28.6.07

Filho de peixe...

- Habermas procurava resgatar uma racionalidade adormecida no homem...

Assim falava o professor de Ética, numa terça-feira modorrenta, em que me pesava o fato de ter tido duas aulas de lógica mais cedo e de ter ficado sabendo que ficaria de exame.

- ...uma racionalidade comunicativa, que visa desenvolver a linguagem, pois a linguagem não é só o falar, as palavras...

Era impossível, para mim, prestar muita atenção ao que ele dizia. Esse é um problema do cara. Cabeça boa, afinco, inteligência, paixão pela profissão. Mas um falar muito cadenciado. Digo...é um tagarela. E as palavras dele, por mais expressivas e sábias que sejam, sempre me levam a ficar pensando naquela menina bonita que vira no intervalo ou em qualquer acontecimento fútil ocorrido no dia anterior, ou ainda em algum pensamento produtivo, mas evito de expô-lo, nunca entendem o meu raciocínio.

- E como entender a universalidade no pensamento habermasiano?...

Hum, isso é importa...Caramba! Preciso comprar leite hoje, e pão de forma...

- ...Não monológica, mas sim dialógica!

Droga! Perdi a porra da explicação da universalidade! Será que botei água na Gondwana? Ela tava murchando já...

- ...E foi assim que meu pai fez comigo para aprender a nadar! Haha, me jogou lá na piscina, vai menino, bate um braço, isso, agora o outro, HAHAHAHA, e eu lá, afogando (o engraçado desse prof. é que quando ele percebe que foi engraçado ele se empolga e começa a ficar vermelho e a falar mais alto, até que se toca da situação e volta à postura profissional de costume). Cof. Ahn, bem, hehe, mas foi necessário, não? É como os (aquele ele diz o nome de alguma tribo ou algo que o valha) que não ensinam os filhos a nadar, pois podem perder o temor pelo mar, e se perdem acabam achando que podem fazer tudo... bla bla bla

Eu, como de costume, não dei muita corda ao que ele continuou falando (temo que essa displicência vá me afetar algum dia), mas, conforme disse, as palavras dele me conduziram a mais uma viagem pelos caminhos obscuros da minha...hum...mente.

Ah, a água...e então aquela sensação boa voltou ao meu corpo. Não sei se todos têm essa sensação com aquilo que lhes é agradável, mas comigo ocorre assim. Lembrei das aulas de natação.

Duas tardes de cada semana lá ia eu ao clube depois de almoçar e ver o desenho do Garfield e daquele porco (acho que é Orson que ele chama...) na casa do meu pai, tinha uns 9 anos e era um garoto feliz. Acho.

- Lembra de como você era? Impetuoso, popular, bonitinho e corajoso. O que aconteceu com você, mané?!

Espero que não seja sinal de loucura eu conversar comigo mesmo mentalmente.

Mas bem, voltando às tardes: a sensação boa. Algo que eu reconheci depois como uma sensação de plena felicidade sim...e era algo tão simples. Hoje eu chamo de catarse. Era só ir ao vestiário, ficar pelado na frente de vários moleques, colocar uma sunga - tá, isso era realmente chato e constrangedor! - e pegar um daqueles negócios de isopor que usam em aulas de natação para auxiliar os alunos. E lá vamos nós ao que me fazia bem:

- Todos com suas pranchas? Podemos começar? - eu acho que chama prancha aquilo.

Era a professora que falava. Oh, se um menino de 9 anos pode ter um amor platônico, seria ela. Devia ter uns 27 anos, corpo esbelto, malhado, mas nem tanto, cabelo cacheado castanho escuro, e sempre de bikini, voz firme de quem manda e uma atenção pelos alunos que me fazia ficar encantado pela...Márcia, deve ser isso.

Mas nem sempre era a ... Márcia que dava aula. Lembro que numa época ela faltou várias aulas, ao que meus colegas começaram a imaginar se ela estava grávida (como crianças podiam ficar pensando nisso?!). No lugar dela entrava uma mulher mandona e insensível que eu jamais esquecerei pelo simples fato de que, Jesus, os pentelhos dela apareciam para fora da parte de baixo do bikini. Cara, aquilo era escroto! É por isso que ninguém jamais me verá usando sunga de novo por aí, já não tenho 9 anos e, pasmem, minha puberdade veio e já se foi.

Mas quando a adorável e linda Márcia nos dava aula era muito divertido. Ela sempre inventava atividades novas e competições legais, em que eu podia dar asas ao tiranozinho que habitava em mim. Lógico que como todo curso extra-curricular que me atrevi a praticar, eu faltava um monte, mas as vezes que fui me garantiram boas lembranças.

Digamos que, no começo, eu era um tremendo loser na água. Melhor, um pato. Totalmente desengonçado. Bater as pernas e as mãos ao mesmo tempo era uma tarefa árdua, por isso tinha de recorrer à prancha.

Mas nunca vou me esquecer do dia em que a professora fez eu abandonar a prancha e nadar com os braços mesmo. Após algumas tentativas frustradas, lembro com orgulho do momento em que consegui sincronizar o bater de pernas e braços com a respiração controlada e fazer tudo isso em linha reta. Parecia que meu corpo não me obedecia mais, agia por vontade própria, executando algo certo, enfim! A recompensa veio, saborosa:

- Parabéns, Victor! Muito bem! Gostei de ver.

