27.7.07

Leite materno

Com a sinusite melhorando graças ao antibiótico e aos 3048702834 descongestionantes que o Doctor P receitou, senti-me compelido a agradecer por algo. Digo, uma sinusite é bobagem, é algo passageiro que quase todo mundo tem. Então eu realmente preciso ficar grato de não ter AIDS, gonorréia, tuberculose, malária ou outra doença agradável qualquer. Para isso, quero aqui agradecer o leite materno (da minha mãe, sim).

Graças a esse alimento nutritritri...adeqüado, do qual me aproveitei do primeiro instante em que nasci até 1 ano e meio de vida, elaborei uma lista dos benefícios que esse santo alimento me proporcionou. O leite materno me fez evitar:

1. cáries
2. viadagem
3. catapora
4. cachumba
5. outras doenças infantis escrotas
6. viadagem
7. mau-olhado (há suspeitas de que falhou)
8. viadagem
9. Calypso, É o Tchan! e Latino (em fase de pesquisa)
10. PSDB e DEM (idem)

Viva as tetas! Vida longa aos mamíferos!

26.7.07

Sinusite aguda e a nádega (parte 2)

Queria mesmo reaver o fim do último post, o da sinusite aguda. Não era mentira o fato de eu estar na lan house, com poucos minutos me restando. Mas o principal fator da pressa era minha mãe com vontade de mij...digo, de urinar. Não, ela não queria usar o banheiro da lan ("eu usando o banheiro que só vai esses pirralhos?!"). A pirralhos ela se refere provavelmente a garotos de 13 anos jogando Tíbia, Ragnarok, ou o que quer que seja essas merdas de nerd viciantes.

Acima de tudo, o último post estava repleto de uma emoção incontida, uma exultação. Não, não estava assim por causa do Carlinhos, seus beeshas. Esse velho que mais parece o Mário (lembra do Mário?) me aplica injeções desde que eu tenho tenra idade, por isso não tive vergonha por mostrar parte da minha bunda peluda ao peludo, digo, ao bigodudo. Ia eu dizendo ontem que até mesmo gostava de agulhas, e isso não é mentira, injeção no braço é algo legal, mas a nanotecnologia vai tornar isso obsoleto.

A maior mentira, entretanto, e, por favor, não me perdoem, é eu ter falado que é a minha princesa de cabelos pretos estava no caixa me atendendo. Não, não estava. Ela estava andando de um lado para o outro, seguida devidamente pelo meu olhar discreto. Que mal há em olhar? No pior dos casos, vou fazer o dia dela feliz, pois ela vai se sentir desejada. É um tipo de serviço à humanidade. Eu olho e salvo uma estima. Não agradeçam agora. Escrevi que ela me atendia para poupar tempo. Mas foi um erro, pois se ela me atendesse provavelmente eu me esforçaria para conversar com ela. Não que isso seja impulsivo, mas porque ela tinha cara de interessante mesmo.

Para falar a verdade, estou estranhando demasiadamente essa minha loquacidade. Gosto mais de escrever do que de falar, isso muitos sabem, mas também tenho falado bastante. O culpado disso? O livro ontem citado: Os Irmãos Karamázovi ... por quê? Ora, Dostoiévski é um mestre da dialética e não precisa jamais inferir as perspectivas de seus diálogos, pois se torna tão gostosamente claro para o leitor perceber o que o personagem do livro sente que, por mais russo que o escritor tente ser, ele acaba sendo universal. Quem sabe ele não é admirado pelo Dr. Spock, Darth Vader ou Kal-el. Enfim, é um livro admirável, sobre três irmãos muito diferentes um do outro, filhos de um pai libertino.

E para deixar completo o post de ontem, falta falar as animadoras palavras do Dr. P sobre a sinusite. Mostrando um quadro de um esquema do aparelho respiratório, o Dr. P apontou-me um rosto em que ele sinalizava para duas cavidas localizadas uma de cada lado, interiormente, do nariz. Ali, disse, acumula-se catarro. E a sinusite envolve também uma bactéria. As deliciosas palavras do Doctor foram as seguintes:

- Essa secreção se fica aí começa a apodrecer!

