entendo porque acham Trent Reznor O cara.

16.8.07

Tristeza Permitida

Às vezes penso como a maioria das pessoas busca incessantemente felicidade sem dar um quê de atenção à tristeza e a outros sentimentos considerados negativos. Também têm eles sua beleza, a seu modo.

Se eles existem, são para serem sentidos. É aquela coisa de viver intensamente, não?

Tem um sentimento gostoso, de uma melancolia e angústia imensas, que eu tenho certo prazer de sentir. É uma tristeza especial, pois não significa uma perda significativa na minha vida, nem uma frustração ou privação. É a sensação de terminar de ler um livro.

O desespero já se apodera de mim nas penúltimas páginas, vai se arrastando cansativo e opressor pelo clímax, pelo prólogo, caso haja, até decair no derradeiro ponto final, geralmente acompanhado por um desfecho excepcionalmente triste e didático, visto que gosto de ler coisas boas. E reparem que final feliz é difícil em boa literatura...

O final desolador de 1984, o suicídio metafórico de Admirável Mundo Novo, a agonia devastadora de Cem Anos de Solidão, o mistério que revela delírio ou verdade em O Senhor das Moscas...todos eles me deixam lá, parado, após fechar o livro, fixando o nada e gozando dessa tristeza excepecional, mas construtiva.

Um suspiro então brota de dentro de mim, resignado, e concluo, juntamente com o livro:

The End.

14.8.07

Meu primeiro All Star


Eu nunca vou usar um all star, Fabrício!

Lembro de ter dito isso em 2004 ao meu amigo Fabrício, de Rio Preto, que só umas três vezes eu vi sem um all star no pé. Aaah, é sabido que fazer afirmações tão extremas é um perigo, pois as pessoas mudam.

Não vem ao caso o porquê de eu ter feito essa afirmação tão peremptória, mesmo porque não quero revelar que eu era um adolescente revoltado (ops) aquela época, que achava mesmo all star um símbolo tal qual Coca-Cola e McDonalds, mas enfim, eu bebo Coca, como Cheddar McMelt e, por que não, usar um all star?

O estranho é que eu realmente relutei contra isso. Por vezes achava que não iria combinar com meu estilo, mas moda também muda. Outras vezes achei um modelo muito simples para se usar...porém, no fim, me rendi. Entreguei os pontos.

E então anunciei à minha mãe:

- Quero comprar um all star.
- Sério, filho?! Que maravilha! Eu acho all star muito lindo, sempre quis usar, mas machuca meu pé...

Mulheres usam saltos, sapatos apertados de bico fino, botas incômodas, e todo o tipo de calçado que elas consideram bonito mas que na verdade devem existir para elas pagarem pelo pecado original de tanta dor que elas reclamam, só pode. Lembrei ainda que as milhares de massagens que fiz nos pés da minha mãe não devem ter servido para nada.

- É, tão usando bastante ultimamente...

E em que época que não se usou all star? Até os romanos usavam all star.

Mas não foi com minha mãe que eu comprei o dito cujo. Quem teve a tarefa ingrata de me acompanhar numa tarde de compras (foi uma queda consumista, pra falar a verdade, a primeira da minha vida) foi a minha amiga Thais.

Como ela é de Londrina mesmo, acabou me indicando uma loja boa e barata de calçados. E foi assim que conheci as Casas Ajita (vou poupá-los de trocadilhos).

Ao chegar lá, uma morena baixinha de lindos olhos azuis vem ao meu encontro, solícita:

- Boa tarde, posso ajudá-lo, senhor?

Senhor, pff, me poupe, blue eyes.

- Oi. Boa tarde - sorrio - queria dar uma olhada nos all stars.
- Sim...por aqui.

Numa vitrine, ao alto, reluzia o meu querido:

- Aquele ali, vermelho, de cano alto, quanto é?
- R$55
- Ótimo, você pode ver o número 41 para mim?
- Claro, só um minuto.

Volta a baixinha, empertigada:

- Que sorte, moço! Esse era o último daquele modelo, e o último 41.
- Nossa, dei sorte então!

Experimento, gosto, ela vai ainda em busca de um outro tênis que gostei e queria experimentar.

- Nossa, você viu os olhos dela? - comenta a Thais.
- Lindos, não? E educada.

Era uma das duas únicas atendentes educadas que havíamos encontrado entre muitas atendentes com cara de cu e uma bicha que nos atendeu de má vontade numa loja de departamento.

Pronto. Estava ali adquirido o all star bonitão.

Estava ali liquidado um preconceito bobo que eu tinha.

Estava ali rendida minha resolução de não me render ao consumismo.

Mas quem não se rende ao capitalismo?, verme insistente que mina as forças de qualquer um...

Mas nada disso estaria completo até que...

- Ai! ("filho da...")