Ela gostou de ver...ela gostou de ver! Dei aquele sorriso de orgulho e vergonha misturados que dou até hoje quando alguém me elogia e voltei a nadar.

Fiz natação durante um ano e meio, e então acabei abandonando. Não lembro o porquê nem nada. Era medroso quando criança, tinha medo de persistir, coisa que corrigi (e tenho lá minhas dúvidas) só muito mais tarde.

E penso hoje, enquanto ouço as palavras sem fim de um professor de ética, que a felicidade me vinha a um preço tão baixo e de modo tão completo. As tardes na água, o sol a bater forte no rosto, uma estranha calmaria, a água a me envolver nostalgicamente e depois ficar em casa, com o corpo formigando, comendo junkie food e assistindo Dragon Ball Z no Band Kids com a gata da Kira. Poxa, a vida era boa demais!

E para variar eu não sabia.

24.6.07

O Dia em que conheci Sybil Vane

Desligo o chuveiro, recebendo as últimas gotas de água fervente a escorrer pelo cabelo molhado. Imerso em pensamentos inúteis, apenas vou seguindo movimentos adestradamente mecânicos: pego a toalha, enxugo-me, visto-me e me arrumo. A vistoria para ver se não esqueci o ingresso, a chave ou qualquer outra coisa é também puramente mecânica. Decido não levar celular nem carteira, vou andar pelo centro e sabe-se lá o que me traz cada esquina escura. Precauções de alguém já muito assaltado.

O ônibus demora como de costume. Os pensamentos que nessa hora de silêncio tenho - em meio à barulheira dos carros que passam ao lado do ponto - não são recordados jamais. São lixo, pois apegados àquele momento em particular, e por demais inúteis.

O ônibus lotado vem, parte, sacode. Deixa-me onde tem que deixar e então sigo andando. A visão me engana, juntamente com a fobia: dois negros conversam numa esquina. olham-me Mas passo por eles sem maiores problemas. Uma olhada para trás para certificar-me, no máximo, vamos, siga em frente.

A Casa de Cultura se revela logo ali à frente, denunciada por uma modesta fila de pessoas encostadas à parede. Teatro. O ingresso de que não me esqueci é para o teatro. Esta noite é noite de teatro.

A peça? Círculo de Giz Caucasiano, brechtiana.

- O fim da fila é aqui?, pergunto, lembrando da música da minhoca.
- Sim!

Encosto também à parede, com cara de poucos amigos. Muitas pessoas reclamam e receiam-me por causa dessa cara. Acham que vou atacá-las ou algo do tipo. Queria que soubessem que isso é o maior dos enganos. Mas talvez isso seja apenas reflexo do fato de eu estar desacompanhado.

Smack. Smack. Smaaaaaaaaaaack. Olho de esguelha para a moça à minha frente, a que perguntara sobre a fila, e seu namorado. Dão selinhos um atrás do outro. Um, dois, três, dez, vinte. Riem. Falam algo. Voltam a dar selinhos barulhentos e pegajosos. "QUEREM POR FAVOR PARAR COM ISSO?", penso. Acabo ficando incomodado, sem saber porquê, e começo a tentar me ajeitar na parede, sem sorte.

Desde quando fiquei assim tão insensível, ora, dê um tempo a eles, Victor.

SMAAAAAAAAAAAAAAAACK. "Mas que chatice! Por que não variam um pouco?". Percorro os dois com os olhos, de cima a baixo. A menina gorda, o cara feio. Começo a sentir um certo asco. Coisas de esteta.

Ah sim, "esteta". Serei mesmo um esteta? Vou saber logo mais.

A fila resolve me dar algum alento e começa a se mexer, indicando que abriram as portas para o público entrar. Finalmente vou me livrar do casal insuportável! Entrego meu ingresso e fico apreensivo. Nunca sei se devo mostrar ou não a carteirinha de estudante. Bem, os funcionários não fazem questão, então sigo sem me preocupar, já que ninguém chamou minha atenção.

Uma primeira olhada no espaço onde foi montado o palco e a arquibancada revela, de cara, uma certa pobreza e falta de aconchego. Certamente ali não era um teatro, mas um espaço arranjado especialmente para a peça em questão. Resolvo ocupar a fileira mais alta, de modo a ter melhor visão, e assim me posiciono. Mais uns três minutos e todos se posicionam. Ao quase apagarem as luzes, uma mulher gorda e peituda atravessa a frente da arquibancada correndo, se esbaforindo e rindo. A cena arranca risos malvados da platéia. Rio da inconveniência.

Um sino toca e a peça começa. Minha atenção...esperem, antes preciso dizer sobre esse meu dom.

Eu tenho uma capacidade estranha para perceber a presença de pessoas bonitas num local qualquer em que eu esteja presente. É quase como um radar. Por mais que a pessoa esteja afastada de mim e atrás, vou com certeza sentir algo estranho e me virar, olhando bem direto a ela.

E o radar agiu aqui, também, na peça. Após o sino tocar, vários atores entraram no "palco". Inicialmente ocultada, Sybil Vane logo foi pescada pelo meu dom.

Cabelos loiros, não, dourados, reluzentes como um trigal, sim, cor de trigo, fazendo uma ponte com a natureza. A pele alva, brancamente limpa, era ressaltada ainda mais com a luz incidindo sobre ela. Vestia uma roupa de criada, ou camponesa, não sei dizer, daquelas do século XVIII. "O-o-ora", penso. Passados alguns segundos em que ela olha, sorridente, de um lado a outro do palco, ela fala, com uma voz meio estranha, introdutória:

- Não se deve misturar vinhos diferentes. Entretanto, a sabedoria antiga e a nova casam-se perfeitamente.

