27.2.07

First Impressions of Earth

Não haveria outra recepção para mim numa cidade chamada Londrina do que um dia chuvoso...

E lá vim. Mais uma vez o trajeto Rio Preto-Londrina, mais 5 horas trancafiado em um meio de transporte. Cá hospedo-me num hotel. A mãe deprimida exala tristeza principalmente por seus olhos. E entristece também o filho.

Apenas três dias e me parece três séculos.

A recepção muda do domingo chuvoso para o alvoroço e o calor de uma segunda ensolarada e com um novo mundo a desvelar-se perante mim. O local está lá, lotado, cheio de gente igual a mim. E cheio de gente que superou a tristeza que sinto agora.

A recepção inclui tinta, farinha, esmalte na unha, um pé descalço, caminhada na terra ainda úmida e lamacenta da chuva de outrora. Um ritual estúpido e humilhante, porém não encontro dificuldade em estampar um sorriso em meus lábios para fingir simpatia.

A "festa" ainda inclui uma sala de aula fechada, onde num canto estão as veteranas e do outro os calouros. A decisão do "Mister Tanquinho" obriga eu e meus colegas a dançar músicas de gosto duvidoso. Após isso, há um leilão. Centavos pelos fisicamente desajustados. Cinco reais pelo mais estereotipado. Um real por mim.

A cervejada em pleno horário de almoço duma segunda-feira visa à confraternização entre calouros e veteranos. Visa também ao embebedamento daqueles. Uma palavra aqui, um laço ali, e vou fazendo paulatinamente e, vindo de mim, timidamente, minhas amizades.

Vou embora da festa. A mãe consternada ainda espera no hotel. De vida vivida e lutada na marra, a mulher já havia ajeitado todos os detalhes para a vida futura de sua cria. E assim me mudo definitivamente para o ap 804, edifício não-sei-o-quê Belvedere na Av. Voluntários da Pátria, n 840, onde residem mais dois rapazes. Ao ir embora ela mais uma vez chora. Eu também quero chorar na hora, mas não choro. Digo a ela que sou o que sou justamente por ela existir, e outras coisas que a confortem. De qualquer maneira, ela se vai...

O meu quarto constitui-se de uma cama e um grande armário. O espaço vazio e simples talvez seja uma das coisas que mais me fazem refletir. Negativamente.

Meus companheiros de república são quietos e reservados. Sinto-me sozinho. Há um passarinho também, acho que é uma calopsita, de nome Bibi. Tem bochechas tal qual um Pierrot e assobia o dia inteiro.

A terça traz consigo a missão de eu acordar cedo e descobrir os caminhos que devo fazer de ônibus. Talvez pela inexperiência eu tenha chegado atrasado na aula de Lógica. Quatro aulas por dia, iniciando-se o dia às 8:20 e terminando às 11:55.

Vou ao Restaurante Universitário. A fila enorme assusta. Percebo que esqueci os documentos necessários para pagar mais barato. Vou a uma lanchonete como alternativa. Dois salgados e um refrigerante. O segundo salgado tem a massa crua... sinto-me desanimado para reclamar e jogo-o fora, no lixo.

Mais ônibus e assim percebo que silenciosamente, com muito óleo para não ranger e me alarmar, uma engrenagem sinistra instala-se na minha vida. Uma engrenagem que fará rodar uma rotina. Uma rotina que dar-me-á uma vida.

Quanto às aulas, achei-as interessantes. Lógica, Ética e Introdução ao Estudo de Direito - Criminalística. A primeira pareceu-me massante, a segunda trouxe reflexões profundas e alguma dispersão e a terceira frio na barriga. O motivo disto eu expresso outra hora, pois sinto sono. E saudade.

Bem, relatei, mas não disse exatamente minha impressão. Esta é...uma sensação de que estou pisando num chão infinito. Um mundo infinito.

Quem quiser me enviar carta, o endereço está dado. Quem quiser me ligar, estou no 43 33286970.

Acho que é só, até!

20.2.07

Saudades de um ex-caipira


Eu não nasci em Rio Preto. Nasci na cidade-irmã dessa: Mirassol. Mirassol é algo como a Guarulhos de Rio Preto. Mas não, nunca morei lá. Sabe-se lá porquê minha mãe foi para Mirassol e me teve numa Santa Casa e dias depois voltou para casa, em RP.

