25.3.07

A borboleta é minha insígnia

Não me recordo bem das palavras exatas, mas posso dizer assim de cabeça o que minha professora de Direito Constitucional disse na primeira aula dela. Foi algo como: "daqui a seis meses vocês verão como amadureceram".

Com certeza tal dito não tem nada a ver com a Teoria Geral do Estado e tampouco com a nossa Constituição, mas ainda assim é um tipo de aviso e lição de vida.

Sinto-me assim, percorrendo uma estrada sem volta, que me guia definitivamente a um lugar chamado "vida". Ou talvez eu esteja nessa trilha desde que saí do útero de minha mãe, quem sabe?

Só me resta ficar impressionado com os novos conhecimentos que venho adquirindo, e ficar feliz com os novos laços que tenho conquistado.

Quão maravilhoso é poder viver coisas novas! Certamente que fico feliz quando, em meio a dezenas de pessoas que jogam truco, eu aprendo o jogo e me insiro em tal grupo. Ou quando saio com pessoas que mal conheço e me divirto com elas, mostrando uma espantosa interatividade. Ou ainda quando ensino alguém a cozinhar um simples omelete, da mesma maneira quando cozinho pela primeira vez, quando me viro sozinho pela primeira vez. É um mundo novo e infinito, como tenho dito por aí.

E nessa interação e enlaçamento, vou desvelando o caminho que leva ao profetizado amadurecimento dito pela professora. Há quem negue? Sim. Haverão aqueles que ousarão dizer que não enxergam nada de novo em mim. Mas orgulho-me de estar convicto sobre a minha "metamorfose ambulante". Sempre para mais e melhor. Como bem deve ser a vida em seu caminho dialético.

Aliás, está aí toda a razão da minha vida: ser algo diferente sempre que possível. Mudança. Metamorfose. Transformação. Evolução.

É como dizem: as pessoas mudam. E leva tempo para percebermos isso. Felizmente tenho toda a base e a sustentação para dar asas ao meu processo de aprendizagem e amadurecimento.

Então, para mim mesmo eu digo: até daqui a alguns meses ou anos, velho eu.

18.3.07

O rapaz era o gauche

Nunca gostei de Carlos Drummond de Andrade. Isso é fato e sempre que pude falei mal do estilo do mineiro. Mas também sempre soube que um dia admiraria o poeta de ferro, só me faltava as vivências do mesmo, os sentimentos que experimentara enquanto escrevia o que hoje consideram obra-prima. A poesia só encontra ecos em vales muito bem estruturados. E o meu vale tem se aprofundado e fortalecido.


A bruxa

A Emil Farhat

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

(Carlos Drummond de Andrade)


Pois bem, vocês podem ver que trocando o nome da cidade para Londrina e o número de habitantes para aproximadamente 800 mil, a história do gauche fica semelhante a de um rapaz.

Drummond sempre cantou a vida dura que vive aqueles que num mundo superlotado ainda se sentem sozinhos. Relatou também a vida urbana, as paisagens, os rostos. Todo o cubismo de um mundo que olhamos mas não enxergamos. E por fim, foi o mestre do existencialismo em nosso país. Pondo em dúvida tudo e todos a fim de saber o que resta de sentido para seguirmos adiante.

Agora que cá estou num lugar desconhecido e vivendo as dores de um adolescente arrancado do ninho e jogado à vida adulta, entendo o meu nobre poeta Drummond. Encontro paralelos e alento ao ler versos de um poeta e encaixá-los em versos da minha vida. É um amadurecimento talvez.

E esse amadurecimento vai transcorrendo como um livro. Sinto meus dias passaram como um folhear de páginas atrás de páginas, sempre trazendo uma surpresa e um sopro de vida diferente do sopro do segundo anterior.

Não me esqueci entretanto do principal: a felicidade vem pouco e quando vem dura nada. A tristeza é enorme e me engole com sua bocarra. Mas resisto, pois anseio pela vida, com todas as suas pedras no meio do caminho, assim como aquele famoso poema...

10.3.07

Doença e saúde

Eu sempre cri que o emocional de uma pessoa influísse em sua saúde física (a mental nem se fala), mas nunca havia sentido na pele.