Após isso, sentam-se de costas à platéia e olham para um telão, que começa a passar um curta metragem, falando sobre uma situação de disputas de terra na Geórgia, após a Segunda Guerra Mundial, e traçando um paralelo com o MST, no Brasil.

A peça então começ....

Como assim eu não disse quem é Sybil Vane?

Ah, ora, leiam O Retrato de Dorian Gray e descubram! Brincadeira. Sybil Vane. Sybil era uma atriz. Dorian, aquele que só envelhece no retrato, ao ir ao teatro, apaixona-se por ela, porém...

Onde eu estava? Ah sim, a peça começou. Não vou dizer como era a peça, mas, Sybil Vane (Gruxa, na peça) entra em ação e...

...Pórem Sybil Vane era uma atriz patética e uma menina ingênua.

...E minha atriz dos cabelos de trigo era rouca e péssima atriz!

Mas que pena senti. O que deve ser a dor de uma atriz, que além de tudo tinha que cantar, ficar rouca bem durante a execução de seu trabalho? No entanto, que horror! Cadê a convicção dessa mulher no papel que faz?

Vejam só, a esteticidade tem seus limites, que condizem com a perfeição, pois beleza não é tudo. Há outros atributos encantadores.

A peça tomou rumos enfadonhos, sem objetividade, massantes, que me fizeram quase repensar o post passado em que falo sobre o teatro nacional. Além disso, tinha 3 horas de duração, o que me fez não ter arrependimento nenhum de ir embora durante o intervalo.

Ah, sim. Há a cena em que a atriz dá de mamar a um boneco e tira o seio para fora. Que fique registrado que foi o seio mais bonito que já vi na minha vida (não que eu tenha visto muitos), mas fica a questão: por que algumas peças de teatro apelam ao nudismo? Em algumas peças soa como arte, em outras, uma tentativa desesperada de chamar a atenção do público. Só sei que o gay sentado na minha frente soltou uma risada de desdém durante a cena.

Então fui embora. Decepcionado. Sybil Vane decepcionou também Dorian Gray, mas penso que, como ele, acabei ficando meio insensível.

Enfim, ainda não tenho um amigo devasso chamado Lorde Henry.

É tudo como numa busca sem fim. E ela continua...com seios bonitos ou não.

22.6.07

50 postagens

Parabéns a você, Zaratustra! Atingimos juntos 50 postagens. Que chegue a 100.

O Teatro Revela o Mundo

Durante o mês de junho ocorreu em Londrina o Festival Internacional de Teatro (FILO), que, assim como o Festival Internacional de Rio Preto (FIT), que acontece em julho, recheou o mês todo de opções de entretenimento nos diversos teatros e casas culturais espalhados pela cidade.

Assim como qualquer estudante normal, a restrição orçamentária não me possibilitou ver muitas peças, mas as que eu conferi (4 ou 5 ao todo, a R$5 cada uma), deram-me uma profunda dimensão de "como está" o teatro atualmente.

Por ser um evento internacional, é natural que se distingüa mais naturalmente as peças internacionais das nacionais, dissociação que me deu a noção da dimensão supracitada.

O fator mais importante dessa dissociação é que ela não diferencia só o teatro em si, mas traz carregada em si toda uma divisão de forças geopolíticas do mundo, divergências culturais que afastam, em muito, os pólos norte e sul do globo.

O que dizer das peças internacionais? Eu, por mais leigo que seja no assunto teatro, tenho em mente que o teatro europeu era aquele profundamente engajado em questões sócio-políticas. Mas me enganei. Onde estava o teatro crítico nesse festival? Talvez os organizadores o tenham temido, talvez ele não exista mais. As peças internacionais que presenciei traziam em si uma forte carga visual. Notoriamente possuíam ótimo patrocínio e apoio, pois a aparelhagem de que dispunham era enorme e tecnicamente perfeita. O apelo aos recursos visuais davam um tom todo especial às peças, encantavam, mas...é papel do teatro utilizar-se de meios propriamente ditos do cinema e outros? Papel. Objetivos totalmente subjetivos. Era um paradoxo em tanto encontrado nas peças de além-mar: atuações carregadas de elementos circenses, exagero proposital na surrealidade e uma sensação de que não havia nada a dizer ao público.

Tem o teatro atual a missão de passar alguma mensagem ao público? Não sei. Sei que os gregos o faziam, e acho inteiramente certo. Sempre vi o teatro como a última fronteira entre a alienação e o senso crítico. O limiar da inteligência humana, totalmente intocado pela sanha do capitalismo de fazer valer seus esforços na indústria de entretenimento. Nesse aspecto, as peças internacionais me desapontaram imensamente. Pois de seu dadaísmo massante só pude extrair que o diretor e a equipe a ele obediente deviam usar lsd. E olha que quem diz isso é uma pessoa que adora abstrair.

Contraponto interessante a toda essa subjetividade, foi o papel que as peças nacionais impuseram ao festival: seguindo aquela tendência de Nelson Rodrigues e afins, seus temas que poderiam ser tomados como corriqueiros e simples, ganhavam uma dimensão muito maior, e, aí sim, passavam algo de interessante ao público, como belas crônicas. Temas como morte, política, família, propriedade, história, etc, marcadas pela falta da parafernália que as peças internacionais dispunham, cobravam muito mais dos atores, o que dava realmente sentido ao espetáculo.