Não saí do hospital logo depois de nascer, fiquei muito tempo doente por lá, mas fui um bebê saudável: nasci com 3,5kg e 50cm. Bem, um certo dia minha mãe me pegou e saiu do hospital sem maiores explicações, algo como uma fuga. Eu sarei no outro dia, já em casa.

Nunca morei em outro lugar senão Rio Preto. É uma cidade de aproximadamente 450 mil habitantes de economia diversificada, com ênfase no setor terciário. Tem um IDH e um nível de vida ótimo. Rio Preto é o destino de muita gente cansada de São Paulo e também de muitos nordestinos que vêm atrás de oportunidades, uma vez que a cidade é uma das beneficiárias da desindustrialização da metrópole paulistana e do crescimento das plantações de cana-de-açúcar.

Em Rio Preto me mudei 7 vezes. A maioria das vezes quando bebê. Meu pai morou comigo até meus 6 anos, divorciando-se da minha mãe após isso. Não reprovei isso. Acho que nem sabia o que era isso.

Quando criança, amei essa cidade. Era tudo o que eu precisava. Estava de bom tamanho. Mas não é assim para os adolescentes, que têm o espírito expansivo. Os adolescentes odeiam Rio Preto.

Eu quis me expandir, e até queria contar toda a minha história aqui da vida que tive nessa cidade do interior paulista. Mas não sou bom com auto-biografias.

Mas só agora percebo que construí toda a minha vida nessa cidade. E que isso foi, entre subidas e descidas, bom. Eu sou o que sou porque habitei entre os prédios, as casas, as árvores e o asfalto dessa cidade. Ela foi o cenário do meu medíocre filme chamado vida.

Eu vou sentir saudades, Rio Preto.


15.2.07

The Changing of the Times

Sempre gostei de marcar épocas da minha vida em que uma grande mudança ocorre com algum ato simbólico, algo como uma identificação.

Assim foi quando terminei um namoro e ao mesmo tempo fechei um fotolog ou quando mudei de escola e tirei os brincos. Sempre um efeito para uma causa.

Mais do que para auxiliar minha memória, essa é uma prática que me ajuda a esclarecer minha vida. Assim posso analisá-la mais pormenorizadamente no futuro, e saber quem fui.

Não fizeram muita cerimônia. Não demorou nada. Uma tesourada aqui, outra ali. Uma máquina 2. Os cachos caindo no chão. Cachos pretos...pretíssimos! Não. Antes de tudo havia um rabo...fiz um rabo, prendi-o, e então o cara cortou e mo deu. Um rabo com cachos negros de recordação. Logicamente é minha mãe que o quer.

Enfim, lá estavam no chão os cachos. O cabeleireiro a contar suas histórias medíocres sobre seu ofício, a funcionária a dar muxoxos e a olhar para mim com cara de dó, os clientes a estranhar o fato.

Livrar-me de algo que cresceu em mim durante um ano e quatro meses é o sinal que simbolizará a minha mudança de Rio Preto para Londrina.

Pois, o que seria da vida sem mudanças? Dói. Toda mudança dói, mas é necessária. O que seria da feia lagarta sem a mudança, a metamorfose? Jamais seria a bela borboleta

De quadro em quadro, paulatinamente, vou mudando, vou amadurecendo, vou virando um...adulto. O cabelo já foi, ficou na vida do estudante que tentava entrar em alguma faculdade de Direito e curtia a vida com os amigos. O que virá agora?

Não sei. Mas do bom passado sempre lembrarei e sempre poderei lembrar. Afinal de contas, guardamos as lembranças boas assim como pude guardar aquele rabo com os pretíssimos cachos.

Enjoy the changing.

12.2.07

Subcomandante Marcos


Guillén nasceu no México, filho de imigrantes espanhóis, estudou no instituto jesuíta em Tampico. Depois se mudou para a capital do México, onde se formou em filosofia na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) com o trabalho de tese "Filosofia e educação: práticas discursivas e práticas ideológicas em livros de escola primária". Depois começou a trabalhar como professor na Universidad Autónoma Metropolitana e logo iniciou sua atividade com os zapatistas.