Um velho pisara meu pé no ônibus, pé usando all star vermelho bonito.

Minha primeira sujeira de all star...

13.8.07

Uma pausa para comédia política

“Que ninguém se engane: o Brasil é isso mesmo que está aí. A saúde melhorou, a educação melhorou e aos poucos a infra-estrutura se acertará. Mas não vai haver nenhum espetáculo de crescimento, nada que se compare à China ou à Índia. Continuaremos nessa falta de entusiasmo, nesse desânimo.” (FHC)


AaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Quando FHC se deita na sua cama com lençol de seda, ele se morde, se morde muito de inveja.

12.8.07

Roupa Suja

Eu nunca tive uma conversa de bar filosófica e decente, dessas que se vê em livros ou peças de teatro. Quando eu finalmente a tenho, sinto que minha vida não presta e não passa de uma "grande meerrrrrda", como diria o espírito do natal passado, que você, leitor, pode conferir no vídeo abaixo, do Aqua Teen. Vale a pena esperar carregar.



Mas...como cerveja pouca é bobagem, vale mais a pena fingir que está tudo bem do que continuar tentando mudar algo sem sucesso.

Só me resta esperar os desdobramentos e, até lá, criar coragem para lavar a roupa suja que está acumulando no cesto.

11.8.07

O Errado no Direito

Será que é muita pretensão eu já ter noções do que é fazer Direito após somente um semestre dentro do curso? Enfim, não me importo. Estou com bloqueio mental para escrever no blog e Zaratustra não tem me contado nada. Logo, a única coisa que me vem a mente é falar sobre meu curso.

Eu decidi fazer Direito há muito tempo. Acho que no primeiro colegial mesmo, ou no segundo, tanto faz. A única alternativa que me dividia era o curso de Relações Internacionais, mas curso de humanas por curso de humanas, preferi Direito. Por quê?

Houve a inclinação natural, em que me identificava com essa profissão em filmes e livros (sim, pense em O Advogado do Diabo, Crime e Castigo e afins). O fato de ser um curso de humanas, tratar da sociedade, ter meninas bonitas e dar dinheiro também eram condicionantes. Mas não poderia ser nada fútil assim. Ainda havia o fato de ninguém na minha família ter feito Direito e, como todos sabem, adoro ser do contra. Mas ainda não era isso.

Pode ser algo romantizado e piegas, mas eu realmente vi nesse curso a maneira mais rápida de eu alcançar um posto na sociedade em que poderia modificar algo para...melhorar o mundo.

Então a gente entra no curso e...

As meninas são bonitas sim, mas a maioria é mercenária. Os alunos visam somente ao dinheiro e quando muito somente a um concurso para se estabilizar com um desses salários altos do Judiciário. Alguns até mesmo não têm nada a ver com Direito. O que fazem ali então? Ah sim, os pais obrigaram.

Alguns realmente têm seu mérito. Há gente que eu olho e admiro, mas são poucos. Acho que isso é algo natural, mas pode haver surpresas, por que não?

Ninguém tem dúvida de que universidade estadual tem suas mediocridades. Professores preguiçosos são só um desses aspectos com que me deparei. De fato, nenhum dos professores passa a mão na nossa cabeça como ocorria no ensino médio. Estão todos se lixando para você e quanto mais sozinho você se empenhar, melhor.

E esse estereótipo do aluno de Direito? Tenho me sentido um patinho feio. Se alguém já presenciou no colégio aqueles caras que gostam de sertanejo, funk, axé e pop rock, adoram dizer que pegam todas e têm os pais mais mão-aberta do mundo, pronto, ali está um futuro estudante de Direito. O que um nerd que gosta de rock´n´roll pode fazer nesse meio? As exceções são raras, muito raras.

Pensava eu que os cursos de humana privilegiavam o pensamento e a capacidade de dissertação, ou seja, no íntimo, sofistas. Mas me enganei. Até mesmo em Direito vemos uma tecnicidade irritante dos cursos de exatas. Só se admite aqueles que se enquadram em certa linha, dizem as palavras certinhas, e seguem uma corrente de pensamento geralmente quadrada e conservadora. Mais uma vez sou despojado do hall desses psdbistas, digo, desses estudantes de Direito.

Quantas vezes já não ouvi comentários preconceituosos e reacionários por parte dos meus colegas de classe? Sentem tanto louvor do monopólio da coerção por parte do Estado que eu até me espanto. De repente se entende porque o Judiciário sustentou algumas atrocidades por parte da Ditadura no passado.