Norte rico e sul pobre. Divisão que marcou os mapas por muito tempo. Ainda marca, mas já com a tendência de se reverter, pelo menos por parte dos BRICs daqui algumas décadas. A Europa era o caldeirão fervilhante das idéias políticas e olha o que se tornou agora...um bando de pseudo-nazistas que temem imigrantes do Terceiro Mundo. A Europa perdeu o brilho e a identidade, e seu teatro reflete isso. Fogem em direção a uma realidade paralela, para resguardar a glória de outrora, e não mais tem aquela coragem de expor ao mundo idéias clássicas. Seu teatro é enfadonho e puramente comercial. Surpreende pela beleza das imagens, mas na hora de satisfazer um raciocínio, esbarra na subjetividade que resulta num relativismo de compreensões. Em Rio Preto evitarei de ver qualquer peça internacional bizarra.

No mundo dos bárbaros, a criatividade jorra. A apreensão de um mundo muito mais competitivo, violento, de simbologias pagãs mais marcantes e diferente da mesmice do primeiro mundo faz com que desponte aqui, "embaixo" do mapa, um vigor que faz, pouco a pouco, desmoronar os alicerces que compõem o mundo caduco em que vivemos, influenciado pelo norte.

Então, que se preze a cultura nacional, que por mais simples que possa ser, há de ser ainda valorizada e admirada por aqueles que a denigrem, pois é em sua modéstia e singeleza que se encontra respaldo para encarar a complexidade de formas podres e desafiadoras presentes por aí, prontas a nos confundir.

20.6.07

Manual para um Homem Perdido

A identidade masculina tem sido questionada muito fortemente nas últimas décadas. A mudança dos lugares que ocupam homens e mulheres tem consequências na formação da subjetividade de ambos. O ideal do eu masculino, projetado a partir das expectativas de desempenho social como único provedor da família, condutor, detentor de poder, líder, deu lugar a um questionamento. A mulher ocupa espaços de poder que eram impensados um tempo atrás e o homem participa das tarefas domésticas que antes eram reservadas apenas às mulheres
(BUSTOS, Dalmiro)


Dalmiro M. Bustos é um escritor, médico, psicanalista, etc e etc argentino que escreveu esse livro chamado Manual para um Homem Perdido.

Não, não. Esse não é uma daquelas porcarias de auto-ajuda como vocês devem estar pensando, é um livro que tenta dialogar com o ideal masculino, revelando os mitos que o cercam e o porquê do homem estar perdido, e propondo meios de se encontrar.

Os homens agonizam, perdidos nessa nova era, onde o mundo não aceita mais nenhuma influência do costume como sendo um fator de poder e, portanto, ofertando as ordens aos homens, para que ocupassem um suposto "lugar natural" de destaque.

Muito facilmente se observa os homens invejarem as gerações anteriores. Homens antigamente pareciam saber de tudo, fazer de tudo, dominar tudo. Um exemplo é James Bond. Mas tudo bem. Todos sabem que o mundo de hoje tem como marca principal a interdependência.

Bem, presume-se então que me sinto perdido? Ainda não sei dizer. O livro me foi oferecido pela minha mãe, mais como compensação por ela ter emprestado Mentiras no Divã para o meu tio ler (isso depois de eu já ter lido 3 capítulos) e ter ficado com O Caçador de Pipas só para ela do que como dica propriamente dita. Então me sobrou o Manual.

Será que minha mãe acha que eu sou um homem perdido? Oh. Não é a primeira vez que ela acha algo de mim. Aliás, mães vivem para achar algo dos filhos. Se eles estão bebendo, usando drogas, fazendo sexo, estudando, vadiando, enfim, elas precisam achar algo dos filhos. Deve ser uma tarefa divertida imaginar o que anda aprontando a criatura que você carregou 9 meses no útero, não?

Prosseguindo: minha mãe vive desconfiando de mim, embora eu sempre dê 28375802935 motivos para ela confiar cegamente nas minhas capacidades. Mas ela ainda acha que eu tenho um cordão umbilical preso aqui no umbigo, a me ligar com ela. Pena! Gradualmente eu vou mostrando a ela que sou um bom rapaz ... Not.

Homem perdido. Acabei ficando com isso na cabeça. Uma das perguntas do livro, feita a dezenas de homens, era justamente isso: "o que é ser homem?". Algumas respostas exaltavam a coragem, outras a liderança, outras ainda o trabalho, a mais intrigante era a que definia o homem da seguinte maneira: "vigor ou nada".

Vigor ou nada. Homens são cobrados. A vida de um homem é mostrar ao mundo suas capacidades. E por mais que haja discursos afirmando que ninguém precisa provar nada para ninguém, isso é balela, os homens só são aceitos como homens quando gritam aos quatro cantos do mundo seus feitos bem-sucedidos. Hei você, é só prestar atenção ali em cima, eu disse que vivo tentando mostrar à minha mãe que sou capaz. Vejam o papel da masculinidade!

Trabalho, vida, jogos, diversão, amigos. Cobranças são geradas também aí, mas não preciso nem dizer de onde parte a maior parte das cobranças feitas aos homens, né? Das poderosas mulheres, logicamente (tá, eu tinha que dizer sim). Elas exigem maior espaço na sociedade e querem se livrar do ranço de fragilidade atribuído a elas, mas, paradoxalmente, requerem que os homens tenham a postura ainda de machão. Como? uma vez que não há mais espaço para esse tipo de postura na sociedade por parte dos homens? É o suspiro agonizante do homem. Talvez seja aquela história de que o cromossomo Y vai desaparecer. Triste.

