22.6.07

O Teatro Revela o Mundo

Durante o mês de junho ocorreu em Londrina o Festival Internacional de Teatro (FILO), que, assim como o Festival Internacional de Rio Preto (FIT), que acontece em julho, recheou o mês todo de opções de entretenimento nos diversos teatros e casas culturais espalhados pela cidade.

Assim como qualquer estudante normal, a restrição orçamentária não me possibilitou ver muitas peças, mas as que eu conferi (4 ou 5 ao todo, a R$5 cada uma), deram-me uma profunda dimensão de "como está" o teatro atualmente.

Por ser um evento internacional, é natural que se distingüa mais naturalmente as peças internacionais das nacionais, dissociação que me deu a noção da dimensão supracitada.

O fator mais importante dessa dissociação é que ela não diferencia só o teatro em si, mas traz carregada em si toda uma divisão de forças geopolíticas do mundo, divergências culturais que afastam, em muito, os pólos norte e sul do globo.

O que dizer das peças internacionais? Eu, por mais leigo que seja no assunto teatro, tenho em mente que o teatro europeu era aquele profundamente engajado em questões sócio-políticas. Mas me enganei. Onde estava o teatro crítico nesse festival? Talvez os organizadores o tenham temido, talvez ele não exista mais. As peças internacionais que presenciei traziam em si uma forte carga visual. Notoriamente possuíam ótimo patrocínio e apoio, pois a aparelhagem de que dispunham era enorme e tecnicamente perfeita. O apelo aos recursos visuais davam um tom todo especial às peças, encantavam, mas...é papel do teatro utilizar-se de meios propriamente ditos do cinema e outros? Papel. Objetivos totalmente subjetivos. Era um paradoxo em tanto encontrado nas peças de além-mar: atuações carregadas de elementos circenses, exagero proposital na surrealidade e uma sensação de que não havia nada a dizer ao público.

Tem o teatro atual a missão de passar alguma mensagem ao público? Não sei. Sei que os gregos o faziam, e acho inteiramente certo. Sempre vi o teatro como a última fronteira entre a alienação e o senso crítico. O limiar da inteligência humana, totalmente intocado pela sanha do capitalismo de fazer valer seus esforços na indústria de entretenimento. Nesse aspecto, as peças internacionais me desapontaram imensamente. Pois de seu dadaísmo massante só pude extrair que o diretor e a equipe a ele obediente deviam usar lsd. E olha que quem diz isso é uma pessoa que adora abstrair.

Contraponto interessante a toda essa subjetividade, foi o papel que as peças nacionais impuseram ao festival: seguindo aquela tendência de Nelson Rodrigues e afins, seus temas que poderiam ser tomados como corriqueiros e simples, ganhavam uma dimensão muito maior, e, aí sim, passavam algo de interessante ao público, como belas crônicas. Temas como morte, política, família, propriedade, história, etc, marcadas pela falta da parafernália que as peças internacionais dispunham, cobravam muito mais dos atores, o que dava realmente sentido ao espetáculo.

Norte rico e sul pobre. Divisão que marcou os mapas por muito tempo. Ainda marca, mas já com a tendência de se reverter, pelo menos por parte dos BRICs daqui algumas décadas. A Europa era o caldeirão fervilhante das idéias políticas e olha o que se tornou agora...um bando de pseudo-nazistas que temem imigrantes do Terceiro Mundo. A Europa perdeu o brilho e a identidade, e seu teatro reflete isso. Fogem em direção a uma realidade paralela, para resguardar a glória de outrora, e não mais tem aquela coragem de expor ao mundo idéias clássicas. Seu teatro é enfadonho e puramente comercial. Surpreende pela beleza das imagens, mas na hora de satisfazer um raciocínio, esbarra na subjetividade que resulta num relativismo de compreensões. Em Rio Preto evitarei de ver qualquer peça internacional bizarra.

No mundo dos bárbaros, a criatividade jorra. A apreensão de um mundo muito mais competitivo, violento, de simbologias pagãs mais marcantes e diferente da mesmice do primeiro mundo faz com que desponte aqui, "embaixo" do mapa, um vigor que faz, pouco a pouco, desmoronar os alicerces que compõem o mundo caduco em que vivemos, influenciado pelo norte.

Então, que se preze a cultura nacional, que por mais simples que possa ser, há de ser ainda valorizada e admirada por aqueles que a denigrem, pois é em sua modéstia e singeleza que se encontra respaldo para encarar a complexidade de formas podres e desafiadoras presentes por aí, prontas a nos confundir.

Um comentário:

Griet disse...

Gostei muito muito da sua visão das coisas.

;)
Eu não assisti nenhuma gringa este ano...