18.7.07

Persona

Estudar o que é, de onde vem, para que serve e de que maneira se dá a personalidade é um dos aprendizados que tive nesse semestre que passou no curso de Direito.

Logicamente eu já não lembro a explicação didática dessa merda - nunca lembro - mas sempre mantenho comigo uma noção, algo como uma forma de bolo, que dá forma ao bolo (!) mas que não é necessariamente o bolo, enfim, o necessário para que eu entenda o sentido de personalidade (já vi que vou me ferrar na OAB).

Nunca imaginei, entretanto, que livros pudessem ter essa relação de personalidade comigo. Como coisas de papel sem vida podem adquirir uma personalidade?

Não uma personalidade legal, passível de direitos na Constituição. Don´t be fool. Mas sim de uma espécie de ... caráter. Os livros têm caráter. Têm personalidade. Dialogam comigo e demonstram isso.

Nem todas as pessoas são capazes de ver um livro como um ser. A maioria nem perde tempo em se entreter com suas linhas, e grande parte da minoria mantém apenas relações profissionais com os livros. Há algumas pessoas, porém, que ao tocar num livro, permitem-se ser abduzidas a um mundo desconhecido, paralelo à realidade mórbida, extensão sem limites de uma simbiose entre a capacidade do escritor e a imaginação do leitor, capazes de elevar ou deprimir o espírito humano. É um poder incomum e, portanto, não devemos ignorar que os livros têm, obviamente, uma personalidade.

E cada uma se dá de uma maneira diferente, tal qual é entre os humanos. Cito aqui, como forma de demonstrar isso, 5 livros que marcaram minha vida, pelo menos até onde ela tem me levado até agora:

1. 1984
2. Um Estranho Numa Terra Estranha
3. Crime e Castigo
4. Dom Casmurro
5. Cem Anos de Solidão


Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, foi o livro mais recente que li e já de cara figurou entre os cinco primeiros. É todo envolto num aspecto latino, e se tivesse cara, teria pele morena, bigode preto grande e olhos de malandro. Apesar disso, é de uma índole tão amarga e exasperada, que só de olhá-lo já se teme o tempo e a tristeza. "Histórias tristes dão bons livros", disse Soraya em O Caçador de Pipas.

O livro seguinte, Dom Casmurro, além de clássico do mestre Machado de Assis, o qual admiro por toda a sua ironia e escrita realista, foi muito revelador a mim no modo como se deve encarar alguns aspectos da vida, ou ao menos como se deve encarar uma mulher com olhos de ressaca. Sua personalidade é a de um advogado mal-engravatado remoendo a dor de não poder suportar a vida e a própria consciência, pois tudo perdeu o sentido. É insuportável e sufocante. Não recomendo que cheguem perto dele a menos que saibam como lidar com ciumentos inseguros.

Bem, Crime e Castigo dispensa comentários, pois já falei dele há alguns posts atrás. Basta saber que ele é do tipo que deixa as pessoas loucas, sem falar do seu olhar frio de assassino.

Um Estranho Numa Terra Estranha é de longe o livro mais divertido e acolhedor que li em toda a minha vida. Como um abraço sincero, esse livro é do tipo que acalenta o deslocamento que as pessoas sentem em relação ao mundo, mostrando que elas podem ser algo. Como um pai paciente, dá a idéia de um mundo que jamais veremos. E faz chorar qualquer pessoa com a simples visão de um...gafanhoto.

Por fim, chegamos ao primeiro da lista: 1984, de George Orwell, um livro que é como um grito sufocado durante séculos, um alívio de uma opressão descomunal, uma liberdade gozada falsamente, ele é toda a revolta do mundo até o momento em que simplesmente decide pisar em nossas cabeças e nos deixar completamente desolados, tristes com o mundo. É um livro perigoso, carregado com uma Kalashnikov ao mesmo tempo em que sorri e oferece rosas ao leitor. Um sorriso de engano, que sempre é desfeito na sala 101.

Há muitos outros livros que significam algo para mim e que agiram diferentemente comigo, conforte meu estado de espírito na época e a capacidade deles de me oferecer um ensinamento. Todos porém, tinham garantido meu mais alto respeito, que sempre vi nesses pedaços de papel, tão frágeis e suscetíveis de desgate e destruição, por fogo, tempo ou traças, mestres enclausurados, dispostos a esperar por alguém a quem pudessem transmitir seus conhecimentos. Eu fui essa pessoa. Deixei me absorver em cada letra e linha dos livros, do momento em que abria suas páginas ao momento em que as fechava, soltando um suspiro de tristeza por ter acabado ali, ao virar a última página e ver o último ponto final, os ensinamentos que mais profundamente penetram na minha mente, para nunca mais se diluírem, sejam formas de bolo ou não

6 comentários:

Lígia disse...

Hmm..esse post serviu de complemento a nossa "conversinha por scraps". E o anterior ao e-mail..
Por falar em e-mail..JU! Vê se responde o meu, pô!

Victor the Question disse...

Nada de recadinho no meu guestbook! heuhe

Victor the Question disse...

A Ju escreve email pra Lígia e não escreve pra mim, sacanagem hein.

Tyler Bazz disse...

Livros.. livros... eu gosto, hein.


Tenho o 1984 aqui e era pra eu ter lido nas férias... pfffff.

Daqui uns meses só.

Cash R. disse...

ahh...livros....minha relação com os livros é como uma puta...quando eu quero sempre estão lah...mas naun eh smepre que vai me ver com elas....

prefiro musica....ela vem ateh voce m esforço algum...

meu deus...mas como eu sou preguissoso....hauhauahu

Ju disse...

Ah, ainda não li nenhum desses livros que vc falou.. mas pretendo um dia.
E.. agora eu levo puxão de orelha por aqui também? i.i
Mandarei os devidos e-mails..
=**