Vamos então observar os outros homens, os que me rodeiam nos lugares que freqüento: sala de aula, faculdade, barzinhos, etc. Hum, posso eu ser a medida para algo? Melhor atentar primeiro às qualidades deles: uns inconseqüentes, tipicamente hedonistas. Outros nerds, comprometidos com uma visão apertada de vida. Alguns que aparentam normalidade. Há ainda os com feminilidade aflorada. Em alguns isso cheira a homossexualismo, noutros, a sensibilidade. Ora, melhor parar! Homens são infinitos. Que espécie de mulher horrorosa ousou dizer que os homens são todos iguais? Igual é ela a outras tantas otárias que acabaram caindo na mão de um cafajeste qualquer...que elas mesmo dizem gostar. Bem, então não reclamem, ok?

E eu? Ainda fiquei sem saber que tipo de homem sou e se estou perdido. Posso ousar responder a essas perguntas? Não sei. Talvez eu tenha que me consultar com um analista, ou não.

Penso ainda que peso teve eu ser criado por três mulheres e qual o impacto de meus pais terem se separado quando eu tinha 6 anos de idade na formação de minha masculinidade. Três mulheres. Esporadicamente alguns homens, namorados ou da minha mãe ou das minhas irmãs. Um deles uma vez me ensinou a empinar pipa. Foi a única vez que isso aconteceu. TRÊS MULHERES, CARAMBA. Isso deve ser impactante. Melhor, formou antes um Chico Buarque do que um João Grandão que brande a peixeira a cada ameaça que recebe. Bom? Ruim? Sei lá. Gosto de ser como sou.

O que é ser Chico Buarque? Ora. Com os homens, nada animador. Com as mulheres, ótimo. Talvez seja por isso que eu faça mais amizade com mulheres. Embora quem eu confie mais são os homens. Nada tira o prazer de um homem de coçar o saco ou bater nas costas de um amigo bem fortemente, jogar bola ou fazer montinho, xingar os companheiros ("e aí viadinho, blz?"; "fala, cuzão!"; "vai tomar no meio do seu cu, cara!") e falar mal da mãe deles ("to com mor saudades da sua mãe!"; "e a sua mãe, tá boa?"). Com mulheres não se faz nada disso! Tem que ser gentil, e uma série de outras obrigações. Amigas lésbicas entretanto são a melhor coisa que inventaram nesse planeta, nada melhor do ouvir da boca de uma mulher: "olha aquela gostosa ali!". Mas, voltando aos meus amigos...ohando eles, a coisa fica meio ... confusa quanto a essa coisa de meninos usarem azul e meninas rosa.

Francis diz:

ow vc sao gays?

| Ryu Hayabusa | diz:

agora diz algo gay

Fabrício diz:

nao sou naaaao bem.... ai minha perceguida

KREATOR diz:

xapa me come amanha?

Fabrício diz:

hauhauhauhauhauahuhauhauhaha

Cash<--->....Hellacopters DETONA!!!! diz:

ow um agente podia tomar banho junto p´ra vercomo eh!!



Bem...

Sorte minha de qualquer jeito. Nada de ser ridículo e achar "coisa de gay" abraçar um amigo ou coisas do gênero. Não ter essas frescuras é essencial para reafirmar o papel do homem no Terceiro Milênio.

Taí, eu não sou o homem do passado e tampouco estou perdido. O passado é passado e agora é hora de construir uma nova identidade a tudo e todos. Nesse mundo de redefinição eu acabo de perceber meu papel:

Eu sou o homem do Terceiro Milênio!

P.S.: peloamordedeus, não levem a sério o chat, se tem algo que os homens do terceiro milênio não são é serem sérios.

17.6.07

Forró

Escrever sobre forró ouvindo um cara porco gritar palavras incompreensíveis em gutural é uma tarefa divertida. De fato, essa tal de ecleticidade me surpreende.

Mas estou aqui para falar do tal forró. Todos sabem o que é "forró". Forró é aquele tipo musical dançante, geralmente associado a nordeste e a universitários.

Bem, nordestino eu não sou, apesar de uma pequena parte do meu sangue ser baiano, mas universitário sim (e eu não canso de me gabar por isso hehe), e é aí que o bicho pega, rapaz.

Forró é algo pior do que o Exército. Sir, yes, Sir!

Nisso eu me refiro à pressão social que esse simples estilo musical faz sobre os jovens.

Cenário: festa, pessoas, entrosamento, álcool. Típica cena da vida de qualquer adolescente. De repente, começa a tocar forró. Rapidamente, uma densa nuvem de obrigatoriedade desce sobre a mente dos meninos: VOCÊ TEM QUE ARRANJAR ALGUÉM PRA DANÇAR, SEU BOSTA!

Sim, vamos lá, Victor, chama aquela gatinha ali pra dançar, você já tem álcool suficiente no sangue para isso. Let´s go, boy.

- Oi, qual seu nome?
- Fulana (isso aconteceu faz tempo, por mais legal que eu seja, não sou capaz de lembrar o nome dela).
- Quer dançar?
- Tudo bem...

Eu não esperei ela responder, a puxei imediatamente, antes que uma negativa viesse. Caution´s everything. Mas...sugoi*! Ela respondeu que sim, nem tudo está perdido. Detalhe: ela é bonita.