Imaginei mesmo um Victor Hugo de face exígua e maçãs do rosto roxeadas, quase pretas, vítimas de um apodrecimento interno, uma necrose agradável. Iria ficar parecendo um palhaço macabro. Poderia entrar no Slipknot, talvez.

Mas por hoje chega, era para ser esse post um 3 em 1. Em que eu falaria de várias coisas, mas já as esqueci todas. Então, fica para a próxima.

25.7.07

Sinusite aguda e a nádega (parte 1)

Meus pulmões não são exatamente as coisas mais desenvoltas desse mundinho de Deus, talvez isso nem todos saibam. Quando criança tive bronquite e outras doenças relacionadas aos pulmões. Felizmente, não desenvolvi asma. Graças a Deus não fumo. Pra falar a verdade é graças à minha força de vontade mesmo.

Lembro de uma vez em que tive pneumonia, já adolescente. Perdi uns 3 quilos, foi horrível. Nessas horas a gente percebe que não é muito difícil um ser humano morrer, uma vez que o Reaper vai lhe indicando o caminho derradeiro com a displicência de um flanelinha. Acontece que eu acabei pegando o caminho errado e hoje estou aqui, vivo, há não ser que exista mesmo Matrix, escrevendo para algumas pessoas que lêem meu blog. Há pessoas que lêem meu blog, há sim.

Nessas férias de julho foi surpreendido por uma gripe. Coisa trivial, levando-se em conta a situação do mundo, com vírus e bactérias cada vez mais ousados. A mesma reação alérgica de sempre: dor de garganta, nariz com catarro, tosse aguda. Estranhamente, os sintomas não passavam. Pelo contrário, só pioravam. Resultado da brincadeira segundo o Dr. P: sinusite aguda.

O Dr P (prefiro não citar o nome) é um sujeito bem legal. Iria voltar para Londrina nesta quarta, mas a situação da minha tosse remetia aos meus dias de pneumonia; e isso não alegrou em nada a Dona Regina, minha mãe. Assim sendo tive que trocar a passagem e, como luvas, ganhei uma consulta inteiramente grátis (graças ao meu plano de saúde. uau, adoro ser da classe média...) com o Dr. P.

Como não tinha marcado consulta com antecedência, tive de amargar algumas horas na sala de espera da clínica, com direito a um pentelinho chorão loiro de 2 anos, muito parecido com meu irmãozinho, que, despoticamente, demonstrava ser um fedelho irritantemente mimado por seus pais, tios, avós e quem quer que seja. Havia também um oficial do corpo de bombeiros, bem alto, desses tipos que fazem as meninas soltarem gritinhos de escândalo (notem que os comportamentos que as mulheres copiam dos homens saem nela de uma maneira incrivelmente ridícula). Escrevendo agora não me recordo de ninguém mais, pois durante o restante do tempo na espera, entreti-me com Os Irmãos Karamázovi de Dostoiévski, que havia levado para lá, adivinhando o que me esperava.

Esse livro, dentro do consultório, salvou-me de certa maneira. Muitos médicos, creio mesmo que a maioria deles, não passa de um bando de pretensiosos grosseiros, que tratam seus pacientes com a mais fleumática distância possível. Mas Dostoiévski, o mais frio dos escritores ( ou nem tanto), superou esse médico em muito e chegou mesmo a me ajudar:

- Ah! Li esse livro na minha juventude, boa leitura, rapaz. Disse o Dr. P, enquanto averigüava descaradamente meu livro.

Dessa maneira, não me tratou o Dr. P como se fosse um presunto prestes a ser enfiado no misto quente (perdoem-se essa comparação). E pude mesmo sentir amabilidade pelo homem idoso, exceto quando ele começou a falar sobre as Mont Blanc de US$ 3.000 que ele possuía.

Mas de qualquer maneira, receitou-me remédios demais. E o pior: uma injeção.

Eu particularmente não tenho nenhum problema com injeções, até gosto. Mas a injeção era na bunda.

Chegando na farmácia, alegrei-me deveras, antes do tempo. Uma linda atendente fitava-me mais tempo do que o permitido às moças que se resguardam. Era aquele tipo que me faz perder a vergonha: cabelo preto liso, pele pálida, jeito altivo e ereto de andar, como de uma nobre. Já estava imaginando ela me dizer que aplicaria a injeção na minha bunda - o que seria pervertidamente delicioso - e eu brincando com ela que esperava um velho barrigudo e bigodudo no lugar dela. Arrancaria certamente risadas da minha princesa, e após isso sabe-se lá o que mais. Quando percebi, entretanto, tinha voltado ao Planeta Terra e ela dizia que não poderia aplicar aquela injeção pois aquela farmácia não trabalhava com aquela associação (deve ser associação de remédios, suponho).

