16.6.07

Maquiavel vencido por Tico e Teco

Lá vou eu me embrenhar no desconhecido. Quem lê esse blog sabe que eu não sou de fazer isso: escrever crônicas, mas umazinha não deve fazer mal nenhum, né...?

Acontecimentos do cotidiano também merecem a devida atenção, são eles as peças fundamentais de um todo complexo, partes de algo falado de modo generalizado. Por isso merecem atenção. Explicar o todo pelas partes, ou as partes pelo todo, isso é matéria de algum assunto filosófico que me escapa à memória agora.

Bem, lá estava eu, 7:35am, ouvindo o alarme do relógio desgastado - bota desgastado nisso, o coitado é o produto pirata mais duradouro do mundo - despertar insistentemente e atormentar meu sono tão gostoso. Acho que ninguém nunca me verá acordando prazerosamente a essa hora, por mais que eu dormisse às 9 da noite, essa hora é desumana, ou talvez só seja pelo fato de que eu durmo a 1 da matina. É, acho que é por isso.

Pois bem, o relógio despertou, digo, eu despertei, ou quase, pois nesse dia a mais massacrante preguiça tomou conta de mim. Incrível como o cérebro pode ativar rapidamente neurônios para salvaguardar seu descanso: imediatamente arquitetou um plano para que eu deixasse de ir a aula e não sentisse remorso por isso. Conseguiu, afinal, sou seu escravo.

Não sentir remorso é um pouco de mentira. Quando isso acontece (e esses dias têm se tornado freqüentes demais para meu gosto) meu dia necessita rapidamente de atividades vespertinas para gastar a energia poupada pela manhã. Caso contrário, sou tomado do mais profundo tédio que vai me dizer: "filho da puta, não pode faltar da porra da faculdade, é seu emprego no futuro!". Ok, ok, vamos lá fazer algo à tarde, algo legal, algo de adulto, já que vivo sozinho tenho que fazer algo de adúltero, digo, de adulto. Vamos...ao supermercado. Sim, ao supermercado, fazer compras!

Bem, espero que ninguém estranhe o fato de que eu converse comigo mesmo.

Pois então lá fui eu, primeiro almoçar no RU (ir à universidade só para almoçar é realmente o cúmulo, mas comer miojo uma hora cansa) e depois ao supermercado.

Mas espera...por que a ênfase no supermercado? Não é disso que quero falar. Tinha um supermercado no meio do caminho, no meio do caminho tinha um supermercado, mas depois de um tempo o supermercado era passado, as compras haviam ficado por lá mesmo, eles entregariam em casa (maldição não ter carro) e apenas os frios e congelados me acompanhavam na jornada de volta à casa.

Esperar um ônibus. Taí coisa a que já me acostumei. É tão simples. Você pára perto daquela coisa metálica, onde o banco é mais desconfortável do que ficar de pé, e então simplesmente espera pelo dito cujo, enquanto deixa os pensamentos rolarem. Pode ser a agenda do dia, uma memória qualquer, uma teoria filosófica, ou o caralho a quatro, esperar ônibus e lavar louça são as atividades de ócio filosófico do mundo pós-moderno.

E lá vem o derradeiro. Aqui em Londrina os ônibus são todos amarelos. Que coisa mais esdrúxula. O amarelo é uma cor que enjoa, não tem nada de agradável nesse ônibus, a começar pelo preço...enfim...sento no fundão, acompanhado das sacolas. Do lado direito, um garoto de gorro, cara de mau e fones de ouvido a cortar-lhe o laço com o mundo ao redor (é a forma de autismo mais perfeita socialmente aceita), do lado esquerdo, uma loira aparentemente quase trintona muito bonita e...voluptuosa (esta crônica não pretende ser vulgar hehe), mais à esquerda ainda, três meninas, amigas entre si, que serão as "protagonistas" dessa crônica, ainda que eu prefira vê-las como vilãs de uma tragicomédia.

Sai o ônibus na sua trajetória de volta ao terminal urbano. Mais pensamentos solitários, mais indagações, mais teorias, mais remoimentos (se é que essa palavra existe) e alguns risos. Dois males meus: pensar demais e rir sozinho em locais públicos, é que eu costumo lembrar muito de piadas e situações engraçadas nesses lugares, fazer o quê. Mas bem, cansado de estar inserido na minha concha, decido dar uma saída e prestar atenção ao meu redor, ou então foi o redor que chamou minha atenção, isso pouco importa agora, o importante é que passei a notar a conversa das três amigas que estavam à minha esquerda.

Notoriamente trabalhavam em alguma loja, pois estavam com um tipo de uniforme e aquele jeitão displicente que só as balconistas possuem (TPM ou ódio de classes, o que é a falta de educação dessas pessoas?). Faziam a coisa mais óbiva que se podia esperar delas: fofocavam sobre a vida alheia. Peguei a conversa nesse ponto:

- Sim, eu não quero nem saber, não descanso enquanto não ferrar a pessoa...não páro quieta!, disse uma, que devia estar se referindo a algo que a fazia sentir raiva
- Ai eu também sou assim, disse a outra, sem nada melhor a acrescentar
- Ah, eu também. Sou totalmente maquiavélica, disse a terceira, arriscando.
- "Maquiavélica", que isso?, perguntou a primeira.