Uma coisa interessante no forró é que todas as músicas são iguais. Pode ser que haja alguma diferença, mas sinto que é tudo a mesma merda. E dançar, então? Aquela coisa de "dois pra lá e dois pra cá" me dá vontade de dar uma voadera de dois pé no Carlinhos de Jesus. Que coisa manjada.

Devo ter pisado no pé da coitada algumas vezes. Vai ver é por isso ela não quis ficar comigo. Oh moça, se você não fosse tão estúpida certamente eu te mostraria que meu ponto forte não é a merda de uma dança sem graça, mas ok, estava bêbado o suficiente para me ofender por causa disso, e a deixei ir embora estampando um sorriso na cara. Um sorriso orgulhoso, de fato.

Forró, forró. Você é a pior das obrigações de um adolescente. Sua carga de obrigatoriedade implícita na melodia arrastada e nas letras porcamente românticas é apenas um pretexto para todos se esfregarem descaradamente. Não que isso seja ruim, pelo contrário, mas eu sou muito mais tango e lambada, muito mais sensuais. E tem até filmes próprios.

E que eu jamais volte a acreditar num forró na vida. Que universitário estranho sou eu!

*legal, em japonês

16.6.07

Maquiavel vencido por Tico e Teco

Lá vou eu me embrenhar no desconhecido. Quem lê esse blog sabe que eu não sou de fazer isso: escrever crônicas, mas umazinha não deve fazer mal nenhum, né...?

Acontecimentos do cotidiano também merecem a devida atenção, são eles as peças fundamentais de um todo complexo, partes de algo falado de modo generalizado. Por isso merecem atenção. Explicar o todo pelas partes, ou as partes pelo todo, isso é matéria de algum assunto filosófico que me escapa à memória agora.

Bem, lá estava eu, 7:35am, ouvindo o alarme do relógio desgastado - bota desgastado nisso, o coitado é o produto pirata mais duradouro do mundo - despertar insistentemente e atormentar meu sono tão gostoso. Acho que ninguém nunca me verá acordando prazerosamente a essa hora, por mais que eu dormisse às 9 da noite, essa hora é desumana, ou talvez só seja pelo fato de que eu durmo a 1 da matina. É, acho que é por isso.

Pois bem, o relógio despertou, digo, eu despertei, ou quase, pois nesse dia a mais massacrante preguiça tomou conta de mim. Incrível como o cérebro pode ativar rapidamente neurônios para salvaguardar seu descanso: imediatamente arquitetou um plano para que eu deixasse de ir a aula e não sentisse remorso por isso. Conseguiu, afinal, sou seu escravo.

Não sentir remorso é um pouco de mentira. Quando isso acontece (e esses dias têm se tornado freqüentes demais para meu gosto) meu dia necessita rapidamente de atividades vespertinas para gastar a energia poupada pela manhã. Caso contrário, sou tomado do mais profundo tédio que vai me dizer: "filho da puta, não pode faltar da porra da faculdade, é seu emprego no futuro!". Ok, ok, vamos lá fazer algo à tarde, algo legal, algo de adulto, já que vivo sozinho tenho que fazer algo de adúltero, digo, de adulto. Vamos...ao supermercado. Sim, ao supermercado, fazer compras!

Bem, espero que ninguém estranhe o fato de que eu converse comigo mesmo.

Pois então lá fui eu, primeiro almoçar no RU (ir à universidade só para almoçar é realmente o cúmulo, mas comer miojo uma hora cansa) e depois ao supermercado.

Mas espera...por que a ênfase no supermercado? Não é disso que quero falar. Tinha um supermercado no meio do caminho, no meio do caminho tinha um supermercado, mas depois de um tempo o supermercado era passado, as compras haviam ficado por lá mesmo, eles entregariam em casa (maldição não ter carro) e apenas os frios e congelados me acompanhavam na jornada de volta à casa.

Esperar um ônibus. Taí coisa a que já me acostumei. É tão simples. Você pára perto daquela coisa metálica, onde o banco é mais desconfortável do que ficar de pé, e então simplesmente espera pelo dito cujo, enquanto deixa os pensamentos rolarem. Pode ser a agenda do dia, uma memória qualquer, uma teoria filosófica, ou o caralho a quatro, esperar ônibus e lavar louça são as atividades de ócio filosófico do mundo pós-moderno.

E lá vem o derradeiro. Aqui em Londrina os ônibus são todos amarelos. Que coisa mais esdrúxula. O amarelo é uma cor que enjoa, não tem nada de agradável nesse ônibus, a começar pelo preço...enfim...sento no fundão, acompanhado das sacolas. Do lado direito, um garoto de gorro, cara de mau e fones de ouvido a cortar-lhe o laço com o mundo ao redor (é a forma de autismo mais perfeita socialmente aceita), do lado esquerdo, uma loira aparentemente quase trintona muito bonita e...voluptuosa (esta crônica não pretende ser vulgar hehe), mais à esquerda ainda, três meninas, amigas entre si, que serão as "protagonistas" dessa crônica, ainda que eu prefira vê-las como vilãs de uma tragicomédia.