Deveria eu estar fazendo Ciências Sociais, Psicologia ou História, então? Não. Já disse, preciso do posto com maior atuação possível, e se isso supõe eu ter que agüentar professores que não admitem conjecturas e diferenciações, e colegas de classe que não compreendem o pluralismo, então ok, vou agüentar firme e me tornar um profissional diferenciado. A Polícia Federal e o Ministério Público devem querer gente assim aos montes, afinal de contas, eles amam prender ricaços corruptos, bem, pelo menos ultimamente, no governo do metalúrgico. Ah sim! Ninguém gosta do Lula em Direito. Só falta saber se chegaram a essa conclusão sozinhos ou se foi lendo a Veja e assistindo a Globo.

Espero que até o quinto ano melhore.

Deferido!

5.8.07

A tal da Lady

Hoje eu sinceramente pensei em escrever algo sobre sadismo feminino, uma característica tão presente nas mulheres de bem da nossa sociedade. Mas eu pensei, por que não ser mais abrangente? E eu vou fazer isso relatando as ocasiões que vivi com minha grande amiga Lady.

A Lady é uma mulher fantástica. Loiraça, maquiagem pesada, olhos azuis, vestido vermelho sensual, um corpo desses de fazer inveja às modelos (as que não possuem anorexia, lógico).

A Lady é uma dessas mulheres que aparecem quando a gente menos espera, sempre fatal. Dessas que com um simples olhar botam qualquer obstinação a se perder por completo num mundo paralelo ao nosso. Ah, Lady!

A Lady às vezes me deixa com cara de bobo, outro dia ela apareceu na minha frente e a fiquei encarando. Nisso, uma pomba sobre mim resolveu usar sua "bazuca anal", como diziam os Mamonas, na mosca!

Sem falar todas as vezes que a Lady me pega para conversar e me faz perder o ônibus, a hora, a aula, a carteira, a chave, a hora do remédio, esquecer o forno ligado e esse tipo de coisa.

Quando mais jovem, a Lady gostava de mexer com meu intestino, e bem nas horas erradas.

A Lady até estava presente quando a menina começou a falar do ex-namorado, mesmo percebendo que eu estava a fim dela. Ah, a Lady adora estar presente quando eu me ferro com as meninas!

Penso às vezes que a Lady é um anjo enviado por Deus, esse velho engraçadão que não fez a primeira série e por isso mesmo escreve as coisas em linhas tortas (ou vai ver a Tilibra não tem filial por lá...). Mas por que Deus me enviaria a Lady? O que ele quer fazendo essa linda senhorita me deixar todo atrapalhado e azarado?

Não sei se a Lady tem algum objetivo comigo. Talvez ela queira me tornar um desses protagonistas de filmes que começam a película todo nerds, losers e otários e acabam o filme dirigindo uma BMW e pegando uma gostosa. Talvez a Lady seja mesmo uma enviada.

Mas e se a Lady for coisa do demo? É bem capaz. Mas eu sempre pensei que o capeta fosse malvadão, tipo o Charles Bronson (Deus o tenha), e não um pregador de peças ao estilo de pegadinhas da TV.

O bebê mijando em mim, o molho do strogonoff caindo na minha camiseta branca, a questão errada na prova de Lógica, aquela alface no meio dos dentes e todo mundo vendo, o prato de arroz caindo da minha mão e indo se espatifar no chão, as pessoas sendo sádicas comigo. Para falar a verdade, em todas essas situações, lá estava a gostosa da Lady, com seu sorriso de dentes brancos e bem posicionados, soltando aquela gargalhada arrastada, lasciva, como quem tem um orgasmo só de me ver se dando mal.

Agora me fala, qual o seu problema comigo, Lady Murphy?

4.8.07

Pára de idealizar, Victor

A minha idealização abusiva de pessoas e de coisas ainda vai me levar à ruína, podem anotar isso.

É foda.

2.8.07

Coming Soon to a Theater Near You


Filmes de terror para quê? Tem gente que gosta de gastar dinheiro para tomar um susto enorme no cinema ou tomar um sustinho em 29 polegadas em casa com o DVD. Eu não sou esse tipo de pessoa, mesmo porque filme de terror hoje em dia é uma bosta. E eu francamente gosto de filme que tenha enredo decente e tal...será isso pedir muito?

Mas mesmo que eu poupe meu rico dinheirinho evitando assistir os Gritos, as Samaras e as vozes do além, uma realidade de sustos não escapa ao meu imaginário no cotidiano. Ah não, pelo contrário...

Voltaire, o filósofo iluminista, criou em um de seus livros o personagem Pangloss, um intelectual que pregava com a maior convicção de que o mundo estava às mil maravilhas, que a realidade em que vivia era o "melhor dos mundos", por mais que tudo indicasse o contrário. Enfim, durante a narrativa, o Mestre Pangloss acaba sendo o que hoje chamaríamos de vítima da Lei de Murphy. Ele se ferra constantemente e, constrastando com isso, sempre está ele, com um sorriso nos lábios, a exclamar: "Esse é o melhor dos mundos!". Oh!