"Marcos es gay en San Francisco, negro en Sudáfrica, asiático en Europa, chicano en San Isidro, anarquista en España, palestino en Israel, indígena en las calles de San Cristóbal, chavo banda en Neza, rockero en CU, judío en Alemania nazi, ombudsman en la Sedena, feminista en los partidos políticos, comunista en la posguerra fría, preso en Cintalapa, pacifista en Bosnia, mapuche en los Andes, maestro de la CNTE, artista sin galería ni portafolios, ama de casa un sábado por la noche en cualquier colonia de cualquier ciudad de cualquier México, guerrillero en el México de fin del siglo XX, huelguista en la bolsa de New York, reportero de nota de relleno en interiores, machista en el movimiento feminista, mujer sola en el metro a las 10 p.m., jubilado en plantón en el Zócalo, campesino sin tierra, editor marginal, obrero desempleado, médico sin plaza, estudiante inconforme, disidente en el neoliberalismo, escritor sin libros ni lectores, y, es seguro, zapatista en el Sureste mexicano. En fin, Marcos es un ser humano cualquiera en este mundo. Marcos es todas las minorías intoleradas, oprimidas, resistiendo, explotando, diciendo "¡ya basta!" Todas las minorías a la hora de hablar y mayorías a la hora de callar y aguantar. Todos los intolerados buscando una palabra, su palabra, lo que devuelva la mayoría a los eternos fragmentados, nosotros. Todo lo que incomoda al poder y a las buenas conciencias, eso es Marcos."
--Comunicado del 28 de mayo de 1994

fonte: wikipédia em português
e wikipedia em espanhol

10.2.07

Ambição, a virtude da Vida

Todos nós procuramos desenvolver alguma ambição na vida. Seja ela qual for, a ambição dá sentido e direção a uma vida, originando uma meta e, conseqüentemente, um motivo para a pessoa viver.

Nada mais harmonioso ao espírito humano do que essa máxima, visto que nossa essência básica é a luta. Através da luta, ocupamos nosso espaço na Natureza. E esse é o pensamento mínimo mais lógico que há em nossa mente. Algo como o instinto de sobrevivência que, sob a óptica da psicologia moderna, manifesta-se de diferentes formas no nosso cotidiano.

Esse post - diriam os leitores mais atentos desse blog, ainda que não passe de mim mesmo - contradiz completamente o que escrevi há alguns dias sobre sonhos (O sonho daqueles que não podem sonhar) .Mas digo agora que, depois da completa frustração, iluminei-me.

Um humano honrado deve ter uma meta. E cumprí-la é parte de uma missão que vai dar todo o valor à sua vida quando lembrarem do mesmo.

Eu decidi. E fiz isso baseado em tudo que me rodeia agora e de tudo que imagino para meu futuro. Voltando mais atrás nos meus posts, observa-se que não quero ser mais a Kicked Stone, tampouco a Swayed Stone. Logo mais, quando tiver forças o suficiente, serei a Explosive.

Triste é a vida daqueles que se sentem sem sentido. Não têm coragem entretanto para dar cabo de suas vidas, e isso é a prova da covardia. O melhor a fazer é trilhar um caminho, ou construí-lo.

Eu, um garoto seduzido pelo Direito e pelos mecanismos da Justiça, penso em trilhar aí mesmo meu caminho. Independente de como eu chegar lá, farei isso com certeza, e obterei respeito.

Quando estiver lá, vou fazer de tudo para aprimorar esse Poder no Brasil. Pois vemos que é falho, principalmente quando os noticiários nos mostram a morte de uma criança arrastada por bandidos enquanto estava presa ao cinto do carro e que tais crápulas não serão devidamente punidos.

É meu sonho transformar a Justiça num orgulho para os cidadãos. E dar a ela ares de Esquerda, uma vez que está inteiramente enlameada pelo sustento à Ditadura no Brasil. O social para mim sempre será o enfoque. E isso não é arrebalde de adolescente. É sonho de mente justiceira.

Uma inspiração? Subcomandante Marcos. Falo dele em uma futura postagem.

Pois bem. Está aqui, grafado virtualmente, minha resignação em servir o futuro com todo o altruísmo que puder. E quem me conhece sabe que farei isso.

Trust me.

9.2.07

O primeiro passo e dois caminhos a seguir

O primeiro passo para se erguer é reconhecer que se está no fundo do poço.

Pois bem. Estou deprimido. Estou mal. Tenho chorado. Não estou feliz!

Agora o próximo passo é utilizar meus raciocínios e chegar onde eu quero.


Eu tenho dois caminhos: lutar e alcançar o que eu quero ou abraçar o que conquistei.

Dois caminhos! Quem sabe o que me aguarda.

Ju estava certa. Não era o momento. Mas eu vou iluminar melhor minha mente agora.

Que venha o futuro.

Uma pausa para um entendimento

Kiwi não morreu!

Vive. E em mim.

Agora posso entender a motivação da pequena ave ao pular do penhasco e "voar".