Sai o ônibus na sua trajetória de volta ao terminal urbano. Mais pensamentos solitários, mais indagações, mais teorias, mais remoimentos (se é que essa palavra existe) e alguns risos. Dois males meus: pensar demais e rir sozinho em locais públicos, é que eu costumo lembrar muito de piadas e situações engraçadas nesses lugares, fazer o quê. Mas bem, cansado de estar inserido na minha concha, decido dar uma saída e prestar atenção ao meu redor, ou então foi o redor que chamou minha atenção, isso pouco importa agora, o importante é que passei a notar a conversa das três amigas que estavam à minha esquerda.

Notoriamente trabalhavam em alguma loja, pois estavam com um tipo de uniforme e aquele jeitão displicente que só as balconistas possuem (TPM ou ódio de classes, o que é a falta de educação dessas pessoas?). Faziam a coisa mais óbiva que se podia esperar delas: fofocavam sobre a vida alheia. Peguei a conversa nesse ponto:

- Sim, eu não quero nem saber, não descanso enquanto não ferrar a pessoa...não páro quieta!, disse uma, que devia estar se referindo a algo que a fazia sentir raiva
- Ai eu também sou assim, disse a outra, sem nada melhor a acrescentar
- Ah, eu também. Sou totalmente maquiavélica, disse a terceira, arriscando.
- "Maquiavélica", que isso?, perguntou a primeira.

Aqui, se meus ouvidos tivessem alarme, iriam sair apitando como se estivessem na Argentina de Ménen ou num jogo de futebol, apurei ainda mais a audição:

- Assim, ser maquiavélico é quando alguém faz algo de ruim pra você e você devolve isso pra pessoa três vezes pior! É ser bem ruim!

Não podia ser!!! Eu queria me tacar da janela naquele mesmo momento, seria um imenso favor se as rodas do ônibus passassem em cima do meu cérebro esmagando meus miolos e me impedindo de ouvir tamanha ofensa ao coitado do italiano! A ciência política jamais será a mesma. Bem, já que ainda tenho algum sentido de preservação da vida - mas não da paciência - continuei a ouvir. A essa hora eu já estava meio descaradamente olhando para elas e outras pessoas também, mas de soslaio.

- Ah, entendi. Não sabia disso não.

A loirinha com cara de biscate que fez a excelente definição do que é ser maquiavélico, prosseguiu, dando agora continuidade ao seu brilhantismo e expondo o problema ao caráter empírico, prático, mas tenho impressão de que ela fez isso sem querer:

- Por exemplo, teve uma vez que eu tava namorando, e surgiu uma guria, nossa, aquela filha-da-puta, ferrou meu namoro - ela estava falando muito alto, todos podiam ouví-la - ela ficou com meu namô! Vadia. Mas eu não deixei barato, não, fui lá, descobri onde ela morava, qual era o orkut dela, vi que ela tinha namorado e tudo...há! Sabe que que eu fiz? Conheci o namorado dela, fiquei com ele, aprendi a dirigir no carro DELE, botei uma foto no meu orkut com ele dentro do carro dele e mostrei pra ela, fiz aquela sonsa de otária e tudo, pra ela ver o que que é bom pra tosse.

Era o bastante para mim. Nessa hora eu já estava quase saindo do meu corpo de tanta ignorância alheia. Peguei-me olhando para o teto do ônibus e implorando para sair dali rápido. Percebi que outras pessoas olhavam para a menina agora com um olhar incrédulo. A gost...a loira ao meu lado também parecia estar na mesma situação que eu e, por vezes, os nossos olhares se cruzavam como se dissessem: "eu não acredito...". Tá, não sei se realmente se cruzaram, mas ela também estava incomodada com a loira biscate maquiavélica.

Feliz era o autista do fone de ouvido ao meu lado, não ouviu nenhuma daquelas babaquices. Bem, talvez estejam pensando que estou exagerando, mas não. Vou explicar.

Não chego a ser misógino, mas algumas características que se encontram mais comumente em mulheres me desagradam profundamente. Vejamos o caso da nossa estudiosa do autor de O Príncipe: uma pessoa sem cultura, mesquinha, de inteligência curta e com falta de compreensão do mundo. Não me interessa que ela seja burra, E ELA É. Muita gente nesse país não tem acesso à educação, infelizmente. Mas o fato de ser mesquinha e ter realizado as coisas que realizou, é próprio de uma mulherzinha da mais fula, aquele tipinho que não vale o que o gato enterra.

Ah, Maquiavel, você foi o que mais alertou o mundo contra o perigo que uma mulher pode representar. De fato, o potencial feminino é conhecido por todos, melhor não atravessar o caminho de uma quando está enfezada. Mas...essa é realmente mesquinha. Olhe o que ela considera vingança. Olha com o que ela ocupava o tempo dela. Olha do que ela se orgulha e brada aos quatro cantos do ônibus!

É tudo tão pequeno nesse mundo, cadê o senso de grandeza das pessoas? Se tudo fosse mais teatral, talvez a vida fosse melhor...

E a viagem de ônibus continuou, por mais alguns intermináveis e torturante minutos, enquanto as três figuras se detinham a falar mal de alguma menina que trabalhava no Carrefour, inclusive com uma espécie de preconceito com os funcionários de lá, o que mexeu com a loira ao meu lado, que parecia já ter trabalhado lá, segundo a ouvi comentando com as três patetas.

Espero que o italiano não tenha se revirado muito no túmulo, ofendido pelas pessoas que não sabem que vinculam seu nome a um estado de espírito calculista, amoral, teleológico. Saberiam as meninas dizer o que é "teleológico"? Conhecimento é tudo. Contatos sociais também. Uns têm um, outros o outro. Será que elas se acham felizes?, pergunto-me. Provavelmente elas trepam bastante e acham que está tudo certo por aí.