Não me frustrei. Já frustrei-me demais com mulheres para deixar algo assim ocorrer novamente. Sorri e fui atrás de outra farmácia. Nesta, ninguém menos me esperava do que nosso amigo velho, barrigudo e bigodudo, o Carlinhos.

Que deprimente é ter 18, quase 19, anos e ter de tomar injeção na bunda. O Carlinhos foi ainda mais safado:

- Deita aí.

Deitar? Como assim? Ele tá brincando comigo? Não...não estava, o velhote queria que eu deitasse.

Deitei, obediente, droga. Não consegui relaxar a nádega, o que me rendeu uma dor chata na musculatura da bunda, que ainda persiste agora, na minha linda nádega, comprimida nessa cadeira estofada da lan house, de onde vos escrevo.

Bem, falta apenas 2 minutos para acabar meu tempo, portanto, não deixo a vocês uma conclusão digna para esta "crônica". Saibam antes de tudo que uma sinusite aguda é algo chato. E que...ah, deixa.

Até mais!

21.7.07

ACM e minha vó

A humanidade ainda vai criar algo pior que o despertador. Para falar a verdade, se existir mesmo Satã e esse tipo de coisa, acho que a invenção mais sádica dele seria um despertador.

Pois foi com essa invenção diabólica que eu fui resgatado do meu profundo sono, às 11h de uma sexta-feira. Acordar é, para mim, uma das piores coisas do mundo. É como se te tirassem de uma piscina funda, quentinha, e te tacassem no Pólo Norte, pelado na frente de um urso polar. Como se eu estivesse nessa situação mesmo, meu coração pula de algo em torno de 50bpm para uns 130bpm. É por isso que o maldito do despertador me dá nos nervos.

Mas enfim, lá estava eu, acordado, pronto para mais um dia desses que o Sol nasce e se põe, os animais comem, respiram e procriam, as flores desabrocham, as folhas fazem fotossíntese, as abelhas espalham o pólen por aí, os carros andam, as pessoas trabalham, etc. Mas eu não. Eu me espreguiço demoradamente e saio do quarto. Misteriosamente, sinto vontade de ir à sala, onde há várias fotos da minha família. Estranhamente, detenho-me mais demoradamente na foto da minha avó. A Dona Anália era uma mulher baixinha, morena, de bom coração e boa mão para a culinária, enfim, uma vó perfeita. "Era" porque ela já está morta.

Por fim paro de olhar a foto dela, tentando lembrar dos momentos que passamos juntos. Ela morreu em 1996, ou seja, eu tinha 7 para 8 anos, época que não é lembrada com a maior clareza pela minha memória traiçoeira. Não tomo café da manhã, apenas me arrumo distraidamente para sair, pegar o ônibus e ir encontrar minha mãe no restaurante em que costumamos almoçar.

Ao encontrá-la, ela me dá duas notícias:

- O Antônio Carlos Magalhães morreu, filho.

Demoro alguns segundos para me tocar do que ela falou.

- MORREU?!
- Aham.
- HÁ!
- Hehe, todo mundo que ouve a notícia dá essa risadinha.

Nessa altura, já estamos acompanhados do namorado da minha mãe, um homem meio cabeça dura, mas bondoso:

- Não se deve rir da morte dos outros...
- Não, Benízio, é que ele se supunha tão grande a ponto de se achar imortal.

Aí minha mãe e ele começaram a discutir por causa de qualquer coisa como eles fazem o tempo todo. Eu estava pensando que o último Coronel do Brasil tinha batido as botas, quando a segunda notícia veio, era ainda minha mãe:

- Hoje sua avó faria aniversário, 82 anos.

Minha avó, a que eu estranhamente fitara a foto, um pouco mais cedo naquele dia.

- Nossa...