O ponto ao qual quero chegar é o seguinte: por mais que eu evite tomar susto por nada, ou por prazer, por mais que eu ache desnecessário infligir terror à minha mente enquanto o bolso de algum judeu produtor de cinema de Hollywood fica cada vez mais gordo, a vida anda superando em muito as telas e a ficção.

Que espírito, fantasma, ET ou monstro bizarro pode fazer frente ao horror que uma criança deve ter sentido quando se percebe presa a um cinto de segurança e começa a ser arrastada pelo asfalto durante 5 km? Ou mesmo o horror vivido por centenas de passageiros que notam a pista de pouso ir chegando ao fim e o avião não desacelerar? São casos emblemáticos, mas, e o horror que vive a todo instante muitos brasileiros vítimas de seqüestro, estupro, assalto, etc?

O mundo tem se tornado um filme de terror dos mais trashes e desagradáveis. Não me admira que atualmente filmes como Laranja Mecânica sejam taxados de banais e fracos.

Que pelo menos a pipoca seja boa nessa história.

1.8.07

A trilha que me conduz até aqui


Dwayne: I wish I could just sleep until I was eighteen and skip all this crap-high school and everything-just skip it.
Frank
: You know Marcel Proust?
Dwayne
: He's the guy you teach.
Frank
: Yeah. French writer. Total loser. Never had a real job. Unrequited love affairs. Gay. Spent 20 years writing a book almost no one reads. But he's also probably the greatest writer since Shakespeare. Anyway, he uh... he gets down to the end of his life, and he looks back and decides that all those years he suffered, Those were the best years of his life, 'cause they made him who he was. All those years he was happy? You know, total waste. Didn't learn a thing. So, if you sleep until you're 18... Ah, think of the suffering you're gonna miss. I mean high school? High school-those are your prime suffering years. You don't get better suffering than that.

_________________________

Esse diálogo faz parte do filme Pequena Miss Sunshine, de 2006, ganhador de 2 Oscars. A conversa se dá entre um adolescente problemático e obstinado, leitor de Nietzsche (Dwayne) e seu tio homossexual, de tendências suicidas (Frank).

Fazia tempo que eu não presenciava algo tão singular num filme. Vocês sabem, a maioria dos filmes hoje é aquele apelo excessivo pelo visual, pelos efeitos, cenas de sexo, briga, ação, enfim, é uma surpresa agradável quando se encontra um diálogo simples desse num filme igualmente simples, de orçamento risível perto das grandes produções e que, entretanto, conquistou muita gente, devido à sua singeleza.

Eu nunca li Proust, juro que fiquei tentado a lê-lo depois do filme, mas alguém já tinha pego o primeiro volume de uma série de livros dele na biblioteca da Universidade em que estudo, talvez com a mesma intenção que eu: conhecer a vida e o modo de escrever de um sofredor de carteirinha.

Constantemente nos esquecemos de como alguns acontecimentos têm impactos tão marcantes em nossas vidas. Quero dizer, buscamos sempre a felicidade, mas o que ela traz a nós? Prazer e paz. Que conhecimento se tira do prazer e da paz? Nenhum. Buscamos indefinidamente esse mimo como se fôssemos crianças, como se quiséssemos retornar a um estado de catarse pré-vida, onde não há nenhum conflito com a realidade, simplesmente um útero aconchegante e quentinho, pronto a repelir obstáculos que podem nos ensinar a caminhar eretos.

Na adversidade, entretanto, com a mente preparada, que maravilhas se obtém para evoluirmos! Não quero dizer que é apenas no sofrimento que se conquista sabedoria. Loucos, bandidos e assassinos podem provir disso, por isso falo da mente preparada, sã. Uma mente que busca aperfeiçoamento e aprende a lutar. Mesmo que lute em busca da felicidade acima citada, ainda assim está passando pelas adversidades e, ao ganhar a batalha, pode perfeitamente ter sua recompensa: a paz!

Por isso me regozijo diante de todas as experiências ruins e infelizes que tive e creio mesmo que elas estão em massacrante maioria perante as experiências boas. Mas não ligo. Se tem uma coisa que me fez do jeito que sou são essas experiências ruins. E longe de erigirem um esquizofrênico sociopata, fizeram antes um garoto que pensa demais e só quer que o mundo seja menos sádico. Mas isso são desejos para outro post.

Sendo assim, que se fodam todos os ressentimentos que ando guardando. Não vou sair por aí perdoando, não, estou longe de ser o novo Messias, mas vou agir como se tivesse resetado grande parte das más considerações que tive com várias pessoas ao longo dos anos. Que aceitem isso ou não, tanto faz. Eu, porém, estou pronto a rir mais e a gozar dos momentos ruins e bons, pois essa é minha trilha, que vou continuar picando em meio a esse mato alto ao meu redor.