Cheguei em casa acabado. Supermercado ou sensação de solidão num mundo ignorante, o que cansou-me mais? Alguém responda o eco desse sobrevivente frustrado!

E, abastecido na despensa, pude voltar à tarefa do pensar-contínuo e eterno. Pelo menos com cerveja para beber aos sábados.

15.6.07

Mudança, de novo?

Há influências e influências.

Por mais que os filósofos falem bem e sabiamente, eles são só um bando de cadáveres com voz eterna. Calem-se papagaios do saber!

Eu disse no último post que estava de saco cheio. Pois bem, se chegou a esse nível, então é melhor mudar.

Sempre admirei quem consegue rir das situações mais adversas. Eu também quero ser assim. Chega de me deprimir por merdas. Vou tentar ser um cara mais relaxado.

Lógico que isso não significa me emburrecer, só vou deixar de ser tão...sério.

Afinal de contas, se elogiam o meu sorriso, é preciso mostrá-lo mais vezes por aí.

Sinto-me cada vez mais imerso no mundo adulto. E isso exige que eu tenha poder de conquista e persuasão.

So, let´s rock! And roll.

Fed up

O doce mais singular guardado para o clímax da noite pode ser o presente mais amargo de uma frustração. Tudo na mesma noite...

Estou do saco cheio.

12.6.07

Um Utilitarismo Selvagem e o Reerguer de uma Estima

Não sejamos hipócritas: o mundo não é feito de anjos.

Há quem ainda esteja preso à noção religiosa do Céu na Terra ... mas eu sou um realista, como já disse, e acredito quase piamente no utilitarismo das coisas.

Quem nunca ouviu a expressão: "Deus e o Diabo habitam todo homem" ? Mesmo nos desenhos infantis, a moral sempre é tratada sob essa óptica do dualismo.

O dualismo me permite crer que muitas coisas apenas me são úteis e nada mais. No remorse.

Não é uma opção, é o ser humano como produto acabado. Alguém diga-me se o mundo todo não é assim!

Estamos todos aqui para perseguirmos nossos sonhos. Acontece que nem todos conhecem a palavra ética.

Acredito fielmente que estou me livrando de um sofrimento grande, somente agora.

Confiei, vivi, amei. E usei. Não esqueço disso jamais.

Depois, para me reerguer, usei mais ainda. Obrigado aos ombros que me sustentaram. Recompensá-los-ei no tempo devido.

Agora sorrio e sinto-me capaz de tudo! Novamente!

Finalmente!

4.6.07

O Balançar do Pêndulo

É usual que se considerem os indivíduos como seres retos e que permanecem idênticos ao longo do tempo, como se fossem pedras, a formar uma enorme massa manipulável, um coeteris paribus humano, previsível.

Mas bem se sabe que a teoria foge à prática e vice-versa, e que o peso do indivíduo, quando consciente, é capaz de subverter a lógica da "pedra".

Para não ser, então, considerado uma peça uniforme do todo, que peso há de ter o meu indivíduo? Em que momento posso eu desregular o equilíbrio do mundo e fazer valer meu grito interno?

Aliás, como posso valorizar meu indivíduo sabendo que oscilo sem parar? - imaginando inclusive um suposto transtorno bipolar, ou seria eu só um hipocondríaco?

Meu pêndulo não me permite avançar.

Diz alguém a mim: "aqueles que são bem-humorados conseguem tudo, são especiais". Mas quem consegue ser bem-humorado sempre hoje em dia?

O pêndulo do meu humor me preocupa. Como posso eu rir, ser eufórico, gozar indevidamente do momento e, instantes depois, estar tomado do mais deprimido tédio?

É uma armadilha que tira a autenticidade do meu indivíduo, do meu ser que poderia batalhar. Um paradoxo. Se, por um lado, é preciso autonomia aos indivíduos, de modo a salvaguardar a liberdade, por outro lado, a imersão do indivíduo no egocentrismo tira seu ímpeto e louvor pelas batalhas e a noção de coletividade.

Imerso em meus problemas infinitos, sinto-me ridículo. Como pessoa batalhadora, que segue adiante, portando um sorriso nos lábios, sinto-me frágil. Como equilibrar o pêndulo?

Aristóteles exaltava a felicidade como bem supremo, a ser pavimentado por uma estrada de virtudes. Triste então é a época em que vivemos, onde o máximo que queremos - e que podemos ter - não é a felicidade, mas sim um equilíbrio, que pode levar, porventura, à felicidade. Porém, eu já tenho a realista noção de que a felicidade é fugaz. Do que adianta a tristeza ou a felicidade? Só queremos o equilíbrio.

E quando o pêndulo ceder, seremos tomados por uma catarse da nostalgia. De um tempo longínquo onde as felicidades eram eternas e não havia frustração. Armadilha dos mecanismos da memória.

O pêndulo continua balançando, ao sabor dos ventos do meu humor, tento controlá-lo, a vida em sociedade pede isso, mas é instável, e oscila indefinidamente.

Muitos milênios de vida humana e nenhuma maneira certa de se viver e de se viver bem. O que será de nós?

E com essas indagações tolas, meu indivíduo continua sem peso nenhum no todo, e a sensação de incapacidade e subversão permanece atroz, voraz. Pobre do meu ser!

O pêndulo ainda balança.