Procurei lembrar o que eu sabia da minha vó. Nascera na década de 20, na Bahia, em alguma cidade com nome engraçado e viera ainda moça para Rio Preto/SP, onde conhecera meu vô e tivera algo em torno de 11 filhos. Diabética, acabou falecendo depois de muitas internações. Foi a primeira vez que lidei diretamente com a morte, pois acho que o Ayrton Senna não conta...lembro que não tive coragem de vê-la no caixão durante o funeral. Não sei porquê. Minha madrinha havia falecido antes, mas eu devia ter uns 4 anos e não lembro de nada. Há não ser que me disseram que depois do funeral, no caminho de volta, dentro do carro, eu comecei a chorar e a dizer que a dinha estava com fome e frio.

Mais tarde, bombardeado pela TV com a notícia da morte do senador baiano, vim a saber que ele faria 80 anos em 2007. Quase a idade da minha avó!

Duas pessoas nascidas no mesmo estado, sob a mesma cultura e costume e mortas praticamente pelas mesmas complicações. E caminhos tão diferentes! Uma resignou-se à pobreza, à vida de esposa forte que ditava as regras dentro de casa, cheia de filhos e trabalho, vida dura e restrição. A outra, um homem duro, mandão, político até os ossos, dono de quase tudo na Bahia, governista, opositor.

Minha vó era amada por todos na vizinhança. Minha mãe conta que muita gente na cidade vinha se aconselhar com ela, ouvir o que ela tinha a dizer sobre seus problemas, ser consolado, trocar receitas, etc. ACM também tinha muitos "fiéis" em seu reduto político. Talvez apesar da diferença gritante, não fossem diferentes. Mas ACM era homem inescrupuloso, ao passo que minha vó era a típica cristã virtuosa. Dois baianos ligados por uma coincidência tola, mas que, ao seu modo, podiam ter o mundo à mão. O político de modo material, e minha vó através do coração das pessoas.

Mas enfim, que se dane ACM, ele jamais fez eu amar a vida por causa de simples bolinhos de chuva.

Parabéns, vó.
Adeus, ACM, que o Satã do despertador se cuide.

18.7.07

Persona

Estudar o que é, de onde vem, para que serve e de que maneira se dá a personalidade é um dos aprendizados que tive nesse semestre que passou no curso de Direito.

Logicamente eu já não lembro a explicação didática dessa merda - nunca lembro - mas sempre mantenho comigo uma noção, algo como uma forma de bolo, que dá forma ao bolo (!) mas que não é necessariamente o bolo, enfim, o necessário para que eu entenda o sentido de personalidade (já vi que vou me ferrar na OAB).

Nunca imaginei, entretanto, que livros pudessem ter essa relação de personalidade comigo. Como coisas de papel sem vida podem adquirir uma personalidade?

Não uma personalidade legal, passível de direitos na Constituição. Don´t be fool. Mas sim de uma espécie de ... caráter. Os livros têm caráter. Têm personalidade. Dialogam comigo e demonstram isso.

Nem todas as pessoas são capazes de ver um livro como um ser. A maioria nem perde tempo em se entreter com suas linhas, e grande parte da minoria mantém apenas relações profissionais com os livros. Há algumas pessoas, porém, que ao tocar num livro, permitem-se ser abduzidas a um mundo desconhecido, paralelo à realidade mórbida, extensão sem limites de uma simbiose entre a capacidade do escritor e a imaginação do leitor, capazes de elevar ou deprimir o espírito humano. É um poder incomum e, portanto, não devemos ignorar que os livros têm, obviamente, uma personalidade.

E cada uma se dá de uma maneira diferente, tal qual é entre os humanos. Cito aqui, como forma de demonstrar isso, 5 livros que marcaram minha vida, pelo menos até onde ela tem me levado até agora:

1. 1984
2. Um Estranho Numa Terra Estranha
3. Crime e Castigo
4. Dom Casmurro
5. Cem Anos de Solidão


Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, foi o livro mais recente que li e já de cara figurou entre os cinco primeiros. É todo envolto num aspecto latino, e se tivesse cara, teria pele morena, bigode preto grande e olhos de malandro. Apesar disso, é de uma índole tão amarga e exasperada, que só de olhá-lo já se teme o tempo e a tristeza. "Histórias tristes dão bons livros", disse Soraya em O Caçador de Pipas.

