24.6.07

O Dia em que conheci Sybil Vane

Desligo o chuveiro, recebendo as últimas gotas de água fervente a escorrer pelo cabelo molhado. Imerso em pensamentos inúteis, apenas vou seguindo movimentos adestradamente mecânicos: pego a toalha, enxugo-me, visto-me e me arrumo. A vistoria para ver se não esqueci o ingresso, a chave ou qualquer outra coisa é também puramente mecânica. Decido não levar celular nem carteira, vou andar pelo centro e sabe-se lá o que me traz cada esquina escura. Precauções de alguém já muito assaltado.

O ônibus demora como de costume. Os pensamentos que nessa hora de silêncio tenho - em meio à barulheira dos carros que passam ao lado do ponto - não são recordados jamais. São lixo, pois apegados àquele momento em particular, e por demais inúteis.

O ônibus lotado vem, parte, sacode. Deixa-me onde tem que deixar e então sigo andando. A visão me engana, juntamente com a fobia: dois negros conversam numa esquina. olham-me Mas passo por eles sem maiores problemas. Uma olhada para trás para certificar-me, no máximo, vamos, siga em frente.

A Casa de Cultura se revela logo ali à frente, denunciada por uma modesta fila de pessoas encostadas à parede. Teatro. O ingresso de que não me esqueci é para o teatro. Esta noite é noite de teatro.

A peça? Círculo de Giz Caucasiano, brechtiana.

- O fim da fila é aqui?, pergunto, lembrando da música da minhoca.
- Sim!

Encosto também à parede, com cara de poucos amigos. Muitas pessoas reclamam e receiam-me por causa dessa cara. Acham que vou atacá-las ou algo do tipo. Queria que soubessem que isso é o maior dos enganos. Mas talvez isso seja apenas reflexo do fato de eu estar desacompanhado.

Smack. Smack. Smaaaaaaaaaaack. Olho de esguelha para a moça à minha frente, a que perguntara sobre a fila, e seu namorado. Dão selinhos um atrás do outro. Um, dois, três, dez, vinte. Riem. Falam algo. Voltam a dar selinhos barulhentos e pegajosos. "QUEREM POR FAVOR PARAR COM ISSO?", penso. Acabo ficando incomodado, sem saber porquê, e começo a tentar me ajeitar na parede, sem sorte.

Desde quando fiquei assim tão insensível, ora, dê um tempo a eles, Victor.

SMAAAAAAAAAAAAAAAACK. "Mas que chatice! Por que não variam um pouco?". Percorro os dois com os olhos, de cima a baixo. A menina gorda, o cara feio. Começo a sentir um certo asco. Coisas de esteta.

Ah sim, "esteta". Serei mesmo um esteta? Vou saber logo mais.

A fila resolve me dar algum alento e começa a se mexer, indicando que abriram as portas para o público entrar. Finalmente vou me livrar do casal insuportável! Entrego meu ingresso e fico apreensivo. Nunca sei se devo mostrar ou não a carteirinha de estudante. Bem, os funcionários não fazem questão, então sigo sem me preocupar, já que ninguém chamou minha atenção.

Uma primeira olhada no espaço onde foi montado o palco e a arquibancada revela, de cara, uma certa pobreza e falta de aconchego. Certamente ali não era um teatro, mas um espaço arranjado especialmente para a peça em questão. Resolvo ocupar a fileira mais alta, de modo a ter melhor visão, e assim me posiciono. Mais uns três minutos e todos se posicionam. Ao quase apagarem as luzes, uma mulher gorda e peituda atravessa a frente da arquibancada correndo, se esbaforindo e rindo. A cena arranca risos malvados da platéia. Rio da inconveniência.

Um sino toca e a peça começa. Minha atenção...esperem, antes preciso dizer sobre esse meu dom.

Eu tenho uma capacidade estranha para perceber a presença de pessoas bonitas num local qualquer em que eu esteja presente. É quase como um radar. Por mais que a pessoa esteja afastada de mim e atrás, vou com certeza sentir algo estranho e me virar, olhando bem direto a ela.

E o radar agiu aqui, também, na peça. Após o sino tocar, vários atores entraram no "palco". Inicialmente ocultada, Sybil Vane logo foi pescada pelo meu dom.

Cabelos loiros, não, dourados, reluzentes como um trigal, sim, cor de trigo, fazendo uma ponte com a natureza. A pele alva, brancamente limpa, era ressaltada ainda mais com a luz incidindo sobre ela. Vestia uma roupa de criada, ou camponesa, não sei dizer, daquelas do século XVIII. "O-o-ora", penso. Passados alguns segundos em que ela olha, sorridente, de um lado a outro do palco, ela fala, com uma voz meio estranha, introdutória:

- Não se deve misturar vinhos diferentes. Entretanto, a sabedoria antiga e a nova casam-se perfeitamente.

Após isso, sentam-se de costas à platéia e olham para um telão, que começa a passar um curta metragem, falando sobre uma situação de disputas de terra na Geórgia, após a Segunda Guerra Mundial, e traçando um paralelo com o MST, no Brasil.

A peça então começ....

Como assim eu não disse quem é Sybil Vane?

Ah, ora, leiam O Retrato de Dorian Gray e descubram! Brincadeira. Sybil Vane. Sybil era uma atriz. Dorian, aquele que só envelhece no retrato, ao ir ao teatro, apaixona-se por ela, porém...

Onde eu estava? Ah sim, a peça começou. Não vou dizer como era a peça, mas, Sybil Vane (Gruxa, na peça) entra em ação e...

...Pórem Sybil Vane era uma atriz patética e uma menina ingênua.

...E minha atriz dos cabelos de trigo era rouca e péssima atriz!

Mas que pena senti. O que deve ser a dor de uma atriz, que além de tudo tinha que cantar, ficar rouca bem durante a execução de seu trabalho? No entanto, que horror! Cadê a convicção dessa mulher no papel que faz?

Vejam só, a esteticidade tem seus limites, que condizem com a perfeição, pois beleza não é tudo. Há outros atributos encantadores.

A peça tomou rumos enfadonhos, sem objetividade, massantes, que me fizeram quase repensar o post passado em que falo sobre o teatro nacional. Além disso, tinha 3 horas de duração, o que me fez não ter arrependimento nenhum de ir embora durante o intervalo.

Ah, sim. Há a cena em que a atriz dá de mamar a um boneco e tira o seio para fora. Que fique registrado que foi o seio mais bonito que já vi na minha vida (não que eu tenha visto muitos), mas fica a questão: por que algumas peças de teatro apelam ao nudismo? Em algumas peças soa como arte, em outras, uma tentativa desesperada de chamar a atenção do público. Só sei que o gay sentado na minha frente soltou uma risada de desdém durante a cena.

Então fui embora. Decepcionado. Sybil Vane decepcionou também Dorian Gray, mas penso que, como ele, acabei ficando meio insensível.

Enfim, ainda não tenho um amigo devasso chamado Lorde Henry.

É tudo como numa busca sem fim. E ela continua...com seios bonitos ou não.

3 comentários:

maila ;D disse...

fazia tempo que eu não vinha aqui...

beleza não é tudo, mas vai dizer q vc reparou na feinha que fazia o papel de sei lá o que, com grandes dotes artisticos
;)

aiai
***:
ah sim, silicone!

Marcello disse...

Putz... eu tava conversando HOJE sobre teatro e também foi comentado sobre o apelo pornográfico... estamos todos notando isso /o/

Mas decepções são normais.
;***

karen disse...

eu ia no teatro hoje, mas não fui. preguiça.