Aqui, se meus ouvidos tivessem alarme, iriam sair apitando como se estivessem na Argentina de Ménen ou num jogo de futebol, apurei ainda mais a audição:

- Assim, ser maquiavélico é quando alguém faz algo de ruim pra você e você devolve isso pra pessoa três vezes pior! É ser bem ruim!

Não podia ser!!! Eu queria me tacar da janela naquele mesmo momento, seria um imenso favor se as rodas do ônibus passassem em cima do meu cérebro esmagando meus miolos e me impedindo de ouvir tamanha ofensa ao coitado do italiano! A ciência política jamais será a mesma. Bem, já que ainda tenho algum sentido de preservação da vida - mas não da paciência - continuei a ouvir. A essa hora eu já estava meio descaradamente olhando para elas e outras pessoas também, mas de soslaio.

- Ah, entendi. Não sabia disso não.

A loirinha com cara de biscate que fez a excelente definição do que é ser maquiavélico, prosseguiu, dando agora continuidade ao seu brilhantismo e expondo o problema ao caráter empírico, prático, mas tenho impressão de que ela fez isso sem querer:

- Por exemplo, teve uma vez que eu tava namorando, e surgiu uma guria, nossa, aquela filha-da-puta, ferrou meu namoro - ela estava falando muito alto, todos podiam ouví-la - ela ficou com meu namô! Vadia. Mas eu não deixei barato, não, fui lá, descobri onde ela morava, qual era o orkut dela, vi que ela tinha namorado e tudo...há! Sabe que que eu fiz? Conheci o namorado dela, fiquei com ele, aprendi a dirigir no carro DELE, botei uma foto no meu orkut com ele dentro do carro dele e mostrei pra ela, fiz aquela sonsa de otária e tudo, pra ela ver o que que é bom pra tosse.

Era o bastante para mim. Nessa hora eu já estava quase saindo do meu corpo de tanta ignorância alheia. Peguei-me olhando para o teto do ônibus e implorando para sair dali rápido. Percebi que outras pessoas olhavam para a menina agora com um olhar incrédulo. A gost...a loira ao meu lado também parecia estar na mesma situação que eu e, por vezes, os nossos olhares se cruzavam como se dissessem: "eu não acredito...". Tá, não sei se realmente se cruzaram, mas ela também estava incomodada com a loira biscate maquiavélica.

Feliz era o autista do fone de ouvido ao meu lado, não ouviu nenhuma daquelas babaquices. Bem, talvez estejam pensando que estou exagerando, mas não. Vou explicar.

Não chego a ser misógino, mas algumas características que se encontram mais comumente em mulheres me desagradam profundamente. Vejamos o caso da nossa estudiosa do autor de O Príncipe: uma pessoa sem cultura, mesquinha, de inteligência curta e com falta de compreensão do mundo. Não me interessa que ela seja burra, E ELA É. Muita gente nesse país não tem acesso à educação, infelizmente. Mas o fato de ser mesquinha e ter realizado as coisas que realizou, é próprio de uma mulherzinha da mais fula, aquele tipinho que não vale o que o gato enterra.

Ah, Maquiavel, você foi o que mais alertou o mundo contra o perigo que uma mulher pode representar. De fato, o potencial feminino é conhecido por todos, melhor não atravessar o caminho de uma quando está enfezada. Mas...essa é realmente mesquinha. Olhe o que ela considera vingança. Olha com o que ela ocupava o tempo dela. Olha do que ela se orgulha e brada aos quatro cantos do ônibus!

É tudo tão pequeno nesse mundo, cadê o senso de grandeza das pessoas? Se tudo fosse mais teatral, talvez a vida fosse melhor...

E a viagem de ônibus continuou, por mais alguns intermináveis e torturante minutos, enquanto as três figuras se detinham a falar mal de alguma menina que trabalhava no Carrefour, inclusive com uma espécie de preconceito com os funcionários de lá, o que mexeu com a loira ao meu lado, que parecia já ter trabalhado lá, segundo a ouvi comentando com as três patetas.

Espero que o italiano não tenha se revirado muito no túmulo, ofendido pelas pessoas que não sabem que vinculam seu nome a um estado de espírito calculista, amoral, teleológico. Saberiam as meninas dizer o que é "teleológico"? Conhecimento é tudo. Contatos sociais também. Uns têm um, outros o outro. Será que elas se acham felizes?, pergunto-me. Provavelmente elas trepam bastante e acham que está tudo certo por aí.

Cheguei em casa acabado. Supermercado ou sensação de solidão num mundo ignorante, o que cansou-me mais? Alguém responda o eco desse sobrevivente frustrado!

E, abastecido na despensa, pude voltar à tarefa do pensar-contínuo e eterno. Pelo menos com cerveja para beber aos sábados.

Um comentário:

Vinícius disse...

Acho que você não pode culpá-la. No meu entendimento esse sentido dado à expressão é resultado da avaliação feita pelos reis e rainhas da época do nobre escritor, tão fiel a verità effettuale della cosa, coisa que os próprios monarcas se recusavam a reconhecer.

Tanto é assim que, por causa disso, um dos nomes pelo qual o "coisa ruim" é reconhecido em Inglês é "Old Nick".