O livro seguinte, Dom Casmurro, além de clássico do mestre Machado de Assis, o qual admiro por toda a sua ironia e escrita realista, foi muito revelador a mim no modo como se deve encarar alguns aspectos da vida, ou ao menos como se deve encarar uma mulher com olhos de ressaca. Sua personalidade é a de um advogado mal-engravatado remoendo a dor de não poder suportar a vida e a própria consciência, pois tudo perdeu o sentido. É insuportável e sufocante. Não recomendo que cheguem perto dele a menos que saibam como lidar com ciumentos inseguros.

Bem, Crime e Castigo dispensa comentários, pois já falei dele há alguns posts atrás. Basta saber que ele é do tipo que deixa as pessoas loucas, sem falar do seu olhar frio de assassino.

Um Estranho Numa Terra Estranha é de longe o livro mais divertido e acolhedor que li em toda a minha vida. Como um abraço sincero, esse livro é do tipo que acalenta o deslocamento que as pessoas sentem em relação ao mundo, mostrando que elas podem ser algo. Como um pai paciente, dá a idéia de um mundo que jamais veremos. E faz chorar qualquer pessoa com a simples visão de um...gafanhoto.

Por fim, chegamos ao primeiro da lista: 1984, de George Orwell, um livro que é como um grito sufocado durante séculos, um alívio de uma opressão descomunal, uma liberdade gozada falsamente, ele é toda a revolta do mundo até o momento em que simplesmente decide pisar em nossas cabeças e nos deixar completamente desolados, tristes com o mundo. É um livro perigoso, carregado com uma Kalashnikov ao mesmo tempo em que sorri e oferece rosas ao leitor. Um sorriso de engano, que sempre é desfeito na sala 101.

Há muitos outros livros que significam algo para mim e que agiram diferentemente comigo, conforte meu estado de espírito na época e a capacidade deles de me oferecer um ensinamento. Todos porém, tinham garantido meu mais alto respeito, que sempre vi nesses pedaços de papel, tão frágeis e suscetíveis de desgate e destruição, por fogo, tempo ou traças, mestres enclausurados, dispostos a esperar por alguém a quem pudessem transmitir seus conhecimentos. Eu fui essa pessoa. Deixei me absorver em cada letra e linha dos livros, do momento em que abria suas páginas ao momento em que as fechava, soltando um suspiro de tristeza por ter acabado ali, ao virar a última página e ver o último ponto final, os ensinamentos que mais profundamente penetram na minha mente, para nunca mais se diluírem, sejam formas de bolo ou não

13.7.07

Oh shit!

Murilo diz (13:47):
a luana dizem que virou biscatinha.. sei lá

(imaginem o "duh" do Homer agora)

10.7.07

Meninas que me amaram, sabe-se lá porque

Tempos atrás fui levado a recordar minha infância enquanto assistia, junto de minha amiga Thais, a uma quadrilha dançar numa quermesse de Igreja aqui em Londrina - por falar nisso, faz uns 5 anos ou mais que não ponho os pés numa Igreja.

Enfim, voltando à lembrança: enquanto admirava as crianças executarem desajeitadamente os passos da quadrilha, lembrei de quando eu tinha uns 5 ou 6 anos e estava na pré-escola, o prézinho.

Havia uma menina, a Bruna, loirinha, magrinha, cara de anjo (ou nem tanto). Ela era a menina mais cobiçada pelos meninos da turma. Não que ela fosse bonita, não imagino que pentelhos de 5 anos tenham senso de estética (e eu duvido muito que tenham adquirido agora), mas, sabe-se lá porquê, os pirralhos e eu adorávamos a loirinha com cara de paquita.

A disputa por ela era tão acirrada quanto a que os adultos realizam por mulheres bonitas hoje em dia, mas ninguém puxava o tapete de ninguém, éramos inocentes e jogávamos pelas regras (o mundo podia ser meio criança...).

O ápice dessa batalha pela mão da princesa Bruna chegou no Dia dos Namorados. Eu não sei por que cargas d´água crianças se presenteiam no Dia dos Namorados, mas vejamos, anos 90...a Xuxa já tinha feito vários estragos na juventude, era irreversível.

