21.7.07

ACM e minha vó

A humanidade ainda vai criar algo pior que o despertador. Para falar a verdade, se existir mesmo Satã e esse tipo de coisa, acho que a invenção mais sádica dele seria um despertador.

Pois foi com essa invenção diabólica que eu fui resgatado do meu profundo sono, às 11h de uma sexta-feira. Acordar é, para mim, uma das piores coisas do mundo. É como se te tirassem de uma piscina funda, quentinha, e te tacassem no Pólo Norte, pelado na frente de um urso polar. Como se eu estivesse nessa situação mesmo, meu coração pula de algo em torno de 50bpm para uns 130bpm. É por isso que o maldito do despertador me dá nos nervos.

Mas enfim, lá estava eu, acordado, pronto para mais um dia desses que o Sol nasce e se põe, os animais comem, respiram e procriam, as flores desabrocham, as folhas fazem fotossíntese, as abelhas espalham o pólen por aí, os carros andam, as pessoas trabalham, etc. Mas eu não. Eu me espreguiço demoradamente e saio do quarto. Misteriosamente, sinto vontade de ir à sala, onde há várias fotos da minha família. Estranhamente, detenho-me mais demoradamente na foto da minha avó. A Dona Anália era uma mulher baixinha, morena, de bom coração e boa mão para a culinária, enfim, uma vó perfeita. "Era" porque ela já está morta.

Por fim paro de olhar a foto dela, tentando lembrar dos momentos que passamos juntos. Ela morreu em 1996, ou seja, eu tinha 7 para 8 anos, época que não é lembrada com a maior clareza pela minha memória traiçoeira. Não tomo café da manhã, apenas me arrumo distraidamente para sair, pegar o ônibus e ir encontrar minha mãe no restaurante em que costumamos almoçar.

Ao encontrá-la, ela me dá duas notícias:

- O Antônio Carlos Magalhães morreu, filho.

Demoro alguns segundos para me tocar do que ela falou.

- MORREU?!
- Aham.
- HÁ!
- Hehe, todo mundo que ouve a notícia dá essa risadinha.

Nessa altura, já estamos acompanhados do namorado da minha mãe, um homem meio cabeça dura, mas bondoso:

- Não se deve rir da morte dos outros...
- Não, Benízio, é que ele se supunha tão grande a ponto de se achar imortal.

Aí minha mãe e ele começaram a discutir por causa de qualquer coisa como eles fazem o tempo todo. Eu estava pensando que o último Coronel do Brasil tinha batido as botas, quando a segunda notícia veio, era ainda minha mãe:

- Hoje sua avó faria aniversário, 82 anos.

Minha avó, a que eu estranhamente fitara a foto, um pouco mais cedo naquele dia.

- Nossa...

Procurei lembrar o que eu sabia da minha vó. Nascera na década de 20, na Bahia, em alguma cidade com nome engraçado e viera ainda moça para Rio Preto/SP, onde conhecera meu vô e tivera algo em torno de 11 filhos. Diabética, acabou falecendo depois de muitas internações. Foi a primeira vez que lidei diretamente com a morte, pois acho que o Ayrton Senna não conta...lembro que não tive coragem de vê-la no caixão durante o funeral. Não sei porquê. Minha madrinha havia falecido antes, mas eu devia ter uns 4 anos e não lembro de nada. Há não ser que me disseram que depois do funeral, no caminho de volta, dentro do carro, eu comecei a chorar e a dizer que a dinha estava com fome e frio.

Mais tarde, bombardeado pela TV com a notícia da morte do senador baiano, vim a saber que ele faria 80 anos em 2007. Quase a idade da minha avó!

Duas pessoas nascidas no mesmo estado, sob a mesma cultura e costume e mortas praticamente pelas mesmas complicações. E caminhos tão diferentes! Uma resignou-se à pobreza, à vida de esposa forte que ditava as regras dentro de casa, cheia de filhos e trabalho, vida dura e restrição. A outra, um homem duro, mandão, político até os ossos, dono de quase tudo na Bahia, governista, opositor.

Minha vó era amada por todos na vizinhança. Minha mãe conta que muita gente na cidade vinha se aconselhar com ela, ouvir o que ela tinha a dizer sobre seus problemas, ser consolado, trocar receitas, etc. ACM também tinha muitos "fiéis" em seu reduto político. Talvez apesar da diferença gritante, não fossem diferentes. Mas ACM era homem inescrupuloso, ao passo que minha vó era a típica cristã virtuosa. Dois baianos ligados por uma coincidência tola, mas que, ao seu modo, podiam ter o mundo à mão. O político de modo material, e minha vó através do coração das pessoas.

Mas enfim, que se dane ACM, ele jamais fez eu amar a vida por causa de simples bolinhos de chuva.

Parabéns, vó.
Adeus, ACM, que o Satã do despertador se cuide.

2 comentários:

Tyler Bazz disse...

Que vá o acm...

Cash R. disse...

isso soh me confirma q os baianos saun as mais curiosas figuras do brasil...