28.1.07

Eu sou a Árvore da Montanha

Eu sabia que Zaratustra não me desapontaria. Está lá, em um curto, porém poético e devidamente filosófico capítulo tudo o que eu queria ler de um autor como Nietzche.

Não que eu desejasse ler somente aquilo. Mas foi o bastante para perceber que eu tenho um caminho a percorrer e que um filósofo compreendeu isso e me iluminou.

O capítulo em questão chama-se A Árvore da Montanha e trata do momento em que Zaratustra percebe que um jovem evita seu olhar quando o encontra na cidade denominada 'A Vaca Malhada'. Senta ao lado do jovem ao encontrá-lo em um vale e diz, referindo-se a uma árvore próxima:

Se eu quisesse sacudir esta árvore com minhas mãos não conseguiria, mas o vento, que não vemos, açoita-a e dobra-a como lhe apraz. Da maneira mais rude, mãos invisíveis nos açoitam e nos dobram.


Este jovem, leitores, eu encarei como sendo eu mesmo. Desabafa o mesmo, após se assustar com a presença de Zaratustra:

Eu me transformo depressa demais. Meu hoje contradiz meu ontem. Com frequência salto degraus quando subo, coisa que os degraus não me perdoam.
Quando chego em cima, sempre me encontro só. Ninguém me fala. O frio da solidão me faz tiritar. Que é que quero, então, nas alturas?
Meu desprezo e meu desejo crescem juntos. Quanto mais me elevo mais desprezo aquele que se eleva. Que é que ele quer, pois, nas alturas?
Como me envergonho de subir e de tropeçar! Como me rio de ficar tão ofegante! Como odeio o que voa! Como me sinto cansado lá no alto!


Nietzche não poderia me deixar sem uma resposta. Uma solução para essa corrosão do meu ser, lia cada palavra cuidadosamente, pois me identifiquei sobremaneira com cada letra. Falou pela boca de Zaratustra, ainda se referindo à árvore:

Esta árvore cresceu solitária na montanha. Cresceu muito e bem acima de homens e animais.
E se quisesse falar, ninguém haveria que a pudesse compreender, de tanto que cresceu.
Agora espera e continua esperando. Mas o que espera? Habita perto demais das nuvens. Acaso espera o primeiro raio?


Daí eu tiro minhas conclusões. O jovem entendeu bem que o raio dele era Zaratustra. Toda pessoa que deseja subir muito, na verdade deseja apenas sua queda brusca e inerente.

O jovem almejava a liberdade de seu espírito. Mas a cada passo que dava sua alma em direção à liberdade,
os cães selvagens que habitavam em seu espírito também rejubilavam-se por desfarezem-se de suas amarras.

Por fim, Zaratustra ensina-o que para crescer no caminho certo, para chegar ao estágio de super-homem, o garoto teria de se purificar e, principalmente, exortar em si o herói e a esperança que possuía.

Assim falava o sábio Zaratustra. E assim ouvia o garoto. E assim eu lia.


4 comentários:

ana.liberty disse...

Que é que quero, então, nas alturas?

É, essa é uma pergunta que martela constantemente na minha cabeça... A procura da resposta.

Eilahhh disse...

Ou seja, na minha interpretação, ser simplesmente simples...

Ou talvez não, hoje estou variante...

o///

Ariadne Celinne disse...

/me precisa ler esse livro. não sabe quando, mas ainda vai ler.
hauuhauha
então.. tirando a minha divagação qto a minha falta de leitura.
Eu quero subir um degrau de vez, se a minha ansiedade não atrapalhar...

Madamme Z disse...

Interpreto minha própria existência como o "sermão" da montanha. Ao invés de deixar as crianças subirem, e aprenderem os valores postos pela sociedade, a árvore está sozinha ... ninguém a ouve...não pode ser alcançada. Poucos ousaram a subir. Poucos ousaram a compreender a situação do absurdo em que vivemos e pensar por si próprios. Eu me sinto a árvore na montanha.
E quem disse "Nietz está morto" foram os homens, não Deus.