Tive a ajuda de minha mãe e minhas 2 irmãs para presentear a Bruna. Como elas são muito românticas (ah descobri porque eu sou assim então!), me fizeram dar uma flor a ela. Era uma rosa. Uma singular e singela rosa bonitinha, daquelas que cativam qualquer mulher respeitável.

Com vergonha, entreguei o presente a ela, sob o olhar atento de todos os concorrentes e os olhares invejosos e ciumentos das outras meninas. Mas...seria pretensão demais pensar que só eu entregaria presentes para a Bruna.

Havia um menino metido, loiro, fortinho, odioso (Jesus, meu pré é um prato cheio para psicólogos) que dera um anel a Bruna! Ora! Como competir com um anel? Eu com certeza fora massacrado naquela luta. O cara era rico e eu só um pobre apaixonado.

Mas "os últimos serão os primeiros", diz o ditado popular, e a resposta dos meus esforços veio algum tempo depois, na formação dos casais que iam dançar na festa junina. Adivinhem com quem a princesa Bruna quis dançar? Ahá! Comigo, lógico. Ela quis ser o meu parzinho.

Enfim, dancei com a Bruna, a loirinha era minha, eu era o pequeno macho dominador do bando. E ela acabou sendo minha namoradinha. Isso só serve para mostrar que leoninos são burros, é...

De qualquer maneira, essa história não é feliz. Ela não serve para mostrar que eu consegui conquistar - ainda que não tivesse nenhuma intenção clara quanto a isso - a loirinha. Porém, vem mostrar como fui cego e como, às vezes, continuo sendo.

Alheia àquele movimento todo de conquista pela loira, estava uma morena, bem branquinha (meu tipo favorito hoje em dia...droga, mais matéria para uma terapia!), a Luana, uma menina simples, que era diferente das outras meninas, ela não era fresca e boba, ela gostava de brincar com os meninos, era travessa (ela vivia chegando com hematomas nas pernas de tanto aprontar...nossa, ou será que ela sofria violência dentro de casa?! MEU DEUS!) e...gostava muito de mim.

Minha mãe a amava, ficava indignada que eu gostasse da loirinha feia super cobiçada e deixasse de lado a morena bonitinha super gente boa (acho que aqui a terapia ia ser para minha mãe hehe). Eu achava tudo isso uma besteira. A Luana para mim era feia e desinteressante. NAQUELA IDADE. Pois agora vejo que eu devia ter dado em cima dela.

Ora, fiquei caído pela loirinha pois era a presa favorita do bando, e mal dei conta da moreninha simpática que vivia querendo estar ao meu lado. A bomba devastadora que causou a culpa veio anos mais tarde:

- Sabe quem vi hoje, filho, no calçadão? A Luana, lembra? Do prézinho, que gostava de você, nossa, ela tá super linda!

BURRO, BURRO, BURRO!

C´est la vie. O que eu não daria hoje para ter aquelas histórias de cinema. Tipo conhecer uma menina super bacana, passar o dia com ela, me apaixonar e descobrir que ela é a Luana! Haha. Tá, tá, impossível.

Luana se por acaso você estiver lendo isso, entra em contato comigo! (não custa tentar).

Agora vê se abre os olhos, seu demente!

7.7.07

Entre um gole e outro

Ultrapasso a precária cortina que separa o bar do banheiro. Levemente cambaleando, dou um safanão no interruptor de luz, acendendo a luz do banheiro. Os movimentos são ligeiros e lépidos, quase teatrais: bate-se a porta. Olha-se para o vaso. Abre-se o zíper. Mira-se. Mija-se. Guarda-se. Dá-se descarga. Sente-se calafrio na espinha. Fecha-se o zíper. Reabre-se a porta. Lava-se a mão. Volto à mesa.

Mesa...banheiro...álcool. Ocorre uma introspecção. A cena tem sido comum. A vida é nova, e traz essa situação mais que freqüente.

"És um universitário, não se preocupe, é exatamente isso que tem de fazer".

Esfrego os olhos na mão. Sexta, sábado, domingo, terça, quinta, sexta. E ainda terá sábado, domingo e terça que logo virão. "É só acabar as aulas e você enfia o pé na jaca dessa maneira? Cerveja custa dinheiro, rapaz".

"Que seja. É bom! Me anima."

"É sempre o que quis, não?"