Duas semanas inteiras de tristeza. Duas semanas de enjôo todo dia. Duas semanas de alergia. Duas semanas de diarréia. Duas semanas de todos os males do mundo confraternizados no meu corpo mirrado.

Emagreci. Ainda mais.

Eu não faço a mínima como consigo rir, fazer novas amizades e ter prazer em viver. Mas consigo.

Dicotomia maldita.

Aliás, como me dá prazer o fato de perceber que ainda consigo fazer as pessoas rirem! Estou muito feliz pelas pessoas novas que tenho conhecido. Tristeza e felicidade, ambas jogadas dentro do meu corpo ora doente, ora saudável. E num caos e ordem harmoniosamente perfeitos.

3.3.07

Cuide de suas vísceras, amor

Triste é o cenário. O viajante abandona suas terras e lá deixa seus bens. Aos abutres a carne! Bem sabemos que a carne sempre foi objeto de pecado.

E o pecado eu sei que vai vir do canto mais escuro e nojento da alma daqueles que me rodiavam. E diziam me amar.

Meu nome é Victor Hugo e eu aprendi a viver assim. Passando, revirando e abandonando.

Fato é que eu sempre passo. Deixo lá amor e acolá ódio. De qualquer maneira, o objetivo das pessoas é sempre sobreviver, fazer os outros sofrerem é a arte oculta do inconsciente.

Ou eu minto e acho que todos são bons e na verdade o monstro sou eu?

Discussão inútil. Pois eu passo. E a vida também. A única dor que resta é a de não saber domar o humano. Está aí um belo ser solitário e perfeito...o domador de humanos!

O mais engraçado dos fatos é a comparação entre coração e rosa. Ambos crescem vigorosamente, ostentam a beleza e o encanto, relacionam-se com o amor e depois murcham, morrem. A diferença é que o coração rebelde acaba na mão do abutre, que o estupra em seu banquete pervertido. Mas não me julgo diferente, sou também um abutre. O mais viajante deles.

Sobre as lágrimas

O choro dos humanos

Numa conversa de botequim com amigos surge a questão sobre quais características definem o ser humano em contraste com outras espécies. Rapidamente, muitos respondem: “o polegar oponível” ou o “tamanho do cérebro”. Essas respostas, certamente equivocadas, me levaram a refletir sobre o assunto. Afinal, quais são as características unicamente humanas?

Com certeza o choro é uma delas. Só os humanos choram, nenhum outro animal chora. Pode até parecer simplório ou comum para muita gente, mas o choro é, sem dúvidas, um comportamento muito bizarro na natureza.

Lacrimejar é parte do ato de chorar. Isso, apesar de óbvio, trouxe muita confusão, principalmente para aqueles que se aventuraram a tentar descobrir por que choramos. Outros animais também lacrimejam. No caso do homem, em algum momento da evolução, redes neurais ligadas aos sentimentos se juntaram a glândulas responsáveis pela produção de lágrimas. Por alguma razão, essa estranha conexão não foi eliminada, mas se manteve presente até hoje, o que
sugere que isso tenha uma função para a espécie humana.

Existem três tipos de lágrimas. Lágrimas basais servem para lubrificar os olhos. As lágrimas reflexivas estimulam as glândulas lacrimais em resposta a uma irritação ocular. A terceira lágrima é a sentimental (a do choro). Estas são quimicamente diferentes das basais e reflexivas, pois contêm 25% mais proteínas, quatro vezes mais potássio e trinta vezes mais manganês. Além disso, elas são carregadas de hormônios, como a prolactina e adrenocorticotropina (que, apesar
de terem outras funções no organismo, são produzidas em altas quantidades quanto estamos em estresse).

Dessa análise, surgiu a idéia de que o choro seria uma forma de balancear os níveis hormonais quando em situações adversas ou tensas, buscando um equilíbrio. Isso permite que, passada a situação traumática, voltemos para as nossas atividades mais aliviados.

No entanto, é complexo validar essa hipótese, afinal, induzir o choro em laboratório não é tarefa simples e a quantidade de hormônio liberada não parece ser tão grande assim para justificar um balanço hormonal. Além disso, é difícil imaginar alguma vantagem evolutiva, afinal o choro nos deixa com a visão embaçada e emocionalmente susceptíveis. Curioso é que essa susceptibilidade
emotiva talvez seja importante para entender o significado do choro.

No choro, as lágrimas devem ter uma função importante. O professor de psicologia Randolph Cornelius (Vassar College) coleta imagens de pessoas chorando após um incidente trágico para pesquisa. Nelas, as lágrimas devem ser claramente visíveis. Quando encontra uma imagem apropriada, ele elimina digitalmente as lágrimas da figura, criando uma versão da pessoa chorando, mas sem as lágrimas escorrendo pelo rosto, mantendo inalterada a expressão facial.
Essas imagens foram mostradas a participantes de um estudo científico. A uma parte do grupo foi mostrada as fotos originais e, para outra parte, as fotos editadas sem lágrimas. Nenhum participante viu a mesma imagem com e sem lágrimas e nem sabiam dessa edição digital.

Ambos os grupos tiveram que descrever o estado emocional das pessoas nas imagens. Aqueles que viram as imagens com lágrimas descreveram que elas estariam, sem dúvida alguma, tristes. Mas o grupo que viu as imagens sem lágrimas ficou nitidamente confuso sobre o que as pessoas da foto estariam sentindo. Os palpites foram muitos, como cansaço e irritação. Pode-se concluir que as lágrimas não deixam dúvidas -- elas enfatizam o estado emotivo de pessoas tristes.

Choramos desde que nascemos, apesar de que as lágrimas só surgem após os 6 meses. Os bebês expressam diferentes tipos de choros (fome, dor, separação, etc) que são prontamente reconhecidos pelos pais. Esse vocabulário rudimentar surge antes das primeiras palavras e sugere que o choro estaria envolvido com alguma forma primitiva de comunicação. No entanto, crianças e adultos utilizam outras formas mais sofisticadas de comunicação (linguagem, gestos, olhares, expressão facial) e ainda assim choram. Choram não só por algo triste e dolorido, mas
também de emoção ou mesmo de forma manipuladora.

Não sei se isso acontecia com nossos ancestrais ou se é característico do homem moderno. Será que a evolução cultural estaria modificando a razão evolutiva original do choro? Nessa visão, o choro serviria como um tipo extraordinário de comunicação. Principalmente porque os humanos estão entre os animais mais sociáveis, formando sociedades complexas, favorecendo uma evolução cultural sem precedentes. Afinal, quem não se sente atraído por alguém que chora? Queremos saber o porquê, queremos confortar e ajudar. Esse comportamento pode ter colocado grupos humanos em vantagem pelo simples fato de criar fortes conexões afetivas entre seus integrantes.

Durante os seis milhões de anos passados, nossos ancestrais mudaram muito, principalmente do pescoço pra cima. Nosso cérebro dobrou de tamanho e nossos músculos faciais se tornaram mais refinados, alterando a forma de mostrar e reconhecer afeição. Essas modificações permitiram uma melhor comunicação entre nós. As partes do cérebro associadas com nossas emoções e experiências foram conectadas às glândulas lacrimais. Relações humanas complexas imploram por complexas formas de comunicação. Nesse contexto, a linguagem surge como uma adaptação essencial. As lágrimas, óbvias e literalmente na cara, surgem como outra adaptação humana.

A mistura das nossas experiências e sentimentos no choro e se transformam numa das mais potentes formas de comunicação humana. Seja no amor por alguém, na emoção da música, na dor da perda ou no prazer da conquista, o choro nos leva para um lugar longe do espectro de ação da sintaxe, longe de qualquer vocabulário, de qualquer língua. Choramos nessas situações e as marcamos em nossa memória pra sempre, formando um linha do tempo aonde está claramente definido momentos em que choramos. Lembramos de quem estava perto, de quem nos aninhou. Chora-se pela vida e pela morte. Todos nós já passamos por isso. Sem o choro, não seriamos definitivamente humanos.

Alysson Muotri

Excelente artigo do g1.
E vocês? Têm chorado?

Marisa Monte e o Infinito Particular

Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro, o meu quilate
Vem cara, me retrate
Não é impossível
Eu não sou difícil de ler
Faça sua parte
Eu sou daqui e não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta-bandeira de mim
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular
Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular.
Meu infinito particular...