Esse ano eu pregarei minhas árvores. Um caminho até São Paulo. E então voarei.

Porque entendi qual é meu sonho.

6.2.07

A Laranja é o Vestibulando


A laranja é uma simples fruta.

Como todo ser vivo, a laranjeira nasce, cresce, reproduz-se e morre.

A laranja é o fruto da laranjeira.

Na sua vida, a laranja tem uma missão: proteger uma (s) semente (s).

Como atribulações, ela pode ser colhida antes da hora, derrubada, arrancada do pé, ser queimada, enfim...uma existência tão arriscada como a de todos os seres vivos, sempre sujeitos às forças da Natureza.

A laranja não faz vestibular, mas cresce
do mesmo jeito, vigorosamente. Ela pode crescer, mas a qualquer hora também pode ser devorada. Pois é saborosa.

Assim como a laranja, eu cresço independentemente do vestibular. E posso ser devorado.

Mas isso não é motivo de abatimento!

Eu posso crescer, posso ter minhas qualidades. E posso continuar perseguindo meus sonhos. Inclusive o vestibular.

E como a laranja, vou estar sujeito a tudo e, mesmo assim, continuar "saboroso".

Estas são divagações de um fracassado.

Assim falava a laranja.

4.2.07

Pisando em merda

Merda, merde, mierda, shit, scheiße. Há muitas maneiras ao redor do mundo de dar nome àquilo que ejetamos de nosso corpo.

Penso em homenagear essa criação humana depois que estive alguns dias em São Paulo. Digo, tem forma, cheiro e gosto de merda, então é? Merda? Não! É São Paulo.

Invejosa, a cidade do Rio de Janeiro também me veio à memória. Lembro dos dias que passei em Copacabana, o bairro mais enfeitado por cachorros do mundo.

São Paulo e Rio de Janeiro. As duas maiores cidades brasileiras. As cidades mais desiguais do Brasil. As maiores favelas. As duas mais estagnadas. As cidades com mais merda por metro quadrado do mundo.

Pinheiros, Tietê, etc. Rios outrora belos. Agora esgotos a céu aberto. Muitas merdas boiando. Dá para se imaginar a merda descendo dos morros cariocas também? São duas cidades que crescem sobre um monte de merda.

Na seu pedantismo e arrogância, São Paulo e Rio de Janeiro cresceram tortas, calcadas nos conceitos mais conservadores, elitistas e preconceituosos que existem no mundo. São cidades de merda. Agora pagam o preço com sua pobreza, miséria e violência galopantes.

Odeiam-se, mas são iguais. Os iguais sempre se odeiam. Essa é a sina das duas cidades que um dia irão se encontrar e...não quero nem pensar nisso. O Brasil será exportador de merda.

E andando pelas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro, olhando, cheirando e tocando tanta merda pelas calçadas, ruas, rios, chãos, paredes, prisões, favelas, todos os lugares, - haverá merda na Daslu? - reflito sobre a situação do nosso país, das nossas metrópoles, do nosso futuro.

Estou rodeado de merda. E ninguém sabe onde está a descarga.

Assim falava a merda.

2.2.07

Um mundo em fusão


Ah, São Paulo! Você é uma verdadeira musa inspiradora para mim. Negativamente, na maioria das vezes. Ou não?

Que outra cidade poderia me dar tanta matéria para postagens quanto essa? É a verdadeira selva de pedra, colosso do movimento humano, quadro da realidade mais nua e crua. É a nossa Grande São Paulo das diferenças mortais.

Aqui e agora, apraz-me falar de uma experiência única que tive durante a curta estada em que me encontro na Cidade que não pára de crescer.

Acompa
nhando minha amiga para sua aula de artes marciais - terei de deixar o nome da escola e do estilo incógnitos* - presenciei um belo exemplo daquilo que me intriga deveras: a diferença entre o Ocidente e o Oriente, dois pólos que opõe, além da geografia, toda a história humana. E que culmina hoje em uma guerra silenciosa. Uma guerra que foi parar numa estreita rua de Osasco, vizinha de Sampa.

Não uma guerra no estilo convencional. Jamais levem minhas metáforas a sério. Eu me refiro a dois estilos de vida conflitantes. Temos lá nossos companheiros de olhos puxados ou pele escura tendo uma vida totalmente oposta a do "glorioso" Ocidente. O Ocidente, entretanto, talvez encare os pobres brasileiros com uma certa vergonha, como aquele parente sem modos que tentamos esconder de qualquer maneira. Bem, podemos não ser lá a Europa e os Estados Unidos do Primeiro Mundo, mas eles nos colonizaram e...agora agüentem!!

