18.3.07

O rapaz era o gauche

Nunca gostei de Carlos Drummond de Andrade. Isso é fato e sempre que pude falei mal do estilo do mineiro. Mas também sempre soube que um dia admiraria o poeta de ferro, só me faltava as vivências do mesmo, os sentimentos que experimentara enquanto escrevia o que hoje consideram obra-prima. A poesia só encontra ecos em vales muito bem estruturados. E o meu vale tem se aprofundado e fortalecido.


A bruxa

A Emil Farhat

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

(Carlos Drummond de Andrade)


Pois bem, vocês podem ver que trocando o nome da cidade para Londrina e o número de habitantes para aproximadamente 800 mil, a história do gauche fica semelhante a de um rapaz.

Drummond sempre cantou a vida dura que vive aqueles que num mundo superlotado ainda se sentem sozinhos. Relatou também a vida urbana, as paisagens, os rostos. Todo o cubismo de um mundo que olhamos mas não enxergamos. E por fim, foi o mestre do existencialismo em nosso país. Pondo em dúvida tudo e todos a fim de saber o que resta de sentido para seguirmos adiante.

Agora que cá estou num lugar desconhecido e vivendo as dores de um adolescente arrancado do ninho e jogado à vida adulta, entendo o meu nobre poeta Drummond. Encontro paralelos e alento ao ler versos de um poeta e encaixá-los em versos da minha vida. É um amadurecimento talvez.

E esse amadurecimento vai transcorrendo como um livro. Sinto meus dias passaram como um folhear de páginas atrás de páginas, sempre trazendo uma surpresa e um sopro de vida diferente do sopro do segundo anterior.

Não me esqueci entretanto do principal: a felicidade vem pouco e quando vem dura nada. A tristeza é enorme e me engole com sua bocarra. Mas resisto, pois anseio pela vida, com todas as suas pedras no meio do caminho, assim como aquele famoso poema...

Um comentário:

Eilahhh disse...

"Todo o cubismo de um mundo que olhamos mas não enxergamos."

E viva a evolução =]

=*

(gostei bastante do post =])