6.5.07

Saudade, uma conquista lusitana

Uma lista compilada por uma empresa britânica com as opiniões de mil tradutores profissionais coloca a palavra "saudade", em português, como a sétima mais difícil do mundo para se traduzir.

[Folha Online. Saudade "é a 7ª palavra mais difícil de traduzir". 23/06/2004]


2. Saudade.
Outra sugestiva peculiaridade do português é nossa palavra saudade. (...)

Sem a palavra, nossa percepção da realidade é confusa ou nem sequer chega a ocorrer. Valem para toda a realidade humana as considerações sobre a "latência", que Moles tece em seu livro O Kitsch. Valendo-se de uma metáfora fotográfica, ele fala de uma revelação das impressões confusas, pelo surgimento de um vocábulo: "O surgimento nas línguas germânicas de um termo preciso (‘Kitsch’) para designá-lo levou-as a uma primeira tomada de consciência: através da palavra, o conceito torna-se passível de apreensão, e manipulável... O trajeto científico para conhecer, começa por nomear". De fato, sem a posse da palavra Kitsch é-nos muito mais difícil reparar em que há, no fundo, qualquer coisa de comum entre o pingüim da geladeira, o anãozinho do jardim e oquadro de cores fosforescentes... É precisamente neste ponto fundamental para a educação que Pieper insiste em Das Viergespann: a interação entre a possibilidade de percepção (e vivenciamento da realidade moral) e a existência de linguagem viva.

[Jean Lauand. Linguagem, Filosofia e Educação. http://www.hottopos.com/videtur18/jean.htm]


Saudade. Quem imaginaria que um sentimento tão corriqueiro como a saudade envolvesse questões tão complexas de nível filosófico-linguístico?

Pergunto-me se, caso não houvesse a palavra "saudade" e nenhuma outra que denotasse esse estado de espírito, eu sentiria isso. Pois saudade é o que sinto. E a nostalgia tem me corroído mesmo o ânimo, mas não desanimo, pois minha língua ao menos sabe nomear minha "doença"! Ora.

Universal demais para ser provável. A saudade talvez seja algo que dobraria mesmo um homem das cavernas. Um sentimento do mais primordial e imanente.

E do que sinto saudade? Triste é não saber o motivo! Talvez saudade de um sonho. Aquele, que foi fugaz, mas que me martela a cabeça, desesperado para libertar-se novamente, pois o sufoquei e suprimi cruelmente com a minha obsessão por realidade.

Está na hora das coisas mudarem. PRECISAM mudar. Não posso desistir.

E para fechar o post, passo a palavra à Camões, outro grande mérito lusitano:

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

3 comentários:

Victor el Temple disse...

Não esquecendo que Camões é um dos preferidos da Ju.

E o sonho a que me refiro talvez ainda não deva ser pronunciado.

Eilahhh disse...

Saudade de um sonho antigo? Ou simplesmente saudade?

Saudade é algo nobre...

E a língua portuguesa é extraordinária!

=*

Ju disse...

Nossa, eu AMO os três últimos versos dessa estrofe ;-;
Eu nem sabia que você sabia que eu gostava. Sua memória deve ser boa.

E não sei que mania é essa que a gente tem de achar que sonho e realidade anulam um ao outro.