Hum, mais de 50 postagens no blog. Momentos intimamente relacionados à minha vida. Está tudo ligado. Zaratustra tem me ajudado a presenciar e entender muitas coisas.

De um começo esperançoso, ligado à expectativa de passar na USP, à transformação completa de um menino bobo que sofria por causa de um namoro fracassado a alguém que tomava consciência, enfim, de uma vida nova e a vivia por completo. Esse é o trajeto que segue esse blog, por enquanto. É a linha vestibulares-mudança-fim de namoro-sofrimento-vida nova.

E tudo isso tem sido extremamente ótimo. O aprendizado e tal.

Esfrego as mãos nos olhos novamente. Comigo estão pessoas mais velhas, uns já terminaram o curso, outros ainda o fazem, sou o mais novo, sem dúvida. É um encontro de orkut, o orkontro. Ouço histórias divertidas, atentamente, não tenho lá muitas histórias para contar. Sou um "galho verde", mas sorrio atenciosamente.

No dia anterior, eram dois rapazes, rockeiros, amigos, num restaurante caro. No dia mais anterior ainda, mais pessoas de internet, numa boate "meio" gls. Ainda havia a festa do curso, ou ainda a festa caipira, tudo, todos, muitos. A variedade de opções e de modos de vida me faz regozijar: a vida é interessante.

"Não quero mais voltar a Rio Preto", digo a amigos em Londrina, casualmente. Encontro respaldo na voz de alguns, o que será que estarão vivendo para pensarem o mesmo? E pensar que alguns meses antes eu pensava em abandonar a pequena Londres e tentar USP de novo. Persistência. Coisa que só aprendi a ter agora.

Retiro a cerveja do suporte e aperto a campainha que alerta os garçons (coisas de Londrina). Não preciso verbalizar o desejo, a esperta garçonete já traz, sabiamente, a próxima cerveja, gelada, à mão, repondo nosso "combustível".

E no dia seguinte se acorda tarde. Boca seca, estranho cansaço, cabeça pesada, mas mente leve. As aulas acabaram, só resta uma prova, logo você estuda para ela, vai, agora simplesmente aproveite. Viva essa vida que você ganhou por mérito. O fígado agüenta, relaxa.

Essa vida que caiu em seu colo por graça.

E, revirando na cama, pensando que um abraço seria bem-vindo, penso que a vida é boa, porém cheia de desejos impertinentes.

Vai um gole?

3.7.07

Rodka = Victor

O livro grosso, de capa dura azul jaz aqui, ao lado e abaixo da tela do computador, entre tantos outros livros, uns de Direito, outros de filosofia, alguns romances e dicionários.

Pegando-o mais intimamente, observa-se na capa desenhos de contorno dourado que contrastam sobriamente com o fundo azul escuro, seu formato origina prédios que de cara revelam a arquitetura russa. Tal qual o Kremlin.

Acima desses desenhos aparece escrito:

DOSTOIÉVSKI
CRIME E CASTIGO

O romance mais popular desse escritor russo realista do século XIX.

Mas a vista do livro não basta. Começo a lembrar da história.

Rapaz jovem muda-se para longe de sua família para estudar Direito, em meio a uma cidade empoeirada pelo progressismo e positivismo sem limites de sua época, acaba-se às voltas com uma situação em que fica sem dinheiro e nas mãos de uma velha usurária. E adiante a história ganha corpo...

Ora, não é de hoje que me identifico com Rodion Romanovich Raskolnikov, o Rodka. De fato, um dos grandes motivos de eu ter decidido fazer Direito é este personagem, em que eu me reconhecia, apesar de todos os males por ele cometido.

E agora aqui nossas vidas vão se afunilando também, Rodka. Vivo nesse lugar frio e poeirento que é a casa da dona da hospedaria, e vivo às turras com essa velha desocupada,
nessa cidade celebrada por um desenvolvimentismo de araque, porém agradável. Rodka também dava suas escapadelas na famosa rua...na famosa rua que sempre aparece nos romances de Dostoiévski.

Mas mantenhamos distância, Rodka. Não pretendo assassinar ninguém e, tampouco, considero-me um gênio licenciado pela humanidade para matar
. Nesse ponto sou mais cauteloso e inteligente que você, amigo.

Estou muito, muito longe do Gulag. E aproveito isso enquanto puder.