Onde eu estava? Ah sim, a escola de artes marciais. Um lugar singelo, de arquitetura horrenda como todo o resto de Osasco, uma das cidades-dormitório que alimentam as entranhas de aço de São Paulo. Lá estava, com móveis japoneses e chineses a enfeitar-lhe o hall e pinturas nas paredes que muito me pareceram uma cena de O Último Samurai. Ao transpassar um corredor que se dividia entre um vestiário masculino e outro feminino, dei de cara com um extenso cômodo, logicamente o local de treinamento. Tapetes almofadados azuis constituíam o tatame, tudo muito simples e, nas paredes, símbolos que me chamaram a atenção.

Letras chinesas ou japonesas pintadas perfeitamente segundo a caligrafia daqueles países nas paredes da esquerda e da direita de quem entrava na sala formavam palavras que significavam valores morais, como respeito, honra e confiança. Era com certeza a filosofia do estilo - não, não posso falar qual é o estilo. Mas a filosofia sim, posso. Mas calma. Completavam as paredes laterais retratos de dois senhores orientais em preto e branco que provavelmente eram os mestres do estilo, aqueles que o desenvolveram. Disse-mo minha amiga, pelo menos, que seu sensei havia aprendido o estilo com japoneses de fato.

À parede principal havia sido reservado um enorme desenho que foi o objeto da minha maior atenção: num fundo preto, havia, na esquerda, um tigre com garras afiadas e pelugem ouriçada, numa posição de ataque; na direita, um dragão chinês longo em espiral, na mesma posição de ataque. Os dois posicionavam-se em riste, um contra o outro e, entre eles, havia um cetro. O cetro com uma bola na ponta, asas na bola e fitas a enrolá-lo. O famoso cetro de Hermes.

Uma heresia! Talvez. Com certeza uma hibridização. A cultura Oriental fundindo-se na Ocidental. E vice-versa. Mas por quê? Não se digladiavam? Talvez novamente! Talvez o mundo ande à sua uniformização. Ou a uma nova bipolaridade forçada. Mas isso são lá papos para os geopolíticos.

Aqui trato da simples diferença entre esses pólos. Aqui tivemos a exacerbação do Racionalismo. Evoluída para o Iluminismo. Depois cuspida em Capitalismo. Tudo fruto e semente. Tivemos também o Catolicismo, uma distorção das coisas vindas de lá. O Ocidente, porém, resume-se a uma característica principal: o desejo.

Vivemos do lado do desejo. O Ocidente nada mais é do que uma História cheia de fatos que marcam o lado animal do ser humano. O lado da luxúria, o lado da vontade desenfreada de homens e mulheres ambiciosos.

O lado de lá não. O lado de lá mortificou o desejo. Eles são ovelhas muito mais adestradas que nós! São o pólo do lado não-animal do ser humano.

Na aula da minha amiga, os combates são reservados para o final da lição. Depois dos alongamentos e treinamento de golpes; e antes das reflexões e meditações. Os alunos lutavam entre si. Havia lá também um hibridismo. O respeito dos lutadores entre si prevalecia - Oriente. Mas havia também a voluptuosidade, - Ocidente - digo, homens e mulheres se levando ao chão, usando seus braços, pernas e o resto do corpo para imobilizar o oponente. Gestos que bem conhecemos, de outro modo e momento. A sensualidade daqueles movimentos lânguidos em contraste com golpes bruscos e a honorável saudação no final da batalha tornavam a mistura nítida.

Poderia a mortificação da vontade numa arte marcial desturgir um clitóris? Murchar um pênis? Penso que não. Penso que talvez no fundo só haja malícia. Aprendo cada vez mais a viver pensando no pior. Medo? Deveria viver assim ou me entregar ao idealismo daquela arte que presenciei?
Talvez eu devesse repensar quando vejo duas crianças de 5...6 anos? me cumprimentando segundo os costumes daquela arte marcial. É a mortificação do desejo. É algo que me deixou encabulado!

É outro mundo. São as eternas diferenças dos pólos, das pessoas, das culturas, do nosso próprio corpo, tudo isso tacado lá, na estreita rua de Osasco, na imensa São Paulo, no coração do Ocidente amoral. Acho que no fundo, só poderia viver mesmo é com o meu hibridismo.

Assim falava o Tigre e o Dragão

*respeitando os princípios do estil
o.