28.6.07

Filho de peixe...

- Habermas procurava resgatar uma racionalidade adormecida no homem...

Assim falava o professor de Ética, numa terça-feira modorrenta, em que me pesava o fato de ter tido duas aulas de lógica mais cedo e de ter ficado sabendo que ficaria de exame.

- ...uma racionalidade comunicativa, que visa desenvolver a linguagem, pois a linguagem não é só o falar, as palavras...

Era impossível, para mim, prestar muita atenção ao que ele dizia. Esse é um problema do cara. Cabeça boa, afinco, inteligência, paixão pela profissão. Mas um falar muito cadenciado. Digo...é um tagarela. E as palavras dele, por mais expressivas e sábias que sejam, sempre me levam a ficar pensando naquela menina bonita que vira no intervalo ou em qualquer acontecimento fútil ocorrido no dia anterior, ou ainda em algum pensamento produtivo, mas evito de expô-lo, nunca entendem o meu raciocínio.

- E como entender a universalidade no pensamento habermasiano?...

Hum, isso é importa...Caramba! Preciso comprar leite hoje, e pão de forma...

- ...Não monológica, mas sim dialógica!

Droga! Perdi a porra da explicação da universalidade! Será que botei água na Gondwana? Ela tava murchando já...

- ...E foi assim que meu pai fez comigo para aprender a nadar! Haha, me jogou lá na piscina, vai menino, bate um braço, isso, agora o outro, HAHAHAHA, e eu lá, afogando (o engraçado desse prof. é que quando ele percebe que foi engraçado ele se empolga e começa a ficar vermelho e a falar mais alto, até que se toca da situação e volta à postura profissional de costume). Cof. Ahn, bem, hehe, mas foi necessário, não? É como os (aquele ele diz o nome de alguma tribo ou algo que o valha) que não ensinam os filhos a nadar, pois podem perder o temor pelo mar, e se perdem acabam achando que podem fazer tudo... bla bla bla

Eu, como de costume, não dei muita corda ao que ele continuou falando (temo que essa displicência vá me afetar algum dia), mas, conforme disse, as palavras dele me conduziram a mais uma viagem pelos caminhos obscuros da minha...hum...mente.

Ah, a água...e então aquela sensação boa voltou ao meu corpo. Não sei se todos têm essa sensação com aquilo que lhes é agradável, mas comigo ocorre assim. Lembrei das aulas de natação.

Duas tardes de cada semana lá ia eu ao clube depois de almoçar e ver o desenho do Garfield e daquele porco (acho que é Orson que ele chama...) na casa do meu pai, tinha uns 9 anos e era um garoto feliz. Acho.

- Lembra de como você era? Impetuoso, popular, bonitinho e corajoso. O que aconteceu com você, mané?!

Espero que não seja sinal de loucura eu conversar comigo mesmo mentalmente.

Mas bem, voltando às tardes: a sensação boa. Algo que eu reconheci depois como uma sensação de plena felicidade sim...e era algo tão simples. Hoje eu chamo de catarse. Era só ir ao vestiário, ficar pelado na frente de vários moleques, colocar uma sunga - tá, isso era realmente chato e constrangedor! - e pegar um daqueles negócios de isopor que usam em aulas de natação para auxiliar os alunos. E lá vamos nós ao que me fazia bem:

- Todos com suas pranchas? Podemos começar? - eu acho que chama prancha aquilo.

Era a professora que falava. Oh, se um menino de 9 anos pode ter um amor platônico, seria ela. Devia ter uns 27 anos, corpo esbelto, malhado, mas nem tanto, cabelo cacheado castanho escuro, e sempre de bikini, voz firme de quem manda e uma atenção pelos alunos que me fazia ficar encantado pela...Márcia, deve ser isso.

Mas nem sempre era a ... Márcia que dava aula. Lembro que numa época ela faltou várias aulas, ao que meus colegas começaram a imaginar se ela estava grávida (como crianças podiam ficar pensando nisso?!). No lugar dela entrava uma mulher mandona e insensível que eu jamais esquecerei pelo simples fato de que, Jesus, os pentelhos dela apareciam para fora da parte de baixo do bikini. Cara, aquilo era escroto! É por isso que ninguém jamais me verá usando sunga de novo por aí, já não tenho 9 anos e, pasmem, minha puberdade veio e já se foi.

Mas quando a adorável e linda Márcia nos dava aula era muito divertido. Ela sempre inventava atividades novas e competições legais, em que eu podia dar asas ao tiranozinho que habitava em mim. Lógico que como todo curso extra-curricular que me atrevi a praticar, eu faltava um monte, mas as vezes que fui me garantiram boas lembranças.

Digamos que, no começo, eu era um tremendo loser na água. Melhor, um pato. Totalmente desengonçado. Bater as pernas e as mãos ao mesmo tempo era uma tarefa árdua, por isso tinha de recorrer à prancha.

Mas nunca vou me esquecer do dia em que a professora fez eu abandonar a prancha e nadar com os braços mesmo. Após algumas tentativas frustradas, lembro com orgulho do momento em que consegui sincronizar o bater de pernas e braços com a respiração controlada e fazer tudo isso em linha reta. Parecia que meu corpo não me obedecia mais, agia por vontade própria, executando algo certo, enfim! A recompensa veio, saborosa:

- Parabéns, Victor! Muito bem! Gostei de ver.

Ela gostou de ver...ela gostou de ver! Dei aquele sorriso de orgulho e vergonha misturados que dou até hoje quando alguém me elogia e voltei a nadar.

Fiz natação durante um ano e meio, e então acabei abandonando. Não lembro o porquê nem nada. Era medroso quando criança, tinha medo de persistir, coisa que corrigi (e tenho lá minhas dúvidas) só muito mais tarde.

E penso hoje, enquanto ouço as palavras sem fim de um professor de ética, que a felicidade me vinha a um preço tão baixo e de modo tão completo. As tardes na água, o sol a bater forte no rosto, uma estranha calmaria, a água a me envolver nostalgicamente e depois ficar em casa, com o corpo formigando, comendo junkie food e assistindo Dragon Ball Z no Band Kids com a gata da Kira. Poxa, a vida era boa demais!

E para variar eu não sabia.

2 comentários:

Victor the Question disse...

Gondwana é a violeta clara. A escura é a Laurásia.

maila. só maila. disse...

pensa no que trás felicidade hj, pra amanha vc nao falar a mesma coisa...

;)


*: