2.2.07

Um mundo em fusão


Ah, São Paulo! Você é uma verdadeira musa inspiradora para mim. Negativamente, na maioria das vezes. Ou não?

Que outra cidade poderia me dar tanta matéria para postagens quanto essa? É a verdadeira selva de pedra, colosso do movimento humano, quadro da realidade mais nua e crua. É a nossa Grande São Paulo das diferenças mortais.

Aqui e agora, apraz-me falar de uma experiência única que tive durante a curta estada em que me encontro na Cidade que não pára de crescer.

Acompa
nhando minha amiga para sua aula de artes marciais - terei de deixar o nome da escola e do estilo incógnitos* - presenciei um belo exemplo daquilo que me intriga deveras: a diferença entre o Ocidente e o Oriente, dois pólos que opõe, além da geografia, toda a história humana. E que culmina hoje em uma guerra silenciosa. Uma guerra que foi parar numa estreita rua de Osasco, vizinha de Sampa.

Não uma guerra no estilo convencional. Jamais levem minhas metáforas a sério. Eu me refiro a dois estilos de vida conflitantes. Temos lá nossos companheiros de olhos puxados ou pele escura tendo uma vida totalmente oposta a do "glorioso" Ocidente. O Ocidente, entretanto, talvez encare os pobres brasileiros com uma certa vergonha, como aquele parente sem modos que tentamos esconder de qualquer maneira. Bem, podemos não ser lá a Europa e os Estados Unidos do Primeiro Mundo, mas eles nos colonizaram e...agora agüentem!!

Onde eu estava? Ah sim, a escola de artes marciais. Um lugar singelo, de arquitetura horrenda como todo o resto de Osasco, uma das cidades-dormitório que alimentam as entranhas de aço de São Paulo. Lá estava, com móveis japoneses e chineses a enfeitar-lhe o hall e pinturas nas paredes que muito me pareceram uma cena de O Último Samurai. Ao transpassar um corredor que se dividia entre um vestiário masculino e outro feminino, dei de cara com um extenso cômodo, logicamente o local de treinamento. Tapetes almofadados azuis constituíam o tatame, tudo muito simples e, nas paredes, símbolos que me chamaram a atenção.

Letras chinesas ou japonesas pintadas perfeitamente segundo a caligrafia daqueles países nas paredes da esquerda e da direita de quem entrava na sala formavam palavras que significavam valores morais, como respeito, honra e confiança. Era com certeza a filosofia do estilo - não, não posso falar qual é o estilo. Mas a filosofia sim, posso. Mas calma. Completavam as paredes laterais retratos de dois senhores orientais em preto e branco que provavelmente eram os mestres do estilo, aqueles que o desenvolveram. Disse-mo minha amiga, pelo menos, que seu sensei havia aprendido o estilo com japoneses de fato.

À parede principal havia sido reservado um enorme desenho que foi o objeto da minha maior atenção: num fundo preto, havia, na esquerda, um tigre com garras afiadas e pelugem ouriçada, numa posição de ataque; na direita, um dragão chinês longo em espiral, na mesma posição de ataque. Os dois posicionavam-se em riste, um contra o outro e, entre eles, havia um cetro. O cetro com uma bola na ponta, asas na bola e fitas a enrolá-lo. O famoso cetro de Hermes.

Uma heresia! Talvez. Com certeza uma hibridização. A cultura Oriental fundindo-se na Ocidental. E vice-versa. Mas por quê? Não se digladiavam? Talvez novamente! Talvez o mundo ande à sua uniformização. Ou a uma nova bipolaridade forçada. Mas isso são lá papos para os geopolíticos.

Aqui trato da simples diferença entre esses pólos. Aqui tivemos a exacerbação do Racionalismo. Evoluída para o Iluminismo. Depois cuspida em Capitalismo. Tudo fruto e semente. Tivemos também o Catolicismo, uma distorção das coisas vindas de lá. O Ocidente, porém, resume-se a uma característica principal: o desejo.

Vivemos do lado do desejo. O Ocidente nada mais é do que uma História cheia de fatos que marcam o lado animal do ser humano. O lado da luxúria, o lado da vontade desenfreada de homens e mulheres ambiciosos.

O lado de lá não. O lado de lá mortificou o desejo. Eles são ovelhas muito mais adestradas que nós! São o pólo do lado não-animal do ser humano.

Na aula da minha amiga, os combates são reservados para o final da lição. Depois dos alongamentos e treinamento de golpes; e antes das reflexões e meditações. Os alunos lutavam entre si. Havia lá também um hibridismo. O respeito dos lutadores entre si prevalecia - Oriente. Mas havia também a voluptuosidade, - Ocidente - digo, homens e mulheres se levando ao chão, usando seus braços, pernas e o resto do corpo para imobilizar o oponente. Gestos que bem conhecemos, de outro modo e momento. A sensualidade daqueles movimentos lânguidos em contraste com golpes bruscos e a honorável saudação no final da batalha tornavam a mistura nítida.

Poderia a mortificação da vontade numa arte marcial desturgir um clitóris? Murchar um pênis? Penso que não. Penso que talvez no fundo só haja malícia. Aprendo cada vez mais a viver pensando no pior. Medo? Deveria viver assim ou me entregar ao idealismo daquela arte que presenciei?
Talvez eu devesse repensar quando vejo duas crianças de 5...6 anos? me cumprimentando segundo os costumes daquela arte marcial. É a mortificação do desejo. É algo que me deixou encabulado!

É outro mundo. São as eternas diferenças dos pólos, das pessoas, das culturas, do nosso próprio corpo, tudo isso tacado lá, na estreita rua de Osasco, na imensa São Paulo, no coração do Ocidente amoral. Acho que no fundo, só poderia viver mesmo é com o meu hibridismo.

Assim falava o Tigre e o Dragão

*respeitando os princípios do estil
o.


Um comentário:

Eilahhh disse...

o q seria do mundo se fosse puro?

Nos tempos de hoje uma cultura não viveria sem a outra... Acho que nunca chegaram realmente a viver, uma vez que há pontos que simplesmente são os mesmos...

o///