25.5.07

Sou Culpado!

Um dos pontos mais curiosos da filosofia existencialista, defendida por Sartre, é de que as pessoas poderiam exercer seu livre arbítrio até nas doenças. Estando em um barco, por exemplo, enquanto havia pessoas que passavam mal, enjoavam, Sartre dizia que isso não acontecia com ele, simplesmente porque "ele" havia decidido não adoecer.

A verdade é que os existencialistas provocaram um terremoto nas idéias do século 20. Havia boas condições para que isso acontecesse: o mundo tentava entender a Segunda Guerra e seus desdobramentos; a ocupação francesa, a resistência - da qual Sartre fez parte - e ainda incrédulo tomava cada vez mais conhecimento das atrocidades nazistas. Diante disso, uma teoria que desconsiderava Deus - onde Ele havia andado durante o genocídio? - e atribuía a cada ser humano a responsabilidade sobre as coisas era notável.

Sartre produziu uma ficção que tomava suas próprias experiências como argumento. Ao mesmo tempo levava a vida como se fosse ele próprio um personagem de um livro que haveria de escrever diariamente até a morte. Um idealista, mas um prático. Uma das máximas de Sartre diz que "o homem está condenado à liberdade", ou seja, não há uma ordem comum a qual podemos seguir e nos confortar. Cada qual está condenado a ter que optar e decidir por si. E isso vale para o conjunto, é claro, a humanidade. Por mais que as religiões insistam em parâmetros, as razões e conseqüências da nossa existência terão que ser decididas por nós. Sem profetas ou profecias.

Jean-Paul Sartre foi o último dos grandes filósofos. Depois que ele morreu, em 1980, o cargo ficou vago. Talvez essa seja uma das conseqüências da atualidade: muitos nadadores, mas só de superfície. As infinitas criações de formas e possibilidades de expressão atuais não são afeitas a mergulhadores de águas profundas. Os blogs que se proliferam feito baratas no lixo, por exemplo, ainda que anunciem uma possibilidade democrática maior, têm o poder de pulverizar, além de envelhecer, qualquer idéia em poucas horas.

Por outro lado, nunca ficou tão próximo de cada um a possibilidade de existir no sentido filosófico, se levarmos em conta que existir é se exprimir. Só que desse jeito as coisas ficarão inexoravelmente mais descartáveis. Os Sartres, os Nietzsches, os Shakespeares, assim como os Beatles, os Bob Dylans, ou os Fellinis, talvez fiquem inviáveis, uma vez que eles precisarão de tempo para serem compreendidos. E tempo é algo que o mundo da instantaneidade não dispõe.

Sem os grandes artistas, os grandes pensadores, sem uma mídia unificada a ditar as regras de aproximação e conduta, o que sobra é o homem comum, sozinho diante da tela do computador, interligado a outros semelhantes num infinito espaço virtual. Ou seja, condenado como nunca à liberdade.

Este texto faz parte do livro Minhas Certezas Erradas, de José Pedro Goulart editado pela L&PM.


José Pedro Goulart é jornalista, cineasta e diretor de filmes publicitários.

Fonte: Terra Magazine

Sou também culpado por isso? Ora, todos esses grandes pensadores contribuíram para construir o mundo como tal se apresenta aos nossos olhos. Pobre visão limitada a desse jornalista. Haverá um futuro em que o que se configura dentro desses blogs será muito bem exaltado como genialidade, e não me incluo nisso automaticamente, há muita boa matéria a se ler na internet.

Isso é Stand Alone Complex.

Um comentário:

Eilahhh disse...

Eu gosto de Camus...

meio alheatório... Mas na biografia de Camus Sartre é citado e tal...

=***